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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A resistência da palavra de António Alçada Baptista

 

Revi então toda a minha vida de homem casado com as suas mais pequenas experiências. Em primeiro lugar o casamento como um fim. Toda a construção do meu universo moral estava sujeita a este princípio: ou se vai para padre ou se casa. (…) mas o problema nunca foi o deixar de casar: a imposição do casamento exercia-se não só perante uma sexualidade que devia ser considerada, como pela impossibilidade de a viver fora do casamento. De certo modo, só nos interrogámos sobre a forma de viver o nosso casamento, nunca sobre a sua viabilidade.

 

Eu ainda fui educado a ouvir dizer que o «destino da mulher é ser esposa e mãe» e até demorei a reparar que isso é tão bizarro e inadequado como dizer que o «destino de um homem é ser esposo e pai».

 

António Alçada Baptista, in “O Tecido do outono” 1999, ed. Presença

 

Teresa Bracinha Vieira

JOSÉ SESINANDO...

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XVI) - 16 de agosto de 2017

 

José Sesinando Palla e Carmo (1923-1995) foi escritor, ensaista, crítico, tradutor e especialista em literatura anglófona. É inesgotável a lista dos seus jogos de palavras. A sua escrita e as suas obras merecem ser mais e melhor conhecidos... Não resistimos a dar uma breve lista – recordando as suas impagáveis colunas no Jornal de Letras... Ei-los.

 

Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.

 

Os terroristas raciocinam por explosão de partes...

 

O Adágio de Albinoni, depois de muito tocado na rádio, tornou-se um adágio popular.

 

Vá de Metro, Satanás! (este foi em diálogo com Alexandre O’Neill).

 

Os conferencistas ateus não têm Papas na língua.

 

É vidente: mente! Evidentemente.

 

Sabe onde é que o Alberto moravia?

 

Quem não tem Rolls, rói-se.

 

Os tecnocratas estão classificados por ordem analfabética...

 

Tudo leva a crer que os doze pares de França quando visitaram Portugal pernoitaram na Casa dos 24...

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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   Jan Voss e o pensamento infinito.

 

Jan Voss (1936) utiliza um vocabulário ligado à escrita onde as figuras de uma quase narrativa se apresentam livres. 

 

A separação, das diferentes áreas da pintura, é feita pela cor. O fundo branco predomina. A linha é contínua, perpétua e complexa. Uma narrativa parece dar sentido às formas, mas as personagens desenhadas são muito imprecisas, e estão inseridas em situações não explícitas (ver texto 'O Planeta Voss' de Gérald Gassiot-Talabot). 

 

Os planos coloridos do fundo aumentam a importância de determinadas situações - acrescentado por vezes o humor, a unidade e a profundidade. As formas não têm volume, são como sinais gráficos lassos e incertos. 

 

Foi a partir dos anos setenta que, na pintura de Voss, a pluradidade deixou de existir enquanto fornecedora de imagens diferenciadas (de 1963 a 1970, Voss debruçava-se sobre uma pintura por excelência narrativa ao relacionar, numa determinada temporalidade, unidades separadas). Sob uma aparente desordem, Voss consegue fazer prevalecer uma noção de totalidade. Os signos são da mesma tessitura e têm o mesmo grau de importância. Os elementos dispersos reunem-se num objecto global. 

 

'Nem trama, nem fio de ligação, o que surgiu - em toda a sua plenitude - foi uma escrita, que estabeleceu, com um valor equivalente, a figura e o seu vínculo, o qual se tornou figura e se desfez pelo gesto. E deixou que continuasse a pairar a impressão de uma imagem que fugiu, o vestígio de uma realidade, ao mesmo tempo iluminada e criada, o comentário escritural da memória das coisas.', G. Gassiot-Talabot

 

Está-se perante um universo pictórico espontâneo e superpovoado. 

 

Na pintura de Voss cabe tudo: a fragmentação e a unicidade, a simplicação e a complexidade, a pluralidade e a homogeneidade, a alegria e o terror, o fantástico e o inofensivo, a sabedoria e a inocência. É a imagem mais verdadeira e fidedigna do pensamento infinito do homem - nunca pára e é continuamente contraditório.

  

 

Ana Ruepp

 

 

 

O BARÃO DE ITARARÉ

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XV) - 15 de agosto de 2017

 

O Barão de Itararé (1895-1971) era um cultor do humorismo político. Recriou mil provérbios renovando-lhes o sentido. Eis alguns exemplos de seus provérbios reinterpretados: 

 

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva. 

 

Diz-me com quem andas e eu direi se vou contigo. 

 

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. 

 

Mantenha a cabeça fria se quiser ter ideias frescas. 

 

Quem empresta, adeus... 

 

Viva cada dia como se fosse o último - Um dia você acerta... 

 

Quando o pobre come frango, um dos dois está doente. 

 

A criança diz o que faz, o velho diz o que fez, o idiota diz o que vai fazer...

 

Devo explicar que o Barão de Itararé não era nobre nem nobilitado, esse era apenas seu pseudónimo. Chamava-se Aparício Torelly e celebrizou-se por uma inesgotável coleção de aforismos. 

É um dos grandes humoristas brasileiros e da língua portuguesa...

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

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A GUERRA ÀS AVESSAS
 
1 - Quanto mais penso nesse filme, mais espantado fico. Na verdade, nem é no filme, relativamente banal e ensosso, mas no fim do filme. Se há, não conheço uma figura semelhante. A raiz quadrada de um número sem raiz quadrada. "Três quartas de cinema" ou "três quartas partes pretas de lã carneira?". Não estou a louvar nada nem a simplificar nada, embora as citações venham do poema de Cesariny, de que me lembrei a páginas tantas por razões que explicarei lá para o fim desta página.
É certo que estou no princípio e por isso convém que me explique antes que se faça ainda mais tarde.
 
2 - O filme, de que vos poupo o título original em russo, chama-se qualquer coisa como "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra", a acreditar nas traduções ocidentais, já que, antes deste Janeiro, nunca tinha sido exibido em Portugal. Realizou-o um certo Ivan Pyriev (1901-1968) em 1944, ou seja, há 60 anos. Passou num ciclo que a Cinemateca está a finalizar, dedicado aos gelos e degelos do cinema soviético entre 1926 e 1968. Ou seja, a filmes que ou foram proibidos pela censura estalinista e dos camaradas que se seguiram, ou a filmes que foram mudados de cabo a rabo pelas mesmas censuras (em certos casos, por várias vezes e com cortes diferentes) ou a filmes que, pelo contrário, de tão perto seguiram a linha oficial que o tempo os tornou inacreditáveis e ainda mais reflectores que as obras tesouradas.
Quando se programam ciclos destes há riscos vários. Os mais ingénuos ou os mais distraídos acreditam que vão ver filmes de resistentes, que heroicamente denunciaram Estaline nos anos 30, 40 ou 50, Krustchev nos anos 50 e 60, ou Brejnev nos anos 60. Basta pensar duas vezes para perceber que filmes desses jamais podiam ter existido na União Soviética. Quem pensasse em filmar um plano sequer de crítica explícita ou implícita já estava na Sibéria (na melhor das hipóteses) antes de pegar na câmara. O que foi proibido ou censurado foi-o por razões circunstanciais, na maior parte dos casos difíceis de detectar a esta distância temporal e sabendo-se o que se sabe hoje. Aprende-se mais com os ortodoxos do que com os humilhados e ofendidos. Pyriev era desses ortodoxos. Um labrego segundo os amigos, mas um labrego com talento, que sabia do ofício, o poder prezou e o público - que-tem-sempre-razão - adorou. Vários filmes dele foram sucessos colossais na URSS, com muitos milhões de espectadores, coisa de povoar os sonhos dos gémeos lusos do século XXI. "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" foi um dos maiores. Filmado em 44 - em plena guerra e não depois dela -, conta a história de um bravo soldado russo (no cinema soviético, todos os soldados são bravos) que se apaixona por uma corajosa enfermeira (no cinema soviético, todas as enfermeiras são corajosas). Encontram-se por aqui e por acolá, cantam muito, na boa tradição do musical e, lá para o meio do filme, combinam casório para o fim da guerra. No dia desse fim, marcam encontro numa ponte de Moscovo, às seis da tarde. Mas eis que o soldado fica sem uma perna em combate. Como alma nobre que era, decide que não vai impor um inválido à bela enfermeira. Um amigo que lhe vá explicar que ele morreu, que ela não pense mais nele. Mas os amigos são para as ocasiões. A meio da piedosa mentira, o portador da má nova arrepende-se do que está a mentir. Conta-lhe a verdade e a rapariga corre para o hospital, para lhe jurar que não é perna a mais perna a menos que a aquece ou arrefece. Chegou a tempo. O soldado pensou melhor e achou-se egoísta, individualista e pequeno-burguês. Repetem a jura anterior. Só que, depois, é a rapariga quem apanha com um estilhaço e o espectador é levado a crer que ela morreu. O soldado nada sabe. E, às seis da tarde, no dia do fim da guerra, lá está na ponte, à espera da noiva. Passam as 6, passam as 7 e nem novas nem mandados. Mas filmes destes, a leste como a oeste, fizeram-se para acabar bem. Quando protagonista e espectadores já desesperam, a moça, supõe-se que incólume, aparece-lhe e lá vem o abraço e beijo finais. É evidente (até por este resumo o é, quanto mais pela visão do filme) que Pyriev viu muito cinema americano. Concretamente viu "Love Affair" de McCarey (1939), obra que, mai-lo seu "remake", "An Affair to Remember" do mesmo McCarey, e mai-los "remakes" feitos depois desse, suponho conhecida pela maioria dos meus leitores, Charles Boyer (ou Cary Grant) a combinar encontros no Empire State Building, com Irene Dunne (ou Deborah Kerr) a ser atropelada, a ficar paraplégica e a decidir desaparecer para não estragar a vida ao amado.
"Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" é uma variação sobre o mesmo tema, história de azares e de sortes.
 
3 - Mas não é isso que me embasbacou. Não precisei de chegar a esta idade para saber como o longo braço de Hollywood chegou até ao país dos comunistas e como os filmes mais exaltadores da glória do proletariado seguiram receitas capitalistas, disfarçadas com temperos locais. O que é inédito é que, em 1944, quando ainda havia tropas alemãs em território russo e o desfecho embora previsível não fosse ainda de favas contadas, Pyriev não tenha hesitado em figurar o dia V, como se todo consumado fosse.
Eu sei que não faltam na história do cinema (até na história do cinema soviético) representações de futuros longínquos, isso a que se costuma chamar "ficção científica". Eu sei que ficções do real ou com o real foram o pão-nosso de cada dia. Mas nenhum filme ocidental, dos anos da guerra, ousou jamais mostrar o fim, antes de o fim chegar, ou deu dois passos em frente para olhar do futuro vitorioso o passado sangrento. Também nunca houve - nem nos mais delirantes filmes de propaganda anticomunista - representações da queda do Kremlin ou da queda do Muro. Neste caso, Pyriev não hesitou. Em 44, mostrou 45, na guerra mostrou a paz. Há quem diga que o fez para dilatar a crença de que o dia da vitória estava próximo. Afinal de contas, a "Marselhesa" ("le jour de gloire est arrivé") tanto se cantou no início das grandes guerras como no fim delas. E, como Pyriev até nem se enganou muito (a Alemanha rendeu-se um ano depois da estreia do filme), podemos absolvê-lo dessa antecipação pela premonição. Porque é que eu fiquei tão embasbacado?
 
4 - Precisamente, como já disse, por essa sequência final. Séculos de cinema (passe o exagero) habituaram-nos a ver, documental ou ficcionada mente, o dia da Vitória como um dia de multidões transbordantes, enchendo as ruas, com soldados e paisanos abraçando-se furiosamente, num 25 de Abril em tamanho sobrenatural. A tamanha festa e a tamanha alegria. Tudo o que simbolicamente foi captado na lendária fotografia que deu volta ao mundo do marinheiro e da rapariga em abraço tremendo. Pyriev, em 44, não tinha milhares de figurantes nem podia filmar nas ruas de Moscovo. Que fez ele? Construiu uns "décors" com a ponte tão citada no filme, ao fundo da qual uma transparência dava a sugestão do Kremlin, iluminado por holofotes. Agarrou em duas dezenas de figurantes, de ambos os sexos, e pô-los a passear de braço dado pela dita ponte. Casais jovens, casais de meia-idade, como domingueiros, como se andassem por ali a ver as vistas. Em primeiro plano, o herói da perna de pau, muito sozinho e muito ansioso. Nalguns cantos, outros vultos solitários, ora de mulher, ora de homem. À vez, vinham chegando os pares esperados pelos ditos cujos. Abraços e beijos e lá iam a passear, juntando-se aos outros. Até que só ficava sozinho o protagonista. Caía a noite e os casais iam para a noite deles, sempre vagarosos e emburguesados, com passos de um coro de ópera convencional, mais se assemelhando a espectros do que a humanos. E, quando por fim chegava a enfermeira, o abraço era tão púdico e tão desengraçado como só o cinema soviético filmou abraços e beijos. Mas tratava-se da girândola final. Pyriev não o esqueceu e, para a sublinha, guardou para esse momento uma largada de fogo-de-artifício digna da festa da Senhora dos Remédios em Forno de Algodres, sem desprimor para a Senhora e para o forno. Na banda sonora, muitos bum-bum-bum. Até encadear com a palavra fim. E é essa sequência que não deixa de me perseguir desde o dia 7 de Janeiro. No país do "socialismo", na "pátria do povo", na terra dos sovietes, o fim da guerra foi celebrado por antecipação, sem povo, sem operários, sem camponeses, sem massas, sem qualquer desordem, sem qualquer alegria, a não ser a alegria breve de uns casais de namorados. Moscovo é uma cidade fantasmagórica, inexistente para aquém e para além da ponte sombria e soturna. Ou seja, Pyriev imaginou tudo menos uma real festa popular. É totalmente surrealista, no sentido pejorativo da palavra. Fez frio e medo. Muito frio e muito medo. Mas, pensando bem, talvez esteja certo. Para voltar a Cesariny e ao surrealismo, na verdadeira acepção da palavra: "Porque é que a enfermeira compra do Alves Redol quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã?" E nem sequer nisso pode mostrar que pensa. Na URSS, qualquer festa espontânea era espontaneamente inimaginável.

16 de Dezembro 2004 Público
 
 

ALEXANDRE O´NEILL

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIV) - 14 de agosto de 2017

 

Alexandre O´Neill é um dos grandes poetas portugueses de sempre. A sua obra é inesgotável. Cada palavra é ideia e é festa... Foi um dos grandes amigos de António Alçada e mantiveram sempre esse afeto, por nunca se levarem demasiado a sério.
Hoje escolhemos dois belos e enigmáticos poemas. O primeiro sobre a misteriosa palavra já:

«Já não é hoje? / Não é aquioje? / Já foi ontem? / Será amanhã? / Já quandonde foi? / Quandonde será? / Eu queria um jazinho que fosse / aqui já / tuoje, aqui já...»

O segundo foi imortalizado por Amália – e Adriana Calcanhoto lembra-o! É sobre uma minuciosa formiga! A fábula reinventada!

«Minuciosa formiga / não tem que se lhe diga: / leva a sua palhinha / asinha, asinha. / Assim devera eu ser / e não esta cigarra que se põe a cantar / e me deita a perder / Assim devera eu ser: / de patinha no chão / formiguinha ao trabalho e ao tostão. / Assim devera eu ser / Se não fosse não querer...».

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 14 a 20 de agosto de 2017

 

Na preparação da viagem do CNC ao Vietnam e Camboja damos conta de ecos das fontes de Diogo do Couto, Tomé Pires e Francisco Rodrigues…

 

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UMA CIVILIZAÇÃO ANTIGA

Chegou aos nossos dias, graças ao Professor Charles Boxer, um texto inédito de Diogo do Couto, onde este nos dá conta da descoberta pelo rei do Camboja, quando caçava elefantes, pelos mais espessos matos que havia em todo aquele reino, de uns edifícios magníficos que constituem as preciosidades de Angkor... Nesse texto, há um encontro emocionante de culturas, uma que se descobre a si mesma e outra que vem de longe em sua busca... Após a chegada à Índia, os portugueses cedo obtiveram informações sobre a Ásia, que antes não possuíam, compreendendo, por exemplo, que Malaca constituía o centro de atividade comercial do Índico e que o primeiro parceiro económico da região era a China. Quando os portugueses chegam às Molucas e a Cantão descobrem que a península de Sião tem maiores potencialidades do que se pensava inicialmente. Quer o «Roteiro» de Francisco Rodrigues, quer a «Suma Oriental» de Tomé Pires confirmam, porém, o relativo desinteresse pela Indochina por parte dos comerciantes por ausência de uma clara vantagem mercantil. Apesar de ser um entreposto dos chineses, Sião não vai ser considerado de início nos percursos comerciais relevantes para os portugueses. A ida de uma pequena esquadra à Baía da Cochinchina em 1523 deveu-se, assim, ao facto de se tratar de uma zona com forte influência chinesa. Fernão Peres de Andrade terá sido o primeiro a visitar a região em 1516. Duarte Coelho foi dos portugueses que mais vezes circulou junto à costa, tendo sido incumbido por Jorge de Albuquerque, Capitão de Malaca a ir explorar a enseada da Cochinchina, onde terá colocado um ou dois padrões e uma inscrição com seu nome na Ilha de Cham (Cu Lao Cham) datada de 1518, segundo informação de Fernão Mendes Pinto. Este descreve a referida costa com detalhe, incluindo dificuldades de navegação, sistema de ventos, correntes, paisagens, produções, comércio e o negócio do sal. Contudo, a instabilidade política na zona não permitirá a permanência de um contacto estável. Apesar de tudo, há algum investimento dos portugueses no estudo das rotas marítimas e da cartografia da região – o que permitirá o desenvolvimento do interesse pelas costas do Dai-Viet e o acesso dos primeiros missionários. O que acontece é que os portugueses passam a utilizar a Cochinchina para acesso ao relacionamento com o comércio das costas da China. E, deste modo, nos anos quarenta do século XVI, a Indochina torna-se, contudo, domínio da influência dos mercadores mercenários, aventureiros que agiam por sua conta, até porque a China tinha, de algum modo, renunciado a exercer o seu domínio na área. As receitas fiscais obtidas em Malaca e no comércio com a China tinham, porém, uma dimensão significativa, que tornava marginal a importância económica das trocas com a Indochina.

 

UM COMPLEXO JOGO DE XADREZ

Entretanto, os reinos de Champá e do Camboja procuram alianças que lhes proporcionem o renascimento político. Os Chams buscam apoio junto dos malaios, adversários dos portugueses, e os khmers do Camboja decidem-se, sob a influência dos nossos mercadores, a tomar contacto com Malaca e a reforçar as relações com as autoridades portuguesas (1550). A esta fase corresponde o reforço da iniciativa dos missionários. Gaspar da Cruz vai ao Camboja para pregar, mas os khmers vivem um momento de euforia, estando imbuídos pelos valores tradicionais e por um certo triunfalismo político – que afastará por um quarto de século a ação dos missionários católicos. Este contratempo religioso é, no entanto, compensado pela concessão feita pelos chineses do entreposto de Macau, que pemite o reforço do interesse político-económico relativamente à Indochina Meridional – já não na dependência de Malaca, mas na esfera chinesa, com a vantagem de não sofrer influência muçulmana. Apesar da conjuntura desfavorável, com perda de importância de Sião, conquista de Ayutuia pelos birmaneses (1569) e fechamento do Camboja às rotas do mar da China, os khmers vão jogar alternadamente, consoante as circunstâncias, com os mercadores chineses, portugueses, chams, japoneses e malaios. E uma nova oportunidade parece surgir quando em Dai-Viet surge a pretensão autonomista das províncias do sul, através do Senhorio de Nguyens. Com a crise dinástica portuguesa e a monarquia dual (1580), há uma convergência de interesses ibéricos, Manila precisa de apoio na Baixa Indochina e urge uma coordenação peninsular na política do Sueste Asiático. Momentaneamente, há uma aproximação com Sião contra a influência holandesa, mas falta aos portugueses apoio e autoridade políticos, prevalecendo apenas a lógica dos mercadores e mercenários. A pouco-e-pouco, as rivalidades dos clãs cambojanos tornam difícil o controlo da situação pelos portugueses – cabendo a Sião o domínio no Camboja. Errando estrategicamente, surdos aos apelos de Sião, os portugueses irão perder uma após outra as suas posições na Indochina, com declínio inexorável das trocas entre a Cochinchina e os portugueses de Macau.

 

UMA NOVA ATENÇÃO…

Depois do Édito de expulsão dos missionários do Japão (1614) e da saída compulsiva dos portugueses (1639), os jesuítas de Macau reorientam-se para a Indochina, com alguns cristãos japoneses. É o tempo das missões no Senhorio dos Nguyens (1615) e no Camboja (1616). O rei cambojano procura, assim, contrariar a influência siamesa. Os portugueses procuram aproveitar-se desta oportunidade, jogando com os conflitos locais no Champa e em Tonquim. Mas o peso crescente dos holandeses inquieta os tailandeses, o que os leva a virarem-se claramente para os portugueses, designadamente quanto ao armamento, em especial no aprovisionamento de canhões. Mas a presença portuguesa é limitada e reduzida a comerciantes sem poder económico. O isolamento japonês parece favorecer os portugueses, mas as condições económicas são muito precárias. E os holandeses não cessam de ganhar influência. Os missionários portugueses dão lugar aos franceses e à Propaganda Fide – e mesmo a influência de Macau perde-se, enquanto Malaca deixa de ser praça portuguesa (1641), e reduz-se drasticamente o peso dos portugueses no Camboja e no Senhorio dos Nguyens... É certo que até meados do século XVII a presença portuguesa na Indochina permanece, quase exclusivamente ligada a Macau; mas os mercadores e as comunidades mestiças asseguram uma influência limitada e assente no papel individual dos portugueses, com determinadas especialidades técnicas (por exemplo, quanto ao armamento), mas confundindo-se, paradoxalmente, com os holandeses. Apesar de tudo, o balanço do relacionamento entre os portugueses e os antepassados dos vietnamitas é positivo. A imagem dos portugueses era identificada com a expressão «casa da vinha» (Bò Dào Nha) – correspondente a um país que nunca declarou a guerra, que transmitiu novos conceitos e ensinamentos e que abriu bons negócios, tendo o Padre Francisco de Pina (1585?-1625) tido um papel pioneiro na divulgação e estudo da língua anamita, antecipando o célebre dicionário de Gaspar Amaral. Quando Marguerite Duras nos dá o seu «Indochina, meu Amor...» - vamos aos confins da história e compreendemos como as diferenças e os mistérios nos enriquecem!

 

 Guilherme d'Oliveira Martins

 

UM PRATINHO E UM GATO...

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIII) - 13 de agosto de 2017

 

Já falámos de Guerra Junqueiro, a propósito da polémica da bandeira nacional. Hoje, voltamos ao poeta de «Os Simples», numa outra faceta da sua vida – a de apaixonado pelas antiguidades, que colecionou abundantemente e que também negociou...
O poeta fez várias viagens, percorrendo o País de lés-a-lés, em busca de loiças antigas e de móveis. Ao longo da vida, adquiriu larga experiência e conhecimento que lhe permitiu reunir uma valiosa coleção que, em parte, chegou aos nossos dias na Casa-Museu Guerra Junqueiro no Porto.
Um dia, algures Entre-Douro-e-Minho foi-lhe dado visitar uma casa antiga, solar levemente decadente, no qual caixotes de batatas e legumes coexistiam com velhos móveis e arcazes indo-portugueses, em que na antiga biblioteca havia galinhas e coelhos em inteira liberdade...
Mas a atenção de Guerra Junqueiro fixou-se num gatinho e no pequeno prato onde se dessedentava com sopas de leite... O poeta afeiçoou-se ao simpático felino e pediu à dona da casa se poderia levá-lo consigo... A senhora hesitou. Referiu o afeto que reservava ao animal. Mas Junqueiro insistiu muito e com tanto enlevo, que lá levou o gato... Mas convém acrescentar que não esqueceu o respetivo pratinho, que era uma preciosidade autêntica da Companhia das Índias...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Certa amiga minha - Senhora da minha geração, que à advocacia consagrou parte grande da sua vida - no intervalo de outras obras também se entretém, para animar o seu merecido retiro, a comentar atos e factos, ditos e escritos ou seja, a atualidade e as suas circunstâncias. Quando me lê ou escuta - e sou discreto e infrequente - morde-a sempre o alicate da contestação, em sentido próprio, não pejorativo, de resposta dialética. Concorde ou desacorde, fico-lhe sempre grato pela frontalidade, feliz pela gentileza, lisonjeado pelo apreço e contente com a ironia... Bem haja, Maria de Lourdes!

 

   Não engraçou com eu não ter achado graça à laracha do nome Taqui Tali Taculá:  acha que este define ludicamente o dom de ubiquidade do Senhor Presidente da República... Para a sossegar, reconfesso que tal piada não me provocou qualquer saudável hilariedade, quiçá mais por causa do que me parece falta de jeito ou tonta formulação de uma "inspiração", do que pela graça em si. Bem lida a frase onomástica, ficar-lhe-ia melhor graça chinesa do que japonesa: não só porque os nomes sínicos são em regra três, e os nipónicos apenas dois, mas também porque as consoantes líquidas os confundem em sentido foneticamente inverso: o chinês gosta de pronunciar sempre L, o japonês R. Caricaturando, sem malícia: se eu pedir a um chinês que repita laranja, ele dirá lalanja... Se assim desafiar um japonês, ele pronunciará raranja... Não creio que seja motivo de troça, todos os povos têm sotaques, e suas regiões também assim se distinguem, e até conheço muitos "orientais" que pronunciam "corretamente" palavras "ocidentais", tal como muitos europeus que nunca acertam com o u francês nem com o portuguesíssimo ão. Dá graça ao mundo, sobretudo se soubermos gostar das diferenças de pronúncia e devidamente apreciá-las... Embirro com chacota e, por paradoxal que pareça, sou todavia defensor do respeito escrupuloso de transcrições fonéticas com inteligível leitura acordada porque, embora nos deem mais trabalho, nos ajudam a entender e respeitar melhor as falas dos outros. Refiro-me, Princesa de mim, a transcrições fonéticas, não aos chamados acordos ortográficos... São coisas muito diferentes, embora, aliás, tal não pareça ter sido devidamente entendido pelos promotores de certos "acordos"... 


   Mas não te escrevo hoje para te falar disso. Nesta cultura de equívocos em que mergulhamos, é mais preocupante, creio eu, Princesa, a facilidade com que, na chamada "comunicação social", qualquer pessoa bem introduzida nos quiçá misteriosos (ou simpatizantes?) canais de acesso ao público, inclusive gente de espírito pouco culto, ou só ignorante e pretensiosa, ou talvez simplesmente obcecada ou facciosa ganha um espaço de "visibilidade" negado a outros. Há de tudo. Sobretudo muito "marketing" à mistura e também isso a que poderíamos chamar, parafraseando Kundera, a sustentável leveza da fama... Receio que - para além da infeliz ou nefasta divulgação de disparates e mentiras - tal vá paulatinamente minando a credibilidade dos chamados órgãos de comunicação social e, consequentemente, como temos visto, levando à proliferação de "tweeterismos" vários... Por isso também se vêm repetindo, graças a Deus, os apelos à reeducação do espírito crítico e a um renascimento dos "estudos gerais" e "humanidades". Haja bom senso!

 

   Surpreendeu-me o Ípsilon do Público de 2 de junho p.p. com quatro páginas dedicadas à recente edição de uma tradução da Epopeia de Gilgamesh pela Assírio & Alvim, intitulada Épico de Gilgames, por Francisco Luís Parreira. O autor da resenha crítica - para mim tão desconhecido como o tradutor - não poupa elogios à que considera (não sei com que autoridade) a única tradução fidedigna, que se tornará indispensável a todas as traduções ou edições futuras em português... E já antes peremtoriamente nos esclarecia de que: Luxuriantemente anotada e comentada (o corpo do poema ocupa uma centena de páginas, as restantes 150 sendo consagradas à minúcia exegética), valiosa e ostensivamente erudita, a tradução de Francisco Luís Parreira parte do "texto sinóptico transliterado da edição crítica" (trata-se da edição de 2003 do reputado assiriologista Andrew R. George) mas teve em conta "os contributos trazidos pelos achados recentes" (onze fragmentos novos identificados no Museu Britânico e um outro "resgatado, já em 2011, ao saque patrimonial em curso no Iraque e na Síria") e os "estudos assiriológicos posteriores". Presumo, Princesa de mim, que a fidedigna tradução de Parreira - a tal que "parte do texto sinóptico transliterado da edição crítica" - é afinal uma versão portuguesa da tradução para inglês, do original acádio, feita pelo professor Andrew George. Cheirou-me logo pelo título "Épico de Gilgames". Como sabes, Princesa, em língua latina, épico é um adjetivo que quer dizer heroico. Em português, continua a ser adjetivo, mas também, e só, substantivo quando se refere à pessoa ou autor do poema ou da narrativa: temos, assim, um poema épico, uma história épica... ou um épico, muito simplesmente, quando nos referimos a um poeta épico, Camões, por exemplo. A expressão inglesa The Epic of Gilgamesh, em versão portuguesa correta será A Epopeia de Gilgamesh... No texto original, apenas adivinhamos... Além disso, como poderia traduzir tanto texto acádio em escrita cuneiforme, levando pouco mais de um ano, alguém que, como o próprio Parreira reconhece, não tem a assiriologia como "campo académico"? Tenho aqui a edição da versão inglesa de Andrew R. George, publicada em 1999 na Penguin Classics. Ao acaso, abro o livro, detenho-me num passo, busco o mesmo no texto português de Parreira. Vê só, verso a verso: Surpassing all other kings, heroic in stature / supremo entre os reis, soberbo de estatura / brave scion of Ulruk, wild bull on the rampage! / bravo nativo de Ulruk, touro branco enristado! / Going at the fore he was the vanguard, / Marchando na dianteira, era ele o chefe, / going at the rear, on him comrades could trust! / ou, seguindo na retaguarda, arrimo dos camaradas! 

 

   A competência do professor inglês da Universidade de Londres é mundialmente reconhecida, e acho muito bem que, não havendo entre nós quem saiba de acádio ou escrita cuneiforme para se atirar a uma tradução direta do original, se recorra e uma versão inglesa daquela qualidade. Já mais dificilmente aceitarei que o tradutor de inglês para português possa afirmar, como o faz Francisco Luís Parreira na entrevista dada a Mário Santos, o seguinte: Ora, o panorama editorial internacional só registou, até agora, duas traduções integrais do poema que refletem, de raiz, as descobertas e os critérios de George; uma alemã, de Stefen Maul, já com integração de achados posteriores à edição crítica, que ele próprio decifrou, e a minha, que é a primeira a incorporar numa edição "harmónica" o texto do mais importante achado das últimas décadas, o do museu de Suleymaniah, só editado em 2014. É simples a razão da minha reserva: sabemos que a Epopeia de Gilgamesh, tal como muita outra literatura antiga, designadamente aquela que se vai descobrindo por achados arqueológicos, paulatinamente se revela, e ninguém sabe ainda dizer o que encerram textos inscritos no barro, mas ainda não decifrados, muito menos se e quando outras tabuinhas em escrita cuneiforme serão encontradas. Parreira apenas juntou, ao texto que Andrew George "transliterou" do original e ele posteriormente traduziu do inglês, as traduções - presumo que do inglês ainda ou doutra língua europeia - de placas com escrita cuneiforme recentemente descobertas... Daí a reclamar um inexistente protagonismo na tradução "integral" da epopeia arcádia... vai um passo algo exagerado, posto que, incapaz de ler os textos originais na respetiva língua e escrita, nem sequer tem autoridade para afirmar quais deles serão integrais... E ainda se esquece de referir que o professor doutor Manuel Bouzon, padre assiriólogo e biblista, da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro, antes de morrer, quase concluíra, em 2006 a tradução direta do original àquela altura conhecido, como tampouco refere os trabalhos de investigação e tradução do assiriologista francês Jean Bottéro, de que já te falei em cartas anteriores, aliás publicadas no blogue do CNC em 14 e 23 de março e 11 de abril de 2014 (com os títulos de Onde se fala do 7º príncipe de Condé, Como árvores andamos..., Entre cá e lá...).  Todavia, na bibliografia apensa às suas tradução e notas, inclui a menção de obras de Bottéro, incluindo a versão francesa, diretamente do original acádio àquela data já conhecido, de L´Épopée de Gilgames (Gallimard, Paris, 1992), que possuo e li. [A talho de fouce, lembro-me do meu saudoso amigo professor António Sousa Franco, que aconselhava aos seus alunos doutorandos a inclusão, nos anexos às respetivas "teses" ou dissertações, só da bibliografia que eles efetivamente tivessem lido ou consultado].

 

   Nada disso, todavia, retira interesse à publicação de Francisco Luís Parreira, que não deixa de ser uma trabalhosa divulgação de uma narrativa ou epopeia mítica que informou congéneres bíblicas e ainda hoje nos interroga sobre a nossa condição e os nossos anseios, e vai à questão do destino, da vida e da alma humanas. Mesmo que exaustivamente bebida na obra de Andrew George, traz esta edição portuguesa outro contributo ao conhecimento da Epopeia de Gilgamesh e da sua cultura e circunstância, precisamente pela abundância das notas coligidas. Mas não pode, nem deve, retirar mérito a outras obras e seus autores, muito menos diminuí-los. Nem esquecer que poderá haver quem prefira edições menos "eruditas", até por razões tão singelas como gostos de leitura: eu, por exemplo - que não sou nem pretendo ser um perito ou sequer simples estudioso da literatura sumério-babilónica - sinto mais agrado em ler o texto "prosaico" de Pedro Tamen, do que a rebuscada versificação de Parreira. Gostos, Princesa de mim, e desgostos: porque se há-de traduzir wild bull on the rampage! por touro branco enristado!? Também por isso me parecem escusadas e deslocadas, na entrevista conduzida por Mário Santos, e no artigo deste, as referências feitas a Nancy Sandars, Pedro Tamen e, ainda Frederico Lourenço (!). Passarei a explicar-me-te, Princesa de mim. Antes, porém, deixa-me dizer-te que, quando me interrogo sobre qual a autoridade com que fulano ou beltrana se pronunciam sobre dado tema, não procuro qualquer referência necessária a créditos ou títulos escolares,  mas antes me debruço sobre provas de esforçado trabalho ou investigação e, sobretudo, de honestidade intelectual, que mais não é do que essa humildade de que falava Sócrates: Só sei que nada sei... Pretender, como Mário Santos, que em português (de Portugal), e para além de fragmentos traduzidos no âmbito de ensaios ou estudos mais ou menos académicos, circulou nos últimos 40 uma esforçada versão prosaica (sic) feita pelo poeta Pedro Tamen a partir de uma estropiada versão inglesa, para justificar a afirmação de que a presente tradução de Francisco Luís Parreira vem suprir uma lacuna... trata-se, por inerência, de uma edição histórica... e é já um dos melhores "livros do ano"... deveria ser também um acontecimento literário... dispensa qualquer comentário direto. Será que ele quer dizer, com versão prosaica, versão em prosa?Não terá reparado em que Pedro Tamen se limita a traduzir do inglês a versão em prosa de Nancy Sandars, aliás publicada, pelo menos em 1960 e 1972, pela Asian Society e pela Penguin Classics, e elogiada por críticos e letrados assiriólogos? Na verdade, Nancy Sandars, nascida numa família da aristocracia militar britânica, falecida em 2015, aos 101 anos, na mansão familiar onde nascera, foi amplamente recordada, designadamente na imprensa inglesa ( v.g. The Times, The Daily Telegraph, etc.), por universitários e jornalistas, como competente arqueóloga e tradutora, ela que corajosamente tivera de superar uma doença tuberculosa que quase a cegara e por bastante tempo lhe impedira a leitura... Com que fundamento, na entrevista, o próprio Parreira afirma que o trabalho de Pedro Tamen é a tradução de uma prosa inglesa, redigida na década de 1950 por uma divulgadora chamada Nancy Sandars, que se limitou a transvazar materiais babilónicos heterogéneos então conhecidos em forma romanesca. O facto de na capa da edição portuguesa não constar sequer o nome da autora, permitindo a impressão errónea de que se trata do épico babilónio, sugere-me, entre outras, a reflexão de que trabalhos desse género são mais prejudiciais que benéficos. Fui verificar, à edição portuguesa que possuo: na capa apenas surge Gilgamesh; na página 4, em sítio devido, tal como em letras maiores, na página 5, informa-se que se trata da Versão de Pedro Tamen do texto inglês de N. K. Sandars. Na edição do "Épico" (em vez de Epopeia, como seria correto em qualquer língua latina) "de Gilgames", a capa apenas anuncia tradução, introdução e notas de Francisco Luís Parreira e, nas páginas 3, 4 e 5 assinala-se que se trata da versão Babilónia Padrão, a qual mais não é, esclarece-se na página 7, do que a rapsódia do material épico de Gilgames em doze tábuas ou capítulos, composta c. 1200 a. C. por um redator mesobabilónico... sem qualquer indicação da versão inglesa, essa sim, traduzida por Parreira, que não lê acádio nem caracteres cuneiformes. Na verdade, quando ele afirma, na introdução à sua tradução, que a matriz da presente tradução é o texto sinóptico transliterado da edição crítica - que em nota final diz ser a transliteração sinóptica do poema, sucessivamente atualizada por Andrew George - reconhece que o texto por ele vertido para português é a sinopse, em inglês, da transcrição para caracteres latinos da pertinente escrita cuneiforme, trabalho executado por aquele professor inglês. Daí me parecer algo extravagante a pergunta que Mário Santos lhe dirige na entrevista para o Público: Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê? O jornalista talvez não soubesse que as traduções de Frederico Lourenço são feitas diretamente do grego clássico original, não são versões de versões, o que, de per si, as situa num plano de consideração onde ainda não podemos colocar o trabalho de Francisco Luís Parreira. Aliás, as notas "eruditas" também se traduzem mas, falando de Frederico Lourenço, as que ele junta, por exemplo, à sua tradução da Bíblia grega são de sua própria autoria, decorrem do seu próprio labor de entendimento direto do grego clássico.

 

   Aqui tens, Princesa, o que penso. Para concluir que a leitura do Gilgamesh de Pedro Tamen (tradução de The Epic of Gilgamesh de Nancy K. Sandars) é muito agradável, sem complicações rebuscadas, não sendo por isso menos fiel ao encanto da lenda e dos mitos com que a narrativa original e milenária ainda hoje nos leva a pensarsentir a misteriosa aventura humana e a sua circunstância. E para te confessar que a rebuscada versão portuguesa de Francisco Luís Parreira me torna mais pesada a leitura. Todavia, estando esse texto mais de acordo com o do Babilónia Padrão, e incluindo trechos traduzidos de achados arqueológicos mais recentes, servirá certamente melhor aqueles leitores que pretenderem aproximar-se de uma edição crítica mais completa e tenham qualquer dificuldade em dispor ou consultar diretamente as versões inglesas (e não só) das transliterações feitas por esses estudiosos estrangeiros.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

A «ABERTINHA» DE GUALDINO...

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XII) - 12 de agosto de 2017

 

Já conhecemos Gualdino Gomes, o crítico de teatro que tinha presença certa na boémia de Lisboa e fazia escritório na «Brasileira».

Na sessão de estreia de uma peça bastante publicitada, que tinha lugar no Teatro Ginásio, o conhecido jornalista estava pronto para comentar o espetáculo em cujo elenco havia figuras de proa do meio artístico...
Tudo começou e desenvolveu-se, a preceito como mandam as regras – no entanto depressa se percebeu que aquele não era dia de sucesso. A peça era vulgar, os atores não estavam em forma, o ensaio deixava muito a desejar, as fragilidades eram tais que a voz do ponto era demasiado audível e as deixas estavam mal combinadas.
Gualdino preparou um estratagema para se libertar daquele suplício – e, meu dito meu feito, a certa altura, havia uma tempestade em cena, que amainava para alegria do crítico... E então o escriba, levanta-se de modo ostensivo e diz: - «Vou-me andando, deixa-me aproveitar esta abertinha»...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins