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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FERNANDO AMADO NUMA EVOCAÇÃO DE JORGE LISTOPAD


No inicio deste mês de Novembro, Jorge Listopad lançou um novo livro, intitulado significativamente “Remington”:  é um conjunto de contos que expressam bem  o talento  do autor, a sua notável capacidade de criação num idioma que é o seu há dezenas de anos mas não é, obviamente o da sua Praga natal, e a visão cultural, cosmopolita e internacional - e isto, para alem da consagrada e intacta capacidade de efabulação.

Ora, precisamente, o conto que talvez melhor caracterize o livro, quanto mais não seja por se denominar precisamente também “Remington”, contem referencias a Fernando Amado,  num registo também certamente algo fantasista em aspetos de atividade literária, politica e  doutrinaria, mas profundamente justo e rigoroso no elogio da personalidade  e do talento de Fernando Amado.

O conto descreve conversas do autor com Sartre, nada menos, em Paris na Brasserie Lipp, onde teria sido levado por Aimé Césaire. Sartre abordá-lo-ia mais tarde e dessa conversa resulta a cedência de uma velha maquina de escrever Remington.

Passado algum tempo, o autor muda-se para Portugal e traz a Remington. E descreve:
“Encontrei então Fernando Amado, um homem extraordinário, um homem do teatro, fundador da Casa da Comédia , fundador internacional da pontuação comparativa nas disciplinas atléticas , aceite no mundo inteiro. Homem bom , de olhos azuis desarmantes” a quem Listopad emprestaria e Remington...

E segue a história da Ramington, que Listopad encontrará um dia abandonada, destruída, próximo da Praia das Maçãs…

Ora, efetivamente, já temos recordado que Fernando Amado  foi um dos fundadores (o outro foi João Osório de Castro) da Casa da Comédia justamente citada por Listopad. E, tal como tenho aqui lembrado, a essa sala algo marginal e a essa companhia experimental se ficou a dever muito  da renovação que o teatro português, a nível de elencos e repertório, exigia nos anos 60-70, completando de certo modo a docência de Fernando Amado no Conservatório, nas cadeiras de Arte de Representar e de Estética Teatral. 

Por essa alturas, já Jorge Listopad se tinha naturalizado português: e é notável que, decorridos estes 50 anos, continue a marcar o ambiente literário e cultural, como este livro amplamente demonstra.

 

DUARTE IVO CRUZ