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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins  
de 16 a 22 de dezembro de 2013 

 

Annie Salomon de Faria (1928-2013) foi a guardiã da célebre casa de Vence, onde Eduardo Lourenço escreveu certamente os mais célebres dos seus ensaios. Tradutora da obra de seu marido – como «Le Labyrinthe de la Saudade», Bruxelles, Sagres-Europa, 1988 -, foi artífice fundamental na divulgação da cultura portuguesa em França, sendo, como era, uma hispanista experimentada e com uma sensibilidade muito especial relativamente à singularidade da obra de seu marido. Deixa uma lembrança inolvidável.



UMA HISPANISTA MUITO ESPECIAL
Não poderei esquecer a sua amizade e as suas palavras sempre tão afetuosas. Era alguém que tinha uma relação muito especial (de conhecimento e sensibilidade) com as culturas ibéricas e a sua projeção no mundo. E tinha consciência de que o tempo futuro dará uma importância crescente a essa ligação. O certo é que, na cultura portuguesa contemporânea, a relação entre Annie Salomon e Eduardo Lourenço merece atenção especial, muito para além de considerações de circunstância. Essa justa lembrança deve fazer-se. Daí que, no momento doloroso em que dela nos despedimos, sentindo o profundo abalo de Eduardo, tivéssemos lembrado o muito que nos foi deixado pelas qualidades desta hispanista, que compreendeu como ninguém a criação moderna portuguesa e as suas originalidades. Afinal, a saída do ensaísta de Portugal e o encontro com uma investigadora de grandes méritos, como Annie, permitiram que contássemos com uma análise da evolução da cultura portuguesa por parte de Eduardo Lourenço (através da singularíssima «psicanálise mítica» do nosso destino), através de uma compreensão interna, aprimorada pelo apoio da leitura crítica de uma investigadora francesa, capaz de entender o diálogo ibérico e de o tornar plural porque não reduzido à lógica nacional. Não é, aliás, por acaso que há da parte de Eduardo Lourenço a recusa de simplificações pessimistas e de ilusões fatalistas. Sente-se a presença serena de quem podia fazer uma ponte fecunda entre a compreensão do fenómeno ibérico global, com as suas diferenças e complementaridades, e a perceção da importância das idiossincrasias portuguesas. Os complexos de culpa, a bipolaridade (entre ascensão e queda e glória e decadência) e a visão contraditória da identidade puderam, assim, relativizar-se – na original visão do autor de «O Labirinto da Saudade». E se Camões, Antero e Pessoa constituem elementos fundamentais para o entendimento da chave interpretativa de Eduardo Lourenço sobre a nossa cultura, a verdade é que não podemos compreender plenamente essa visão sem a referência a autores como Pedro Calderón de la Barca de «La Vida es Sueño», em cuja trama, platonicamente, Segismundo, filho renegado de Basílio, rei da Polónia, fechado numa torre desde que nasceu, apenas comunica com o mundo (numa nova alegoria da caverna) através do guardião Clotaldo. E se falamos de Calderón, teremos ainda de chegar a Cervantes e a Unamuno, figuras decisivas para a compreensão, por contraponto, da nossa própria mitologia – lembrando «a arena fraterna e melancólica da desistência heroica ou do triunfo da ilusão» (como se diz lapidarmente em «Poesia e Metafísica»). De facto, nota-se por trás da cortina uma presença essencial (a somar a Joaquim de Carvalho e Sílvio Lima), que permite usar criticamente os mitos nas suas diferenças e nas suas relações – que Annie representa suave, mas persistentemente.

 

COMPANHEIRA DE EDUARDO… 
«Na minha vida há poucas escolhas (disse Eduardo). Deixei-me escolher. Não tenho a pretensão de ter sido escolhido. Estou em Vence por força do acaso. Ao tempo era leitor de português, havia casado em França, a minha mulher já tinha o seu lugar e eu fui para o sítio onde me ofereceram a possibilidade de ganhar modestamente a minha vida» (DN, 21.3.98). Com simplicidade, as coisas podem explicar-se assim. E há uma fotografia antiga, em Bordéus, de 1949, de Eduardo com Annie, que é muito significativa. Ele vai ligeiramente atrás, circunspecto, ela, jovem e segura, sorri. Ambos sabem que existe algo de comum que perseguem… «Não se pode viver impunemente com uma pessoa durante tanto tempo sem que os dois não sejam modificados por este relacionamento» - dirá muitos anos depois, reconhecendo um intercâmbio intelectual com efeitos positivos indiscutíveis. «O amor suporta o tempo, é também uma construção, uma espécie de desejo de que as coisas aconteçam assim, é a necessidade de suportar tudo o que carregamos de efémero» (25 Portugueses, 1999). Annie teve um papel fundamental na divulgação da obra de Eduardo Lourenço em França. Leia-se o número da revista «Esprit» de junho de 2013 e compreenda-se essa presença. Tal resultou de uma verdadeira partilha, «em momentos privilegiados de cumplicidade e identidade». De facto, pela natureza da obra do escritor essa divulgação foi abrangente, permitindo a projeção europeia da cultura portuguesa, com especial importância atribuída a Fernando Pessoa, autor praticamente desconhecido no tempo em que ocorreu este singular encontro.


A GUARDIÃ DE VENCE
Nascida na Bretanha (11.8.28), Annie fez os seus estudos primários em Rennes e licenciou-se em Bordéus em Línguas Hispânicas, tendo obtido a agregação em 1955. Era irmã de Noël Salomon (1917-1977), hispanista muito prestigiado, diretor do Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade de Bordéus e autor de «Recherches sur le thème paysan dans la comedia au temps de Lope de Vega» (1965), tendo estudado a obra de autores importantes da literatura mexicana, como Fernandez de Lizardi. Em 1954, casa-se com o ensaísta português (que admira profundamente, até pela sua fascinante faceta de «bavard sympatique»). O casal passa a viver em Nice. Em 1974, fixar-se-ão em Vence, onde adquirem a célebre casa, onde o pensador escreve uma parte muito significativa dos seus textos, que o tornarão conhecido como o pensador mais influente e marcante da cultura portuguesa contemporânea. Mas, além da prolífera produção literária, não podemos esquecer o magnífico jardim de ciprestes que E. Lourenço plantou e manteve, confessando ter sido essa uma das empresas mais duras que levou a cabo. Hoje, parte importante da biblioteca dessa casa quase mítica encontra-se na Guarda, graças à generosidade de Annie e de Eduardo. Foi, aliás, inesquecível esse dia muito frio em que, com a presença do Presidente da República, em 2008, foi inaugurada a Biblioteca. Conversando com Annie, senti nela um especial gosto e orgulho pela criação desse núcleo fundamental do Centro de Estudos Ibéricos, criado por ideia do Eduardo e envolvendo as Universidades de Coimbra e Salamanca, tendo o objetivo de aprofundar e desenvolver os estudos, que sempre os apaixonaram. Guardo do seu convívio e da sua amizade as melhores recordações – em especial a de uma longa viagem sob a invocação de Antero de Quental e dos tempos felizes do poeta em Vila do Conde bem como, nos últimos tempos, uma correspondência reveladora de grande simpatia e de um cuidado muito especial para a preservação do espólio e da obra de Eduardo Lourenço. «A minha mulher continua a dizer-me: “tu vis comme si tu étais éternel”. E é verdade, não ligo, chego atrasado a todos os sítios. Todos nós nos conservamos essencialmente imóveis naquilo que somos. Temos que reconhecer as mudanças, mas reconhecemo-las só à força do exterior; quanto mais não fosse, por causa dos espelhos. Mas o olhar que fixa os espelhos é sempre o mesmo» (JL, 6.12.1986).


Guilherme d'Oliveira Martins