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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins  
de 25 de novembro a 2 de dezembro de 2013
 


"Tempo da Música, Música do Tempo" de Eduardo Lourenço (Gradiva, 2012), com organização e prefácio de Bárbara Aniello, acaba de ser agraciado com o Prémio Jacinto do Prado Coelho de ensaio do Centro Português dos Críticos Literários – que assim reconhece um notável conjunto de reflexões pessoais sobre o fenómeno musical e o seu significado na criação artística.



REFLEXÕES DE GRANDE SENSIBILIDADE
A obra reúne 212 reflexões, escritas entre 1948 e 2006) sobre música e arte, que estavam dispersas em folhas avulsas, em agendas de bolso, páginas soltas ou juntas, algumas encontradas dentro de livros, que Barbara Aniello foi juntando, inventariando e catalogando no espólio do ensaísta. Numa reflexão emblemática sobre o tema, o ensaísta escreveu: «Certamente se um dia voltar para Deus, a nenhuma outra coisa o deverei senão a estas estradas de uma melancolia lancinante que, desde o canto gregoriano até Messiaen, devoram em mim o sentimento da realidade do mundo visível». A leitura desta obra inesperada deixa-nos porventura ainda mais cientes da importância fundamental de Eduardo Lourenço na moderna cultura portuguesa. Agora se entende por que razão compreendeu premonitoriamente tantos domínios nos quais poucos se puderam aventurar. E é na poesia e no seu entendimento que o ensaísta revela especial pujança. O seu ensaísmo é, assim, uma maravilhosa utilização das palavras, no seu genuíno uso poético. E só o elevadíssimo sentido musical pode levar a perceber muitas das suas geniais intuições e premonições. A genialidade de Camões compreende-a por um saber universal que se associa ao domínio dos ritmos, das cadências e das palavras. A força de Antero de Quental vem de uma capacidade única de ligar a sensibilidade às ideias modernas. A diversidade de Fernando Pessoa permite ultrapassar as leituras lineares de quantos não entendiam plenamente a desmultiplicação de atitudes, de estilos e de tempos que obrigava necessariamente a interrogar os mitos através da crítica. Nesse sentido, Eduardo Lourenço está na convergência entre a herança dos românticos (como Garrett e Herculano) e dos realistas (da Geração de 1870) e o apelo dos simbolistas e dos cultores críticos dos mitos do «Orpheu». Ciente da crítica emancipadora dos mitos da geração de Antero, o autor de «O Labirinto da Saudade» pôde chegar à sua desconstrução, ligando-os ao que designa como psicanálise do destino português, que procura ir além da visão agónica do «sentimento trágico da vida» de Unamuno, e do vitalismo orteguiano, completando-os numa espécie de otimismo trágico que sintetiza o romantismo de Garrett, o culto do movimento e da evolução de Antero e a interrogação moderna de Pessoa. «Inicialmente relutante (confessa Barbara Aniello), E.L. não queria tornar público um material tão ocasional e fragmentado, declarando-se um simples amador. Todavia, deixou-se convencer de que não é o seu rigor musicológico que se pretende aqui testemunhar, mas o lado intuitivo, arguto e iluminante de um pensador que respondeu por completo a todos os apelos da sua vocação estética. Assim, ao lado da Literatura, da Arte, do Cinema, estas páginas sobre Música são um “pretexto”, no sentido etimológico do termo “encobrindo” o verdadeiro tema, fio condutor de toda a obra lourenciana: o Tempo». Sim, é desse mistério do tempo, revelado por Agostinho de Hipona, que Lourenço sempre trata, procurando descobrir respostas sobre o seu significado.


ALGUMAS PASSAGENS
Neste ano em que se recorda Proust e «Du Côté de Chez Swann», vem à baila: «Tal como a madalena, o instante proustiano não é alimento, mas o relâmpago que desmarca o esfomeado escondido, este “ser que não aparecia senão quando por uma dessas identidades entre o presente e o passado, ele podia se encontrar no único meio onde ele pode viver, gozar da essência das coisas, quer dizer, fora do tempo»… De como uma madalena, a doçura de um bolo, pode levar à invocação da compreensão do que está fora do tempo. E noutro passo: «Enquanto escrevo sobre Kierkegaard estou ouvindo uma música de Beethoven. As vozes perseguem-se num crescendo poderoso, arrependem-se, volvem, sobem, insistem, o grito faz-se mais grito, alonga-se, repete-se, ultrarrepete-se, grita ainda mais, como um grito que não procura Deus, mas a si mesmo se contempla e persegue como grito. Um movimento humano semelhante ao final da nona sinfonia» (1952). E como difere de Reis o A. de Campos? Eduardo vai buscar um exemplo musical: «Como um scherzo molto vivace difere de um largo na mesma peça de Chopin (da Sonata em si menor nº 3)». E sobre «Jeanne d’Arc au Bûcher»? «Fosse eu chinês, fosse eu, em verdade, descrente, a simples dimensão humana de um destino, que aceitou a morte por saber que “Deus é o mais forte”, ter-me-ia reduzido àquele ponto obscuro, nulo e liberto que fui hoje» (1953-2013)… «Só quando amei através das lágrimas amei como amo a música» (1953). E sobre Lohengrin: «como se compreende a explosão de Nietzsche ouvindo esta longa não velada oração a um deus vago mas mais poderoso ainda que o seu Deus morto» (1955).


A FASCINAÇÃO DA MÚSICA
Ao receber o prémio, Eduardo Lourenço lembrou que, perante a presente crise, tem de haver saída e sinais de determinação e de vontade. Um povo antigo não baixa os braços, não renuncia ao espírito crítico. Esperança não se pode confundir com ilusão, mas deve compreender o sonho, que há muito o ensaísta procura. E Pedro Calderón de la Barca revela uma chave, para podermos conhecer-nos e ao mundo, – em «La Vida es Sueño», Segismundo, filho renegado de Basílio, rei da Polónia, está fechado numa torre, desde que nasceu, e apenas comunica com o mundo (numa nova alegoria platónica) através do seu guardião, Clotaldo, fiel servo do pai… A música é uma via de iluminação: «A fascinação da música reside no facto de ela tornar a palavra humana uma decadência e uma degradação. Ser homem torna-se então uma melancolia» (1955).

Guilherme d'Oliveira Martins