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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LONDON LETTERS

Doris Lessing, 1919-2013


Oh! That Lessing woman. A expressão fica associada à escritora cuja frontalidade amiúde assombra o politicamente correto do establishment e que este domingo partiu, aos 94 anos, talvez para conhecer as galáxias que com excelência divulga no zénite indefinido da Cold War. O visionarismo de Mrs Doris Lessing deixa legado, além das dezenas de livros e incómodas intervenções civícas. Une femme de une outre monde, vous savez!? A 2007 Nobel Prize for Literature impulsionou uns quantos amantes de sci-fi para cultos religiosos e muitos mais para a caligrafia, após doce peregrinação no Old Testament com os proféticos Sirian experiments. Quando, algo tarde, os prémios e as honras se somam nos degraus da sua casa em North London, reage felinamente e ecoa opiniões antisistémicas sobre os destinos da mulher ou as razões do terrorismo em terra de ovos. — One of The Greats. Daí a apresentarem depois, não sem displicência, como venerável mas controversa autora, pela persistência num traço afetuoso com os galáticos e um tom abrasivo com a mediocridade dos dunces.

Quem lê na sensibilidade poética de Mrs Lessing viaja entre Shikasta e o anel de universos paralelos aberto na fascinante série dos Canopus Archives. The marriages between Zones Three, Four and Five, The making of the representative for Planet 8 ou The sentimental agents in the Volyen Empire são explorações que cedo inspiram o genial piano de Philip Glass e recriam nos admiráveis mundos de inspiring minds como Philip K Dick, Frank Herbert ou ainda Carl Sagan. Em retrospetiva do Cosmos’ book club, só mesmo Madam Marguerite Yourcenar gerará efeito diverso em verdes anos, ao transportar à fronteira do tempo em formativas aventuras da imaginação histórica. A remarquable fine writer, pois, revelada em The golden notebook.

Já a mulher de North London que agora expirou é mais difícil de captar na sua impossible simplicity. O percurso transcultural marca-a indelevelmente. Nascida na Persia de 1919, filha de um militar, recusará o título de Dame of The British Empire dizendo que o dito ente era morto e por isso não fazer sentido tal distinção do Buckingham Palace. Cresce na British colony da Southern Rhodesia (Zimbabwe) e é educada no Dominican Convent High School, abrindo-se-lhe os céus africanos com a proibida convicção de o berço da humanidade pertencer senão aos nativos. Como life defining moment, regista algures um diálogo entre um velho negro e uma branqueada criança palradora que ruma a denso minimalismo filosófico.

Em dia da Monty Python reunion no Spamalot, escrevo após troca de palavras sobre o poder tribunício com um outro profeta, bem real, cuja autenticidade ensina a aprender como aprender. Vem o imperativo dos ouvidos que entendam e até o magno exemplo da clarividência de Sir Winston Churchill nos dias de trevas. Ora, na 1962 magnum opus, The Man in the High Castle, ensaia a argonauta resposta à questão que parece animar certos espíritos na viagem dantesca. No caso, "What if Germany won World War II?” No sonho só fala mesmo quem pode salvar. — Farewell, Mrs Lessing.


St James, 19th November

 

Very sincerely yours,

 

V.

-- To Martha RP: So happy for your coming, dear child.