Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   José Augusto Mourão, frade dominicano, semiólogo e professor universitário (UNL-DCC), de quem já te falei, escreveu o posfácio para A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol, um dos três livros que, para consolo ou provocação do espírito que eu não queria ver a concentrar-se em cirurgias, decidi que andariam comigo. Serão textos difíceis, isto é, exigirão atenção, mas eis o modo que encontrei para me distrair de atrapalhações sobre as quais pouco entendo e nada posso. Em tempo de bem vinda chuva, clareou a tarde deste domingo, e fui ao fundo do jardim iluminar-me com o amarelo solar da mimosa em flor, exuberante, carnavalesca, em qualquer inverno, em pleno fevereiro. E esta é teimosa sobrevivente, a única que escapou ao tornado que nos varreu em dezembro de 2013. Cheio dessa alegria interior, vim pegar nos textos reservados, e escolhi para ti aqueles que aquela exuberância floral mais iluminou na presente leitura. Há comunicações esquisitas como estas vozes da luz que não se ouve...

 

   Mourão recorda, na senda de Llansol, o "meu" querido Mestre Eckhart, de que tantas vezes te falei e em mim sempre sustenta o indizível:

 

   A vida, como a literatura, não é um estado mas um ato. A vida feliz, escrevia Eckhart, consiste em entrar no seu próprio fundo e, chegado lá, em «agir» «sem porquê», «nem por Deus, nem para a sua própria honra, nem pelo que quer que seja, mas unicamente em consideração daquilo que é em si o seu próprio ser e a sua própria vida» (Sermão 6)... [...] A única resposta à vertigem é o ritmo. O ritmo - o ritmo poético, o batimento da língua - é uma figura. A imagem - a imagem poética - é uma figura. A língua do poeta configura-se, o poema é uma configuração. O «como» da comparação é também um «cum» - um com -,, logo uma reciprocidade, uma mutualidade. Para o artista, o mundo é o lugar de desenvolvimento das figuras. É a figuratividade do mundo que o poema diz.

 

 

   O secular não é só o profano, e o sagrado não é o equivalente de «sobrenatural», eterno ou «supra-humano». A secularidade sagrada reage contra a dicotomia das cosmovisões dualistas: o tempo agora e a eternidade depois. Tenta superar o dualismo sem cair no monismo; distingue, mas não separa. As fórmulas de samsara/nirvana/atman, theios/theopoiesis, união hipostática, Encarnação, tudo aponta numa mesma direção: os valores seculares são sagrados. Pannikar propõe a palavra tempiternidade para exprimir esta intuição.

 

   Sabes bem, Princesa de mim, quanto tenho insistido no meu muito íntimo pensarsentir o cristianismo como a incarnação de Deus, a secularização do sagrado, quiçá no cerne de um processo de renovadora transformação do cosmos, como acreditava Teilhard de Chardin. Ou frei Sérgio de Beaurecueil, solitário padre católico em Cabul, quando trazia o seu quinhão de pão partilhado com muçulmanos ao almoço e o consagrava, ao fim da tarde, na sua capelinha. O Corpo de Deus não é coisa que se exponha à reverência, antes é a comunhão dos homens no amor, sublime ação de graças, eucaristia. A nossa religião nada tem de mágico; ou, se assim quiseres, tem como única magia o incessantemente repetido gesto de Deus a querer habitar o coração dos homens. Quanto à escrita de Maria Gabriela, que aqui me trouxe a ti, lê comigo a Lição 1ª de A Restante Vida:

 

   Ana de Peñalosa chegou ao fim da vida. Ser o fim é-lhe indiferente, não tem muito sentido. Mais uma vez pensa utilizar

a escrita

que sempre lhe serviu

de laboratório

e de alquimia.

 

                                             Refletindo,

                                             disse para consigo:

                                             Não será uma arte demonstrativa.

 

A escrita,

vê-la escrever-se lucidamente,

é o fundamento deste real.

 

   Este livro que venho trazendo comigo é o segundo da trilogia Geografia de Rebeldes, que começara com O Livro das Comunidades e se termina com Na Casa de julho e agosto. No final da reedição deste, em 2003, insere a Relógio de Água, o Espaço Edénico - uma entrevista que a autora deu a João Mendes, publicada pelo Público em 18 de janeiro de 1995. Desta te transcrevo uma simples resposta da escritora, que me ajuda a pensar no que te tenho dito:

 

   Como não sou teóloga, o que vejo no texto é que há uma «presença insondável» na nossa vida. Não vale a pena ter medo dela. E tens os atributos. Não há maneira de passar em silêncio. E tens a substância. Com as palavras, não a consegues falar; mas ninguém te impede de caminhar na direção da tua imagem. Conheces outra utilidade melhor para o teu corpo?

 

   E agora, Princesa de mim, sou eu a dizer-te que não, que não conheço. Fez-se escuro lá fora, calaram-se todas as vozes dos campos. Mas dentro de mim me chama a luminosidade de uma mimosa em flor, no céu de fevereiro. Vês? Também não sou teólogo, nem coisa que se pareça. Sou um homem simples que olha para o céu a fechar-se sobre os campos. Citadino de origem, no século XXI, já sei que ele, o céu, não é uma abóbada, nada que nos cubra e obrigue - com sinais de cometas, meteoritos ou estrelas fugazes - mas algo que o nosso conhecimento ainda não sabe nem pode limitar... E tanto, ou tão pouco, me basta para contemplar e amar a infinitude de Deus. Eterna saudade que me chama, sempre a mesma, incansável vocação, mesmo falando muitas vozes. Gente que se diz muito religiosa, cheia de uma fé inamovível em dogmas definitivos, quiçá possuidora de conceitos arquitetados para encerrarem Deus, pensará que serei pouco ou nada religioso. E, na sua perspetiva, tem certamente razão. Afinal, eu acredito numa presença insondável na minha vida, como um sopro que me move e percorre o mundo todo. Esperança em que, no dia tremendo da paz, o amor mandará finalmente nisto tudo.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

TEATRO MARIA MATOS

 

EVOCAÇÃO DA ATRIZ MARIA MATOS NA CARREIRA, NO ENSINO, NA CULTURA TEATRAL

 

O Teatro Maria Matos, inaugurado em Lisboa no final de 1969 e municipalizado em 1982, integra-se na linha de construção/renovação dos edifícios nas zonas mais recentes da cidade, que adotaram a funcionalidade do espetáculo a nível dos rés-do-chão de edifícios de vocação comercial e /ou habitacional: teatros “de bolso” como então se dizia, pela integração em prédios comerciais e de arrendamento, por vezes ocupando e transformando o espaço originalmente reservado a garagens. Já vimos aqui, aliás, o Teatro Villaret, percursor do movimento de construção e rentabilização teatral decorrente.

 

Trata-se de uma inovação epocal, mas sobretudo, de uma rentabilização de investimento, muito positiva em si mesma: são muito numerosos os teatros, construídos no século XIX ou mesmo os cineteatros, estes a partir dos anos 20 do século passado, que pela sua implantação em zonas centrais de vilas e cidades, foram progressivamente demolidos para dar lugar a construções mais rentáveis no ponto de vista de investimento, e quantas vezes menos adequadas à implantação em centros históricos e à arquitetura correspondente. De alguns, temos aqui dado noticia, aliás sem pôr em causa a qualidade arquitetónica de muitos deles.

 

E quando estes teatros “de bolso” independentemente da respetiva estrutura interna e lotação, se implantam em zonas modernas das cidades, então só há que elogiar a iniciativa e procurar garantir a viabilidade económica e a qualidade artística… o que nem sempre é possível, como bem sabemos.

 

Tudo isto vem a propósito do Teatro Maria Matos: e desde já insista-se na referida adequação até da designação da sala, inaugurada como vimos em 1969, num projeto complexo urbano integrando, alem do mais, um cinema e um hotel. Mas tenha-se presente que o Teatro tinha no início do século uma lotação de mais de 550 lugares em plateia e balcão, e uma sala de ensaios. E desde logo se notabilizou pela qualidade da sala e também pelas máscaras de Martins Correia e pelo painel de Maria Helena Madureira.

 

Maria Matos (1890-1952) foi na sua época e ainda é hoje um grande nome de qualidade e prestígio no meio teatral português. Era professora de Arte de Representar e Encenação no Conservatório Nacional, onde por razões familiares ainda a conheci.

 

Mas a carreira de Maria Matos vinha de 1907, ano em que se estreou no TNDMII e onde se manteve até meados da década seguinte. Em 1913 funda com o ator Francisco Mendonça de Carvalho, seu marido, uma empresa de teatro declamado. A tradição prolongou-se na carreira da filha, Maria Helena Matos e do genro, Henrique Santana, este como sabemos “herdeiro” também da obra e vocação do pai, Vasco Santana: e tantas e tantas vezes os vimos atuar com enorme talento, qualidade e sucesso.

 

E Maria Matos participou ainda em filmes de Artur Duarte, com destaque para os que foram extraídos de textos de comédias de João Bastos: “O Costa do Castelo” e “A Menina da Radio”, realizados em 1943 e 1944 respetivamente. Mas teve outras intervenções episódicas em filmes diversos. Escreveu poemas e algumas comédias (“Direitos do Coração”, “A Tia Engrácia” e “Escola de Mulheres”. E em 1955 foi publicado um livro de Memórias.

 

É pois meritória e adequada a designação do Teatro Maria Matos, o qual foi inicialmente concebido pelo arquiteto Fernando Ramalho. O projeto sofreu alterações já em fase de construção e o edifício, tal com foi inaugurado, deve-se aos arquitetos Aníbal Barros de Fonseca e Adriano Simões Tiago. O Teatro era dirigido por Igrejas Caeiro, a quem cabe esse mérito indiscutível da iniciativa. E estreou com um texto de Aquilino Ribeiro, a partir de “O Tombo no Inferno”.

 

Na época escrevi que se compreendia mal a seleção da peça, independentemente da qualidade da escrita em si mesma e do justificadíssimo prestígio, que dura até hoje, de Aquilino. Mas já na altura, o texto estava teatralmente ultrapassado: e a qualidade da interpretação, com Mário Pereira, Rui Furtado, Hermínia Tojal, Lurdes Norberto, Costa Ferreira, Elvira Velez, grandes nomes da cena da época, numa encenação de Artur Ramos, não conseguiu ultrapassar as limitações cénicas do texto, independentemente, repita-se, da qualidade geral da obra romanesca do autor.

 

O Teatro Maria Matos funcionou durante anos como desdobramento de companhias ligadas à RTP, sob a direção de Artur Ramos. Estreou numerosos textos portugueses importantes, alguns proibidos antes de 1974. Num texto que publiquei em 2005, citei em particular, (antes proibidos ou não) por exemplo “Legenda do Cidadão Miguel Lino” de Miguel Franco ou “O Encoberto” de Natália Correia, alem de peças de Bernardo Santareno e adaptações de Eça e da “Seara do Vento” de Manuel da Fonseca, entre muitos outros. (in “Teatros de Portugal” ed. INAPA- pág. 83).

 

A Câmara Municipal de Lisboa publicou em 2002 um estudo abrangente e da grande qualidade e documentação, da autoria de Maria do Céu Ricardo, precisamente denominado “32-Teatro Maria Matos (1969-2001) – Um Teatro com História”, que assinala e documenta, e passo a transcrever, “os trinta anos desde que o Teatro Municipal Maria Matos abriu, pela primeira vez, as suas portas à população da cidade de Lisboa”. Trata-se de um levantamento de repertórios e elencos, estes na ordem das centenas de nomes de artistas que preencheram a atividade do Teatro Maria Matos.

 

Entretanto já decorreram mais 16 anos: e só se deseja que essa vastíssima atividade prossiga com qualidade e repercussão cultural.

 

  

DUARTE IVO CRUZ

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

4. PORTUGAL E A EUROPA NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO - I

 

 

Ao invés de Vieira, Pascoais, Pessoa, Agostinho da Silva e António Quadros, Eduardo Lourenço parte da convicção da não existência de um destino providencial, mítico, messiânico, da ausência de utopias variadas, exaltantes, de insondável enigma e irredutível originalidade para o povo português e, assim sendo, o seu convencimento de que não é mais predestinado, heroico, sábio ou virtuoso do que outros povos. Entende que a história cultural portuguesa tem de ser inserida, em primeiro lugar, no espaço geográfico da Península Ibérica e, em segundo, e de modo mais determinante, na análise relacional e sem complexos da história da nossa cultura frente a frente com a história da cultura europeia, numa base despreconceituada e com a ausência, à partida, de qualquer tipo de inferioridade ou superioridade.

 

Segundo Eduardo Lourenço, temos historicamente um percurso num espaço inconciliável entre o modo como somos e o modo como quereríamos ser ou que deveríamos ser. Existe, em cada português, uma desproporção, um duplo estado de espírito ou de alma em que cada um sente o que ontologicamente é (país pequeno, pobre, carente de recursos ou de recursos limitados, conservador, atrasado por confronto com a Europa de maior desenvolvimento económico, científico, social e cultural) e o que imageticamente nos é dado ver através da leitura da história pátria (o mito dos Descobrimentos, da Expansão Ultramarina, o sonho do Quinto Império, a quimera de um Estado Imperial Uno do Minho a Timor, dos amanhãs que cantam milagreiros esperando a salvação).

 

Esta dupla consciência que acompanha a maioria dos portugueses, que se sintetiza na diferença imaginária, em cada época histórica, entre a realidade e a ficção, é o que o pensador e ensaísta designa por “o irrealismo prodigioso que os portugueses fazem de si mesmos” (O Labirinto da Saudade). Acrescenta que esta “forma mentis” e caraterística permanente de ser português, tanto nos tem arrastado para as maiores decadências, como para o crer de que somos, por condição e destino, um povo eleito, por vezes adormecido, mas sempre imprevisível e preparado para novas descobertas, lançando novas naus da civilização. Cita que alguns dos maiores vultos de Portugal, mesmo em pleno século XX, não se alhearam desta condição de ser português, como Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A esta “forma mentis” de ser português designa-a de tipo traumático.

 

Foi esta contradição entre um passado glorioso e a nossa diminuída realidade presente que nos levou a treze anos de guerra colonial, e que nos conduziria a um terceiro traumatismo profundo, isto é, à perda do Império colonial em 1975. Terá sido então o projeto político de integração na Europa Comunitária que terá compensado a amputação provocada pela descolonização, permitindo a ultrapassagem sem cicatriz duma ferida simbólica que em geral provoca noutros povos tragédias inultrapassáveis, exemplificando-o com a França em relação à Argélia.

 

Se desde cedo havia sempre insistido no reatamento das relações com a Europa, tipo “O diálogo que nos falta”, só após o 25 de Abril vê Portugal apostar politicamente, enquanto projeto nacional, no diálogo com a Europa.

 

Este cartão de cidadão dos portugueses, assente numa intrínseca e estrutural fragilidade, é compensada pelo “irrealismo prodigioso” por que nos imaginamos e vemos mentalmente a nós próprios como país e povo dotado de uma missão histórica providencial.

 

Embora Eduardo Lourenço, no Labirinto da Saudade, chame a atenção para o facto de estas duas imagens antagónicas serem imagens irreais que Portugal arquitetou e imagina, a verdade é que elas permanecem, até aos nossos dias, no imaginário coletivo português.

 

Revelam um excessivo sentimento de superioridade que oscila com um não menos excessivo sentimento de inferioridade, uma representação nacional excessiva, uma hiperidentidade, ora excessiva e eufórica, ora depressiva e doentia.

 

Ora somos os ou dos melhores do mundo, ora somos os ou dos piores do mundo. Ora somos otimistas em excesso, ora somos pessimistas em excesso.

 

Tanto nos deslumbramos e vangloriamos excessivamente pelo pioneirismo nas descobertas ou achamentos, como em fazer o culto excessivo de dizer mal de nós próprios.

 

Havendo que estabilizar e normalizar, com equilíbrio e recurso ao bom senso, esta desproporção entre o que somos e o modo como imaginamos ser ou deveríamos ser.

 

14.03.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Tentaremos dar seguimento ao que escrevemos sobre as aulas de Jose Luis Aranguren. Referíamos, na penúltima Crónica da Cultura, que, antes mesmo de sabermos se o saber científico e técnico são o suficiente para a ordenação total da vida, a que estado deveria chegar o nosso raciocínio para provar a insuficiência desta afirmação e descobrir o quanto o conceito daquilo que se entende por «experiência de vida», deverá conquistar-se através dos conceitos filosóficos de prudência e sabedoria, de modo a que só no momento pleno em que saibamos o que é experiência de vida, e que relação ela estabelece com a moral, então poderíamos sim, preguntarmo-nos pelo modo de a adquirir e inclusive pela possibilidade ou não de a conseguirmos transmitir.

 

Entendemos estas questões como sendo do maior interesse para indagarmos qual o cerne que nos espreita da própria experiência de vida e assim determinarmos o seu posto e a sua função na nossa vida, na vida do homem.

 

Na realidade, muitos são os que entendem que a totalidade da vida se organiza a partir da ciência e segundo a ciência, e que mesmo a felicidade pode surgir por uma espécie de human engineering, e mesmo sendo as relações humanas muito complexas, a ciência pode reduzi-las ao princípio mais simples. Ainda que assim fosse, perguntaríamos onde ou como a verdadeira justificação científica pode surgir, se pensarmos em saberes costumeiros de uma vontade que muitas vezes, nem claramente foi identificada? Então estaríamos perante uma utópica ciência, se esta pretende formular uma pretensão de domínio do uso científico da razão sem que se chegue à realidade enquanto tal.

 

Julgamos que se pode responder às perguntas com a ciência, não sabemos, contudo, se neste caso não haverá um abuso da própria ciência?, na verdade é indeterminado e imprevisível o futuro da história ou o futuro pessoal. Não existe um cálculo da história como um cálculo matemático e a razão científica não o é em plena profundidade se o seu raciocínio se fizer desconhecendo os passos de uma experiencia a viver, ou mesmo da experiência vivida em diferentes realidades.

 

Como afirma Xavier Zubiri, a ciência é dirigida para a confirmação das suas hipóteses e a experiência é «algo adquirido en el transcurso real y efectivo de la vida, el haber que el espírito cobra en su comercio efectivo com las coas», em suma no lugar natural da realidade.

 

Enfim, se experiência da vida não é o mesmo que ciência, também não é o mesmo que filosofia, por mais perto que esteja desta, já que a filosofia assenta numa pretensão de um sistema, de um método, ambos afastados da experiência da vida, e a filosofia ainda que possa ser também «uma filosofia da vida», nem sempre o foi, nem tem que o ser primariamente.

 

Veremos se a prudência de que falamos não carece de vários graus de entendimento para ajustarmos as realidades, e tão bem que elas nos são propostas por Aranguren.

 

Teresa Bracinha Vieira

Até onde pode ir a literatura na leitura de Mia Couto?

 

Até onde podemos ir, até onde pode ir a literatura, parece ser a pergunta constante de Phillip Rothwell, professor catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford. No seu livro “Leituras de Mia Couto – Aspetos de um pós-modernismo moçambicano” com uma tradução e introdução de Margarida Ribeiro. Em rigor este ensaísta britânico considerado um dos professores de Estudos Portugueses mais inovadores da sua geração e dominando continuadamente a literatura portuguesa, reconhece, por óbvio, em Mia Couto o grande escritor de língua portuguesa legitimado em todo o mundo.

 

A sua capacidade de analise da escrita de Mia passa necessariamente por lhe reconhecer os mapas geográficos, étnicos e religiosos e de onde a história também é contributo ao colocar no lugar certo as questões universais, tal como o faz em plena mestria este escritor único que é Mia Couto que tão excelentemente une a identidade múltipla de um povo a uma nação-a-ser como menciona Margarida Calafate Ribeiro.

 

Chama-se a atenção neste livro para a luz da literatura no seu papel crucial de construir identidades culturais e politicas numa linguagem de esperança que revela um Moçambique para moçambicanos geradores de continuidades. Mia Couto persegue o situar a ideia de nação e Mia Couto lido por Phillip Rothwell faz-nos entender que sempre as fronteiras trazem suspeitas e entre a verdade e a falsidade Mia usa as técnicas do pós-modernismo para do percurso literário europeu o transformar no que poderíamos chamar de “autenticamente” africano para os europeus o que nos coloca no país em diferença no seu movimento.

 

Mia é nome de mulher, e Mia Couto é um escritor branco que representa Moçambique. E alerta-nos o ensaísta para esta absoluta literatura nacional de Mia Couto, igualmente riquíssima em cultura portuguesa. Assim se conjuga o europeu e o africano e questionando a modernidade a partir de Moçambique.

 

Este livro de Rothwell coloca-nos sempre a pergunta: até onde poderemos ir? E ir na literatura? Uma proposta belíssima ao pensar. Uma proposta para melhor conhecermos Mia Couto no seu modo de ir respondendo a estas duas questões fundamentais.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Jürgen Partenheimer e a realidade para além do visível.

 

'Images do not capture particular moments, nor do they comment on the absence of what is represented. Rather, they show the presence of what was felt, as a presence of the awareness that is concerned with the causes [aitía] and the principles [archai] as described by Aristotle in the first book of his Metaphysics. Images are projections of sensations. They image our conceptions and feelings, giving us an idea of the world we have seen and thought.', J. Partenheimer, 1991

 

A obra do artista alemão Jürgen Partenheimer (1947) está enraizada na abstração e implica uma interconetividade constante entre o desenho, a pintura, a escultura e a cerâmica.

 

Para Partenheimer a essência da criação consiste em fazer sem razão e em criar um discurso filosófico e poético que transite entre a realidade e a imaginação, entre o que é físico e a experiência espiritual.

 

As linhas desenhadas são frágeis, delicadas e descontínuas. As formas e as cores são suaves mas firmes e precisas.

 

'People go out to admire the summits of the mountains and the waters of the sea, the flow of rivers, the expanse of the ocean and the paths of the heavenly bodies, and while doing so they lose themselves.', Santo Agostinho

 

Para Partenheimer, a arte deve revelar o espírito humano e contribuir para dar sentido à unidade da criação e do cosmos e ajudar na descoberta da verdade (que implica a coexistência constante da dúvida e da esperança; da sensibilidade e da racionalidade; da estultícia e da sabedoria; da natureza e da ficção).

 

Lê-se no texto 'Wanderings - Real Experience and Artistic Form', de Uwe Wieczorek que o mundo das formas criadas por Partenheimer parece criado simultaneamente através da lente de um telescópio e de microscópio. Não há certeza acerca da escala das formas, das linhas, das manchas, das cores que flutuam nas suas pinturas. Todas emergem de uma visão que vem de dentro. Pode falar-se de paisagens macrocósmicas que são traduzidas pelo artista através de mapas. As construções pictóricas são ambíguas - combinam elementos figurativos e abstratos, proximidades imediatas e distâncias longínquas. Partenheimer revela que deseja mapear 'the realm of the universal song-lines and dream paths, but also the realm of the sky between the clouds, of day dreams and of the spiritual, as well as the space of time between breathing in and breathing out.' 

 

Partenheimer anseia tocar, através dos instrumentos da arte, em áreas da existência que são fluídas, transitórias, imateriais e intangíveis. Fenómenos variáveis e mutáveis são objeto da sua atenção. O artista cria formas através de imagens desfocadas, revelando incertezas. As suas pinturas são como que ritos de passagem entre o tocável e o intocável, são fronteiras, intervalos, pontos de conversão, mudanças de posição. 

 

O carácter automático, gestual e espontâneo de alguns dos seus trabalhos revelam uma aparente incompletude e correspondem ao conceito de forma aberta e espiritual que derruba a barreira entre o físico e o mental. Não são realidades que são reveladas, são fenómenos. Não transportam pensamentos racionais, são entendimento direto. Assim, Partenheimer consegue criar uma distância concreta em relação aos objetos que são materiais.

 

'At the top of the wave you put the telescope to your eye. The imagination is reflected a thousand times within the confines of the sea. Who, if not us, will sound out the spaces in between, will deregulate the senses? Science, dream and digestion.', J. Partenheimer 

 

Ana Ruepp

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

NOITE DE CERES

 

1 - A 11 de agosto de 2001 - poucas horas antes de um dos mais duros telefonemas da minha vida -, na Alte Pinakothek de Munique, o Jorge fez-me reparar que o "descanso na fuga para o Egipto", um dos temas mais recorrentes na pintura ocidental entre o século XV e o século XVIII, não era referido por nenhum dos Evangelistas. Estávamos diante de um óleo pintado sobre cobre, assinado por um pintor que só muito vagamente me dizia alguma coisa: Adam Elsheimer. Um cobre de pequenas dimensões (31x41) mas que, mesmo de longe, saltava aos olhos. Saltava aos olhos? Dez anos antes eu visitara essa Pinacoteca - mítica para mim, desde a mais remota infância - e não me lembrava de o ter visto. Devia estar tão aturdido com a imensidão das telas que há quarenta e oitos anos me esperavam - longa, longuíssima noite - que Elsheimer me passou em claro ou me ficou em escuro. Ou então ainda não estava preparado para o encontrar. Acontece ou acontece-me. 

 

Mas a 11 de agosto de 2001, não. O tema (já lá vou) costuma ser pintado à luz do dia ou à luz do entardecer. No óleo de Elsheimer (se há, não me lembro de outra representação semelhante) a Sagrada Família descansa à noite. Aliás, não é ela, quase toda no escuro, quem se impõe a atenção, embora esteja no centro da placa. Em noite tão cerrada, em meio a tão brumoso e manso bosque, duas fontes de luz convocaram-me primeiro. À esquerda, a fogueira acesa por uns quantos pastores, que ainda não repararam na aproximação dos foragidos, concentrados numa labuta mais tardia. À direita, a lua muito cheia, refletida nas águas de um lago, tão redonda no céu, onde acabou de nascer, como nas águas onde se começou a refletir. Só depois reparei numa terceira fonte que noctiluz. É uma tocha na mão de S. José, que provavelmente lhe serviu para guiar os passos do burrito, depois do escurecer e antes do nascimento da lua. Só então observei que, sem essa tocha, pouco visível e virada para o solo, nem veríamos a Virgem, que ele se prepara para ajudar a descer, nem o Menino que traz ao colo. O luar ainda não chegou até eles e grandes árvores, muito frondosas, interpõem-se entre eles e a fogueira dos camponeses. As copas das árvores formam uma diagonal que desce da esquerda alta, onde estão os pastores, até à direita baixa das águas do lago. Diagonal paralela à Via Láctea que se vê no céu. Mas a Sagrada Família vem da direita e seguirá para a esquerda, depois de passar a noite, ali, onde há água para beber e onde não se descortina sinal de perigo. O guia do museu pergunta: " Como não ver neste quadrinho as primícias do espírito romântico, onde ao homem apraz errar numa paisagem nocturna, transfigurada por uma paz idílica?". É bem possível que Caspar David Friedrich e outros românticos alemães se tenham inspirado nesta reproduzidíssima pintura. Mas o prodigioso jogo de luzes vem de Caravaggio, que Elsheimer tanto estudou e anuncia Rembrandt ou Claude Lorrain. Deixo essa conversa para mais logo, pois que, antes de falar do pintor, me apetece falar do pintado e regressar à fuga para o Egipto.

 

2 - O único Evangelista que refere essa fuga é São Mateus. Após descrever a visita dos Magos e antes de contar do massacre dos inocentes, diz: "Depois que partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egipto. Fica lá até eu mandar, pois que Herodes procura o Menino para o matar. José levantou-se, tomou de noite o Menino e Sua Mãe e retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o oráculo profético do Senhor: "Do Egipto, chamei o meu filho" (Mt. I, 2, 13-15). Mas o episódio do descanso, que tanto inspirou os pintores, não é referido. A inspiração veio-lhes de um apócrifo, o chamado Evangelho do Pseudo-Mateus, também conhecido como Evangelho da Infância. Nele se lê: 


"Dois dias depois após a partida, aconteceu que Maria, no deserto, sofreu com o excessivo calor do sol e, vendo uma palmeira, desejou repousar um pouco à sombra dela. José apressou-se a conduzi-la até à palmeira e ajudou-a a descer da montada. Quando Maria se sentou, levantou os olhos para a folhagem da palmeira, viu-a carregada de frutos e disse: "Oh, se fosse possível que eu comesse os frutos desta palmeira!". José disse-lhe: " Mulher, o teu desejo espanta-me, pois bem vês como a palmeira é alta. Tu pensas nos frutos da palmeira, eu penso na água que começa a escassear nos nossos odres e não sei onde os encher para extinguir a nossa sede." Então, o Menino Jesus, sentado ao colo de Sua Mãe, a Virgem, disse à palmeira: "Árvore, inclina-te e reconforta a minha mãe com os teus frutos." Palavras não eram ditas, a palmeira inclinou-se até aos pés de Maria e, depois de colhidos os frutos que nela estavam, todos se reconfortaram. Mas após todos os frutos terem sido colhidos, a árvore continuou pendente e, esperando, para se levantar, ordens daquele que lhe tinha ordenado que se inclinasse. Então Jesus disse-lhe: 'Levanta-te, palmeira, fortifica-te e junta-te às árvores que possuo no paraíso do Meu Pai. Faz brotar das tuas raízes fontes ocultas, donde corra a água que nos sacie'. Imediatamente, a palmeira se levantou e das suas raízes brotou água límpida, fresca e dulcíssima". Se o texto serviu de inspiração, nunca foi tomado muito à letra, dada a heterodoxia da origem. Mas as palmeiras são árvores constantes em quase todos os "repousos na fuga para o Egipto", bem como fontes, lagos, riachos que não faltavam com água a quem tinha que atravessar desertos. 


No cobre de Elsheimer, não há calor, há frio, mas não falta a água. Tudo demasiado mágico, demasiado onírico? Mas foi num sonho, mesmo nos textos canónicos, que foi dada ordem de fuga a José e ninguém nunca narrou perigos ou privações durante uma viagem que qualquer hebreu sabia ser árdua. Os pintores (quase todos) deixaram em elipse as peripécias (dragões, feras, a história que faz remontar à palmeira mágica a ideia da palma do martírio) mas guardaram visões postas em sossego, isentas de angústias mas não de encantamento.

 

3 - Lembrei-me de tudo isto, folheando o último número da "FMR", na nova fase da revista, agora que Franco Maria Ricci a abandonou. A nova diretora - Marilena Ferrari - teve a ideia de consagrar esse número a uma antologia dos melhores textos nela publicados. Entre eles, está um de Yves Bonnefoy, consagrado também a Elsheimer. Fala-se muito da Fuga para o Egipto, mas o quadro que detém o autor, não é esse mas aquele que se chama a Irrisão de Ceres e que está no Prado. O tema não é bíblico mas buscado às "Metamorfoses" de Ovídio, tão constante origem dos pintores dos séculos XVI e XVII como os textos bíblicos. Também tem que ver com um repouso, também tem que ver com a sede, e também é uma visão noturna. Ceres, filho de Saturno e Reia, engendrara de seu irmão Zeus, Prosérpina, que lhe foi roubada por Hades, Senhor dos Infernos. Ceres não se conformou e correu mundo em busca do filho. Uma noite chegou a um pobre tugúrio e pediu de beber à velha dona dele. Esta dá-lhe uma bilha com água, que a deusa, avidamente, leva à boca. Só que, nesse momento, um rapazinho, figurado todo nu, "de rosto fechado e agressivo" - 'duri puer oris et audax' - começou a fazer troça da sofreguidão da mulher. 

Ceres, posta em irrisão, vingou-se e transformou-o num lagarto que se escondeu sob as pedras. Comenta Bonnefoy: "Passado o tempo da religião romana, nada nesta história faz muito sentido. Mas foi escrupulosamente preservado na pintura. Porquê? Porque uma história a que o ouvinte não pode conferir sentido imediato, é sempre uma história de sonho (...) Sonho noturno, esses infindáveis feixes de símbolos de significados indecifráveis. Elsheimer quis fazer aparecer o que é inerente à atividade onírica, mas que, até ele, tinha sido negado, censurado, por todas as formas de busca espiritual. Quis registar, e depois indicar que há um simbolismo específico do sonhador, rebelde ás categorias do saber oficial e até mesmo capaz - quem sabe? - de lhe subverter os fundamentos, supostamente baseados em Deus (...) "Na atmosfera antinatural do sonho (...) o que distingue Elsheimer de pintores como Carracci ou Caravaggio é alguma coisa de muito mais enigmático (...) essa coisa de que são feitas as imagens nocturnas, tão facilmente imagens de pesadelo. O pressentimento do inconsciente acompanha, em Elsheimer, a impressão que a realidade - ela também 'duri oris et audax' - se recusa aos sentidos que lhe queremos dar e não permite mais a esperança nessa unidade da alma com o Ser, que, durante tantos séculos, nos alimentou o espírito". Bonnefoy, no mesmo texto, vai ao ponto de dizer que Elsheimer antecipa as descobertas de Freud.

 

4 - Nunca vi - ou se vi não me lembro - o quadro de Madrid. Mas seja a noite de Ceres, à porta de uma cabana, seja a noite da Virgem no descanso na fuga para o Egipto, a perturbação é semelhante. A emoção provocada por símbolos que não podemos perceber e por imagens cujo nexo nos escapa. Uma beleza com que se pode sonhar mas que jamais podemos identificar como existente. De que pintor estou eu a falar? De um alemão que nasceu em Frankfurt em 1578, que aos vinte anos se fixou em Veneza, que em 1606 se converteu ao catolicismo em Roma, onde viveu dez anos, até morrer, aos 32 anos, em 1616. 


Quando ele morreu, Rubens, que fora amigo dele, escreveu a um amigo comum: "Toda a nossa profissão devia vestir-se de luto (...) Deu-nos coisas que nunca havíamos visto e que não veremos nunca mais." 


Munique. O telefonema. A lua, o fogo e a tocha. As águas paradas do lago. A Fuga para o Egipto. O sonho de José. A palmeira inclinada. As fontes subterrâneas. A irrisão de Ceres. A sede de Ceres. O rapazinho nu a rir. Adam Elsheimer. Estou a falar do que vi, do que li, ou estou - eu também - a contar-vos um sonho, "un rêve si noir, mais avec toujours quelques feux ici ou là sous les arbres"? Não façam caso. Ou antes: façam um caso.

 

João Bénard da Costa
7 de maio 2004, Público

LONDON LETTERS

 

Sailing ships, 2017

 

Very big political days and, another big win for The Brexiters. As duas Houses of Parliament aprovam a European Union (Notification of Withdrawal) Bill, após breve ping-pong legislativo entre os Lords e os Commons. Her Majesty sela o Royal Assent nos próximos dias. Os Remainers regressam aos tribunais. —  Chérie.

Goutte à goutte l'eau creuse la pierre. Que se vivem dias históricos não há dúvidas. The Honourable Company of Edinburgh Golfers vota favoravelmente a admissão no Muirfield Club de “women members,” quebrando misógnica regra datada de 1744. Na Bute House também a First Minister RH Nicola Sturgeon anuncia um segundo referendo à emancipação de Scotland, depois do “one-generation vote” pelo United Kingdom de 2014. O Sinn Féin segue-lhe os passos na Northern Ireland. — Hmm. Catch your bear before you sell its skin. Elizabeth II descerra o Iraq & Afghanistan War Memorial em London. O centrista 2017 Bugdet agita os Conservatives e Tories há a ver RH Phil Hammond como Labour Chancellor no Exchequer. Nos US continua a novela da Russian Connection na Trump Administration. Já as sondagens francesas apontam consistentemente para corrida a deux ao Palais de l'Élysée, entre Madame Marine Le Pen e Monsieur Emmanuel Macron. Na campanha holandesa é o choque do populista Mr Geert Wilders com o liberal Premier Mark Rutte, com a “Nexit” como tema forte. O Der Spiegel declara o “Nein Danke” à ideia das “German nukes.”

 

  


Plenty sunshine over London, with light winds in the Highlands and dreary clouds over Stormont!
Os elementos de interesse abundam em volta, esfumada sem rasto que está a ora tradicional marcha de protesto em Westminster City durante o weekend – desta vez, creio, sobre as mulheres. Sejamos, pois, seletivos quando os temas da town talk deambulam pelas “unfortunate leaderships”. A semana é marcada pelo simbolismo. Her Majesty preside a cerimónia nacional de homenagem aos militares e civis que serviram a pátria nas guerras do Iraq e Afghanistan, conduzindo um Drumhead Service na Horse Guards Parade. Ainda com as armas a troar em Mosul, na animada bancada central em Whitehall pontua um rosto fechado entre veteranos, membros da Royal Family e dignatários: RH Tony Blair, cedo captado pelas câmaras dos repórteres. A imagem fala por si; The Times esculpe-a em manchete para a posteridade. Elizabeth II presta tributo aos heróis também descerrando um memorial junto ao edifício do Ministry of Defence, nos Victoria Embankment Gardens, uma estátua da autoria de Mr Paul Day e à qual fica colada a “lonely soul” do decisor de 2003.

 


O palco político vive outros momentos de trepidação, vários dos quais radicam em idas opções dos tributos de moeda e sangue exigidos aos comuns. Westminster Square centra horas de tensão em torno do Euro vote, requerendo registo do efeito imediato. À agitação dos atores locais reagem os mercados globais com olímpico alheamento: “The pound has barely reacted.” Já a envolvente revela fossos que se alargam. Na Eurasia ocorre troca de Nazi-Islam Tennis entre Berlin e Ankara, para continental ver, enquanto o EC President Jean-Claude Juncker antevê o tempo onde “Britain will re-enter the boat” ao dissertar em Brussels sobre as “EU continental ambitions.” Por cá antes os contrários visam desfavorecer o Number 10 com a divisão de forças em duplo jogo: aquém e além Channel. Alguém pediu a referendum crisis? Sobre o #IndyRef2 ontem exigido pelo partido no poder em Holyrood para o semestre do Autumn 2018/Spring 2019, atenção aos protagonistas. A FM Nicola Sturgeon justifica a iniciativa não com ideologia nacionalista ou futura prosperidade dos highlanders, sim com a Brexit. A Scottish Tory Leader Ruth Davidson censura-a por escolher “the path of division and uncertainty.” A PM May sintetiza as posições ao declarar que “the SNP's tunnel vision is deeply regrettable.” O programa das festas nortenhas segue dentro de momentos, com o Labour “absolute fine” a favor e contra novo referendo escocês consoante quem opine.

 

Terminado está o Westminster Match. Os Lords lutaram bravamente pelas emendas à EU Bill, sem contudo demover os Commons de ratificar a anterior decisão sem perda de tempo. A natureza de cada uma das Houses of Parliament explica as posições de cada qual, sendo os números da representação a ditar o resultado legislativo. Uns questionam e outros respeitam a vontade popular, expressa no referendo de 23rd June. HM Government tem agora plenos poderes para formalizar a saída do UK da European Union, em estreita passagem maritima entre os rochedos nacionalistas de Holyrood e de Stormont. Já hoje de manhã é a própria Prime Minister RH Theresa May a anunciar aos MPs que, tal como planeado, accionará o Article 50 do Lisbon Treaty “by the end of the month.” Mais: Her Majesty aporá o Royal Assent nos “coming days.” Se frustradas ficam as expectativas de pronta abertura das negociações London-Brussels, nomeadamente nas chancelarias ocidentais que há duas semanas aguardam a May’s Withdrawal Letter, já a ala dos Hard Remainers não espera e ultima novo processo no Supreme Court para bloquear o divórcio. Nos julianos Ides of March anda pulsão schmitteana.

 

Fechemos com notável nota botânica, que do naming friend or foe bem escreve Herr Carl Schmitt. O último recenseamento arbóreo identifica mais de “1,000 previously unknown ancient oak trees” em England, com raízes recuadas às eras da génese da nacionalidade e dos reformadores Tudor. As estatísticas são simplesmente fabulosas e distinguem o reino de William The Conqueror e dos seus nobres terratenentes: 85% dos veneráveis carvalhos têm entre 400 e 600 anos de idade, datando 12% de há 600 a 800 anos a par de 3.4%, uns sagrados 117 exemplares, nascidos há 800 a 1.000 anos. A pesquisa do Woodland Trust foi desenvolvido no último quadriénio em colaboração com o Ancient Tree Forum, o Tree Register e os Royal Botanic Gardens. Da Quercus heritage mais desvendará o Professor Aljos Farjon no seu livro Ancient Oaks In The English Landscape, na prensa e a lançar pelo historiador conservacionista de Kew a 1 May 2017. — Well. Some of those survive from Master Will’s time and not by chance he writes in The Tragedy of Macbeth how the trees of Birnam Wood helped the victory of the English army: — What is this / That rises like the issue of a king, / And wears upon his baby-brow the round / And top of sovereignty? | Listen but speak not to ’t. | Be lion-mettled, proud, and take no care / Who chafes, who frets, or where conspirers are. / Macbeth shall never vanquished be until / Great Birnam Wood to high Dunsinane Hill / Shall come against him.

 

St James, 14th March 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de março de 2017.

 

«Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo» nasceu em 1941, por iniciativa de António Ferro, tendo publicado quatro séries até 1973, dentro da preocupação de promover, interna e externamente, Portugal como destino turístico.

 

 

UMA REVISTA NOVA
Quando hoje voltamos a folhear a revista «Panorama» fica-nos uma dupla sensação – a da grande qualidade gráfica e a da presença de um conjunto de artistas com reconhecimento geral, sobretudo quando nos reportamos à fase inicial, em que António Ferro tem uma significativa margem de manobra na capacidade de atrair os melhores artistas do momento. As ilustrações de Bernardo Marques, Emmérico Nunes, Ofélia Marques, Paulo Ferreira, Manuel Lapa, Eduardo Anahory ou Júlio Gil marcam a identidade da revista. Para Ferro, seria importante apostar na vertente das artes. E diz: «Enganam-se os homens de ação (…) que desprezam ou esquecem as belas-artes e a literatura, atribuindo-lhes uma função meramente decorativa (…). A política do Espírito (Paul Valéry acaba de fazer uma conferência com o mesmo título) não é apenas necessária, se bem que indispensável em tal aspeto, ao prestígio exterior da nação: é também necessária ao seu prestígio interior, à sua razão de existir». Não por acaso, o Secretário da Propaganda Nacional vai buscar um título muito prestigiado para a nova revista – nem mais nem menos do que o do órgão da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, que fora dirigida por Alexandre Herculano a partir de 1837, contando com a participação das principais figuras culturais portuguesas da época, como António Feliciano de Castilho, Oliveira Marreca, Camilo Castelo Branco... Lembremo-nos que a revista romântica apresentava um mote «positivo, otimista, apaziguador, apelando ao entendimento entre todos os liberais» - não tendo entrada os assuntos políticos… Agora os tempos eram outros e o conteúdo cultural e científico da velha revista não seria replicado no novo órgão de comunicação. No entanto, a qualidade gráfica tornar-se-ia a marca que compensaria um conteúdo essencialmente de divulgação, sobretudo centrado em iniciativas oficiais ou próximas, apesar de algumas colaborações serem assinadas por especialistas de prestígio, como Reynaldo dos Santos, João Couto, Diogo de Macedo ou Reis Santos. Contudo, António Ferro é, sem dúvida, quem marca a revista nas suas origens e na sua missão, nitidamente orientadas por objetivos de divulgação e propaganda, com um sentido de favorecimento económico – compreendendo a importância crescente do turismo no mundo – e de promoção do regime político. Os sucessores de Ferro seriam, aliás, essencialmente continuadores do projeto, sem carácter inovador. Referimo-nos a António Eça de Queiroz, José Manuel da Costa, Eduardo Brazão, César Moreira Baptista e Pedro Feytor Pinto.

 

UMA LÓGICA PREMONITÓRIA
Quando hoje regressamos à memória histórica da revista, temos de compreender a sua natureza e o facto de o seu fundador ter entendido a importância da ligação entre o turismo e a cultura. Essa compreensão conduz, naturalmente, a que seja a fase inicial a mais interessante da vida da revista, uma vez que estamos perante a sua natureza precursora e o ativismo do seu fundador. Como afirma Reis Torgal, A. Ferro é, sem sombra de dúvidas, um «intelectual do Estado Novo», como o foram D’Annunzio, Marinetti ou Gentile em Itália, supondo esse conceito «um certo nível de produção e intervenção cultural e uma problematização de conceitos, servidos por uma boa leitura, mais ou menos complexa ou simples, de obras e de autores, de estéticas, de sociedades, de políticas e de religiões». E é esse perfil que nos permite hoje debruçarmo-nos sobre a originalidade e a importância do seu papel, fora de juízos de valor ideológicos, que pecariam sempre por anacrónicos. E que visa o ativismo de António Ferro? Valorizar o que os portugueses tinham para dar. E o seu percurso pessoal e intelectual não permite fechar-se numa lógica provinciana. Dir-se-ia que há um culto paradoxal da lógica nacionalista – já que, defendendo-a, não esquece o cosmopolitismo que os modernistas representam. Essa coexistência de fatores diferentes nota-se na revista «Panorama», em que a estética moderna vive paredes meias com a tradição e a lógica conservadora. O folclore, a aldeia mais portuguesa de Portugal, a simbologia popular não deixam de ser cultivados com as audácias de quem não esquecia a participação na aventura de «Orpheu».

 

O JORNALISTA DE OUTRORA…
O jornalista de outrora não esquecia o que dissera um dia nas termas de Vidago, sobre quem jamais conseguiria divertir-se, levando consigo uma «apagada e vil tristeza» «em que a raça se afunda, que dá a Portugal uma atitude sonâmbula, mediúnica, que espectraliza os seres em árvores, que dá às árvores uma expressão humana». Do mesmo modo, não esquecia a «povoação abandonada, suja, uma terra maldita, uma terra de farrapos, de gatos lazarentos, de mendigos torpes, de crianças que são chagas», a propósito de Moledo do Minho… Como poderia haver turismo nessa vil tristeza, nesse abandono ou entre tais farrapos? Mas também lembrava o que dissera de José de Almada Negreiros quando o apresentou no dia em que leu em público a genial «Invenção do dia claro»: «Imaginário quer dizer, para mim, um profissional do Sonho, aquele que desenha imagens no papel, Ingres da Alma»… E não dissera de Mário de Sá-Carneiro: «quando aqueles que se esquecem dele estiverem todos esquecidos, Mário de Sá-Carneiro será lembrado»? Afinal, tal como os seus companheiros de «Orpheu» tinham desejado culturalmente, haveria que abrir portas ao Imaginário. Se virmos o pensamento de António Ferro sobre o turismo, há uma premonição sobre a importância futura dessa indústria – apesar da guerra mundial parecer contradizer essa tendência inexorável. O tempo longo veio a confirmar a intuição do intelectual, desmentindo, porém, a lógica autárcica… Só uma economia aberta e não protecionista poderia favorecer a livre circulação dos turistas… Havia uma inteligência fina que antecipava as grandes tendências, mas descria agora dos ideais republicanos que abraçara outrora – preferindo a mão dura de um Estado forte. Percebe-se, contudo, como a personalidade irrequieta do fundador da nova revista era complexa e contraditória. E essas características permitiram antecipar a tendência dos factos e antever o desenvolvimento da ligação indelével entre cultura e turismo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


   Ruben A.

Minha Princesa de mim.

 

   Vivi hoje uma experiência intrigante para mim, quiçá despicienda para outros: cheguei a casa, aqui no meio do campo, depois de quatro dias de cidade e hospital, com uma cicatriz (?) inchada no pescoço, vaga memória de uma cirurgia e o habitual desarranjo dos antibióticos. Tudo OK! Vim direitinho a este gabinete onde me guardo de muitos malefícios, e passeei o olhar turvo para além da janela, sobre os campos que uma quieta tristeza invernal e uma paz sem tempo me descobriram bem belos... Foi um alívio, renasci, isto é, abri olhos novos. Tinha levado comigo, para entretém convalescente, Os Degraus do Parnaso, do M. S. Lourenço, A Restante Vida, da Maria Gabriela Llansol, e o 1º volume de O Mundo à Minha Procura, do Rúben A. Tenho coisas para te dizer de todos eles, ou melhor, dos passos deles que fui relendo. Mas agora, já caída a noite, e a caminho de um aconchego no silêncio que recolhe esta casa quase deserta, quero transcrever-te um trecho de O Mundo à Minha Procura - que levarei para vale de lençóis: Sou, portanto, contrário a que uma autobiografia se escreva no momento da reforma, quando se deixou de ser chefe de Estado, se abandonou a vida pública, ou quando da caneta já nada mais pinga. Uma autobiografia como O Mundo à Minha Procura só pode ser escrita por volta dos quarenta anos. Deixá-la para mais tarde é deixar vivência poderosa que se acarreta, mas que na pista dos quarenta tem de alijar parte da carga que trouxera das estações do passado. Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental, e no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra...

 

  Reconheço-me, nesta vida campestre que há três meses iniciei, na limpeza da casa, nas telhas procuradas, num novo sistema de sentimento do mundo, num jardim com a delícia de inexplicável paz, nessa voz que me diz, todas as manhãs, que daqui para a frente a contagem é outra. Essa é, para mim, a voz da Misericórdia a acolher-me, e sempre me diz que não tenha pressa, pois o dia que chega é como todos os outros: traz suor e pão. Tampouco tenho com que escrever uma autobiografia, ainda que me aproximando de duas vezes quarenta... Seja como for, viver no campo faz do citadino de mim um velho novo.

 

   Rúben A. publicou este primeiro volume da sua autobiografia em 1966, com quarenta e seis anos de idade, nove antes de morrer, de um enfarte, em Londres. O título está bem achado, o que o autor nos conta é a história dos seus encontros e desencontros com o mundo, a dialética dele mesmo com a sua circunstância, que tanto o faz tornar-se dela como dela fugir. Eis a vida de um ser em relação, narrada com a simplicidade de memórias autênticas, percebida com desconcertante ingenuidade, esta entendida como a inocência inicial. Quando há décadas li pela primeira vez o livro todo, aconteceu-me o que me sucedeu com El Amor en los Tiempos del Colera do Gabriel Garcia Marquez e O Ano da Morte de Ricardo Reis do José Saramago: levei o volume para a cama e só o fechei na manhã seguinte. Mais tarde, regressei a eles todos, para reler passos ou trechos, e também acabei sempre por descobrir coisas que antes não encontrara. Esta noite, reencontrei aquela parte em que Rúben A. nos conta:  Vem-me logo à imaginação o caminhar apressado da rua para apanhar o elétrico que dava mesmo para a primeira aula, aquela rua sem fim, palmilhada com o credo na boca e que servia aos últimos momentos para, de livro em punho, saltando de cova em cova, estudar, rever, passar a limpo pela memória as conjugações irregulares dos verbos franceses, as descrições mineralógicas de cristais que viviam apenas na minha imaginação, e o muito teórico latim, o famigerado latim, o facinorado latim. E o horror que eu tinha em ir ser chamado, em ir pôr-me em sentido diante dos professores de gerações já passadas há muito tempo! Quem escreve aquelas linhas é licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra e no momento da escrita, penso, seria funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa. Ou antes será o adolescente que morava na casa grande da sua avó, na Quinta do Campo Alegre, no Porto (onde hoje é o Jardim Botânico) e vai a caminho do liceu?

 

   Desta feita, o que descobri (novamente?) e me fez pensar foi algo que com alguma frequência pensossinto, sempre com receio de estar a ser injusto, isto é, de ter mais direito ou virtude do que outros. A dado passo, não é o jovem liceal que fala, mas certamente o homem maduro, mordido e marcado: Na sociedade portuguesa há um ciúme indescritível perante a coragem e perante a cultura. Que um dos seus membros se liberte pelo espírito ou pelo valor humano é o maior insulto que eles, atrasados culturais, julgam que se lhes pode fazer. Sentem-se ofendidos, reagem de certo modo com maledicência, uma vez que não tendo nem grandes amores nem grandes ódios oferecem apenas o mesquinho da perseguição, fechando as casas, achando as pessoas um peso, ou votando a um ostracismo aqueles três ou quatro - em cada década só há também três ou quatro aves migradoras - bodes expiatórios da purga mental da sociedade, ancorados para toda a vida a um inferno. Esquecem-se da felicidade que irá acolher os eleitos, os que souberam fazer a escolha depois de anos de amadurecida visão, depois de terem estado sós... ... Não compreendem, porque está fora do seu alcance, o sentido de plenitude contemplativa que paira em seres semelhantes mas de idioma mais delicado...   ...São os cadáveres adiados que procriam, de que fala o genial Pessoa... ... Têm uma linguagem especial; raros são os que tentam novo alfabeto. Só conheci um homem rico e civilizado em Portugal - o resto são amigos uns dos outros, falam em cifras, comungam moedas, apertam a mão em notas e quando conjugam a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo dar enganam-se e dizem o pretérito em dei. Já dei, já dei, como quem foge a esconder-se de uma peste. Não tenho tido, na vida, mesmo apesar de agressões sofridas, experiências traumatizantes. Talvez por sempre me ter lembrado desse ensinamento de minha Mãe que dizia como, perante, certos ataques ou negações da nossa circunstância, devemos pensarsentir que ça glisse sur la cuirasse de mon indiférence... Mas este passo de O Mundo à Minha Procura - que, neste particular, até me apetece, com alguma ironia, traduzir para francês como Ce Monde qui me Cherche - evoca em mim impressões mais ou menos vagas ou constantes da atmosfera grupocêntrica da sociedade portuguesa, composta de clubes ou partidos que gostam de se reunir no seu modo próprio, pensando sensivelmente da mesma maneira, repudiando por princípio o outro, olhando para a diferença com superioridade, desconfiança ou receio. Já reparaste, Princesa, que em vários sectores da nossa sociedade aparecem sempre os mesmos a perorar e sustentar-se? Nesse sentido, somos profundamente provincianos. E creio que, precisamente porque nos encerramos em ortodoxias e correções, não nos autodesenvolvemos. Vamos "lá fora" buscar ideias e vocabulário, nem sempre reparando em muitos erros de tradução. Deixa-me transcrever para ti um parágrafo de Uma Pérola para Fradique, texto inserto em Os Degraus do Parnaso do M. S. Lourenço: Eça de Queiroz convence ao desenhar um verdadeiro cosmopolita na figura de Fradique. Nós sabemos que este é o cosmopolitismo verdadeiro em virtude da perceção de Portugal que ele torna possível, uma perceção dura mas que sugere também um programa de regeneração: Portugal é na verdade um país traduzido do francês para calão. A descoberta cosmopolita de Fradique, de que os portugueses só utilizam uma variante reles da sua própria língua, contém no entanto em si a possibilidade de os mesmos portugueses deixarem de falar, de pensar e de sentir em calão.

 

   Escrever-te esta carta, Princesa de mim, foi um exercício de alívio do incómodo físico em que me encontro. Bem hajas!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira