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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LUZ LIMPA DE CRETA…

 

Caríssimo José:

 

Chamou "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" a uma narrativa  -  a história de uma vida inventada por si  -  que, como todas as vidas que imaginamos para os nossos contos, servem para dizer quanto gostaríamos de sentir, à nossa medida e, também, nas desmedidas de nós, esses seres que nos surgem na frente da memória como heróis ou épicos, esses que percorreram aventuras de tão ciclópicos feitos, "mais do que permitia a força humana"... O Jesus do seu romance, José, é construído à sua imagem e semelhança, mas também está sempre a soltar-se de si, é simultaneamente o homem que se acolhe em Maria Madalena (como o José tanto precisou de um amor de mulher na vida) e o que sabe que outra força  - misteriosa e ignota  -  lhe dá poderes que ele não entende e o interpela e destina a outra oblação de si. Esse Jesus é o José Saramago: "Jesus tinha um súbito pressentimento e o seu coração estremecia,porém os olhos não se viravam para o céu,onde é sabido que Deus habita, o que ele fixava com obsessiva avidez, era a superfície calma do lago, as águas lisas que brilhavam como uma pele polida, o que ele esperava, com desejo e temor, parecia que das profundidades é que devia aparecer, o nosso peixe, diriam os pescadores, a voz que tarda, pensava talvez Jesus. A pesca chegava ao fim, a barca volvia carregada, e Jesus, cabisbaixo, seguia outra vez ao longo da margem, com Maria de Magdala atrás, à procura de quem precisasse dos seus serviços de olheiro grátis. Desta maneira passaram as semanas e os meses, passaram os anos também, mudanças que à vista se percebessem só as de Tiberíades, onde cresciam os edifícios e os triunfos, o mais eram as costumadas e consabidas repetições duma terra que nos invernos parece morrer-nos nos braços e na primavera ressuscitar, observação falsa, engano grosseiro dos sentidos, que a força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido." O homem de letras que foi  -  com a mais sabedoria que "nesse asento etéreo se consente"  - entende bem melhor do que eu que talvez seja "engano grosseiro" também iludir duas metáforas: a do inverno que dorme para dar força à primavera e a do que nos nossos braços morre para ressuscitar em flor... Até já alguem disse o que tantas vezes quem o ouviu repete: "o sono é a antecâmara da morte". Acordar e despertar, tal como ressuscitar ou renascer,” é sempre ressurgir. Uma amiga japonesa, manhosamente, confundindo-me talvez na sua ideia de um romantismo ocidental sempre guloso de um pôr de sol romântico, perguntou-me de que gostaria eu mais, se do poente ou do sol nascente... respondi-lhe lembrado de uma balada do Zeca Afonso: "olha o sol que vai nascendo, anda ver o mar, os meninos vão correndo, ver o sol chegar!" Com o panorama que, aí de cima se lhe oferece, o José verá bem que, em Portugal, ao fim do dia, o sol esconde no mar a promessa da luz. Mas em Tóquio, na costa leste do Japão, surge do Mar Pacífico, das "águas lisas", dessas "profundidades" donde chega " a voz que tarda"... Por isso, esses nipónicos querem ver o sol que nasce em cada madrugada de ano novo, esse a que sempre chamo, à antiga portuguesa, Ano Bom! É bonita a esperança,e assim como a arte e a música,e os abraços e festas dos amigos,só por ser bela nos é necessária. Como naquele poema da Sophia: "As praças fortes foram conquistadas / Por seu poder e foram sitiadas / As cidades do mar pela riqueza / Porém Cacela / Foi desejada só pela beleza". O Jesus-Saramago não quereria Cacela pelo "nosso peixe,diriam os pescadores," mas pela "voz que tarda". Pela beleza, por essa que, quiçá, tanta maquilhagem clerical disfarça e esconde aos olhos de quem quer ver. Todavia, além do Jesus-Saramago, há também outro Jesus ,a personagem que o José criou para o seu romance ou para reinterpretar o Jesus Cristo dos quatro evangelhos e da tradição: fá-lo em tudo semelhante aos homens,como o José os vê, no desejo, na dúvida, na desconfiança, no ressentimento e no medo. Até na imprevisibilidade que pode conduzir à destruição e no egocentrismo que nos cega para os outros. Os milagres desse Jesus não são sinais do amor que salva, nem ilustrações da fé na presença de Deus entre nós. São artifícios de ilusionista, ou gestos que não medem consequências ou não correspondem a justas intenções. Pois o Deus desse Jesus é um velho cínico cuja inseparável sombra é o diabo, e estes dois nem sequer se distinguem tão bem como as duas metades do "Visconde cortado ao meio" do Italo Calvino. Racionalmente, repugna-lhe, a si, admitir a transcendência que sopra o amor, essa a que o seu coração aspira, como o do Antero na mão direita de Deus. Custa-lhe aceitar que, a cada um de nós, compete, com sucessos e revezes, ir limpando o olhar, para chegar à pureza do coração que nos transforma no amor dos outros. ..."O mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe aprendeu, amados irmãos, o mal é como a famosa e nunca vista ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira, de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira. Jesus disse à adúltera, “Vai e doravante não tornes a pecar,mas no íntimo ia cheio de dúvidas." Ocorre-me, ao lê-lo aqui, "The Heart of the Matter" do Graham Greene, que a escritora britânica Lesley Hazleton resume assim: "a dúvida é essencial à fé. Aboli as dúvidas,e ficareis apenas com convicção pura, fonte da arrogância e de todos os fundamentalismos". Quando Schumpeter dizia que o marxismo é uma religião pejada de dogmas, pensava certamente na arrogância com que ali se pretende acabar com interrogações e lembranças que foram alimentando o percurso milenar da humanidade  -  que é o da esperança  na revelação final da misericórdia  -  para impor a certeza da insurreição dos vivos, e da sua necessária vitória, em vez da fé (que é o caminho da nossa procura) na ressurreição dos mortos. Sei bem  -  e isso me tem fartas vezes magoado  -  que a Igreja (falo da minha) pode e se tem entretido mais com a apologética de dogmas, princípios e normas, do que com laborar na oração de Deus misericordioso, aberto ao acolhimento de todos, mistério de refúgio e promessa de encontro. Esquecem-se demasiado os cristãos  -  e, desagradavelmente, uns quantos clérigos vivaços e espertinhos   - de que  só um testemunho nos é pedido, e por esse sinal nos deverão reconhecer, o amor dos outros como sacramento autêntico do amor de Deus. Volto a Sophia e ao final do seu poema "Ressurgimentos": «Ressurgiremos para olhar para a terra de frente / Na luz limpa de Creta / Pois convém tornar claro o coração do homem / E erguer a negra exatidão da cruz / Na luz branca de Creta». E mansamente, neste dourado entardecer de Verão, já agradecido a esta luz que lembrarei noite fora, repito com Álvaro de Campos o verso final do seu "Magnificat": «Sorri, minha alma, será dia!». E sorrio também pensando que o José terá encontrado a resposta à interrogação que começa esse poema: «Quando é que passará esta noite interna, o universo, / E eu, a minha alma, terei o meu dia? / Quando é que despertarei de estar acordado?»


Camilo Martins de Oliveira