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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FERNANDO AMADO DRAMATURGO, DESPORTISTA, POLITICO


David Mourão-Ferreira 

 

Na transição dos anos 60/70, Luis Francisco Rebello iniciou a publicação em fascículos de um Dicionário do Teatro Português, por ele dirigido e que infelizmente ficaria pela letra G. Tive o gosto de colaborar nesse projeto, prestigioso pelo diretor e pelo conjunto de colaboradores que reuniu.

 

Já tenho aqui recordado: iniciei cerca de 1958 a colaboração na imprensa, sobre temas de teatro, que, no que me diz respeito, se prolonga até hoje complementada por atividades constantes de ensino e produção bibliográfica. Nesse mesmo ano de 1958 iniciei também o curso de Direito e simultaneamente comecei a frequentar as aulas de Estética Teatral ministradas no Conservatório Nacional por Fernando Amado. Fernando Amado era um velho amigo de família, que eu tratava por “tio” - mas não nas aulas, pois o ambiente da época não era para essas familiaridades, mesmo numa Escola de Arte…

 

Hei-de voltar aqui a essas recordações de Fenando Amado professor. Mas hoje, recupero o texto que David Mourão - Ferreira redigiu, no Dicionário de Teatro Português de Rebello, para o verbete de “Amado, Fernando Alberto da Silva. N. em Lisboa a 15-6-1999 e aí f. em 23.12.1968”… E mais escreve David que «tendo acompanhado, ainda muito novo, o movimento do “Orpheu”, e sob a influência mais direta de Almada Negreiros, F. Amado inicia, aos 17 anos, a sua obra teatral com uma peça futurista - o Homem Metal, - que não chegaria aliás a ser publicada nem representada” - e isso já aqui referimos.

 

Mas é mais interessante reproduzir a análise global de David Mourão - Ferreira sobre o teatro de Fenando Amado:

«Dramaturgia simultaneamente poética e abrupta, simbólica e desconcertante, seduzida pelo mistério que paira sobre certas situações e atenta a determinados esquemas psicológicos. Mais esotérico do que hermético, e por vezes praticamente confidencial, o teatro de Fernando Amado ainda que manifeste uma persistente nostalgia pelos jogos espetaculares que possam vir ao encontro de um grande público, vem contudo quase sempre marcado por um espirito de estúdio e de laboratório, de pesquisa e de experimentalismo» …

 

Não é demais repetir que este mesmo sentido de laboratório, pesquisa e experimentalismo percorre a dramaturgia de Fernando Amado, como temos referido nestas crónicas. Mas é-me grato também evocar a cultura, a erudição, a qualidade pedagógica e a modernidade de abordagem das aulas de Fenando Amado, e a criatividade das suas encenações: foram anos de formação de que muito beneficiei.

 

Mas então também é oportuno lembrar o “tio Fernando” a jogar futebol na Quinta do Palácio Pimenta, no Campo Grande, hoje Museu da Cidade, ou a discretear sobre desporto e atletismo - ele que é autor de uma tabela de atletismo na época reconhecida a aplicada Internacionalmente! Augusto Sobral recorda que a tabela foi apresentada á FIAA e só “ não foi aceite como tabela europeia apenas porque a prática do atletismo nacional nesse tempo não tinha importância significativa a nível internacional, tendo no entanto sido adotada nas competições nacionais da Bélgica e de França”, de acordo com informações obtidas através de José Sousa Esteves.

 

Importa então referir que essa atividade era, em Fernando Amado, coerente com a criação literária e dramatúrgica e com a doutrinação e militância política, numa linha de doutrinação monárquica incompatível com o regime político vigente; em 1968 liderou uma lista de Monárquicos Independentes, nas eleições legislativas.

 

E termino como comecei, lembrando que Luis Francisco Rebello reconhece em Fernando Amado um dramaturgo “de fecunda imaginação” ligado ao movimento experimental sob certa influência de Pirandello.

 

Duarte Ivo Cruz