Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

Blogue CNC - crónica da cultura.jpg

 

De filho a acessório de moda nos casamentos de hoje: consequências para o cão

 

Uns amigos nossos, no meio de uma conversa sobre muitos jovens casais que não têm filhos estando já numa idade mais avançada do que o “normal”, referem-nos, a propósito, o quanto os estudos estão avançados na análise do comportamento que leva estes casais a adquirirem um cão mal iniciam a sua vida conjunta, ou este não fosse meio de trazer responsabilidade e laços que se podem assemelhar aos de um filho – mesmo que queiram fazer crer que é apenas uma companhia - e logo se cria um pré núcleo de família nos encargos, responsabilidade e amor e, sobretudo ajuda a criar no parceiro/a ideia de que são três a conviver, e não dois, terrífica ideia para quando houver necessidade de substituir conversa ausente pela da preocupação com o cão, evitando-se sempre a coragem de viver a conjugalidade. Terrível jogo, o de transpor ao parceiro ou parceira que agora estão obrigados a cumprir por actos, pensamentos, palavras e obras que assim é a realidade composta, e que suportarão as vicissitudes de um grave divórcio se assim o não entenderam. Leva tempo, mas dizia a nossa amiga que, ficar só, é uma coisa, mas ser-se deixado só com um animal, é crime de lesa-majestade. Investiu-se imenso no determinar quem era a vítima e finalmente descobre-se que é a que fica com o cão, mesmo que lhe acresça a devida pensão de alimentos graças ao desejado encargo.

 

Acresce, diziam-nos, que se provou há muito, que estes casamentos, estão assentes numa espécie de amizade, avassaladoramente jurada acima de qualquer espécie de amor, muito transmitida por tatuagem, ou o amor não se pudesse partir e, se acaso a relação matrimonial terminar, aquele que sempre apelou por bem, à amizade, fica com o justo direito a intrometer-se permanentemente na vida do outro, que, sai da relação atraiçoado se quiser viver a vida em liberdade. Deus! aqui, a vingança de quem é deixado – parece que se diz assim - serve-se gelada pela manipulação eternamente encapotada da vida do outro, que, não compreendera, afinal, o quanto o cão que tinham adquirido era de raça “de bolsa” de grife, e estes mordem sempre a quem preza verdadeiros sentires, tais como as pessoas que não querem ninguém igual a quem tiveram, ou procuram, enfim, alguém que seja alguém. Alguém que saiba viver consigo próprio antes de ser pendura na vida dos outros; alguém que não esteja mal incubado e que só sobreviva com os tais milhares de companhias “amigas”. Os tais que não leram o suficiente para saberem que as amizades se não contam às dúzias.

 

E diziam-nos os nossos amigos:

Agora imaginem se em vez do cão, nesta cena toda, fosse um filho real? Pois é, aqui tem de se ensinar os filhos a mostrarem dentes raivosos, aquando de uma separação, face ao que tomou essa decisão e de preferência muito face àquele ou àquela com quem poderá ser feliz, receita certa para que o vinagre dos cérebros se transformem em pickles e se dirija a quem sabe que a solidão é um amor vivido em companhia de outro amor maior, viva o tempo que viver, mas plenamente e são e belo.

 

E quais as consequências para o cão dos ensinamentos recebidos em todo o tempo de matrimónio ou depois da separação? Perguntámos:

 

Pois bem, o cão ou entrou em pasmo depressivo durante o matrimónio da amizade e faz psicanálise dentro da própria mala L.V, ou aprendeu uma sísmica despedida para agradar a quem com ele/a fica, e, de tempos a tempos, faz crise de epilepsia, durante a qual telefona ao ex dono/a que o/a abandonou, enviando-lhe força, pois que logo que possa se pirará e até lá ele/a aguenta confortável e envia saudades.

 

De facto, não há como ter cão, diríamos! Cão de co-matrimónio, cão acessório de moda. Cão espertalhoco. Cão, que cão saiba ser, e que tal como as pessoas sempre felizes do olá tudo bem? Maravilhosos! não sofra ele/a quase nada.

 

E se non è justo, é bene trovato, esta manha antiga das gentes que vivem a vida assistindo ao próprio funeral, nunca descuidando de tentar matar o tal amor que, se o sentissem, as engravidaria de possibilidades.

 

Teresa Bracinha Vieira

CALCUTÁ

Blogue CNC - Calcutá.jpg

 

 

Um largo de gente entrançada na dor

Enrolada em rastilhos de morte

Aguardando numa oficina de mundo

Que as cordas lhes atem as unhas

E sejam estas colocadas ao lado dos crânios

Enquanto as orações macias lhes digam

Vede que ainda aqui estamos

Neste corredor sem meta

Que a cada passo ecoa

Agora agora agora

E mais não se ouve dizer

Por muito que se escute a pintura de Max Ernest

 

 

     Teresa Bracinha Vieira
      Outubro 2017

 

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

 

Uma breve introdução ao primeiro modernismo em Portugal. 

 

O movimento moderno teve a sua primeira expressão em Portugal, nos anos 20, coincidindo com a emergência da ditadura militar e dominando a construção das cidades portuguesas durante duas décadas. 

 

O primeiro modernismo envolve duas vertentes muitas vezes complementares: os exemplos 'Art Déco' (em meados dos anos vinte) desenvolvem-se depois da Exposição das Artes Decorativas de Paris de 1925, afirmando uma atenção ao pormenor não funcional, com reminiscências geométricas somadas a linguagens de cariz africano e primitivo; os exemplos construídos em volumes lisos e puros, coincidem com a introdução de novos materiais de construção como o betão, o aço e as grandes superfícies de vidro.

 

Os arquitetos que marcam esta época são Cristino da Silva, Pardal Monteiro, Carlos Ramos, Cottinnelli Telmo, Cassiano Branco e Jorge Segurado. Para alguns, decisiva foi a passagem pelo atelier de Ventura Terra, que lhes abriu perspetivas sobre o mundo exterior, transmitindo uma visão de certo modo racional. Igualmente determinante foi a divulgação de revistas estrangeiras e a realização de viagens ocasionais que cimentaram a nova ideologia.

 

Conhecia-se então, mas de modo superficial, obras de Gropius, de Mies, de Corbusier, dando-se mais importância ao modernismo não vanguardista de Mallet-Stevens. Estas novas conceções realizavam-se no plano formal considerando os aspetos funcionais e construtivos, mas sem o impulso teórico e ideológico que assinalava a mudança social.

 

Os responsáveis do sector cultural do regime estavam interessados em exteriorizar uma imagem de renovação e tolerância. O primeiro edifício que manifesta estas propostas modernas é o Cine-Teatro Capitólio, projetado em 1925 e inaugurado em 1931, de Cristino da Silva. É este arquiteto que tem na Escola de Belas Artes de Lisboa um papel preponderante - orientando a aprendizagem para a obtenção de uma linguagem racionalista conjugada com conceitos monumentalistas. Cristino da Silva, a título de exemplo, acentua, com grande rigor e simplicidade, no edifício do Liceu Nacional de Beja, os elementos essenciais da composição - reduzindo assim a mensagem arquitetónica à sua expressão mais simples. Pardal Monteiro, ao contrário de Cristino, nunca abdicou do sistema modernista funcional a favor da arquitetura do regime. O seu léxico é de fácil aceitação e compreensão. Da sua autoria são o Instituto Superior Técnico, as Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, o Instituto Nacional de Estatística, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, a Cidade Universitária (Reitoria e Faculdades de Letras e Direito) e a Biblioteca Nacional. Carlos Ramos deixou-nos obra reduzida - o Pavilhão do Rádio do IPO acentua relações volumétricas com citações implícitas à obra de Gropius - o exterior acusa totalmente as funções internas. Foi professor da Escola de Arquitetura do Porto e defensor da aplicação dos princípios modernos no caso português. Arredado das encomendas oficiais, por razões de ordem política, Cassiano Branco situou-se como personalidade mais original e mais consciente dos valores estéticos do modernismo (J.A. França, 1979).

 

Foi este arquiteto que influenciou a arquitetura corrente da cidade, porém não consegue apagar o seu ecletismo em certas obras. Jorge Segurado contribuiu para esta nova linguagem com a Casa da Moeda. Cottinnelli Telmo é um artista multiforme, tendo sido arquiteto chefe da Exposição do Mundo Português, participou assim no termo simbólico do primeiro modernismo português. 

 

Afinal, não devemos esquecer o clima de exaltação nacionalista da Exposição e a cedência a valores estéticos tradicionais e rústicos que procuravam ilustrar a ideologia do regime - no entanto não deixam de se fazer sentir no discurso arquitetónico fundamental da iniciativa, as convicções modernistas mais profundas.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

The Lady, The Lyon and, The Butler, 2017

 

O discurso da Prime Minister RH Theresa May visa tocar sensível corda na mente coletiva. Renewing the British dream é o mote, porém, para desastrada encenação na Tory Party Conference.

A voz da senhora não resiste a uma constipação mal curada, cerca de 30 entrevistas em três dias e um discurso de 15 páginas, interrompido pela entrega de um boletim ‘P45’ e ainda um monumental ataque de tosse mais lenços mais água mais pastilhas. — Chérie! Il y a pas de rose sans épine. Em contratenor, com igual dose de ovações, o Foreign Secretary RH Boris Johnson MP faz uma poderosa intervenção de verbo churchiliano. Let that lyon roar é o eco que extravasa as paredes de Manchester e se espraia pelas veias dos ilhéus. — Well. A carpenter is known by his chips. Algures na ilha, o ex cabecilha dos Lib Dems Mr Nick Clegg apela à filiação no Labour Party para obviar à Brexit. Berlin e Paris alinham recusa aos termos do ‘Florence Speech’ para o período de transição da saída do UK da European Union. London apresta o… No deal. O parlamento da Catalonia debate amanhã a proclamação da independência.  O shining British Mr Kazuo Ishiguro vence o 2017 Nobel Prize in Literature, com romagens da memória como The Remains Of The day e esse mordomo de nome Stevens.

 

 

Vibrante é a comunicação do Brexiter mor RH Boris Johnson, “a lucky general” em campanha. Notem este finale do MP de Uxbridge ao perpetivar a retirada do reino do superestado europeu: “There are people say we can’t do it. / We say we can. / We can win the future because we are the party that believes in this country and we believe in the potential of the British people. [..] We are not the lion. / We do not claim to be the lion. / That role is played by the people of this country. But it is up to us now – in the traditional non-threatening, genial and self-deprecating way of the British – to let that lion roar.” A plateia é catapultada das cadeiras. Na Conservative Home, polvilhada de rumores de eventual candidatura do anterior Mayor of London à sucessão nos Tories e em Downing Street, Mr Paul Goodman é lapidar quanto ao X Factor: “[T]he week will have reminded them of an inconvenient truth – namely, that the Foreign Secretary stands out from his Cabinet colleagues in being able to make a mass Tory appeal with pizzazz, wit and gusto.”Still dry days at Great London. A petit histoire, para começar. Há muitos anos atrás, ao assistir a ilustre ópera num teatro português, soa um inesquecido comentário nas filas em volta no momento mais dramático do musical: ― “Morreu muito bem.” Efetivamente, após uma longa e trinada ária, a heroína jazia em palco. O episódio regressa, com um sorriso, quando escuto nas ondas hertzianas o discurso de Mrs May no último dia da Conservative Conference. O fantástico James O’ B cedo informa na LBC que caíra o “f” da mensagem atrás da oradora ― Building a country that works for everyone. Segue-se uma opereta trágico cómica. A meio da intervenção, a Husky voice da Premier fenece. A Lady tosse, regressa às palavras, tosse, a voz enfraquece, tosse, o som esvai-se. As interrupções são pontuadas pelo bom humor da PM. A sala ergue-se em apoio. A senhora retoma a prédica. É socorrida aqui e além, sendo até brindada com uma carta de desemprego por infeliz prankster. Resultado do evento? Os Mayists felicitam-na pelo figting spirit. Os críticos fustigam-na com a metáfora viva de quem have nothing to say. O imparcial Mr Tom Peck conclui que “not for anything like the first time in recent years, the satirist is reduced to transcriber.”

 

Em linha com o estilo de Sir Winston Churchill, aplauso e aclamação vai ainda para outro talento das imaginary homelands: Mr Kazuo Ishiguro. Muitos terão talvez presente o trabalho do 2017 Nobel Prize in Literature por via do filme The Remains of the Day, do Director James Ivory, com a dupla Mr Anthony Hopkins e Mrs Emma Thompson. As suas palavras soarão até revestidas pelo inconfundível timbre de Mr Stevens, the imperfectly perfect butler, ao exclamar “it's not my place to have an opinion” quando este rememora Darlington Hall ou celebra “the calmness of beauty, its sense of restraint” ao viajar por England. Pintam KI como um exótico híbrido de Mr Franz Kafka e Miss Jane Austen; leio-o com cores próprias. E vero prémio entrega a Stockolm Academy ao literato quer do quintessential British manor house book, quer de An Artist of the Floating World, When We Were Orphans ou A Pale View of Hills.Well, well. A fine reading for sure after those tricky lines of Master Will in Troilus and Cressida: — “The ample proposition that hope makes / In all designs begun on earth below / Fails in the promis'd largeness: checks and disasters / Grow in the veins of actions highest rear'd."

 

St James, 9th October 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de outubro de 2017.

 

«O Amor de Camilo Pessanha», de António Osório (Elo, 2005), é uma pérola literária e um documento emocionante, no qual ressalta o exemplo cívico, cultural e sensível de Ana de Castro Osório e o talento do autor.

 

 

 

A IMPORTÂNCIA DE UMA VIDA
A passagem dos 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha é justo motivo de lembrança e de estudo sobre a importância da sua vida e obra no nosso panorama literário. Muitos serão, por certo, os motivos para tornar presente o valor literário do poeta – reconhecido como um dos maiores nas literaturas de língua portuguesa -, no entanto vamos centrar-nos numa obra fundamental, na qual se procura reconstituir a relação entre Camilo Pessanha e Ana de Castro Osório, daí se retirando que foi a escritora a responsável decisiva para que a obra do poeta não tenha caído no olvido. E é António Osório, um dos nossos grandes poetas contemporâneos, que reconstitui com enlevo e cuidado histórico, os passos que permitiram trazer até nós o fantástico lugar que o poeta de Clepsidra conquistou. A obra (com uma ilustração de Mário Botas) parte de duas cartas de Camilo Pessanha para Ana de Castro Osório (de 1893 e sem data), uma carta de resposta desta (1893) e ainda uma outra do poeta para Alberto Osório de Castro (1916). E é esta matéria-prima (publicada em primeira mão por Maria José de Lancastre) que permite a António Osório uma cuidada análise e acompanhamento, mercê de ricos testemunhos, de uma extraordinária história de amor. E tudo começa por um desencontro, mas vai evoluindo num sentido fantástico, que leva a que uma relação humana singularíssima, de uma dignidade a toda a prova, termine num exemplar reconhecimento da excecional importância de um autor maior. Como diz Arnaldo Saraiva, se fosse Camilo Pessanha de um outro país, certamente que abundariam traduções e estudos sobre a sua obra. No entanto, estamos longe do justo reconhecimento, apesar de o julgamento de Fernando Pessoa constituir um importante passaporte para o futuro. Tudo começa por um conhecimento pessoal e por uma paixão de Camilo por Ana de Castro Osório, a que esta não pode corresponder. «O amor de Camilo vinha de há anos. Íntimo de Alberto Osório de Castro, seu colega no curso de Direito em Coimbra, publicando crónicas e poemas no jornal de Mangualde O Novo Tempo, que aquele dirigia, Pessanha passava parte das férias na casa de Mangualde do pai do amigo, João Baptista de Castro, que tratava por “primo”, e a quem se dirigia, nas cartas publicadas com toda a estima…». Ana não pode corresponder ao amor de Camilo, por namorar o jornalista e político republicano Paulino de Oliveira, com quem casará em 1898, cinco anos depois da correspondência. A jovem exprime, porém, o desejo «de que Camilo lhe perdoe o desgosto que lhe causa e que seja seu amigo como era de sua irmã, como ela era dele». E se é certo que autoriza Camilo a destruir a sua carta, tal não acontece, prevalecendo uma «atitude de estoica nobreza». Camilo “restitui” a carta de Ana, e esta não rasga as dele, nem as devolve. E assim, chegadas às mãos do poeta António Osório, elas puderam ilustrar esta bela página sobre o melhor que a vida cultural e cívica pode conter – o caráter e a capacidade de reconhecer uma altíssima sensibilidade artística.

 

UMA PERSONALIDADE RIQUÍSSIMA
Em «O Amor de Camilo Pessanha» o autor faz de Ana de Castro Osório um retrato belíssimo, bem ilustrado pela fotografia jovial dos 19 anos, e mostra-nos o seu lado de escritora que segue as passadas de Garrett e de exemplar pedagoga («a criança não gosta que a não tomem a sério e se lhe contem histórias com o ar de quem diz uma cisa sem importância, e tudo vem a seu tempo»). Em 1911 acompanhou o marido ao Brasil, nomeado cônsul de Portugal em S. Paulo, tendo aí enviuvado em 1914. Em fins de 1915, reata-se o convívio entre Ana e Camilo – que “jantava e seroava em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana”, segundo o testemunho de João de Castro Osório. E é este que vai encarregar-se da recolha da poesia: «Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu então Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas». E assim Ana assume o encargo da publicação dos poemas que recolhera «e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão». Ana de Castro Osório toma a iniciativa de publicar, em 1920, nas Edições Lusitânia, de que era proprietária, a Clepsidra. E em entrevista a Fernanda de Castro no “Diário de Lisboa” dirá: «De há muito conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo». Mas não encontrava nele qualquer desejo de glória. Na última carta de Pessanha para Ana, de 3 de junho de 1921, o poeta agradece tudo o que foi feito pela sua obra: «Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus olhos a minha pobre alma – há tantos anos morta». Através de seu sobrinho António (seu pajem) é que Ana de Castro Osório reatou o contacto com Camilo Pessanha, numa ida deste ao Hotel Francfort no Rossio, em 1915. No testemunho de António, temos recordação dos grânulos de ópio, que tomava nas deambulações de Lisboa e de como o poeta recitava nas ruas da cidade… «Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstrata melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos». Mas foi o ópio a danação do poeta. Ele fala mesmo de “tormento dessa horrível angústia fisiológica”. «O demónio da deceção foi realmente o demónio da sua vida, e não apenas o dos seus sonhos em Macau, com Ana próximo de si, em vez da pequenina Águia de Prata, que o enganava (e ele saberia?) e do “desgraçado filho”». José Régio disse que o poeta «da sua derrota fez o seu triunfo»… E António Osório afirma ainda que das histórias de amor contidas na Histórias Maravilhosas de Ana nenhuma é tão impressionante como esta – de que apenas há uma carta encantada e o silêncio sereno da nobreza íntima.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Mia Couto.png

 

     Minha Princesa de mim:

 

Ocorre-me um trecho de uma entrevista de Mia Couto ao Jornal de Letras (?), não me recordo agora de quando, apenas leio a transcrição que anotei. Penso que falava dos frutos de Moçambique: A maior parte não tem nome em português. A maior parte dos animais também não. Os ingleses, nas suas ex-colónias, foram capazes de chegar até aí, e toda a fauna e toda a flora estão nomeadas em inglês. Eles tinham uma aproximação à natureza. Os portugueses não; diziam a "passarada" o "mato", a "bicharada" e pronto. Deves lembrar-te, Princesa, das vezes em que te falei da minha comichão epidérmica ao ouvir as lusas pronúncias "kivi" e "Havai", por exemplo, de nomes que ingleses haviam transcrito do original (kiwi ou quiúi, Hawai ou Haùaií) para a fonética da sua língua... E que nós, hoje, teimamos em pronunciar à "alemã"! Ignorantes de que também dizemos Molucas em vez de Malucas, quando nomeamos as ilhas cujo nome malaio indonésio foi corretamente transcrito para a fonética portuguesa, por portugueses, e mais tarde, a partir dessa, para a inglesa por ingleses, que escreveram Molucas para lerem Malucas. O nosso desentendimento com o rigor decorre da nossa educação: transmite-nos mais sentimento do que pensamento (os nossos debates públicos, sobretudo políticos, são exemplares dessa carência intelectual), mais desejos e fantasia do que capacidade de análise fria e espírito crítico. A tal diferença sergiana entre política de fixação e de transporte é muito mais profunda do que possa parecer: não foi, ou é, só perder oportunidades de criação local de riqueza, por indústria transformadora ou comércio sustentável, é quase repugnância por obra construtiva a longo prazo, é a pressão da mentalidade de um indigente para que a realização da riqueza, por altos que sejam os riscos, se faça rapidamente e em força. Os trunfos que elites portuguesas detiveram no século XVI foram desbaratados pela ganância de uma classe comerciante que não chegou à humildade de vindouros emigrantes, desses que, sobretudo nossos contemporâneos, foram lá para fora aprender o que é trabalho organizado e produtivo e a realizá-lo por conta própria. Destes, pouco ou nada falam os nossos intelectuais, que insistem em repetir o que os nossos humanistas da Renascença espalhavam pela Europa culta e curiosa sobre os inauditos feitos dos portugueses de então, em textos e traduções latinas, o latim sendo a língua franca da ciência daquele tempo...

 

   Tenho à minha frente um texto curioso, redigido por um tal Zinadim (não o Zidane, que também se chama Zinadim, mas é cidadão francês de origem argelina e, em pleno século XXI, treinador do Real Madrid, da equipa de futebol cuja estrela polar é o português CR7...), este Zinadim a que me refiro foi um árabe do Malabar, ali vivo e ativo no século XVI. Esse texto, de que apenas transcrevo alguns trechos, foi traduzido do árabe e publicado sob o título de História dos Portugueses no Malabar, por um tal David Lopes, em Lisboa, em 1899:

   Em nome de Deus, o Piedoso e Misericordioso!

   Os muçulmanos no Malabar viviam no bem estar e comodidade da vida graças à brandura dos príncipes do país, ao respeito dos seus antigos usos e à amenidade do seu trato. Eles, porém, esqueceram o benefício, pecaram e revoltaram-se contra Deus. Por isso, pois, Deus mandou-lhes como senhores os Portugueses, franges cristãos - queira Ele abandoná-los! - que os tiranizaram, corromperam e praticaram contra eles atos ignóbeis e infames. Eram sem conta as violências, o desdém, o escárnio, quando os obrigavam a trabalhar; punham as suas embarcações a seco; lançavam-lhes lama ao rosto e ao resto do corpo, e escarravam-lhes; despojavam-nos no seu tráfego, impediam sobretudo a sua peregrinação [a Meca], roubavam-nos, queimavam as suas cidades e mesquitas, a apresavam-lhes os navios, maltratavam o seu Livro Santo e os livros, pisando-os e queimando-os; profanavam os recintos sagrados das mesquitas; incitavam os muçulmanos à apostasia e à adoração da cruz, peitando-os para tal; enfeitavam suas mulheres com as joias e os ricos vestidos arrancados às mulheres dos muçulmanos; assassinavam os peregrinos e os demais muçulmanos com toda a espécie de violentações; insultavam o Apóstolo de Deus publicamente; cativavam os muçulmanos e aos cativos punham pesadas cadeias [...] Quantas mulheres de distinção eles cativaram e violaram até terem delas filhos cristãos, inimigos da fé de Deus e danosos dos muçulmanos! Quantos senhores, homens de ciência e principais cativaram e violentaram até que os mataram! Quantos muçulmanos e muçulmanas eles converteram ao cristianismo! E muitos outros atos semelhantes eles cometeram, tão afrontosos e ignóbeis que a língua se cansa a narrá-los, e tem repugnância em pô-los a claro: queira Deus, glorioso e omnipotente puni-los!

 

O nosso padre António Vieira escreve algures:

Se não tivessem ido os comerciantes em busca de tesouros terrenos na Índia Oriental e Ocidental, quem teria então transportado os pregadores que levavam consigo os tesouros celestiais? Os pregadores levaram o Evangelho e os comerciantes levaram os pregadores. 

Cita este trecho da História do Futuro de Vieira o professor Charles Boxer, no seu The Portuguese Seaborne Empire - 1415-1825, mais precisamente a abrir o capítulo III (Converts and Clergy in Monsoon Asia - 1500-1600), na página 65 da edição que possuo (Hutchinson & Co, Londres, 1969). Mas antes dessa transcrição, Boxer refere que the importance of Japanese silver, Chinese silks, Indonesian spices, Persian horses, and Indian pepper in Portuguese Asia should not obscure the fact that God was omnipresente as well as Mammon. E logo a seguir à citação do jesuíta, continua (traduzo do inglês): Se o comércio seguiu a bandeira no império britânico, o missionário vinha mesmo atrás do mercador no império português. Admite-se geralmente que se os homens de Vasco da Gama disseram que tinham vindo à Índia em busca de cristãos e especiarias, a procura destas foi feita com muito mais vigor do que o posto em cuidar de achar os outros durante as primeiras quatro décadas da atividade portuguesa no Oriente. A alusão a Vasco da Gama refere-se, penso eu, Princesa, a um episódio relatado no Diário de Álvaro Velho, aquando da chegada do Gama a Calecute. Vale a pena relê-lo, sobretudo como aqui te lo deixo no contexto em que Sanjay Subrahmanyam o apresenta no capítulo III do seu O Império Asiático Português, 1500-1700. Digo-te isto, minha Princesa de mim, por me parecer que a livre abertura das nossas interpretações ao critério e análise de outros nos ajudará certamente a melhor entender como a complexa realidade das coisas se pode disfarçar - ou descobrir - pela contraposição de pontos de vista e pelas intenções que os inspiram...

 

Começa assim esse capítulo, intitulado Dois Modelos e a sua Lógica: a Criação de um Império, 1498-1540 (na versão portuguesa da DIFEL, Lisboa, 1995): A chegada dos portugueses à Ásia em 1498 não passou despercebida nas obras asiáticas de História de então. Um dos trabalhos mais pormenorizados dedicado às suas atividades é uma crónica árabe Tuhfat al-Mujahidin (ou "Dádiva aos Guerreiros Santos"), escrita nos finais da década de 70 por um tal Zaid al-Din Ma´bari, [o mesmo Zinadim que te citei], que pretendia glorificar os feitos dos adversários muçulmanos dos Portugueses na Ásia. Mas Zain al-Din queria igualmente elaborar um argumento teórico, justificando a guerra contra os Portugueses e demonstrando como estes haviam desrespeitado os modelos de comportamento […] Zain al-Din escreveu quase três quartos de século depois da chegada dos Portugueses à costa do Malabar, no sudoeste da Península Indiana. Uma vez que escreveu a posteriori não se pode julgar a sua visão como representativa da reação espontânea das elites islâmicas locais para com os recém chegados. É de facto o primeiro a sugerir que os muçulmanos do Malabar (os chamados Mapilas) «pecaram e desobedeceram-lhe [a Deus]. Então, Ele mandou-lhes como senhores um povo frangue, os Portugueses - queira Deus abandoná-los! - que os oprimiram, vexaram e hostilizaram com toda a sorte de opressões e vexames!» [Subrahmanyam também retoma aqui a tradução de Zinadim ou Zain al-Din, editada por David Lopes, em Lisboa, 1899]. E, adiante, comenta:

   Como visão dos factos, Zain al-Din é, de um modo perturbante, próximo de alguns dos primeiros textos portugueses respeitantes aos seus feitos na Ásia. O conceito de guerra santa está tão presente nestes últimos como na "Dádiva aos Guerreiros Santos" daquele. Subrahmanyam realça e sublinha que a cronologia e geografia dos factos imputáveis aos recém chegados portugueses é corretamente notada por Zinadim, designadamente o despoletamento da "Guerra Santa" logo desde o final da segunda viagem: As hostilidades entre os recém chegados e os "mouros" não foram porém indiscriminadas: os Portugueses faziam agora uma cuidada distinção entre os mouros da terra e os mouros de Meca (ou seja, do Médio Oriente); viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia, porém, resultado de uma árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável acerca da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental... Mas, paulatinamente e porque a "experiência é madre de todas as cousas", como nos lembrou Duarte Pacheco Pereira, lá se foram adquirindo novos conhecimentos e perspetivas...

 

Deixo mais desenvolvimentos para próxima carta, em que te falarei também do Tratado das Cousas da China, do dominicano frei Gaspar da Cruz, impresso em Évora por André de Burgos, em 1569/70, e primeira obra sobre a China a ser publicada na Europa. Trabalho pioneiro.

 

 

     Camilo Maria 

  

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

O PATRIMÓNIO DOS EDIFÍCIOS DE TEATRO E ESPETÁCULO EM GUIMARÃES


A tradição histórica e urbana concilia-se com a modernidade, desde que se harmonizem épocas e estilos arquitetónicos, dentro da malha urbana respetiva, e desde que se respeite a coexistência de estilos e funcionalidades. O que em rigor não é fácil e não é muito habitual. Mas quando ocorre valoriza a estética e a funcionalidade, desde que, repetimos, se atinja um ponto de equilíbrio estético e estilístico. Não faltam bons e maus exemplos.

 

E um desses exemplos, relacionado com a edificação/recuperação/reconstrução do património ligado à cultura e ao espetáculo, temo-lo em Guimarães com a harmonização arquitetónica e urbanística do palácio de Vila Flor e do centro cultural homónimo e próximo, marcando ambos  a continuidade histórica e urbanística da cidade: o Palácio vem do século XVII, o Centro Cultural foi inaugurado em 2005.

 

Vejamos o “histórico” de um e outro.

 

O palácio de Vila flor foi construído por iniciativa de D. Tadeu Luis Lopes da Fonseca, nascido em 1653, e que lá viria a falecer em 1759. Membro da Real Academia da História com a designação académica de Tagomelo Corinteo, fundou a chamada Academia Vimaranense, que muito evocaria em poemas hoje pouco relevantes.

 

Veja-se um exemplo:

 

“Pego na pena e vou poetizando/Del Rey o nome mais se imortaliza/Em Guimarães onde o soleniza/ Sua Alteza em ações tão notórias/ Que excedem o volume das histórias/ Será o real nome em culto fiel/ Mias imortal que a Torre de Babel”.

 

O poema é citado por Maria Adelaide Pereira de Morais que historiou o Palácio e a família, a qual lá se mantém até pelo menos 1829. Nessa data, o Palácio é vendido a um emigrante retornado do Brasil, de seu nome Lourenço de Arrochela Malheiro. A família é nobilitada em 1852, na pessoa de um magistrado de seu nome Nicolau Vieira de Almeida de Morais Pimentel, que naquele ano recebeu no palácio a rainha D. Maria II e o seu marido D. Fernando.  (cfr. Maria Adelaide Pereira de Morais “História do Palácio de Vila Flor e Cavalinho” in “Boletim de Trabalhos Históricos”- 2005).

 

Em 1881 o Palácio é adquirido por um Engenheiro, diríamos hoje, de seu nome António Soares Veloso. E é notável a opção: em 1884, é instalada em terrenos adjacente do palácio a estação de caminhos de ferro. E mais: no Palácio organiza-se uma Exposição industrial, o que é de facto notável para a época…

 

Até que em 1908 o palácio é adquirido por Bernardino Jordão. E a família Jordão surge mais tarde ligada à fundação de um dos primeiros Cine Teatros, precisamente denominado Cine Teatro Jordão, que há bem pouco tempo se mantinha em atividade. Alfredo Pimenta não poupa elogios a este vimaranense que muito fez pelo desenvolvimento da cidade. (in “Páginas Minhotas – Aquela Casa à Beira da Estrada”).

 

Mas importa agora referir o Centro Cultural de Vila Flor, este marcante na modernidade da sua traça: e moderna que seja e é, não colide com a tradição histórico-urbanística da cidade. Inaugurado em 2005 segundo projeto arquitetónico de Manuel Vilhena Roque e Seara de Sá, o edifício, de grande modernidade estilística, comporta três corpos que albergam dois auditórios de 800 e 2000 lugares.

 

Citamos, para terminar, a memória descritiva deste projeto, onde se esclarece que da “relação entre o jardim e a cidade decorreu a necessidade de fracionar os volumes e construções, estabelecendo também uma matriz organizacional onde o teatro fosse local de passagem e de permanência”.

 

Pois, como já escrevi em “Teatros de Portugal – Espaços e Arquitetura” (ed. CNC e Mediatexto) “o teatro não será tanto o conjunto das salas em si, mas sobretudo a valência cultural  e social no âmago da malha urbana”.

 

E nesse aspeto, como em tantos mais, Guimarães é exemplar!...

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXV - EXPRESSIONISMO ABSTRATO AMERICANO - II

O CAMPO DE COR DO EXPRESSIONISMO ABSTRATO

 

O campo de cor do expressionismo abstrato é uma das duas correntes pictóricas fundamentais da vanguarda americana do expressionismo, a par da action painting

 

Está mais de acordo com os princípios do abstracionismo histórico ou clássico, tendo como modelos e referências obras de Malevitch, pai do suprematismo, de Mondrian, criador do neoplasticismo, de Matisse (fauvismo) e Kandinsky (abstracionismo lírico e poético), embora artistas nele incluídos, como Mark Rothko, Barnett Newman, Ad Reinhardt e Cjyfford Still tenham seguido, cada qual à sua maneira, um ideal de pintura absoluta e própria, que marca a diferença em relação ao passado.

 

Os pintores do Campo de Cor criaram telas calmas, serenas, suaves, de amplas extensões de tinta monocromática uniformemente usada, simplificando o cromatismo, ao invés das telas agitadas, agrestes e turbulentas de Pollock e De Kooning. Nas suas obras, a imagem e a cor tornam-se um evento mágico, sagrado, uma arte desmaterializada, metafísica, tentando converter-se numa ideia de absoluto, resultando numa objetividade pictórica que reduz o quadro a elementos mínimos estruturantes: caixilho, forma retangular ou geométrica, cromatismo simples e tela.

 

Rothko é o mais famoso representante do Campo de Cor, de linhas suaves e harmonia de cores, cuja gama é mais vasta que as cores primárias dos suprematistas e construtivistas, aplicando lentas camadas de tinta para compor campos de cor (colour fields) de contornos sombreados, em que a delimitação cromática se torna incerta, carregando as telas de emoção expressa via variações de cor.

 

Sem Título (Violeta, Preto, Laranja, Amarelo sobre Branco e Vermelho) (1949), Número 10, Centro Branco, Rosa e Lavanda sobre Rosa (1950), O Ocre (Ocre, Vermelho sobre Vermelho) (1954), Earth na Green (1955), Vermelho, Branco e Castanho (1957), Quatro Escurecimentos em Vermelho (1958) e Vermelho Vivo sobre Castanho (1959), são exemplos de uma pintura meditativa, apelativa da contemplação, do silêncio, das emoções básicas humanas, de algo que nos interroga e supera, animadas pela ideia de darem voz às realidades profundas da mente, numa vertente abstracionista distante da violência explosiva do dripping.

 

Queria que os seus quadros provocassem uma calma interior e uma reação espiritual no observador, que não fossem expostos com obras de outros artistas em mostras coletivas ou em espaços que tinha como inadequados.

 

Evoluiu no sentido de também conceber espaços, ao mesmo tempo que pintava telas. O que veio a concretizar com a Rothko Chapel   , inaugurada em 1971, após um convite de um casal de colecionadores para a feitura de uma capela interconfessional em Houston, Texas, de uma atmosfera e arquitetura mágica pensada para a contemplação religiosa, de todas as religiões.

 

Barnett Newman foi um dos líderes do grupo, que com Ad Reinhardt sobressaíram pela pureza das suas cores, lembrando o neoplasticismo de Mondrian, mas onde a cor prevalece sobre a forma geométrica. Pela limpidez da cor, diferenciam-se de Rothko. Veja-se Red Painting (Pintura Vermelha), de 1952, de Renhardt. 

 

Newman criaria um dispositivo que o tornaria famoso, marcando a diferença, uma linha vertical que representava faixas de luz, o seu zip. Enquanto Pollock tinha o seu drip, Barnett Newman tinha o seu zip. A descoberta ocorreu quando fez Onement I (1948), um quadro retangular vermelho, no meio do qual pôs uma faixa vertical de fita-cola, pintando por cima dela, após pintar os dois lados de cores diferentes. Exemplo maior é a sua tela Vir Heroicus Sublimis (Homem Heróico e Sublime) (1950-51), pretendendo alcançar uma reação emocional de estupefação pelo transcendente, ao mesmo tempo que os seus zips evocavam a luz através de uma linha vertical sugerindo a iluminação. Também distinguiam as suas obras monocromáticas e maioritariamente vermelhas das de Rothko. 

 

Cores cósmicas e espaciais, espirituais, contemplativas, meditativas, entre o finito e o infinito, o conhecido e o desconhecido, ouvindo o silêncio por entre porquês e respostas formuladoras de outros porquês. 

 

Na escultura temos David Smith, com Australia. E Anthony Caro, autor de Early One Morning (1962), obra de um vermelho brilhante, pesada, terna e de porte delicado, simultaneamente encantatória e surpreendente na sua elegância, intimismo e magia.

 


03.10.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

Voando sobre um ninho de cucos

Um filme de Milos Forman com Jack Nicholson- 1975. As características de um estar contemporâneo, redescoberto por indivíduos e equipas geniais no exercício do temor. Um filme que se estende a muitas realidades diferentes com consequências tendencialmente inescapáveis.

E UM POUCO COMO McMURPHY. É FÁCIL ENTRAR. O DIFICIL É SAIR.

 

 

Governar pelo medo, governar pelo poder, governar pela capacidade de infligir tristeza, governar pela falta de cognição, pelo ajoelhamento, pela culpa na alma dos outros, governar para que vença quem torna o outro culpado, governar contra a existência digna, governar contra o sono, governar para interromper a pulsação da esperança, governar condenando, governar pela insignificância de governar, pela festa de tudo controlar, governar chamando a figura admoestadora do chicote, governar contra o número dos vivos que dolorosamente tenta ganhar com que viver, governar como quem mata a sede a cativos, governar para ser auditor dos próprios milhões em registo de prece, governar invocando religiosidades de fação, governar com a virtuosidade de impor, governar por analogia da dor, pelo raio laser focado em quem se pergunta, governar humilhando os homens em frente dos homens que os roubam, governar de bandeira seca, governar a cada segundo tornando-o longo, governar sem que se descubra o que se passa, governar para fazer tremer a vontade alheia, governar para nunca confessar o seu erro, governar com os anjos rejeitados pelo céu, governar com ódio, hipocrisia, mentira, governar como intruso em corpo alheio, governar provocando uma solidão rodeada de solidões, governar pelo direito com bolor, governar prometendo mais medo, governar para que o poeta só escreva um verso, governar brutalmente como coveiro dos sorrisos, governar como se o filho pudesse ser mais velho do que a mãe, governar sem compaixão pelos encontros de jardim, governar esquecendo que os nossos pais nos educaram transmitindo-nos que a partir do ano anterior de nós, rejuvenesceria a casa, o tempo velho, as missões impossíveis, e que uma mulher sempre longilínea, sempre bela, ergueria embrulhado num gracioso xaile de recém-nascido, o seu filho, aos olhos de seu pai e de um mundo feliz, e eis o abraço célebre da vida, que, comovida abria o peito, resguardando a criança fora deste estar de desabridos caninos e molares prostitutos com que se governa em jeito de fast-food inimputável, o horror universal.

 

Bem-haja quem pelo seu caminho e arte, aspira a que de si fique uma memória imperecível, e seja ela prova de que governar poderá não ser uma sátira astuta protagonizada por personagens ridículas de sorrisos canalhas face ao destino de uma civilização.

 

E governar justapondo lugares distantes, reflexões brilhantes, estilos de vida superiores?

 

Governar sem utopias para além das necessárias ao impulso das mudanças, governar numa epopeia de se construir o melhor, sabendo a sério o quanto a seriedade é discussão com um louco que deve saber onde é a vida, a identidade, a circunstância.

 

E saudade. Não se governa a saudade.

 

A saudade não tem dimensão e o seu lugar é todo um coração que alberga toda uma emigração seja de que género for. A saudade é catalisadora na nossa viagem de regresso ao país natal, país seja ele como seja, mas feliz onde se focalize e no que se transforme.

 

Saudade é pujante condição humana que não constará nunca dos programas dos atos de governança, e mais, mesmo que seja uma tristeza do pensamento, saudade é livre, é fogo, é luta, ela é um sentimento que vê, ela é um som de sentir isolado que definirá modo e lugar que enfim, existem, sem que governar seja deixar um Big Bang ao nascimento do Ser.

 

Saudade é também acreditar que é difícil sair para uma verificação última da verdade ou do erro. Mas saudade é a que sabe negar o estatuto de um absoluto ou este não tivesse afinal qualquer história. Saudade é um pensamento no decorrer da vida e que abre caminho por ser capaz de chegar a algum lado.

 

Saudade é um saber que também conhece o quanto as tonalidades da mentira são inesgotáveis e que a certeza se desdobra em múltiplas camadas. Mas a saudade de uma paz humana conhece-lhe os complexos filtros para a atingir ou não vivesse nas relações perturbadas entre pensamentos e amor e luta.

 

Teresa Bracinha Vieira
Outubro

RADUAN NASSAR, “UM COPO DE CÓLERA”: poder e submissão no espírito do tempo

 

Prémio Camões 2016, “Um Copo de Cólera” (…) «tem mais poder nas suas poucas páginas do que a maioria dos livros com cinco ou dez vezes mais páginas» e assim é, tal como publicou o The Guardian. Depois de ler “Um copo de cólera”, lancinante extremo da literatura portuguesa, as perguntas fundamentais e seus sinais são força de fogo.

 

Trata-se de um livro profundamente invulgar, de uma ferocidade sôfrega que se desenvolve a partir de uma noite de amor e de erotismo em que dois amantes se entregam numa experiência intensa e rara, e eis que surge o extraordinário de assim a escrever, e a necessidade presente do alguém que tem de pagar queira ou não, o suporte espontâneo da cólera ou não fosse esta o melhor alívio da culpa que se suporta no eixo do peito.

 

E muitas vezes fiquei sem ar nas páginas deste livro. Tudo nele é de rajada numa verdade hemorrágica, lasciva e ungida na força dos pensamentos independentes, quando se sabe que os cães acorrentados trazem feras no avesso, e que mais não somos nós do que acorrentados? mesmo quando rogamos que os pés do nosso homem possam ser dois lírios brancos, e a nossa cela os aceite como macho absoluto do nosso barro numa prosternação de meu amor sacana.

 

«que tanto você insiste em me ensinar?».

«estou descalço» dizia, e ela nunca tivera dele o bastante, só o suficiente. Sempre o dissera.

 

Ela, essa femeazinha fascista que se regozijava da perspicácia que lhe atinava também como mulher que atua, e que enxotava quem é fraco, querendo-o. E ele querendo sempre transformar em graça o ferrete que ele próprio carregava, Deus meu! numa forte iluminação da bofetada no rosto dela, gritando-lhe o quanto, o que contava na vida era a qualidade da descida, ó carcaça, cérebro de pilantra, tudo o que vomita, é tudo coisa que você ouviu de orelhada.

 

Mulher mais gatuna é a que abre a boca e os dentes não contam idade, para sob ela encobrir que quer castrar seu homem, chamando-lhe de «mestre» e alfinetando-o com o fogo das palavras e das ancas, misturando razão e comoção e sempre metodicamente a querer que ele seja seu filho igualzinha à maioria das mulheres que nos momentos de emancipadas querem seu macho num tempo diferente da geometria passional.

 

E num instante ele era o canalha da cama e o canalha que ela ama com volúpia e recuo, e ele, descalço, e ele a levá-la à entrega hipnótica por sua tão própria linguagem, essa linguagem que fora ele que lhe ensinara, ele, o sem estudo, e ela metálica de curso feito, tanto quanto o seu riso escárnio não entendia que era a fascista pior do que ele, pois não sabia que o era em nome da sua razão.

 

Gritavam um ao outro os demónios internos de cada um, as velhacarias bem sufocadas que tanto insistiram em os ensinarem numa farsa tão sinistra quanto esplendida, sobretudo quando tudo se incendiara com a demolição da cerca que as formigas metodicamente tinham derrubado. Ou talvez não. Talvez tudo se iniciara com a decisão de usar veneno para as sufocar na toca que se pisaria depois com um calcar definitivo ao ar. Uma força contra a vida ou contra uma outra direção, mas uma força.

 

E ele recebia dela umas mãos no banho que lhe dava depois do amor ou do sexo, movendo-se doidamente quando ela lhe apanhava os cabelos num ritmo que ela cumpria e ele só sabia que se entregava (…) «para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo».

 

Sempre, de um modo ou de outro a nossa infância recorda-nos ideias acabadas e sem a confusão da idade grisalha. Li neste livro a dor desta claridade da infância ser mais pedra que saudade, mais absoluta solidão depois do concluir o austero dejejum do colo dos pais imperfeitos, e tão amados, naquele tranquilo labirinto dos enigmas do então.

 

E começara já os latidos mais desesperados entre ambos como se se quisessem aniquilar um ao outro, abrindo covas fundas e de inesquecíveis dores um no outro, com tudo o que certeiramente se diziam, pois que ambos não eram gente, ou eram-no porque.

 

E já em indicações díspares de destino ela fugira para sempre e ele fingira que adormecera até ao dia seguinte, abandonando-se qual menino na sua própria cama, mulher anforal, e ela entrava já devagar no dia depois, pela manhã, e clareando a emoção por entre as lágrimas secas, acedia à condição relativa, sabendo que numa porventura certeza aos dois e a um tempo, se embalava a realidade, enquanto um seio despertava a vontade de a ambos e em ambos se proteger.

 

Assim li este mundo que Raduan Nassar, num ímpeto de copo de cólera, partilhou, bem como, o quanto a fórmula de a beber, assim estilhaçada, é cortante, mas esclarecedora. E deste modo, Nassar deu unidade à Coisa depois do confronto dos violentos segredos que nos prendem e nos racham numa única razão de amor e de vida. Numa razão de perder princípios, por vezes, avaliando mal o tamanho das formigas e do medo.

 

Por mim diria, que neste livro os amantes ainda se disseram um ao outro, serem a única coisa que se deixavam mutuamente. E se este dizer era ataviado, sem dúvida, eles o conheciam como lugar central.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2014