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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALMADA NEGREIROS NO JORNAL FALADO DO CNC


Tal como aqui temos escrito, realizou-se no passado dia 17, no Centro Nacional de Cultura, o Jornal Falado sobre Almada Negreiros, com intervenções de Guilherme d Oliveira Martins, de Paulo Henriques e de mim próprio. As evocações foram evidentemente formuladas num registo critico-historiográfico da obra de Almada, e tanto há a dizer: mas foram também efetuados num registo pessoal, de conhecimento e de análise critica.

 

E assim se processou, perante uma sala cheia, um conjunto de intervenções, analises e evocações em que cada um exprimiu ideias e sensibilidades sobre a obra de Almada: e o que mais se destaca sempre é obviamente a capacidade criadora de Almada, mas também, e particularmente nesta sessão, a abrangência criativa do próprio Almada que marcou a cultura e a arte portuguesa na pintura, na literatura e no teatro.

 

Também obviamente se destacou o pensamento marcante, extraordinariamente lucido e original, do que poderemos referir e qualificar como filosofia da cultura e da arte. Almada filósofo - e porque não, na elaboração de princípios e raízes de pensamento estético que, repita-se, desenvolveu ao longo de uma constante elaboração teórica direta - textos, livros, conferencias notáveis em si mesmos, e onde encontramos a lucidez e a criatividade das manifestações artísticas diretas - e tantas foram!  

 

Hoje trago aqui alguns extratos dessa filosofia da arte e da cultura, elaborada por Almada Negreiros através dos escritos numerosíssimos que nos legou.

 

Assim por exemplo:

“O conhecimento geral que a humanidade tem das coisas comuns, como por exemplo a própria ideia de humanidade , da sociedade e  do individuo,  a ideia do espaço e do tempo;   a ideia geográfica  da terra; a nomenclatura das coisas, das suas utilidades e propriedade; a ideia da vida e da morte; a ideia de Deus, de Pátria, de Família, de Religião, de Ciência, de Arte, etc, são funções da palavra teatro”…  

 

Este texto, na sua profunda singeleza, identifica-se com referências que melhor caracterizam o pensamento de Almada no plano estético geral, mas mais especificamente no conceito do teatro como forma de comunicação. E vem a propósito outra citação que tenho invocado, esta sim, escrita no contexto de uma reflexão sobre a representação e o espetáculo:

 

“É bem conhecida a facilidade com que os palhaços se fazem entender pelo público, e pena é que eles não saibam mais coisas para no-las dizerem daquela maneira tão agradável. Se eles soubessem tanto como os sábios, nós todos passávamos a ser sábios por termos aprendido com os palhaços. Mas infelizmente os sábios não sabem dizer o que sabem, e os palhaços sabem, mas não sabem nada”.

 

No Jornal Falado do CNC, cada um de nós analisou aspetos diversos da obra e do pensamento criador de Almada. E ressaltou, uma vez mais, as características salientes da sua obra: a diversidade, pois foi pintor, escritor, dramaturgo poeta, conferencista e até, na sua juventude, ator; a modernidade, foi em todas estas áreas da criação artística e intelectual, extremamente inovador e ainda hoje é “vanguardista”, palavra que muito se usava na sua época, hoje menos, mas que, aplicada a Almada é rigorosamente aplicada; a influencia, na medida em que esteve ligado a todos os movimentos de renovação artística e cultural do seu tempo, e foi o único que, com este altíssimo nível, esteve em todos eles e em todas as expressões e criações.

 

DUARTE IVO CRUZ