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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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AS ÚLTIMAS PALAVRAS

 

Meu Caro José:

 

"Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na sua própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatro bacorinhos que certamente julgariam estar no reino dos céus..." Lendo "As Pequenas Memórias" registei, com outros, tão bonitos também na sua candura simples, este momento. Alguns desses bácoros terá o menino José ajudado a conduzir a feiras ribatejanas para serem vendidos. E sem que qualquer de nós possa, em cada caso, assegurar o destino que lhes terá sido dado,não será difícil acertar num ou noutro ... Talvez por isso o José  -  ou o Jesus-Saramago  -  no seu "evangelho" não tenha querido sacrificar qualquer cordeiro do seu rebanho ou, mais exatamente, do rebanho do seu Pastor-Diabo (apesar da insistência deste) à Páscoa do Templo de Jerusalém. Nem sequer quis oferecer ao sacrifício ritual o anho que um fariseu caridoso lhe oferecera, marcou-o com o corte numa orelha para que tivesse imperfeição impeditiva da oferta a Deus. Mas este, finalmente, o virá reclamar, porque, no seu romance, José, ele reclama, como Baal e os deuses todos antigos, o sacrifício... Mas o Jesus-Deus da minha infância, esse que bebi familiarmente na tradição de uma fé que, até ao fim dos meus dias, sempre haverá de ser a dor e a alegria da procura de um encontro, diz-me que não me propõe sacrifício mas misericórdia. O  "Santo Sacrifício da Missa", como tantas vezes se ouvia dizer, não é sangrento, nada tem a ver com um deus bárbaro que vá dividindo com os demónios o sangue e a vida de seres vivos. É uma eucaristia, a ação de graças por Deus partilhar connosco o seu ser, a vida que, pela ressurreição de Cristo, venceu a morte. Lembra-nos de que vivemos na companhia uns dos outros e que a única expressão possível do amor é a partilha. O sacrifício de Cristo não é uma vareta de fada ou ilusionista que transforme pão e vinho em corpo e sangue. É memória da partilha da vida de Deus com todos. Como o José escreve: "Sabemos o que fez, mas nunca saberemos como pôde tê-lo feito. Ia de pessoa em pessoa, partindo e dando o pão e o peixe, porém, cada uma recebia, em cada pedaço, um peixe e um pão inteiros...   ...É o Messias, diziam alguns, É um mago, diziam outros, mas a nenhum dos que ali estavam passou pela cabeça perguntar, És o filho de Deus. E Jesus dizia a todos, Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes, não multiplicareis." "As Pequenas Memórias" do José menino referem a tentativa de piedosas senhoras o iniciarem "nos segredos da igreja em geral e da eucaristia em particular". E aí recorda: "Fosse como fosse, e apesar de me sentarem com eles no banco da frente, a minha assistência à igreja, uma ou duas vezes, não havia prometido muito. Quando o sacristão tocava a sineta e os fiéis baixavam obedientes a cabeça, não resisti a torcer ligeiramente o pescoço e espreitar com dissímulo para ver o que se estaria ali a passar e não devesse ser visto." Na verdade, não se passou nada, nem nada se escondia. A sineta apenas chamava a a atenção de cada um para a memória de Jesus em todos: o sacrifício de Deus Filho do Homem torna definitivamente inúteis e absurdos a crueldade e o sangue com que ousámos tentar que Deus estivesse do nosso lado (tal como Caim sacrificou seu irmão Abel para superar a oferenda de animais que este fazia), e diz-nos que Ele quer  - e de nós também  -  não o sacrifício, mas a misericórdia. A partir daí, o único sacrifício ( o que faz ou torna sagrado) é a partilha do amor: "Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes não multiplicareis"... Se o José Saramago, quando por cá andava, percebeu isto, porque teria então insistido, na última página do seu "evangelho": ..." Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez." Inútil sacrifício, pois em seu nome se verterá o sangue de mártires, cruzadas, guerras e inquisições, já que Deus pretende um poder totalitário e universal, a cujos despojos o diabo (o tal Pastor) irá colher a sua necessária parte. E a tijela de barro negro, a tal da anunciação do anjo-mendigo (depois diabo-pastor) lá está: Jesus "já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava". Ao ler este final, lembrei-me de ir escutar as "Septem Verba Christi in Cruce" na música de Joseph Haydn. Como diria o meu Camilo Maria, ali surge a harmonia, não como receita, mas tão só como procura... Uma meditação musical muito inspirada pela clareza mental que o iluminismo do século XVIII buscava, mas alimentada pelas palavras de Jesus na cruz, respigadas dos evangelhos canónicos. Cito a primeira, tirada do Evangelho de S. João: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem". E a última, do Evangelho de S. Lucas: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Gosto delas, muito, muito, por saber que, eu, como todos nós, nem sempre sei o que faço; e, como Antero de Quental, e tantos outros, nas mãos de Deus entrego o meu espírito. Esta noite, calhou-me ouvir este Haydn na versão dirigida por Jordi Savall, em 2009. E acabei por ler o texto que o José Saramago intitulou "As Sete Palavras do Homem" e que, com outro, do Pannikar, integra o livrinho que acompanha a edição desta gravação. Repito aqui a sua interrogação final: "E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?" Faço-a, eu mesmo, tantas vezes, que já penso que o maior, o infinitamente misterioso milagre de Jesus Cristo é fazer com que com Ele nos interroguemos. Esta é a décima e, por ora, a última carta que lhe escrevo, José. Nem sempre teremos tido a mesma inspiração, nem seguido os mesmos caminhos de procura. Mas, desde a partida até à chegada, ambos teremos sempre perguntado: Como pensar o homem sem Deus? E que Deus será sem o homem? Devo-lhe um abraço grato pelo muito que me interrogou sobre a minha fé.

 

Camilo Martins de Oliveira