Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 19 a 25 de junho de 2017.

 

Pico della Mirandola (1463-1494) foi o mais célebre erudito do seu tempo e o maior cultor das Humanidades e escreveu “Discurso sobre a Dignidade Humana” (1480), traduzido em português pelas Edições 70 (2011).

 

APRENDER A DIGNIDADE
Falar de Humanidades, hoje e sempre, é reportarmo-nos a uma aprendizagem ligada à dignidade humana. Quando tomamos contacto com um texto clássico, vindo da tradição oral da civilização grega, como a «Ilíada» ou a «Odisseia», ou com um antigo diálogo filosófico, estamos no cerne das Humanidades. Do mesmo modo, quando nos deparamos com o património imaterial da humanidade – a gastronomia, as línguas, as tradições, os costumes - ou com a cultura científica e as técnicas ancestrais e novas. É de Humanidades que falamos – muito mais do que de cultura geral, ou de ideias genéricas. Muitas vezes, julga-se que o alargamento das fronteiras da Humanidades visa diluir os limites entre saberes e enfraquecer as ciências sociais e humanas. Puro engano. Lembre-se os exemplos de Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro. É de Humanidades que falamos para qualquer um deles, como procura e encontro de saberes e conhecimentos, que permitam melhor compreender a humanidade. E as modernas neurociências têm permitido salientar a importância da capacidade criadora das sociedades humanas e das pessoas – o poeta e o cientista encontram novos caminhos quanto ao conhecer e à criatividade em processos semelhantes. Por isso, estamos a abandonar o otimismo da autossuficiência, percebendo-se que a ciência económica ou a sociologia, a história ou a biologia, a arte e a física não podem viver separadamente, na ignorância umas das outras. Para tanto, impõe-se um caminho de partilha e de complementaridade. Dê-se dois exemplos recentes: o progresso das novas tecnologias de informação e comunicação não pode fazer esquecer que se impõe reforçar a relevância das relações interpessoais (a robótica deve facilitar a qualidade de vida e a integração das pessoas); do mesmo modo, quando vemos a evolução da ciência económica, facilmente percebemos que a recente crise financeira obrigou a articular cada vez mais o risco e a incerteza como fatores de análise, o que determina que a complexidade e a partilha de experiências entre equipas se tenham tornado elementos cruciais que permitem superar as limitações das explicações unívocas ou centradas em projeções lineares do crescimento económico… A desvalorização das Humanidades tem correspondido, assim, à subalternização da complexidade como método científico transversal – capaz de favorecer a especialização (e não a fragmentação), o espírito de equipa e de compreender que o desenvolvimento humano obriga à articulação das duas culturas de C. P. Snow, sem subalternizações nem complexos de superioridade e inferioridade. Como salienta a Professora Isabel Capeloa Gil: “Sem enveredar pelo género da jeremiada da crise, pretendo (…) pensar a importância das humanidades e ciências sociais como macroárea e propor que, apesar de constituída como saber próprio e disciplinarmente organizado, esta é afinal a base conceptual transversal necessária a qualquer trabalho em ciência. (…) Interessa-me propor uma reflexão sobre a importância social de um discurso sobre a falta de impacto, de utilidade, na verdade, de falta de valor das humanidades e ciências sociais” (in Humanidade(s) – Considerações radicalmente contemporâneas, Universidade Católica Portuguesa, 2016, pp. 12-13). E é daqui que devemos partir, de modo a assegurar a compreensão do fenómeno complexo da criação e de garantir um progresso partilhado de métodos em nome de uma autêntica e profícua cultura científica. E não se pense que o problema é meramente teórico, porque não é, já que está em causa a mobilização de recursos, a definição de prioridades e a existência de condições concretas para o progresso das ciências – com todas as implicações sociais, económicas, políticas, educativas…

 

BASE DE UM PROJETO EPISTEMOLÓGICO
Importa, no fundo, assumir, como faz Isabel Gil, que as humanidades constituem a base de qualquer projeto epistemológico. Toda a ciência é, no fundo, uma ciência humana. Cabe às Humanidades levantar questões e exercer uma função crítica – pondo na ordem do dia o espanto, donde resulta o pensamento, como origem e impulso da investigação. E assim as Humanidades são definidoras de uma matriz societal, a começar na Europa. Uma ciência de excelência não pode desenvolver-se sem considerar essa força criadora. Mais do que falarmos dos critérios gerais para financiamento de projetos, por exemplo, no âmbito da União Europeia e do Programa Horizonte 2020, no qual se tem verificado uma subalternização das Humanidades (em sentido estrito) e das Ciências Sociais, importa definir com muita clareza a articulação transversal dos diversos campos do conhecimento. E é na transdisciplinaridade que as Humanidades devem ganhar maior importância. De facto, o futuro dos saberes e da investigação científica depende do cultivo das ciências sociais e humanidades. Os Principia de Newton, Electricity de Franklin ou o Tratado de Química de Lavoisier foram a um tempo obras científicas e literárias – e são monumentos da cultura científica e das Humanidades. Longe de uma separação, há uma natural ligação. Condorcet defendeu a harmonização das artes com as ciências e Rousseau no célebre Discurso sobre as ciências e as artes afirmou que as ciências da natureza não poderiam separar-se das artes, sob pena de contribuírem para o atraso moral da humanidade. Quando F. R. Leaves respondeu a C. P. Snow, dizendo que o apelo deste para que os académicos da literatura se familiarizassem com a segunda lei da termodinâmica era um exemplo de diletantismo académico, não tinha razão, uma vez que a cultura científica tende a atenuar as fronteiras tradicionais entre o método explanatório das ciências naturais e o método interpretativo ou hermenêutico das ciências humanas. Do que se trata é de encontrar no diálogo científico novas pistas que permitam compreender melhor o mundo. Como tem defendido Martha Nussbaum, importa considerar o regresso à educação de valores, segundo um conhecimento não padronizado e uma visão transversal do saber assente num novo senso comum… É a democracia que está em causa, que exige a criação de uma cultura universal decente. Não se trata, pois, de fazer uma análise estática, dentro do pressuposto de que prevalecem os critérios tradicionais de permanência das circunstâncias conhecidas – “a universidade deve transmitir conhecimentos sólidos, competências sociais, culturais e técnicas robustas que permitam aos licenciados adaptar-se às transformações, e não a agir simplesmente como instituição que se adapta ao mercado” (p.55). Pico della Mirandola continua a ser o melhor esteio neste tema difícil das Humanidades. É necessário o diálogo de saberes e o fim do divórcio entre as duas culturas. Saber lidar com as leis da física, com os computadores, com as novas tecnologias, mas também com as artes tradicionais, será tão importante como conhecer o grego e o latim e ler os grandes textos e os grandes autores. Afinal, as Humanidades são “as guardiãs da república, fonte de memória nacional e vigor cívico, da compreensão cultural e comunicação, da realização individual e das ideias que partilhamos em comum” – como disse John Hennessy, presidente da Universidade de Stanford.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   No seu texto de apresentação da exposição L´Au-delà dans l´art japonais (Paris, 1963), de que te falava na minha última carta, Seiroku Noma não podia esquecer o monge Mincho (século XIV-XV), pioneiro da utilização da tinta da china na pintura japonesa, e diz: As obras de Mincho e de Josetsu acentuaram o vigor do desenho, como que para mostrar a acuidade da intuição do Zen, e os seus temas foram sobretudo relativos à iluminação. Chama-se Zenki-ga a tal pintura, a palavra Zenki significando qualquer ocasião que provoque a iluminação. A variedade dos assuntos abordados por Shubun, Sesshu e outros artistas mais tardios estendeu-se às paisagens e à representação de flores e pássaros. Essas paisagens não valem apenas pela beleza natural dos sítios, ilustram o que os artistas consideravam ser o quadro puro e calmo conveniente à habitação de um monge Zen. Quando pintavam flores e pássaros, faziam-no para libertar a "budeidade" inerente às plantas e aos animais que, para esses artistas e o seu público, mais não eram do que formas da transmigração das almas. Pela mesma razão vimos surgir, entre esses monges, criadores de jardins...   ... Como o essencial da pintura Zen era surpreender o coração escondido por detrás da complexidade superficial da aparência, ela rejeitou a cor e escolheu o estilo monocromático.

 

   Muito embora também próximo da chamada "linha clara" da banda desenhada europeia, o desenho de Jiro Taniguchi, sobretudo o que ilustra a sua obra intimista, mais espiritual, inspira-se certamente na tradição Zen, quer no que toca a surpreender a alma das plantas, dos animais e das pessoas - e, como ele mesmo confessa, a força dos fenómenos maiores da natureza, incluindo os cataclismos em que ela se revela dura e perigosa -- como na procura da iluminação, isto é, do espírito escondido que anima tudo. Alguém já disse, e creio que muito bem, que Taniguchi tenta desenhar o indizível... Deus cala-se ou, pelo menos, parece calar-se: assim começa um livro do jesuíta Louis Barjon, que consegui desencantar das profundezas da minha biblioteca, a pedido de um velho amigo meu, o frei Eugénio de Paiva Boléo. O título da obra é Le Silence de Dieu dans la Littérature Contemporaine, tenho-o desde os anos 50, quando o comprei em Paris. Pensossinto que poderia, hoje ainda, entender os vários porquês das problemáticas a que o livro acode. Mas com outra distância: a minha convivência local com a cultura dita oriental induziu-me - devo reconhecê-lo - a uma aproximação diferente a questões como a do mal e da culpa, do mundo e do espírito e, sobretudo, da presença de Deus em tudo. Não deixei de ser e pensarsentir-me cristão, mas sê-lo-ei hoje de um modo diferente. O meu pressentimento do Zen japonês, sobretudo pelo que ele me deu de abraço da natureza e do nosso despojamento interior, retornou-me a Mestre Eckhart e a uma mística cristã que desde muito novo me envolve. Os Evangelhos continuam a ser, para mim, as mais comoventes narrativas da literatura mundial, mas quem, como tu, os tem lido e relido, compreenderá melhor o que quero dizer quando afirmo que, depois da minha meditação "oriental", os leio mais simultaneamente à luz de S. João Evangelista e com os olhos e o coração de S. Francisco de Assis.

 

   Todavia analisei muitas arquiteturas teológicas que tentam explicar a boa razão do mal que conhecemos, e até debati a questão, inclusive nas minhas cartas a José Saramago (lembras-te?), tal como escutei o grito angustiado da perplexidade de crentes (o próprio Jesus clamou na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?), assim como a revolta de ateus e agnósticos (pensa no Goetz de Le Diable et le bon Dieu do Jean-Paul Sartre : Est-ce que tu m´écoutes, Dieu sourd?- perante a morte desamparada de Catherine). Mas acabo por me render à evidência do mistério que tudo é para mim. Não entendo, não sei explicar. Faço por me despojar dos meus sentimentos, revoltas e resignações, angústias e euforias. E num silêncio escuro, vácuo, espero o encontro com o indizível, inefável, porque fora do tempo e do espaço das nossas medições. E pensossinto que a minha desinvestidura, despojamento e despedimento de mim, é a porta aberta para a íntima alegria possível: a do acolhimento universal, que é o amor. Até de mim, que em tanto mal tenho comungado e ao bem apenas tenho aspirado. Deus - eis a lição da incarnação, morte e ressurreição de Cristo - está connosco, presente na partogénese da Jerusalém celeste.

 

   Escrevo-te estas linhas ao som das Pièces de Viole, 1701 (Hommage à Mons. de Lully et Mons. de Sainte Colombe) de Marin Marais, excecional compositor de peças para viola da gamba, neste registo tocadas por Jordi Savall. Foi este músico catalão que redescobriu Marais e o seu instrumento antecessor do violoncelo. O mesmo Savall - de quem tantas vezes te falei já - que, há pouco ainda, foi partilhar, com companheiros músicos sérvios, afegãos, africanos, judeus, turcos e outros europeus, sul-americanos, etc., música do mundo, com os refugiados migrantes encerrados na "selva de Calais". O Jordi tem feito diálogo de culturas através da música, e, em Calais mesmo, não tocou só para refugiados em seu ghetto, foi à cidade tocar para os seus habitantes: o objetivo da integração é que cada cultura tenha o seu espaço e fecunde a sociedade pela sua contribuição. A riqueza de um país mede-se pela sua diversidade; as sociedades fechadas tornam-se decadentes, apenas prosperam as que se abrem - disse ele recentemente. E mais adiante: A intensidade dos fluxos migratórios e a falta de uma política de acolhimento eficaz levam os povos a sentirem-se invadidos no seu próprio solo...  ... Por isso toquei também na cidade de Calais, para apresentar aos habitantes aqueles que vivem perto deles. E à pergunta sobre se o Ocidente terá o monopólio da intolerância (a entrevista é atual e francesa), responde: É evidentemente necessário opormo-nos à mentalidade teocrática, à rejeição do incréu que grassa em certos países e é por vezes exportada para os nossos. Mas nós contribuímos, através de intervenções nossas, para a emergência de regimes intolerantes e totalitários, e assim também para a destruição dos países donde vêm esses refugiados. O problema fundamental não é um racismo que fosse exclusivo deste ou daquele povo, mas a incapacidade de muita gente aceitar um autêntico diálogo intercultural, o único que nos permite conhecermo-nos na paz. Ajudando os jovens a apropriarem-se da sua cultura, e a partilhá-la connosco, podemos fazer com que as coisas avancem...   ... É preciso trabalhar naquilo que amamos; se sentirmos que o resultado tem alguma utilidade, tudo muda. É por isso que não toco só nas grandes salas, mas também nos hospitais e nas prisões. Se não levarmos aos jovens a experiência da beleza, dentro de vinte anos estarão vazias as salas de concerto. É preciso trabalhar para o porvir. Sem utopia, não há criação possível.

 

   Antes de assinar esta carta, pensossinto o Papa Francisco (nome profético!) no Egipto, em convívio, sem proteção blindada. O Ernâni que, com o António Luciano, é um dos amigos do coração, com que partilhava afinidades espirituais difíceis de proclamar - e eles eram, noutras coisas, bem diferentes um do outro!  -- acreditava muito na comunhão dos santos. Ambos da minha mesmíssima idade já não precisam de instrumentos de métrica, muito menos de cálculos a prazo. Sabem melhor do que eu o que nos comove no Taniguchi, no Savall, no Francisco, e em todos aqueles que fazem da descoberta e contemplação do mundo e da vida, não pretexto de revolta, medo, culpa, angústia ou depressão, mas razão de amor ativo.

 

Camilo Maria 

P.S.- Esta noite, quebrou-se a seca persistente, choveu como Deus dá. Saí de manhã cedo, extasiei-me à vista da alegria dos campos: toda a vegetação, agradecida, cantava verdura e vida. E lembrei-me do Taniguchi, que tão bem desenhava a graça anímica dos bosques...

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DO TEATRO BALTAZAR DIAS DO FUNCHAL

 

 

O Funchal tem uma tradição assinalável de teatros e salas de espetáculo em geral, o que merece obviamente referência encomiástica: para além da qualidade urbana e da tradição cultural e arquitetónica em si mesma, há obviamente que ter presente a distância, durante séculos, a complexidade de acesso. 

 

Pois mesmo assim, encontramos na Madeira um património de espaços teatrais que inesperadamente guardam  memória de origens a partir do século XVII: um chamado Teatro Jesuíta referido em crónicas da rota da Índia e, mais concretamente, o Teatro Grande, edificado junto ao Palácio de São Lourenço a partir de 1776 e demolido em 1833, quando era o maior teatro português depois do São Carlos;  a chamada Comédia Velha que abre em 1780 e subsiste até 1829; uns episódicos Teatros chamados do Bom Gosto ( 1820-1838), Thalia e da Escola Lancasteriana, pelos anos 50 do século XIX:  ou um Teatro Esperança que durou de 1859 a  1915…  

 

Tudo isto desapareceu: mas não o atual Teatro Baltazar Dias do Funchal, inaugurado no dia 8 de março de 1888 depois de obras que duram cerca de 8 anos: iniciativa de um notável da época, o Conde do Canavial. E curiosamente, foi, desde a fundação, propriedade da Câmara Municipal, o que não era muito habitual na época. Teve entretanto diversas designações: Teatro D. Maria Pia na inauguração, Teatro Funchalense a partir da implantação de República, Teatro Manuel de Arriaga em 1917, por ocasião da morte do antigo Presidente da República, que fora eleito deputado pela Madeira não obstante ter nascido nos Açores, e finalmente, Teatro Baltazar Dias a partir de 1930  até hoje.  

 

Há dúvidas quanto à autoria do projeto. Ao que apuramos tentou-se adaptar a planta de um teatro de Hamburgo. Encomendou-se depois o projeto ao jovem arquiteto Tomás Augusto Soler, que morre antes de o concluir. Foi então executado por um engenheiro ido do Porto, de seu nome José Macedo de Araújo. Mas o que mais notabilizou o Teatro foram as decorações de Eugénio Cotrim e Luigi Manini, este até hoje um nome referencial. 

 

E como já tive ocasião de escrever, o Teatro Baltazar Dias mantem exemplarmente uma fidelidade arquitetónica e um envolvimento cultural e cívico, no centro do Funchal, que merece destaque. Inclusive pelo respeito com que se conservou, para alem da sala, o próprio equipamento de palco e um camarim chamado “da prima-dona” evocativo do ambiente romântico das divas e atrizes do seu tempo… 

 

E para terminar: quem era Baltazar Dias? Poeta cego, natural da Madeira, a sua obra dramática em grande parte perdeu-se. Chegaram até nós quatro peças: “Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno”, e os “Auto(s) de Santo Aleixo”, “de Santa Catarina” e “do Nascimento de Cristo”.

 

Mas chegou também até nós a íntegra de um alvará datado de 20 de fevereiro de 1537, pelo qual D. João III concede direitos de autor, diremos hoje, a Baltazar Dias “cego, da Ilha das Madeira (…) que tem feito algumas obras assim em prosa como em metro, as quais já foram vistas e aprovadas e algumas delas imprimidas (…) por ser homem  pobre e não ter outra indústria para viver por o carecimento de sua vista senão vender as ditas obras” pelo que, diz o Rei, “hei por bem e mando que nenhum imprimidor imprima as obras do dito Baltazar Dias, cego, que ele fizer assim em metro como em prosa, nem livreiro algum nem outra pessoa as venda sem sua licença”…  

 

E resta dizer que a “Tragédia do Marquês de Mântua”, representada a bordo das caravelas, deu origem ao extraordinário “Tchiloli ou História do Imperador Carloto Magno” obra referencial em São Tomé e Príncipe, como tive aliás ensejo de lá constatar.  

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XII - PINTURA METAFÍSICA

 

Escola de pintura fundada em Ferrara, Itália (1917/21), resultante do encontro de Giorgio De Chirico, Alberto Savinio, Carlo Carrá e de De F. Pisis, a que se juntou G. Morandi.

 

Inspirada na cultura greco-romana e na filosofia europeia, a pintura metafísica recusa a arte abstrata e contrapõe-se ao cubismo e futurismo, retomando a tradição de um certo regresso à figuração e ao simbolismo, representando realidades que transcendem a experiência do sensível, refugiando-se na mitologia, no onírico, no absurdo e no sonho. A contemplação e quietude que nela sobressaem têm semelhanças com mestres da pintura italiana, como Giotto. Também sobressai o insólito, figuras humanas que parecem estátuas, por vezes andrógenas. Pretende, em termos atuais, enquadrar estátuas do mundo antigo (anacronismo).

 

Giorgio De Chirico foi a figura emblemática, marcante e líder deste movimento, fundando a revista Pintura Metafísica, em 1920.

 

De Chirico, grego de nascimento e de formação alemã, apresenta-nos construções geométricas e pinturas enigmáticas, misteriosas, em que elementos e objetos não se relacionam entre si, pinturas melancólicas e nostálgicas com referências à arquitetura e escultura greco-romana. Há a criação de situações absurdas, incomunicáveis, anacrónicas, que inspiram a admiração e a observação contemplativa. O resultado é uma pintura em telas de atmosfera mágica, misteriosa, inexplicável, sigilosa e silenciosa, em que a paz, repouso e tranquilidade se aliam ao inusitado, incomum e excentricamente original.

 

No reportório arqueológico de Chirico, destaca-se Canto de Amor, de 1914, em que uma cabeça da antiguidade clássica grega e uma luva vermelha de borracha dos nossos dias, um muro de cimento e claustros antigos, o azul do dia e o negro da noite, se apresentam extremamente imóveis, hesitando entre o passado e o presente, numa estrutura visual metafórica apelativa, contemplativa e meditativa. Obcecantemente estranha e metafísica, com imagens estilizadas, ilógicas, incoerentes, incongruentes, austeras, misteriosas, coabitando no mesmo espaço e lugar, em associações desconcertantes e não usuais. Uma misteriosa solidão, um lugar deserto, em que uma bola e um comboio sugerem atividade humana, mas onde não há pessoas. Esta magia pré-surrealista carateriza as obras da fase de maior maturidade de De Chirico, como os manequins de As Musas Inquietantes (1916), interiores habitados por objetos quotidianos, a série dos Arqueólogos, os Gladiadores e os Móveis no Vale.

 

Fixando-se em figurações representativas com referências à arte clássica, Chirico, como Carlo Carrá, preferenciam a representação de edifícios e espaços urbanos misteriosos, praças vazias povoadas por estátuas, manequins, figuras, coisas indesvendáveis e nebulosas, onde impera e impressiona a imensidão, solidão é sinónimo de imobilidade, com influências de Nietzsche, Kant, Shopenhauer e Weininger.

 

O esvaziamento do futurismo, com a recusa da expressão do movimento e afastamento da estética industrial ligada à máquina, conduziram Carrá à Poética das Coisas Vulgares (1914/21) e à pesquisa da integridade do objeto em O ídolo hermafrodita (1917). Refira-se ainda a Musa Metafísica, de 1917.

 

Com as suas metamorfoses zoomórficas, há em Savinio uma surpresa ambígua provocada pela radicalidade associada aos seus objetos.

 

Morandi, por sua vez, atingiu a pintura metafísica seguindo uma lógica interna de pesquisa pessoal, formal e plástica, via utilização nas naturezas mortas de um manequim, uma esfera e um esquadro, numa geometria de composição de caraterísticas meditativas.

 

A pintura metafísica foi um dos movimentos precursores do surrealismo, nomeadamente com o contributo de imagens anormalmente excêntricas de Giorgio De Chirico.  

 

13.06.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

ANTECÂMARA

 

Envolvia a ânfora e seu segredo

Fonte oculta em que mergulhava

A minha mão

A minha vida

Agora visitante ao mausoléu

Onde a tua

Para não trair o ritmo transbordante do nosso coração

Núbia e ardente se encontrava com a minha

E ambas decifravam forças, saberes insuspeitados

Espaços-encruzilhadas

Danação

Incompletude 

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O espaço de uma casa.

 

'We have to describe and to explain a building the upper story of which was erected in the nineteenth century; the ground-floor dates from the sixteenth century, and a careful examination of the masonry discloses  the fact that it was reconstructed from a dwelling-tower of the eleventh century. In the cellar we discover Roman foundation walls, and under the cellar a filled-in cave, in the floor of which stone tools are found and remnants of glacial fauna in the layers below. That would be a sort of picture of our mental structure.' , C. G. Jung

 

Os espaços, habitados pelo homem, transportam memórias e despoletam a imaginação. Gaston Bachelard no livro 'The Poetics of Space', escreve que a imaginação está constantemente a imaginar e a enriquecer-se incessantemente com novas imagens. E o homem é um ser que se desenvolve e valoriza ao imaginar. 

 

Bachelard explora o espaço da casa, como sendo aquele que gera as imagens mais primárias e que despoleta o conhecimento do ser mais profundo do homem. A casa, para Bachelard, funciona como um instrumento capaz de analisar a alma humana. 

 

'The house images are in us as much as we are in them.', G. Bachelard

 

A casa, segundo Bachelard, é uma entidade fenomenológica privilegiada - é um espaço que acolhe e protege e é capaz de integrar e unificar todos os valores mais complexos, de um espaço interior. A casa é, para o homem, fonte inesgotável de imagens dispersas e concentradas. No espaço poético da casa, todo o homem se revela na sua essência assim que se dispõe a sonhar. 

 

'All really inhabited space bears the essence of the notion of home.', Bachelard

 

Os limites de uma casa, são determinados por quem a habita. O homem experiencia a casa na sua totalidade através dos seus pensamentos e sonhos.

 

Para Bachelard, as memórias do mundo exterior nunca terão a totalidade das memórias que pertencem a uma casa. E o homem ao evocar essas memórias enriquece os seus sonhos e a sua imaginação - segundo Bachelard, é a imaginação que faz aumentar a importância de uma determinada realidade espacial. 

 

Uma casa abriga e protege mas sobretudo concede e possibilita a criação de sonhos, de memórias e de todos os pensamentos do homem.

 

Os sonhos, as memórias, os pensamentos são imóveis mas quanto mais fixos e mais ligados a um espaço, mais vivas e reais se tornam

 

'Thought and experience are not the only things that sanction human values. The values that belong to daydreaming mark humanity in its depths. Daydreaming even has a privilege of autovalorization. Therefore the places in which we have experienced daydreaming reconstitute themselves in a new daydream.',

Bachelard

 

O homem estabiliza e conhece-se melhor a si próprio ao fixar-se espacialmente. A casa permite ao homem existir como um ser unificado e não um ser disperso. Acolhe-o em todos momentos da sua vida. É uma extensão do seu corpo e do seu espírito. É o seu primeiro mundo. A imobilidade de uma casa permite a aproximação entre a vida exterior e a vida interior. O espaço da casa está inscrito fisicamente no homem. E por isso, Bachelard acredita que o homem é o espaço onde habita e a casa o espaço, por excelência, do ser.

 

'Suddenly, a room with its lamp appeared to me, was the almost palpable in me.'

Rilke em 'My life without me'

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

1.jpg

 

So, what’s next? - June 2017

 

2.jpg

What election! What result! And, what a mess! RH Theresa May MP forma um novo governo, minoritário em Westminster e com 20 Remainers + 7 Brexitters, após uma shocking election que deixa os Tories à beira de um ataque de nervos. Os Conservatives perdem a anterior maioria na House of Commons, ensaiam um acordo com o Democratic Unionist Party (o DUP que governa Northern Ireland) e deixam Comrade Jeremy Corbyn e o seu Labour Party aos portões de Downing Street num hung parliament. Na prática, e apesar da presente fortitude, a senhora mantém o top job mas perde autoridade. — Chérie. Il n'y a que le provisoire qui dure. A soma dos votos apresenta outro desfecho imprevisto, para além do êxito relativo dos trotskystas. Resolve problema interno maior. Os independentistas de Scotland igualmente perdem a hegemonia no plenário de Holyrood. — Well-Well-Well, indeed. Já Brussels e Berlin mantêm o calendário da Brexit. Além Atlantic, perdura a Trump soap. Washington rasga o Paris Climate Treaty. Meanwhile, o US President e o diretor do FBI que ele despediu, Mr James Comey, trocam galhardetes em Capitol Hill. O En Marche! do President Emmanuel Macron triunfa nas eleições parlamentares gaulesas, certificando o óbito dos partidos tradicionais da Ve République. Em Russia, as manifestações anti-Putin regressam às ruas e os protestantes às prisões.

3.jpg


Sunny and hot, very hot, days at Central London
. A #2017 General Election deixa o reino atónito e muitas stony faces nos corredores de Whitehall. O esperado passeio da coroação thatcheriana de The Right Honourable Theresa Mary May MP simplesmente não acontece, apesar dos históricos 43% obtidos nas ballot boxes. Uma two horses race deixa o rival Labour Party com 40% e esfuma a força dos pequenos partidos. Ora, tudo se afigurava diferente a 25 April, quando The Gazette publica a proclamação de Her Majesty Elizabeth II “appointing Thursday the 8th day of June 2017 as the polling day for the general election of the next parliament.” Os Tories lideram nas sondagens por 20-22 pontos, face a uma Loyal Opposition ocupada a digladiar-se entre Corbynists e Blairites. Sobrevém o inesperado. Uma longa campanha de oito semanas pára duas vezes por causa de três sangrentos atentados jihadistas, em Manchester e em London, após caos generalizado no serviço nacional de saúde gerado por um ataque informático global. Os conservadores apresentam então infeliz e austeritário programa para a bolsa dos comuns. Sir Humphrey Appleby diria ser “a brave manifesto.” Neste contexto surge a receita populista para vencer sufrágios: energizar os fiéis ante a paralisação dos opositores, aumentar as expetativas dos adversários e prometer… utopia to the working class. Só no último dia das lides, para ganhar o voto jovem, e foram dois milhões de novos eleitores, o líder trabalhista perdoa as dívidas estudantis após hastear a bandeira das free tuition fees. Na noite eleitoral, todas as cidades universitárias votam vermelho. Se o secular azul de Canterbury cai, a cereja no empolado bolo de Red Jezza é ainda mais luzente. Seduzido por verbo revolucionário, o Royal Borough of Kensington elege um camarada. But, recordando os gloriosos Monty Python – He’s not The Messiah. He’s a very naughty boy.

 

A mais estranha campanha eleitoral de que há memória tem efeitos tanto no futuro incerto da PM e do partido no poder, como também na internamente contestada liderança do Labour Party, quanto, e sobretudo, no rumo das negociações da saída do UK da Eurpean Union. Os Remainers aproveitam a ocasião para reeditar pela enésima vez um estafado argumentário face a um já mais que agastado eleitorado. Nas urnas, porém, sumido o Ukip, até o arqui europeísta RH Nick Clegg perde o emprego como MP de Sheffield Hallam (South Yorkshire) pelos Liberal Democrats. Igual fim têm outros pesos pesados, desde logo entre os contrários escoceses, como RH Alex Salmond em Gordon (Aberdeenshire) ou RH Angus Robertson em Moray, nada menos que os ex líder e chefe da bancada do Scottish National Party em Wesminster. Com os 10 MPs de Northern Ireland na porta grande do Westminster system, por via do apoio governamental do Democratic Unionist Party, as Highlands têm agora uma nova referência: RH Ruth Davidson, a Tory MSP que conquista 12 postos aos independentistas. Não espanta que perante este complexo xadrez nacional, pela primeira vez na história parlamentar do reino, o Queen’s Speech anunciado para a proxima semana esteja sob risco de adiamento, o mesmo podendo acontecer à abertura dos tratos da Brexit agendados para 19th June.

 

Mrs May assegurou tréguas internas num partido em deep unhapiness e está de partida para Paris a fim de acalmar as águas continentais. Durante o fim de semana, enquanto o Labour Party se declara pronto a governar com equipa marxista e programa sul americano de renacionalizações, a new old PM reganha a iniciativa política. Forma um segundo Cabinet com maioria de Remainers à volta da mesa e assume responsabilidades pelo desastre eleitoral perante o poderoso Tory 1922 Committee: “I'm the person who got us into this mess, and I'm the one who will get us out of it.” Sustentada graças à cortesia dos Scott Conservatives e dos Irish Unionists (Needs must, of course), a posição da Prime Minister é delicada: se sinaliza razoabilidade nas euronegociações conduzidas pelo intacto trio dos Brexiters (RHs David Davis, Boris Johnson e Liam Fox), o porta voz do Number 10 rapidamente informa que “Government policy remains the same on Brexit, migration and the deficit.” Falhado o ensaio eleitoral do Red Torysm, em suma, num astonishing state of affaires, resta agora apurar quão fundo tem presente a sucessora de Baroness Margaret Thatcher em Downing Street uma imortal lição do fundador da Ve République Française: "No Nation has friends, only interests."

 

4.jpg

Sob a memória do General Charles De Gaulle, a quem Lady Clementine um dia disse "General, you must not hate your friends more than you hate your enemies," chega às salas a mais recente versão cinematográfica de Churchill. O filme recua à darkest hour, quando o reino defronta as forças nazis que dominam o continente europeu. Estamos em 1944 e eis-nos catapultados para behind the war for freedom. O drama dirigido por Mr Jonathan Teplitzky cedo surpreende com incorreções históricas, começando nos peculiares fatos de Sir Winston, vestido de gala no encontro decisivo do High Command, mas acaba por atrair na incontornável dimensão épica. Estamos em 1944 e seguem-se as graves 96 horas que rumam ao D-Day de 3 June e ao discurso “We shall never surrender.” Tal como na Operation Neptune brilham os heróis das Normandy landings, salvam aqui as interpretações de Mr Brian Cox (W Churchill), Mrs Miranda Richardson (Clementine), Mr John Slattery (Gen. Dwight D. Eisenhower), Mr James Purefoy (Gen Bernard Montgomery) ou Mr Julian Wadham (King George VI). O guião é pobre, todavia. — Hmm. Let us all remember how Master Will in The Tempest portrait the quest for autonomy after dilemmatic Prospero’s decisions: — “As you from crimes would pardoned be, / Let your indulgence set me free."

 

 

St James, 12th June 2017
Very sincerely yours,
V.

 

 

A VIDA DOS LIVROS

19777661_BGTCV.jpeg
    De 12 a 18 de junho de 2017

 

"Genuína Fazendeira - Os 100 anos de Cleonice Berardinelli", obra coordenada por Gilda Santos e Paulo Motta Oliveira (Bazar do Tempo, 2016), agora apresentada em Lisboa na Fundação Gulbenkian, assinala os cem anos de Dona Cleo e permite-nos usufruir de uma obra preciosa (livro-oferenda) de homenagem à notabilíssima Professora de Literatura Portuguesa.

 

Untitled.jpg

 

UM TÍTULO MAGNÍFICO

O título é dado por um poema de Carlos Drummond de Andrade dedicado à parabenizada – “uma ensancha prazenteira / (a justiça é que me impele) / à genuína fazendeira…”. Aí se enaltece a importância de quem tem dedicado a sua vida à “constante maravilha do linguajar português”. São cerca de novecentas páginas suculentas, em que temos a colaboração de uma larga comunidade dos mais qualificados admiradores da mestra, cujo centenário celebramos, com muita alegria, em sua vida. E, além do mais, recordamos alguém a quem a língua e a literatura portuguesas muito devem e que tem sido injustamente esquecido. Falo de Fidelino de Figueiredo, que fundou uma verdadeira escola do estudo da literatura portuguesa em S. Paulo e que trouxe Cleonice Berardinelli para a ribalta. É, aliás, fundamental a carta de 1958 que endereçou à sua discípula (e ora publicada), com elementos curiosos para o conhecimento de Fernando Pessoa, ele mesmo. Dizia Fidelino: “Fomos condiscípulos no 1º ano da faculdade, que então se chamava Curso Superior de Letras. Acabava ele de chegar da África do Sul. Era alto, magro, narigudo, um pouco tartamudo e mantinha sempre uma expressão sorridente, que fazia lembrar o rir japonês, como defesa. Caminhava de esguelha, como afligido por escoliose espinal. Em breve desapareceu, talvez por não obter a revalidação dos estudos que trazia. Perdemo-nos de vista, apesar da simpatia que nos atraíra”. Depois, houve um encontro junto da igreja da Madalena, em que falaram animadamente, mas tendo Fidelino louvado um texto do poeta sobre o espírito provinciano – “não foi preciso mais para lhe sobrevir um acesso de timidez. Corou, enrugou mais o sorriso e partiu muito confuso. E nunca mais o vi – coisa bem explicável pelo meu exílio de 24 anos”. Nessa epístola, para além do testemunho, Figueiredo confirma as fundamentais qualidades de Cleonice, sua discípula dileta, dando-lhe conselhos avisados sobre a defesa e publicação da tese. Poesia e Poética de Fernando Pessoa (1959) é, de facto, um texto muito importante – “uma exemplificação perfeita dos métodos da estilística moderna e passará a constituir indispensável instrumento para a compreensão da obra do poeta, principalmente se for articulada ao movimento poético imediatamente anterior”. E se Fidelino de Figueiredo foi o mestre essencial da mestra, não podemos esquecer o afeto que esta dedica ao rigor de Pierre Hourcade (lamentando não ter podido falar com ele sobre Pessoa) e à fantasia, quase loucura, de Giuseppe Ungaretti.

 

SORRISO INCONFUNDÍVEL

No conjunto riquíssimo de textos de Genuína Fazendeira, Maria Alzira Seixo invoca o sorriso inconfundível: “o seu sorriso a desdobrar-se! – neste monumento centenário que nenhum abalo corrói – que dura e resiste. Cleonice”. Vasco Graça Moura não nos deixa por menos: “se a camões se consentisse / ter uma vida segunda / diria da mais profunda / gratidão a cleonice”. E Luís Filipe Castro Mendes recorda uma curiosidade avassaladora: “Nós passeámos por Praga, / por seus becos e travessas, / numa insaciável saga / de viagens e conversas…”. Pessoalmente, não esquecerei o momento em que encontrei Dona Cleo. Foi a 14 de outubro de 2011, graças ao nosso querido Eduardo Lourenço, com uma sessão riquíssima Fundação Gulbenkian em Paris, e um adorável jantar oferecido pelo casal Seixas da Costa, com a fidalguia conhecida… E ouvimos o ensaísta, admirador confesso da homenageada de agora, a exprimir o seu enlevo: “a paixão e o saber dessa cultura em comum (do elo que une as nossa únicas margens do atlântico cultural que há séculos une e separa o antigo cantar da galaica raiz e de imemorial futuro) eram – são – uma espécie de segunda natureza da filóloga herdeira do berço comum da latinidade que tem hoje no Brasil o seu espaço de memória mítica”. Como disse Anne-Marie Quint (a quem a literatura portuguesa tanto deve): “naquele dia, estivemos em presença de dois ilustres defensores das culturas lusófonas, abertos um e outra à cultura universal. O evento, além disso, reafirmava os vínculos poderosos e seculares que ligam a cultura portuguesa à cultura brasileira”…

 

UMA SIMBIOSE FECUNDA

Para Cleonice, não há conflito entre as literaturas portuguesa e brasileira. Têm em comum a mesma língua. “As pequenas diferenças que se verificam entre elas não fazem com que haja, nunca, uma dissensão. Portanto nem dissensão nem colisão” (entrevista ao JL, 10.8.87). Quando veio lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa, a convite de Maria de Lourdes Belchior e de Maria Vitalina Leal de Matos, teve oportunidade de exprimir o maior contentamento. E lembrava as lições que recebera na sua Universidade, sob a batuta de Fidelino de Figueiredo – através das quais se apaixonou por Gil Vicente, Camões, Garrett, Herculano, e Eça de Queiroz e, por outro, bem forte, Machado de Assis. Depois virá, como dissemos o misterioso Pessoa e uma relação muito especial com o engenheiro Álvaro de Campos. E como esquecer Vieira, “figura complexa,… mistura de lucidez e de imaginação prodigiosamente criadora”? Se a referência a Mestre Gil ficou sempre muito em evidência, Dona Cleo não esquece as representações que fez dos Autos da Alma, de Mofina Mendes e da Lusitânia, com o seu querido Manuel Bandeira, na primeira fila, a aplaudir… E lembrando intuições lapidares da professora como não trazer à baila Cesário, entre Fradique e Mário de Sá-Carneiro ? Trata-se de uma espécie de ponte que anuncia o século XX, em que Fradique é muito mais do que uma criação ficcional, simboliza os seus criadores (Antero e Eça) e anuncia “Orpheu” e um novo tempo – ou não fora Caeiro leitor de Cesário... Mas a preocupação fundamental de Cleonice Bernardinelli mantém-se bem viva – é indispensável que as literaturas da língua portuguesa, a começar pelas dos nossos países irmãos sejam mais conhecidas e estudadas, no seu diálogo mais íntimo e fecundo. Infelizmente, continua a haver grande desconhecimento mútuo, e todos perdemos com isso. Como afirma a homenageada, para o caso brasileiro: a Literatura Portuguesa deve fazer parte das matérias básicas – não só “porque é a literatura mãe a primeira a exprimir-se em língua portuguesa, a que constitui o passado da Literatura Brasileira, a que preenche todo o espaço medieval anterior à nossa experiência, mas também porque é o elemento primordial de uma cultura viva, dentro da qual tomamos as nossas origens e que não pode ser excluída da nossa formação histórica”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Por cá, o toque de alvorada é dado pelos melros, quando a luz que vejo lá fora, estremunhada e pálida, ainda nem põe cores nos campos mas apenas vai rompendo a escuridão da noite que foge, distinguindo contornos e tons. A noite que fundira num campo só seu todos os campos que eu via (lembrando Pessoa) deixa agora a alba abrir as sombras... E os melros cantam acolhendo o dia e reconhecendo-se nele. E eu quedo-me a sentir a luz da manhã que cresce e não comando. E então vou descobrindo como é alto o céu, e ocorre-me aquele desabafo do Hiroshi Nakahara, protagonista de Harukana Machi-E, de Jiro Taniguchi: O céu é tão alto... e, todavia, temos a impressão de que bastaria estendermos a mão para tocar nas nuvens... O céu é tão misterioso, como se fosse imutável para lá dos homens e do tempo... E se a eternidade fosse isso, um simples céu... Nunca ninguém se torna verdadeiramente adulto... A criança que fomos está aí, bem viva no muito fundo de nós... É como o céu... Com o tempo, julgamos que crescemos, mas a maturidade não passa de engano, mais não é do que um entrave à nossa alma livre de crianças... Reli esta noite essa maravilhosa narrativa do regresso sonhado de um homem maduro aos seus catorze anos, para compreender que não se muda a vida que nos construiu. Tal como não se reinventa o passado, e afinal permanecemos na incessante procura do desconhecido que somos. Numa das minhas primeiras cartas (seria ainda uma das muitas que escrevi por um homónimo antes de mim?) já te falava da difícil relação que tenho com o tempo, e tenho-te dito como, ainda hoje, procuro conciliar, na circunstância da intemporalidade, a aparente contradição entre tempo escatológico e tempo circular. Esta manhã, neste momento em que te escrevo, escuto as rolas que começaram a arrulhar lá fora. Já lá vão as seis horas da manhã e calou-se a música dos melros; dão agora as oito, será hora de rolas, mas não sei dizer-te se se deitaram tarde ou são preguiçosas. Também é verdade que te digo horas de hoje, mas, embora melro me pareça mais madrugador que rola, nem todas as aves acordam todos os dias à mesma hora. Quiçá melros e rolas, amanhã ou depois, se anunciem a horas diferentes das minhas, sempre contadas. Penso que o relógio das aves não é como os nossos: tem dois ponteiros, sim, mas um é a claridade da luz, e o outro a temperatura do ar. Ambos medem só o momentâneo, desconhecem a duração. Menos angústia, menos grilhões. 

 

   Noutro livro, Taniguchi adapta e desenha um romance de Hiromi Kawakami, intitulado Sensei no Kaban (literalmente A Pasta do Mestre, que, aliás, na narrativa ilustrada, ele visivelmente traz sempre consigo) - obra que, de certo modo, nos fala também de um passado revisitado e, simultaneamente, longínquo e intrometido na vida presente. Trata-se do reencontro de uma mulher de 37 anos com um seu antigo professor, agora com 67, reformado. Apesar da diferença de idades, de conhecimentos e cultura, entendem-se no gosto por passeios com paragem obrigatória e deliciada em tasquinhas de petiscos japoneses. Eu mesmo fiz, sozinho, essa experiência de comer sentado ao balcão, mandando vir pratinhos conformes ao deambular do meu apetite e sem mais conversa, e muitas vezes volto aos relatos que o Taniguchi faz de variados momentos gastronómicos do Petisqueiro, noutro dos seus livros. Até na diversificação dos pormenores, dos ingredientes, das cores, dos cheiros, dos paladares, a cozinha japonesa tem sempre algo de comunhão telúrica, e pode convidar ao silêncio e à meditação. No caso de Sensei no Kaban é também motivo de encontro e afeto.

 

   A mancha urbana de Tokyo e cidades adjacentes terá mais de 43 milhões de habitantes, mas todavia está semeada de minúsculos jardins e pequenas hortas, de ruas estreitas que são caminhos de aldeia, de recolhimentos, cantos e campos esquecidos... Tudo muito seguro e limpo. Sair das grandes artérias e dos centros de azáfama para se deambular por ali é como viajar-se para muito longe pelo seu próprio pé. Assim, onde mais me senti como que no campo foi nos corações secretos da megalópole de Tokyo. Por aí também me consola o convívio com a obra de Taniguchi. O desenho é limpo e nítido, o pormenor nunca é esquecido, as cenas são enquadradas de modo a descobrirmos o sentimento das coisas e das pessoas - e as belezas escondidas, mesmo quando estas não são aparentes em paisagens urbanas monotonamente arquitetadas, nas ruas cobertas pelo cruzar de cabos elétricos e telefónicos, onde o belo reina pela simples sentida presença do asseio e da paz. Inesperado, súbito, surge um pequeno parque, um templo budista, o cemitério anexo, tudo verde e cinzento e antigo. Tudo calado. Ali se prolonga e instala o repouso da paz interior. A vida e a morte confundem-se na natureza.

 

   Curiosamente - e talvez seja isto o que me ocorreu dizer-te hoje - tenho abertos, em prateleiras da sala cá de casa, dois livros grandes, de ilustrações: um, japonês, reproduz cem pinturas antigas referentes às estações do ano, e abri-o na página que nos mostra uma pintura de cerejeira em flor, do século XVI; o outro, português, é uma edição fac-similada das gravuras do De Aetatibus Mundi, do português Francisco d´Ollanda, e delas mostro a nº 69, alusiva ao tempo e à eternidade. É uma composição intrigante, apresenta-nos um gigante ajoelhado sobre uma mó, apoiado em duas muletas com rodas, assim conduzindo a mó para cima de um esqueleto humano, que uma foice identifica como morte. É velho barbudo, tem asas abertas, parece devorar um corpo de mulher que traz na boca, uma serpente enrosca-se na muleta esquerda e aponta a cabeça à mão desse lado. É, o nome inscrito na mó assim o indica, o Tempo. Por cima da cabeça, uma clepsidra, por detrás um sol radiante donde jorra, de cada lado, um arco íris que toca a terra onde dois veados, símbolos da esperança, pacíficos e alheios, pastam. Acima do sol abre-se um espaço circular e vazio: a Eternidade. Por debaixo da gravura, o rosto do Pretérito olha para trás, o do Futuro para a frente. Entre ambos inscreve-se Agora, e a legenda reza Finis Temporis. No reverso dessa gravura do século XVI, surge representada a Ressurreição de Cristo. Uma vez mais, é o Tempo que morre, e Vida e Morte se confundem.

 

   Pego no catálogo, para mim autografado por um conservador do Museu Nacional de Tokyo, em romaji (caracteres latinos) e kanji (sino-japoneses), Seiroku Noma comissário duma exposição no Petit Palais de Paris, ao tempo de André Malraux, ministro da cultura, que tomara a iniciativa de propor a sua realização. A data da dedicatória é 16 de dezembro de 1963, e  Seiroku Noma escreve a introdução ao catálogo da exposição intitulada L´Au-delà dans l´art japonais. Naquela, ele chama a atenção para a pintura aguada e o espírito do Zen, seita contemplativa do budismo, de afastar todas as preocupações terrenas e procurar uma visão intuitiva para assim surpreender a verdade da vida e do universo...   ... Com vista a atingir o coração da verdade, era necessário eliminar as impurezas devidas aos acontecimentos e à circunstância. Na terminologia Zen, essa eliminação dos entraves e essa aproximação dircta da verdade são chamadas nada, vacuidade. É por uma contemplação esvaziante e por uma disciplina visando atingir o reino do não pensamento que Çakyamuni, o fundador do budismo na Índia, alcançou a iluminação suprema. Fui a este texto, que guardava de uma estadia em Paris, há mais de meio século, porque me ocorreu quando relia o 17º capítulo, A Pasta do Mestre, do romance de Kawakami que Taniguchi verteu para desenho, com o mesmo título em japonês: Sensei no Kaban. Ali se conta que, depois da união do pudor e da paixão poderosa e íntima do professor e da sua ex-aluna, aquele irá morrer. No dia do funeral. o seu filho entrega, em memória grata do pai, um presente à jovem senhora: quando esta, saudosa e só, o abrirá, encontra a pasta que todos os dias ele trazia consigo, e lhe legara em testamento: estava vazia, nada tinha dentro. Lembra-se então de um poema de Seihaku Iraku que o Mestre um dia lhe ensinara: Tanto viajei / que trago a roupa gasta / e o frio a trespassa /  Está claro o céu desta noite / mas dói-me o coração. E olhando o céu calado, dirige-se ao Mestre: Gostava tanto de voltar a vê-lo... E lá do alto, do céu vazio, uma voz lhe diz: Está prometido, um dia será!

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DOS TEATROS DE TORRES NOVAS

 

No final do mês de maio, o Centro Nacional de Cultura organizou uma visita cultural ao Concelho de Torres Novas, que incluiu o mais importante e bem significativo património histórico, arquitetónico e artístico da região, abrangendo desde as ruinas romanas de Villa Cardilium às diversas Igrejas e ao Museu Municipal Carlos Reis, Museus, e ainda com referências e visita à tradição de edifícios de teatros e de cultura em geral.  

 

No que respeita ao teatro há a assinalar um historial de edifícios que marcaram períodos e estilos sucessivos de atividade e expressão arquitetónica, mas também, expresso ou implícito, um relacionamento com a criação do espetáculo teatral, em épocas e tradições não muito habituais em zonas do interior do país:  isso pelos edifícios em si mas também ou sobretudo pelo substrato cultural e profissional subjacente e constante desde o século XIX. E não só na sede do Concelho. 

 

Refira-se em particular a tradição dos sucessivos Teatros Virgínia que marcam, há mais de 150 anos, o património e a atividade cultural da região.  

 

De fato, assinala-se a construção, a partir de 1845, de um primeiro Teatro, na época designado Teatro União. Esteve desde a origem ligado à Câmara Municipal, que apoiou em 1842 a construção dessa sala original, iniciativa dos sócios fundadores de uma entidade de beneficência, o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré. Mas diz-nos Sousa Bastos, no sempre citável «Dicionário do Teatro Português» (1903) que “quando este (Montepio) deixe de existir, a Câmara tomará posse de tudo”. Assim foi. 

 

Tinha na origem frisas, 30 camarotes, para cima de 150 lugares de plateia, balcão e geral. E em 1895, passa a denominar-se Teatro Virgínia.  

 

Sousa Bastos explica a mudança de nome do Teatro. Trata-se de uma homenagem à atriz Virgínia, de seu nome completo Virgínia Dias da Silva, conhecida na época por atriz Virgínia simplesmente. Nasceu em 1850 em Torres Novas, faleceu em 1924, com uma brilhante carreira em Portugal e por duas vezes em tournées no Brasil. Integrou as companhias do D. Maria II e do Trindade, à época os teatros mais relevantes da cena portuguesa. 

 

Em 1956 é entretanto inaugurado em Torres Novas um novo Teatro Virgínia, projeto do arquiteto Fernando Schiapa de Campos. Representou-se, no espetáculo de estreia, ocorrido em outubro daquele ano, um sucesso bem da época – “As Meninas da Fonte da Bica” de Ramada Curto, pela Companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. 

 

“O Virgínia era uma tentativa de inovação e foi até publicado na progressiva revista «Arquitetura» como isso mesmo (…) com desenho moderno «contra» imitações do passado” diz-nos José Manuel Fernandes em “Cinemas de Portugal” (1995). 

 

 O Teatro desenvolve ao longo do meio século uma atividade assinalável: mas tal como sucedeu a tantos teatros do interior, foi entrando em decadência. 

 

Até que em 2005 o Teatro Virgínia reabre com um projeto de remodelação do Arquiteto Gonçalo Louro. Integra-se na qualidade e variedade epocal e arquitetónica do património do Conselho. 

 

E acresce que desse património arquitetónico e cultural e da visita do CNC fez parte o pequeno Teatro Maria Noémia, localizado na freguesia de Meia Via, nas proximidades da sede do Conselho e também gerido pela Câmara Municipal de Torres Novas.  

 

Trata-se de uma pequena sala, em edifício próprio, com lotação de cerca de 100 lugares dispostos em plateia e galeria superior. Foi construída nos anos 30 do século passado, por iniciativa de um comerciante local, Manuel António Fanha, que deu à sala o nome de uma neta então recém-nascida, precisamente Maria Noémia, que «recebeu» os visitantes através de um vídeo.  

 

A sala é recuperada a partir de 2005 e alberga um grupo teatral que se estreou há cerca de 10 anos e mantem atividade assinalável.  

 

E muito assinalável foi pois esta visita do Centro Nacional de Cultura, orientada por Anísio Franco, em que tive o gosto de colaborar no que respeita ao património teatral. 

 

DUARTE IVO CRUZ