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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Jürgen Habermas

 

O grande pensador que nos diz : envergonha-te de morrer antes de teres alcançado uma vitória para a humanidade.

 

No passado dia 28 do corrente na Fundação Calouste Gulbenkian colocaram-se as questões inerentes aos livros e às leituras, tendo em conta os desafios da era digital. Debater o papel do livro e da leitura na era da internet. Convidado o filósofo e sociólogo alemão, Habermas,  Jürgen Habermas, figura central do pensamento contemporâneo que confessa

"No meu trabalho diário sentir-me-ia perdido sem o meu computador pessoal, mas não sou verdadeiramente um habitante do novo espaço virtual. Não participo nas redes sociais, não leio 'ebooks' e de tempos a tempos escuto os relatos da minha neta sobre o seu admirável mundo novo”.

Gomes Canotilho deu-nos conta que em 2010 Habermas falhou a presença em Portugal por razões de saúde. Desta feita aceitou fazer a viagem até Lisboa por se tratar de uma conferência sobre educação

Escutar Habermas, um privilégio aguardado por mim de há muito. Habermas entre nós também com uma mão cheia de reflexões sobre a Democracia na Europa. Habermas um dos mais influentes filósofos do mundo falando para todos nós a dois passos de fisica distância.

Na semana passada, tinha leccionado uma aula sobre a Europa e, alertando, naturalmente, para os raciocinios de Jügen Habermas, nomeadamente no que respeita ao desenvolvimento de uma política comum entre os povos, nos quais se enraizam os mesmos princípios constitucionais, ainda que sem as mesmas origens étnicas, linguisticas ou culturais. Recordei a importância da Europa, pensamento  a que Habermas se tem dedicado nos últimos anos, atravessando áreas como a ética, a filosofia da religião, a linguagem, a estética,  entre outras temáticas, e recordando que a Fundação C.G. já editara este ano a obra de Habermas “A transformação estrutural da esfera pública”.

Para o filósofo, "no caso da pós-democracia, a percepção é que os governos não só perderam a vontade como também a força para intervir de modo a alterar o estados dos mais desfavorecidos".

Deste modo, poderemos colocar a possibilidade de alargar as fronteiras da legitimação democrática para lá das fronteiras do estado-nação?

Habermas entende que a transnacionalização da democracia, oferece uma saída que não se compadece com a apatia do mundo ocidental, nem com o distanciamento em relação aos políticos, existindo mesmo uma exigência, por parte dos cidadãos e grupos de protesto, de uma democracia directa.

Aqui um silêncio interrogativo do auditório. E acrescentei que mais nos atiçara o pensador:

o preço a pagar pela governação para lá dos estados é a crescente insignificância dos processos de legitimação no interior do estado-nação (…)”

Então a resposta reforça a afirmativa:

 necessário se torna que surjam novos tipos de comunidades transnacionais e a União Europeia é suposta ser a primeira desse tipo de instituições, explicou o autor da “Teoria da Acção Comunicacional”.

No entanto, prosseguiu Habermas que, a crise da zona euro é a prova de como é difícil o caminho até se chegar a um “sistema democrático supranacional ambicioso e com vários níveis”.

Ultrapassar o actual estado de coisas implica, defendeu, uma mudança no espaço público europeu, um espaço que é mais uma soma de espaços públicos nacionais do que um fórum de discussão de questões genuinamente europeias e comuns a todos os estados-membros.

A mundialização, a busca planetária, a Europa de geometria variável ou a la Carte, os laços de pertença interrompidos pelo “poder de agenda”, mostra-nos que, esta crise nos clareou o quanto é necessário mudar de política, e levá-la a enquadramentos partilhados por políticas económicas e sociais que nos libertem dos mercados financeiros , neles responsabilizando investidores e não contribuintes.

Claro está que para se caminhar neste futuro os países têm que se afastar dos egoísmos nacionais e adoptar verdadeiras perspectivas europeias comuns, não conformadas ao mercado, mas sim, à modificação do seu papel em prol de um advir consciente, responsável e inequivocamente seguro da geração que se deseja por uma justiça a recriar, começando esta em cada um.

 Mas os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, daquilo que os europeus devem uns aos outros. Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Quantas vezes a política do dar e do haver prejudicou a identidade dentro da União Europeia? Lancei aos alunos. Quantas vezes? E repito a análise de Habermas

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, um dos maiores pensadores do nosso tempo, encerrou com estas palavras a sua conferência sobre a democracia na Europa, na passada segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Fica por repensarmos todos a razão e o limite das transferências de soberania que não colocam em causa a coragem da revisão dos tratados, e fica por saber o quanto os meus alunos puderam compreender que qualquer dos caminhos tem custos, mas que é preciso sair do conforto dos egoísmos nacionais que nos condenam, e que saibamos olhar-nos como parte de uma comunidade, independentemente de fronteiras, na qual saibamos responder à  questão: quem somos nós?

Se estas controvérsias não forem lançadas nos espaços públicos nacionais, estes serão moldados de acordo com o formato das ‘democracias conformadas”, digo.
Mas, os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, refere e repete de novo

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas

(re)concluiu o filósofo.
Gozar de soberania é também saber tomar decisões políticas comuns e esta característica unifica-nos sem nos causar unidimensionalidade. Digo.

Nasceu em Düsseldorf, em 1929 Habermas, e foi fortemente influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger.

Habermas para quem

O Homem é um “sim” que vibra com harmonias cósmicas

Recorde-se também o encontro entre Habermas e Ratzinger, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático". Habermas e o cardeal debateram razão e fé, capitalismo globalizado, moral nas sociedades pluralistas e mediáticas, interculturalidade, poder e direito comum.

Saibamos sempre que os homens de cultura se situam no contexto da história.

E com este filosofo, casa cheia afinal na Fundação Gulbenkian !

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Outubro 2013