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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O COLÓQUIO INTERNACIONAL ALMADA NEGREIROS

 

Cerca de 50 especialistas participaram na Fundação Calouste Gulbenkian nos passados dias 13, 14 e 15 de Novembro, no Colóquio Internacional Almada Negreiros. Perante centenas de espetadores, houve ocasião de percorrer, em plenário ou em sessões simultâneas, a obra multifacetadíssima, sem exagero, de Almada, nas suas variadas vertentes de criação e de análise crítica. Aliás, mesmo para quem conheça ou pense que conhece em detalhe o conjunto imponente dessa grande obra geral, foi empolgante descobrir aspetos específicos, detalhes e/ou novas perspetivas de Almada Negreiros.

E é de assinalar a dimensão universitária do Colóquio, na medida em que reuniu representantes de quase  todas as Universidades portuguesas e de diversas Universidades estrangeiras. E nesse aspeto se diga ainda que o Colóquio foi intergeracional e representativo de uma dimensão universitária de estudos sobre a vida e a obra. 

Participei com muito gosto nesta iniciativa, ocupando-me, como seria de esperar, do teatro de Almada Negreiros, mas também de algumas das perspetivas digamos “espetaculares” ou para-teatrais da sua obra em prosa ou do seu pensamento e doutrinação. E assim, no que me diz respeito, além de referir e analisar o conjunto da sua criação e doutrinação dramatúrgica, citei passagens de outras obras marcantes pelo sentido cénico e pela descrição, insista-se, “espetacular” …

Referi por exemplo, o pequeno texto que serve de introdução ao Ultimatum Futurista, que Almada publicaria com a designação de “1ª Conferencia Futurista de José de Almada Negreiros - compte-rendu pelo conferencista - Teatro Republica - Sábado, 14 de Abril de 1917, às 5h da tarde”. Escreveu Almada:

“À minha entrada no palco rebentou uma espontânea e tremenda pateada seguida de uma calorosíssima salva de palmas que eu cortei de um gesto.

Reduzida a plateia à sua inexpressão natural tive a glória de apresentar o futurista Santa-Rita Pintor, que o público recebeu com uma ovação unânime. Comecei então o meu ultimatum à juventude portuguesa do seculo XX e a plateia, costumada a conferencias exclusivamente literárias e pedantes, chocou-se nitidamente com a virilidade das minhas afirmações pelo que executava premeditadas e cobardes reprovações isoladas mas sem efeito de conjunto.

Tendo sido concedido à plateia, segundo a orientação futurista, interromper o conferente, todas as contradições foram visivelmente ineficazes, a não ser no que dizia respeita à incompetência dos contraditores.(…)

Consegui, inspirado na revelação de Marinetti, e apoiado no genial otimismo da minha juventude, transpor essa bitola de insipidez em que se gasta Lisboa inteira e atingir, ante a curiosidade da plateia, a expressão da intensidade da vida moderna, sem dúvida, de todas as revelações, q a que é mais distante de Portugal”. 

Votaremos a este Colóquio Internacional, e tanto nas referencias a Almada como também nas referencias a Fernando Amado que, muito justamente, foi citado e analisado na colaboração direta com Almada e designadamente na estreia do “Deseja-se Mulher” na Casa da Comédia, como sabemos ocorrida no âmbito do CNC.

 

Duarte  Ivo Cruz