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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Sonhei que me tinhas escrito uma carta, e que ao abrir o envelope, abria-se uma janela que dava para o mar.

 

Amada Luni:

Quero crer que a tua felicidade é em mim a perfeição a que tento aceder. Sei que sem o teu sorriso, a dourada estrela que me acorda, deixa de me interessar. Sem a tua alegria, sou um homem moído de pensamentos ásperos como a velhice imposta sem que o deus mande. Sou, a um tempo, a dar-te a mão para receber as folhas das flores que crias nos amores, e com elas me deleito pois que estou lá. E a outro tempo sou um desfecho sem muito para te ofertar.

Luni, minha querida, minha muito querida que de ninguém és, sendo.

Queria tanto que me colhesses entre a alquimia do som da poesia; da tinta da poesia; do único passo para mim evidente, que, o melhor de ficar vivo, é morrer junto ao teu peito, com uma saudade de ti tão imensa que me chegue ela, qual doença destroçadora de nós fragmento, e tanto me baste.

Piedade do céu? Por tua luz venci a treva. Que cegueira me trouxeram tantos anos? E não temer o fim não é valentia.

Luni, curso de los años en un dia. No sabe qué es amor quien no te ama.

Luni, rainha do meu aguardar-te, perdoa!, que me deste e dás doados  dias-primavera que não sei retribuir. Mas vem, aceita esta carta minha. Vem, abre o envelope, se noutras ocasiões sentiste a minha voz e me deste ouvidos. Trago-te, do céu, o mar através do ar, e tu, ó bem-aventurada, aceita-o e vai. Saberei que foste por teres vindo até mim, e que cumpriste o que o meu coração desejava ver cumprido, não querendo.

As brisas sopram, suave amante amada. Chamam-te as maresias. Aí, no teu quarto deves tomar em taça de ouro, tudo o que te salva de seres amada por mim ou por quem. Que jamais alguém te cause sofrimento. Tenho armas, crê, tenho armas e para te defender as terei sempre. Tenho também veloz mensageiro. É forte. É o mesmo que me recorda as coisas belas que experimentámos, as entretecidas grinaldas com flores em redor do teu perfume, das tuas ancas, dos teus olhos, num bosque de dança e canto, sobremaneira: amor.

Só não posso olhar-te agora, nem de relance. Saberás que deixaria de falar?, ou que te pediria que te lembrasses de mim amiúde?, ou que te impediria mesmo de seguires o meu conselho nesta carta?, que fecharia o envelope e dentro dele nada, nada, mas nada te diria, para ires mar dentro, ou não soubesse eu que conseguirias lá chegar

creando luz.

Y ahora  sé que la belleza no necesita ser pensada. No toques, Dios, mi corazón impuro: éste es un tren de campesinos viejos,

un día, no sé cómo, llego a mí.

 

Teresa Vieira

Outubro 2013

Sec. XXI