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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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DE PÃO VIVE O HOMEM…

 

Minha Princesa de mim:

 

Passo por Madrid, vindo de Itália, demoro-me pouco. Parei no Museu do Prado, demorei-me a olhar para o tríptico do "Jardim das Delícias" do Hieronymus van Acken, conhecido por Bosch. O painel da esquerda ("O Jardim do Éden") apresenta várias curiosidades: nos dois terços superiores, a cena idílica de aves e animais vários rodeando pacificamente a "fonte da vida", situada bem ao centro do painel, e cujas águas correntes formam um lago onde, entre outros, um licórnio vem beber. Mas, no topo, um serpentear de morcegos numerosos sai de um monte rochoso e calvo. E, ao nosso lado direito, juntinha ao lago da fonte da vida, eleva-se uma palmeira na qual se enrosca uma serpente, como que a dizer-nos que é essa palmeira (que não é árvore, como sabemos) a tal do conhecimento do bem e do mal... Cá em baixo, uma cena mais inquietante, como se fosse anúncio do pecado original: em redor de um charco, já animais e plantas se devoram.. E, por detrás de Adão, que acaba de acordar do sono que Deus lhe inflingiu para dele tirar Eva  -  que agora lhe apresenta  -  um grande cato simboliza a árvore da vida. E sabemos que os catos picam. Ainda no Prado, um quadro de Rubens mostra-nos a tentação original: a serpente que oferece a Eva  -  que Adão parece sensualmente acariciar  -  o fruto proíbido, estende-lho num braço e mão de menino de angélico rosto. Aqui, segue-se a tradição mais divulgada: o fruto proíbido é o da macieira. Tal se deve à tradução do livro do Génesis na "vulgata" latina de S. Jerónimo (século IV), onde se lê, por árvore do conhecimento do bem e do mal, "lignum scientiae boni et mali"... Ora acontece que "mali" tanto pode ser o genitivo de "malum", substantivo neutro que significava mal, como do substantivo feminino "malus" ou macieira. Mais curioso ainda é o "malum" neutro vir a dizer também maçã. E há mais: pêssego é "malum persicum", marmelo "malum cydonium", romã "malum punicum", limão "malum felix". Todos estes frutos,mais o figo  -  porque se, depois do pecado original, Adão e Eva cobriram as púdicas partes com folhas de figueira, seria por estar ali por perto essa árvore que, aliás, surgirá com diversos propósitos nos evangelhos, até naquele episódio em que Jesus seca uma por não lhe ter dado fruto que lhe matasse a sede...  -  todos esses frutos simbolizaram o proíbido. A maçã, todavia, ganhou o campeonato. Mas, lembrado de Ceres e do que dela te escrevi em Florença  -  e também por te achar, por vezes, sem aquela dose de paganismo telúrico necessário a uma saudável compreensão do mundo  -  agarro-me a uma tradição do Talmud judaico:  não à do figo ou da vinha, mas à que diz que as crianças não sabem dizer os nomes dos pais enquanto não comerem pão, pois nos cereais está a fonte de todo o conhecimento, que começa pela capacidade de falar e, pela palavra, nomear os seres. Será, pois, o trigo, que nos dá o pão da vida, o tal fruto que Deus nos proibira, até que chegasse a hora da misericórdia, o tempo da reconciliação. Que inesgotavelmente se vai repetindo, em memória da nova aliança, por Jesus Cristo, na partilha do pão da graça entre Deus e os homens todos. Deméter ou Ceres, a Mãe-Terra, reconhece-se pela coroa de espigas. Mas também pelo facho com que desceu a mundos escuros, em busca de Clore-Perséfone ou Flora-Prosérpina, a Primavera, sua filha. Ceres não chorou, como Orfeu descido aos infernos para tentar recuperar Eurídice, uma amante. Sofreu a paixão de um caminho escasso de luz e sem retorno conhecido, para ir buscar a filha, a fim de que, à superfície da terra dos homens, renascessem as flores e os frutos, a esperança. Eis a narrativa mitológica greco-latina de que mais gosto. E porque, por outras palavras e percursos, nos fala da condição humana e seus anseios e dos trabalhos de Deus, que, menino ainda, me contaram, me sinto tanto agora em comunhão universal.


Camilo Martins de Oliveira