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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EM DIA DE COMUNHÃO DE IGUAIS

 

Meu Caro José Saramago:

 

Veja bem ao que chegámos! Aí, que não é sítio em que se esteja, mas tão simplesmente se é, em alegria e paz... Ou, melhor ainda  --  procuro eu exprimir-me apesar da minha limitação  -  aí, que nem sítio é, mas tão somente a magnífica glória da comunhão de todos nós, passados, presentes e futuros, com a infinitude do universo que, creio, sim, é o coração de Deus, o José está cheio de todos os que amou, publicamente ou no segredo íntimo do seu coração imortal, o tal que já morreu e continua... Desculpe, hesito no modo de dizer, pois não sei como... e como seria eu capaz de dizer o profundamente sentido, o que nem eu de mim entendo e entrego à misericórdia de Deus? O indizível, porque indefinível como o mesmo Deus? Volto ao meu sítio, Portugal em dia de Todos os Santos, 258 anos depois do terramoto que arrasou Lisboa. Não vou comemorar uma dor, basta-nos a lembrança dela. E a esperança renascida, que reconstruiu uma cidade, hoje ainda renovadamente querida! Lisboas com vários nomes, muitos senhores, diversos povos e fés, mais ou menos acertadas urbanizações, muitas houve! E, nelas todas, só uma é. A nossa Lisboa, que está aqui, como a vemos hoje, mutilada, reparada, acrescentada, projetada ainda, esta que o nosso olhar enxerga...é querida e efémera! A Lisboa que é, aquela que ainda descobrimos ou vamos pressentindo como estava noutros disfarces passados, essa é a que é, sem tempo nem modo, a nossa comunhão com o que vemos e não vemos, com o que dizemos e o que não conseguimos dizer. Volto ao meu tempo, a este 1º de novembro de 2013, quando, pela primeira vez,  por acordo entre o Estado Português e a Igreja Católica, não haverá dia de feriado santo para a celebração do que é a essência das comunidades: esse manifesto sinal de pertença e esperança, essa lembrança de que não somos sem os que nos vieram antes e nos virão depois. Há milénios que todas as civilizações de gentes humanas procuram conservar os mortos e celebrá-los com os vivos. Numa Nação tão tecnologicamente "avançada" e economicamente poderosa como o Japão, a celebração de lares e de penates  -   assim diriam os romanos  - determina hoje duas semanas de feriados por ano. Não há futuro sem origem. Não há sociedade solidária sem comunhão. Não há existência sem essência. Não há desenvolvimento sem pessoas. Nem motivação sem alma. Esta, já outro dizia, no século XIX, que não a encontrara na ponta do bisturí. Procurou mal, nunca ali a encontraria. Estes dizem que encontram aumento de produto no corte da comunhão das almas. Curto é o alcance de quem não comunga na gente. Talvez o José me compreenda. Já não está aqui, onde o interesse imediato é o exercício quotidiano da estupidez. Chegue a esse assento etéreo o meu queixume.

 

Lisboa, 1 de novembro de 2013.

       
Camilo Martins de Oliveira