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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

IV - O ABSTRACIONISMO EM KANDINSKY

 

1. A expressão arte abstrata descreve pinturas ou esculturas que não têm qualquer relação com a natureza, em que a obra de arte usa uma linguagem puramente abstrata, procurando o dinamismo e o ritmo através da cor, numa proeza de imaginação onde não se reconhece qualquer coisa do mundo físico, material e visível que conhecemos. É misteriosa e subversiva, invertendo a nossa mente racional formatada para acreditar que pinturas e esculturas têm de contar uma história, representando-a e tornando-a compreensível.

 

São arte abstrata as obras plásticas em que não há figuração, nem representação do espaço e do mundo real que percecionamos, de objetos ou de paisagens, de seres humanos ou animais, de luz ou perspetiva, detendo-se apenas numa visão das trajetórias, dos ritmos, de modo a que as matérias se valorizem por si mesmas, os fundos se oponham às formas, as técnicas se sobreponham ao desenho e à cor, criando uma teia geométrica plana não representativa, mas sim impositiva de elementos de ordem e de simbolização do espaço.

 

Embora a abstração remonte aos tempos pré-históricos em que o ser humano fez pinturas rupestres ligadas à magia, surgiu e desenvolveu-se essencialmente como vanguarda artística no século XX, em oposição à exaltação figurativa do Renascimento e do naturalismo.

 

2. Todavia, a primeira obra não figurativa consciente parece ser de Kandinsky O russo Wassily Kandinsky, após uma fase expressionista em que foi membro do movimento alemão Blaue Reiter (Cavaleiro Azul), juntamente com F. Marc, R. Delaunay, A. Macke, G. Munter, Paul Klee, entre outros, orientou-se para o abstracionismo e tornou-se um dos expoentes da arte abstrata. Ao defender a autonomia da obra de arte em relação ao seu criador, estabelece relações entre a música e a pintura, porque a música, quando não cantada ou acompanhada de palavras, é uma arte totalmente abstrata, chegando a comparar as cores a instrumentos musicais, em que o azul atuaria numa tela como uma flauta numa sinfonia, o verde como um violino, o branco como o silêncio, numa paisagem visual que permitisse ao observador ouvir o som interior da cor, só ouvido quando um quadro não continha um significado convencional que distraísse o observador-ouvinte.

 

No decurso da sua investigação escreve o livro Do Espiritual na Arte, surgindo a primeira fase da sua obra abstrata, conhecida por cromática, daí datando a sua Primeira aguarela abstrata (1910), em que usa a cor pura, omitindo o figurativo, com uma profunda ligação e influência da música.  

 

Já Wagner tinha compreendido as potencialidades de comunhão entre a música e a arte em geral, ambicionando uma obra de arte total, influenciado por Schopenhauer, para quem o único modo de nos libertarmos dos nossos desejos básicos, monótonos e insaciáveis, eram as artes, possibilitando-nos transcendência, fuga, alívio e compensação espiritual. Opina que a  arte que melhor o proporciona é a música, devido à sua abstração, em que as notas são ouvidas e não vistas, libertando a nossa mente e imaginação do aprisionamento da nossa vontade e da nossa razão.

 

Mas seria o compositor austríaco Schoenberg, de que (Kandinsky) foi amigo, que o emocionou, encorajou e influenciou a avançar, surgindo em 1911 Pintura com um Círculo, tida como a primeira obra de arte de Kandinsky totalmente abstrata. Pretendia que a tela fosse similar a uma partitura musical, o mais sonora possível, mas completamente abstrata, liberta da representação e proveniente do instinto. Uma fuga à representação na pintura que se aproximasse e fosse alma gémea com o universo da música. Compreensível que, na sua maioria, as obras de Kandinsky se intitulem Composição, Improvisação, Impressão, lembrando a numeração de trechos musicais. O que pretendia, por exemplo, nas suas telas com o prefixo Improvisação era criar uma paisagem visual que permitisse ao usufruidor ouvir o som interior da cor. Já Composição VII é tida como um apogeu da sua carreira, criando uma pintura passível de ser comparada com uma sinfonia.  

 

Esta subjetividade espiritual de Kandinsky tinha as cores e as formas puras como meios significantes da expressão pictórica, através dos quais se expressava o ritmo. A cor era a tecla, que pelo som musical exercia uma influência direta na alma, sendo esta um piano de muitas cordas.

 

A segunda fase, do abstracionismo ou geometrismo lírico, é a busca de uma linguagem universal a partir da matemática, por contraste com a arte geométrica de Malevitch, coincidindo com a sua atividade como professor da Bauhaus.

 

3. Podemos concluir que para W. Kandinsky a vida espiritual era mais importante que a material, colocando o seu critério de valores essenciais fora do universo físico, numa subjetividade transposta para um abstracionismo espiritual, lírico, poético, mental,  imaginário, bíblico, religioso e transcendente.  

 

Além de Kandinsky, também Frantisek Kupka, Robert Delaunay e Klee passaram por uma fase abstrata, avançando para ela através da música, fazendo da cor e da música a sua arte, sem esquecer a influência das teorias de Einstein, Freud e Bergson.

 

Como pintor de permanente experimentação e de várias influências, também Amadeo de Souza-Cardoso aderiu, entre nós, numa fase posterior, ao abstracionismo, por impressiva influência de Delaunay.    

 

18.04.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

CRÓNICA DA CULTURA

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Na Véspera

 

Na véspera houve sempre esperança. Referimo-nos à esperança que ri dos fracassos da vida apoiando-se neles para os superar. Falamos da esperança que se opõe ao nada, aquela que é uma predisposição do espirito a realizar o que se deseja. Essa existiu sempre, ao menos na véspera, queremos crer. E na véspera a esperança quando existe é um mais, e só diminui com o tempo nos anos somados que os dias dão, ou seja com a idade, com os sofrimentos e as desilusões. Mas eis que ao diminuir pelas razões que referimos, ela ascende ao grau de virtude.

 

Assim, na véspera, numa véspera de agarrar de novo a vida, aprendemos a cultivar a esperança, aquela que segundo C. Péguy é uma pequena esperança que não tem ar de nada, nem de sperare ou de espera. Surge então e de véspera também, a necessidade de advertir, sobretudo os jovens, contra a ilusão e a euforia para que a esperança não condicione o êxito do espirito. E de novo na véspera de uma realidade desejada a esperança é, pois, um sonho acordado que se opõe à entropia.

 

A esperança, na véspera temporal de que uma lotaria será ganha, não é virtude, já que para nós a esperança semeia e vai ao fundo da tristeza colher as sementes que transforma. E é a partir daqui que a véspera tem um conteúdo diferente, como impulsionadora da uma esperança que se expõe nas dificuldades, no ser feliz agora, na essência do presente.

 

Contudo, recorde-se, na véspera de Hiroxima, a esperança mudou de natureza, perdeu a espera. De repente todos fomos feitos para uma outra coisa. De repente começamos a desfrutar da incerteza que semeia uma esperança. Lembramo-nos das palavras de Malraux: «o século vinte e um será religioso ou não o será?», acode entre outros G. Bernanos, A liberdade para quê? Sartre e a sua escolha recaída no nada.

 

E de novo, na véspera.

 

Regressados.

 

Cultivar a mola da resistência, do tesouro da precisão, da justiça e da fidelidade, e sobretudo antes ou depois da véspera, chegar à hora precisa e prevista para que não sinta o coração aquele vago mal-estar que tudo mina.

 

E quem sabe, quem sente que no último instante da véspera vai vencer a liberdade? Aquela que faz da esperança não uma realidade dormente, mas uma luz que vai abrir porta à penumbra deste mundo. 

 

Teresa Bracinha Vieira

NA CRUZ DO TEMPO

 

O pesado andar do lavrador

É também um cansaço

Coberto de orvalho

Para que água não lhe falte até ao fim

 

Seja o terminar

Um Tempo que dele se esquecerá

Uma dor branca ou grisalha

Que devagar

Desperta em mim

 

Que um outrora teve olhos

Peregrinos

E amou mágoas

Escondendo o rosto

 

Que se aproximou de mim, vem

Indefeso

Numa imensidão de estrelas

Pousadas nos campos

Que para ti plantei

Lavrador

 

E depois solitária

Aguardei

 

No lugar onde o grilo cantava

Que tu

Lavrador

Chegasses não triste

Rosa

Dos meus dias

Caminhando com sandálias de prata

Tão errante de beleza e de cansaço

 

Tão abraço que labuta e morre

E seja eu quem recorde

Estranhas coisas ditas

 

Tu. 

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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   A importância do desconhecido no processo criativo.

 

'Unknowing needs that a man be in a certain state of grace (...) not at all as children are but rather as fools or saints.', P. L. Travers, 'On Unknowing'

 

O homem ao criar estabelece uma permanente relação com o Desconhecido. 

No texto 'On Unknowing' que P. L. Travers escreveu para a revista 'Parabola' (1985) lê-se que a importância daquilo que se desconhece, acompanha o homem desde o seu nascimento e concretiza-se na sua constante capacidade de se maravilhar. 

Porém, rapidamente a razão, ávida de informação, oculta o Desconhecido e encontra nome e significado para tudo, dando oportunidade para que se constitua uma tão esperada verdade que advém de múltiplas opiniões, por vezes contraditórias e divergentes. 

E, segundo Travers, para que o processo criativo possa estar aberto ao Desconhecido, ao infinito e ao inesperado, é necessário abandonar essa avidez da razão e aceitar uma condição de completa simplicidade. É através do Desconhecido que o processo criativo se revela.

 

'Unknowing, if one can be open and vulnerable, will take us down to the very deeps of knowing, not informing the mind merely but coursing through the whole body, artery and vein.', P. L. Travers

 

Mas o que será que conduz o homem a essa condição de simplicidade completa? 

O sujeito criador não pode eliminar, nem ignorar o conhecimento que já tem e que vai adquirindo. Paradoxalmente o homem precisa desse conhecimento - é parte essencial da vida e não pode ser ignorado. Porém assim que a razão se tenta impôr em todo o campo de ação do consciente, todas as possíveis oportunidades de descoberta do Desconhecido são abafadas e perdidas.

 

'The world belongs to silence and stillness.' escreve Travers. E acrescenta que o Desconhecido só poderá ser descoberto em momentos de vazio total - momentos esses em que muitas vezes a razão se confunde com aborrecimento. São, na verdade, estas as oportunidades, para um autoconhecimento ainda mais profundo. O encontro com o Desconhecido dá-se através desse vazio, desse silêncio que existe dentro do homem e que o torna plural e completo - razão e intuição, mortal e imortal, finito e infinito. Só perante tal plenitude o sujeito criador sabe sem saber.

 

Ana Ruepp

 

  

LONDON LETTERS

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   A Brexit snap election, 8 June 2017

 

 It is not done until is done. A Prime Minister RH Theresa May MP pede hoje poderes bastantes à House of Commons para convocar eleições gerais antecipadas. A libra esterlina dispara com a previsão de uma vasta

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maioria Tory. — Chérie. Prudence est mère de sûreté. Que se pode dizer sobre o clima nas ilhas ? É a Brexit Britain e o guião segue a matriz dos plot twists. Depois de três vezes negar o cenário de legitimação para o mandato primoministerial, eis a Tory líder a mudar de opinião após uma cuidada reflexão pascal. — Hmm. Do not put new wine into old bottles. O suspense marca também o resto do mundo. O US President DJ Trump demonstra o seu entendimento do que é o America First: a península coreana treme com a visão de um conflito nuclear. As presidenciais francesas digladiam os últimos argumentos. Turkey vota pela concentração dos poderes do President Recep Erdogan e adensa a sombra otomana no eurocontinente. Os Princes William e Harry impulsionam o debate no reino em torno da saúde mental. O J025 aproxima-se da Earth com a etiqueta do maior asteroide a passar nas proximidades desde 2004.

 

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Lovely Springtime at Central London even with fresh wind. Um telefonema do Number 10 para o Buckingham Palace inicia uma nova reviravolta, para alguns surpreendente, na impetuosa política doméstica. A Prime Minister informa HM Elizabeth II que convoca eleições gerais para 8 June a fim de obter a “Brexit unity.” A decisão assume forma dramática, com o anúncio de “a surprise PM statement” para as 11.15 am de Monday. A especulação circula durante horas na political bubble. Note-se que tais declarações oficiais são algo extraordinário, servindo usualmente para declarar guerra, dizer da queda governamental por resignação da PM ou marcar eleições. Singular é também o facto de todos os cenários serem por cá tidos como prováveis, dadas as vagas emocionais que tumultuam o Brexit serial. Quando Mrs May aclara as águas é já consensual a tese de… a Blue murder. Os Tories avançam para uma maioria histórica face a enfraquecidas (apesar de ruidosas) oposições.


Esta tarde decorre mais uma acalorada votação nos Commons quando Mrs May requer luz verde para a #GE2017. Necessita de 2/3 da câmara para revogar o Fixed-term Parliaments Act 2011, que datava o sufrágio em 2020. As reações ao gesto do 10 ainda ribombam no Palace of Westminster. Pouco fica da imensa espuma dos comentários plurais, quando muitos MPs encaram a séria possibilidade de perder o emprego às mãos do eleitorado flutuante. Tracemos a bissetriz possível. Se a generalidade das sondagens indica as vésperas de a blood Labour bath, com o partido de RH Jeremy Corbyn a 21 pontos percentuais de distância face aos Conservatives, a snap election é por cá encarada de forma genericamente dual: para uns é a almejada oportunidade para reverter o resultado do euroreferendo de 2016; para outros é o momento decisivo para unir forças atrás de HM Government nas complexas negociações da saída do UK da European Union. O tom do debate está dado: no "are you kidding?" da entrevistada acidental em plena rua, na autoexclusão do ex Tory Chancellor George Osborne das listas de candidatos e em manchete do Daily Mail ― “Crush the saboteurs.” Com paragem nas eleições locais de 4 May, a par das consequências judiciais do overspending partidário na última campanha, faltam 50 dias para o sufrágio geral.

 

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Aos amantes de jardins, arquitetura e história, uma recomendação final de leitura e de convite à visita. Nos dois últimos números da sempre belíssima Country Life, uma revista muito cá de casa, Mr Geoffrey Tyack narra a evolução secular da University of Oxford. Sob o título “A seat of learning” e com fotografias de Mr Will Pryce, a dupla de artigos recua ao nascimento da universidade no 12th Century como comunidades de “scholars and aspiring scholars” para traçar a direção e a inspiração das artes ao longo de um passeio por edifícios e bibliotecas. Das lecture rooms e alojamentos clericais das Oseney Abbey Schools no medievo, aliás, as que fascinam o Infante Dom Pedro, conforme o Duque de Coimbra testemunha na sua “Carta de Bruges,” à majestosa Arts End, a primeira biblioteca britânica com wall shelving, criada em 1610-12, a peregrinação centra-se nas góticas Schools Quadrangle e na Bodleian para dar conta do papel público da Convocation House. Este é um espaço menos conhecido pelos pergaminhos políticos, mas é o cenário consensualizado para estruturar o debate nacional em dividido reino, ao servir de parlamento, em várias ocasiões, no turbulento 17th century. — Well. Let us amuse our minds with Master Will and that contemplative Jaques in As you like it: — “Out of these convertites / There is much matter to be heard and learnt."

 

St James, 18th April 2017

Very sincerely yours,

V.

 

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A VIDA DOS LIVROS


   De 17 a 23 de abril de 2017

 

Frederico Lourenço, quando recebeu o Prémio Pessoa, lembrou uma conversa com Sophia de Mello Breyner sobre a sua opção pelos estudos clássicos. É da maior importância essa recordação e a proposta que lhe está subjacente, no sentido do reconhecimento da importância das Humanidades, num sentido amplo e integrador, para a compreensão das nossas raízes.

 

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AO ENCONTRO DAS RAÍZES

A poesia da autora de Geografia e de Dual foi profundamente inspiradora para o jovem Frederico Lourenço que então dava passos decisivos relativamente à sua vocação. Houve, naturalmente, outras influências, como as muito marcantes de seus pais, Manuela e M.S. Lourenço ou a de seu padrinho João Bénard da Costa – nessa geração extraordinária de “O Tempo e o Modo” – mas o caso de Sophia foi muito especial. Ela “inventou uma Grécia própria. Não é a Grécia dos guias turísticos, não é a Grécia dos compêndios de história, filosofia ou literatura. (…) É uma Grécia construída pelo olhar dela, uma geografia anímica que tem tanto de Grécia como de Portugal” (Valsas Nobres e Sentimentais). De facto, a atração clássica, veio até Sophia dessa confluência fantástica do Mediterrâneo e do Atlântico, donde houve existência Portugal e que Orlando Ribeiro estudou com génio e brilhantismo. E Frederico Lourenço recorda o búzio comprado na ilha de Cós, onde apenas se ouvia “o cântico da longa vasta praia / Atlântica e sagrada / Onde para sempre a minha alma foi criada”. É Sophia quem fala, naturalmente, e cada um de nós sente familiaridade nessa sensação. E poderíamos recordar ainda nos Contos Exemplares as referências homéricas a Manuel Bote, banheiro mítico da Granja… Mas voltemos ao discurso do premiado e à recordação do modo desconcertante como a autora de Livro Sexto rematou essa conversa iniciática: “Só espero que não se arrependa”… Nada havia mais a acrescentar, tudo de essencial estava, porém, na ligação poética ao mar e ao “país de montanhas e navios onde os golfinhos correm quase à tona de água, onde a alegria se multiplica de ilha a ilha e sobre o qual paira a grande felicidade dos deuses de Homero” (O Nu na Antiguidade Clássica). Tudo estava dito e não dito. O amor fundamental de Sophia tinha a ver com as raízes antigas, em que os portugueses, como novos Argonautas, não poderiam ser compreendidos sem a referência aos genes que nos chegaram de Homero e de Ulisses – nosso pai mitológico...

UMA PROPOSTA SÉRIA E NECESSÁRIA

Naquele fim de tarde, na Culturgest, ao ouvirmos o galardoado, fomos transportados até a essas fontes mais distantes, onde bebemos a cultura que nos formou. E percebemos como o gérmen da cultura clássica ficou bem presente na criatividade perene do mais recente tradutor da Bíblia. “Além da inspiração que fui beber a Eugénio de Andrade e a Ruy Belo, ou a Camões e Pessoa, não tenho a menor dúvida de que o génio tutelar da minha tradução é Sophia. No fundo, o que eu tentei fazer foi traduzir Homero como se eu próprio me chamasse Sophia Andresen, embora, como eu já frisei, sem andresenizar artificialmente o texto” (Valsas…). Com especial pertinência, F. Lourenço defendeu agora ser “preciso começar o estudo do grego e do latim no ensino secundário. Enquanto isso não voltar a acontecer, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos”. Esta ideia merece uma especial atenção. E não se pense que estamos perante uma sugestão avulsa de um cultor de determinado ramo de saber. Não. Do que se trata é de um apelo sério, que tem a ver com a preparação adequada dos estudantes na área essencial da língua e da cultura. O bom domínio da língua não é tema de gramáticos, é questão de cidadãos. Precisamos de saber comunicar bem, de modo a que nos entendam, a que nos entendamos uns aos outros e a que saibamos exprimir-nos com ideias claras e distintas. Não há verdadeiro diálogo se não soubermos falar e ouvir. Infelizmente, quando ouvimos tantos debates nos meios de comunicação, presenciamos monólogos maçadores e uma invariável incapacidade para exprimir pontos de vista próprios e para responder aos interlocutores.

 

A CULTURA COMO CRIAÇÃO

A sugestão de Frederico Lourenço é muito mais profunda, positiva e plena de consequências do que à primeira vista possa parecer. E não se julgue que tudo se poderia resolver com acrescentos curriculares. Bem sei que há sempre a tentação de colocar mais um adereço numa espécie de árvore de natal de temas. Não é disso que se trata. Impõe-se uma atitude inteligente que permita nos núcleos essenciais de aprendizagem saber integrar o conjunto e o contexto, a razão histórica, a diacronia e a sincronia, a etimologia, as regras e o método. Nesse sentido, o escritor tem toda a razão. Como poderemos entender e proteger a língua que falamos se não conhecemos de onde provém e qual a razão de ser das palavras que usamos. De facto, a qualidade das nossas humanidades e o estudo da história e cultura portuguesas estarão no futuro seriamente comprometidos se não dermos atenção as nossas raízes culturais. E insisto num ponto de que tenho feito cavalo de batalha – uma cultura aberta, consciente da necessidade de preservar o património como realidade viva, precisa de assentar numa atitude que favoreça a atenção ao que tem valor humano, assegurando o cuidado relativamente ao que recebemos dos nossos ancestrais. Só haverá atenção e cuidado se estivermos despertos. E as humanidades têm a ver com as letras e as artes, mas também com a matemática, a cultura científica e a importância do método experimental. Não se trata de dizer que tudo tem lugar, mas de compreendermos que a complexidade do mundo contemporâneo obriga à complementaridade de conhecimentos e de perspetivas. Mais do que da especialização, vivemos a era da cooperação de saberes. Na última crónica falávamos de Damião de Goes e de José Mariano Gago. Não podemos esquecer que os gregos referiam a “paideia” e os romanos a “humanitas”. E temos de nos lembrar das artes liberais da Idade Média: o Trivium, abrangendo: lógica, gramática e retórica; e o Quadrivium, com aritmética, música, geometria e astronomia… Se lembro isto mesmo não é para desfazer fronteiras e enfraquecer as ditas ciência sociais, mas sim para evitar o fechamento e garantir o encontro, a inter e a transdisciplinaridade. Sobre Oxford, que Frederico Lourenço conheceu desde tenra idade, encontramos, como se fosse uma metáfora sobre o diálogo entre o conhecimento e a vida: “é indesmentível que Oxford parece propiciar esse constante esmaecimento de fronteiras entre o literário e o factual, sobretudo quando o olhar que perceciona a cidade é, já de si, atreito a substituir a realidade que tem à sua frente por imagens e projeções livrescas”. A valorização das humanidades é, no entanto, o favorecimento de um combate constante e sereno contra a mediocridade e a ignorância. Não se trata de fechar conhecimentos sobre si mesmos ou de ignorar que a educação para todos obriga, nas suas profundas diferenças, a compreendermos a subtileza das relações entre cultura e vida e que não podemos confundir pessoas e robôs. A presença dos clássicos ajuda certamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim: 

 

   Começo esta carta por curta tradução de Matsuo Basho (1604-1654), poeta japonês que bem conheces:

 

               meses e dias são

               perpétuos passageiros

               e viajantes os anos

               que se encadeiam

 

   Somos prisioneiros do tempo. Dessa cadeia que nos amarra e arrasta, num qualquer movimento, seja roda circular ou progressão escatológica. Esta manhã, em visita à minha cerejeira do Japão, que continua a florir em tão lindos dias, murmurei outro haiku do Basho que, se bem me lembro, nos diz algo como "todos os anos, as flores que caem ao chão vão sustentar a cerejeira"... O que hoje penso ser apenas aparente - a contradição entre tempo escatológico e tempo circular - será quiçá tão só a diferença do modo da vivência que qualquer de nós possa ter da circunstância de um momento. Em si própria, a circunstância do tempo é a intemporalidade. O tempo mais não é do que um conceito, categoria mental por que construímos a duração. E esta mais não é do que o que vamos conseguindo apreender, isto é, o que vai preenchendo o nosso alcance. O tempo define-se pela nossa presente limitação. A realidade, como o universo, é o infinito, não tem tempo. Nem espaço. Como Deus. "Criador inefável ! "- assim, todas as manhãs, ao começar as aulas, no colégio, os meus colegas e eu nos dirigíamos, rezando, ao invisível, intocável, inapreensível, pedindo-lhe luz...

 

   Hoje, em Domingo de Ramos, ao ouvir outra prece "Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", lembro-me dessa oração infantil, e pensossinto que todos fomos abandonados ao nosso tempo de cada um, talvez perdidos no infinito que ainda não alcançamos. Mas a Páscoa é um convite a transpor o tempo que nos circunscreve. Além da desolação de tão incompreensível desgraça e mortandade, à nossa volta, talvez a esperança nos dê a coragem de acreditar. O sustento da vida é a infinita renovação. Talvez por isso me lembre tanto do Bolero de Ravel, quando me ocorre o destino do tempo na intemporalidade... O final dessa peça musical é um inesperado apocalipse. Nenhum de nós conhece o dia nem a hora da revelação, cada um, todavia, saberá como entregar-se.

 

   Nesta Páscoa, chamo a nós, Princesa, esse princípio da filosofia africana ubuntu: Existo porque existimos. Evocando uma declaração de Nelson Mandela: Essa ideia tão africana de que só somos humanos graças à humanidade de outrem, contribuiu fortemente para o nosso desejo universal de um mundo melhor. Não sou "eu", sozinho, quem se pode descobrir- "me eu mesmo", mas somente "nós juntos" que poderemos aprender a conhecer e apreciar respeitosamente "os outros" e "nós mesmos". Aqui entre nós, pergunto, quantas vezes pensamossentimos que o convite pascal é um apelo à ressurreição de todos?

 

   Feliz Páscoa!

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS TEATROS OITOCENTISTAS


EVOCAÇÃO DE DIOGO BERNARDES EM PONTE DE LIMA

 

Aqui temos encontrado e analisado sucessivas gerações de teatros, cinemas e cineteatros ao longo do país, numa expressão contínua de centros de espetáculo: e é interessante verificar como a arquitetura teatral soube atualizar-se, em duas vertentes complementares: ou pela construção de edifícios originalmente vocacionados para o espetáculo, que em Portugal, no que foi construído e sobreviveu, origina-se o Teatro de São Carlos, inaugurado como sabemos em 17….; ou pela recente instalação de áreas de espetáculo em edifícios de vocação habitacional ou comercial, como ocorre na maior parte das mais recentes salas chamadas “de bolso”, em espaços antes vocacionados para garagens. E uns e outros temos aqui referido.

 

Ora, é caso para dizer: sendo certo que qualquer espaço de espetáculo é em si mesmo meritório, a recuperação de velhos teatros históricos, em meios socio-urbanos mais pequenos e mais descentralizados, constitui fator de relevo tanto no aspeto da produção cultural em si mesma, como no aspeto da conservação de edifícios valorizadores da tradição urbana dos meios respetivos.

 

Referimos hoje, precisamente, mais um exemplo flagrante desta valorização urbana decorrente da sobrevivência e recuperação de um teatro oitocentista, mantido na essência geral da sua arquitetura oitocentista, mas agora utilizado numa expressão constante e bem atual de espetáculo. Trata-se do Teatro Diogo Bernardes de Ponte de Lima, projetado a partir de 1893, inaugurado em 19 de Setembro de 1896 e adquirido pela Câmara Municipal em 1992: voltou a funcionar, depois de obras de recuperação, alguns anos depois. 

 

Segundo Sousa Bastos, o teatro terá sido “edificado por meio de ações, todas elas passadas entre os habitantes da vila”, assim mesmo: o projeto é do Arquiteto (ou engenheiro, segundo sousa Bastos) António Adelino de Magalhães Coutinho, e segue a estrutura dos edifícios de espetáculo da época, que, neste caso ainda hoje, em boa hora, se conserva: plateia, frisas, duas ordens de camarotes, geral e galeria.

 

É o que se lê numa publicação da Câmara Municipal, abaixo citada, e que historia e documenta o historial do Teatro, assinalando a reabertura em 4 de março de 1999.  E vale a pena recordar o anúncio de inauguração, data como referimos em 19 de setembro de 1896. O espetáculo é de assinalar: nada menos do que «a ópera-cómica portuguesa sob a direção de Francisco Cruz (com) a ópera cómica em 3 atos e quatro quadros “Os Sinos de Corneville”» de… …A estrutura interna do teatro e preços respetivos, que vale a pena recordar,  - é como segue:


«Frizas da frente com 6 entradas, 3$000. Ditas de lado, idem ,2$5000. Camarotes de frente idem, 3$000. Ditos de lado, idem, 2$5000. Ditos de 2ªordem, idem, 1$5000. Superior 500. Geral 400. Galerias de frente 240. Ditas de lado 140. Entradas avulso, 200 reis»… E recorda Adelino Tito de Morais, na publicação citada, que o cinema mudo inicia-se no Teatro Diogo Bernardes em 1921, e o cinema sonoro em 1934.

 

Nos anos 80 o Teatro encerra.  Mas em boa hora a Câmara Municipal adquire-o e a partir de 1996 inicia a reabilitação, segundo projeto do arquiteto Luis Faro Viana, que descreve as adaptações efetuadas: e sempre em boa hora, acrescentamos nós, essa reabilitação/modernização respeitou e recuperou a traça inicial desde teatro oitocentista, de excelente qualidade.

 

Finalmente: Diogo Bernardes dedicou ao Rio Lima uma obra poética notável e uma expressão literária que em si mesma valoriza, hoje como no século XVII, a cidade que o inspirou. Pois, tal como escreveu Ester de Lemos no Dicionário de Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, “o que melhor distingue Bernardes é a melancolia vaga e doce, um pouco à Bernardim; a aceitação cristã resignada, da morte entendida como porta para a vida; a profunda religiosidade que o aproxima por vezes do seu irmão Frei Agostinho da Cruz” (pág. 98).


E o próprio Diogo Bernardes evoca e qualifica o Lima em numerosos poemas: “Lima, que neste vale murmurando/Em quanto o sol se esconde em Ocidente/ A tua natural vizinha gente/ Fazes adormecer com teu som brando”; Águas do claro Lima que corria/ Pera mim, noutro tempo, claro e puro,/ eu correr vejo agora turvo, escuro,/ Quem afogou em vós minha alegria?”; “Num solitário vale fresco e verde/ Onde como veia doce e vagarosa/ O Vez, no Lima entrado, o nome  perde.”: ou “Cantava Alcido um dia ao som das águas/ Do Lima, que mais brando ali corria”…

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

III - VANGUARDA FUTURISTA

 

1. Marinetti, um calculista e provocador poeta e romancista italiano, apresentou ao mundo, no jornal parisiense Le Figaro, em 20.02.1909, o Manifesto do Futurismo para a literatura, numa jogada de publicidade antecipada, sabendo que o melhor meio das suas ideias serem lidas, faladas e ouvidas, era serem publicitadas em Paris, núcleo central da elite artística e intelectual de então. No ano seguinte, em fevereiro de 1910, um grupo de jovens artistas apresentaram o Manifesto dos Pintores Futuristas, assinado por Carrà, Boccioni, Russolo, Balla e Severini e, dois meses depois, o Manifesto Técnico da Pintura Futurista.

 

Era um movimento artístico nascido em Itália, orientado para o futuro, com um corte radical com a tradição artística (passadismo), negando radicalmente todas as tradições, procurando traduzir a atividade frenética das grandes cidades, exaltando o homem de ação e fazendo o culto do dinamismo, do movimento, da velocidade, da liberdade, da energia, da força física e da violência, do perigo, do arsenal, do estaleiro e da máquina, a que corresponde o aparecimento da bicicleta, do automóvel e do comboio.

 

Inspirando-se no progresso industrial e no mito da velocidade, exaltando a técnica e a civilização, defendiam uma nova doutrina estética que proclamava o reconhecimento da máquina como parte fundamental da existência humana. Daí que Marinetti, no seu Manifesto, declarasse que o esplendor do mundo fora enriquecido pela nova beleza da velocidade e ser um automóvel de corrida mais belo que a Vitória de Samotrácia.

 

Apesar de elitistas, os futuristas pretendiam abranger todos os âmbitos, desde a arquitetura à moda, do desenho à decoração, do teatro ao cinema, sem esquecer a música, a literatura e a política, sobressaindo nas artes plásticas a pintura e a escultura.

 

Na pintura retratam as sensações que tinham do dinamismo da vida moderna, através de trajetórias cromáticas e luminosas, sendo os seus quadros enérgicos, cheios de movimento, com agressividade da cor e decomposição cromática, luminosa e das formas. Embora copiassem a ideia de ver e dissecar o objeto de múltiplos ângulos, à semelhança dos cubistas, não se fixavam estaticamente no momento, repudiando representar o mundo interior estático dos cubistas, introduzindo-lhe a aceleração, o dinamismo, a velocidade, a vibração, o futuro, como na tela Vibração Abstrata e Ruído, de Giacomo Balla. Compreensível dizer-se ser o futurismo o cubismo acelerado.

 

Na escultura procuraram mostrar a dinâmica do objeto, como o exemplifica a obra de Boccioni Formas Únicas de Continuidade no Espaço, de 1913, alegórica à velocidade e ao progresso, retratando um ciborgue, metade homem, metade máquina, de corpo curvado e aerodinâmico, locomovendo-se a passos largos, numa tensão dinâmica nova, via decomposição e intersecção de volumes.

 

2. Em Portugal teve a sua principal manifestação na poesia, com poemas futuristas de Fernando Pessoa, em especial sob o seu heterónimo de Álvaro de Campos, como a Ode Triunfal e a Ode Marítima, que o seu próprio inventor tem como poeta sensacionista e escandaloso, que rejeita o sentimentalismo luarento e contemplativo, retratando-o como engenheiro de profissão, um homem de ação e civilizado, da indústria e da técnica, escrevendo sob a luz das lâmpadas elétricas da fábrica. A que acresce a influência de Whitman. Outra composição poética de cariz futurista é Manicure, de Mário de Sá-Carneiro.

 

Refira-se também o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, de Almada Negreiros, por este pronunciado, pela primeira vez, em 14.04.1916, no teatro da República, atual São Luís, em Lisboa, no âmbito da 1.ª Conferência Futurista, comemorando agora cem anos. Apresentando-se no palco de modo chamativo, irreverente e provocador, vestindo um fato-macaco de operário ou aviador, alusivo ao futurismo, corroborado por palavras inflamadas e violentas, Almada procura chocar e indignar o público, exaltando a juventude, a guerra, a tecnologia e a velocidade, enquanto meios dinâmicos e força motora dos heróis futuristas.

 

3. Ao criarem uma ideologia poderosa do gesto e da palavra, inspirados no progresso industrial e no mito da velocidade, reforçada pela defesa do patriotismo, do militarismo e da guerra, os futuristas faziam declarações políticas, sendo Marinetti, seu principal mentor, amigo de Mussolini. Ao invés dos cubistas, para quem o tema da sua arte era a sua arte, a arte pela arte, sem manifestos.    

 

O que não serve para classificar, sem mais, este movimento como conservador, reacionário ou revolucionário, dado que os critérios de valoração artística não são necessariamente coincidentes com os políticos, a começar pelos politicamente corretos, tendo presente o valor intrínseco de uma obra de arte, que vale por si.  

 

Não esquecendo que o futurismo é uma das mais importantes vanguardas artísticas do século XX, com influências e consequências na atualidade, pois se, por exemplo, cada vez mais, queremos somar ao biológico (humano) aquilo que de melhor existe no artificial (máquina), pode questionar-se se nesta nova cultura não renascerá um novo futurismo. 

 

11.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA


 

ANDAMOS ESQUECIDOS DO NOSSO ESQUECIMENTO

 

Tenho para mim que será sempre mais simples sabermos onde estamos do que sabermos quem somos. Por vezes até descortinamos com mais facilidade uma atmosfera sobrenatural em objectos simples e familiares da perceção, e, descuidamos que a razão é o lado mais singelo do homem que mais perto o aproxima de si. E entre o misterioso e o vigilante há um tempo enigma no estar vivo que nos faz esquecer o sentido fundamental do nosso esquecimento. No entanto a intranquilidade permanece nesse estado atorreado sob uma hipotética linha de horizonte.

 

Anteontem um moderno artista da pintura com quem aprecio dialogar, dizia-me que os eruditos, sempre discutiram a hipótese de a arte abolir a moralidade já que esta se trata de mera convenção. Acrescentava mesmo, ser desígnio da arte abolir as convenções. Concluía que o nosso esquecimento atingira o hora a hora que impedia a reflexão de realidades como esta, e que isso muito o intrigava, era mesmo como se as gentes se movessem por entre sonos acordados ou vidas sonolentas, e tudo isto se abatia mesmo sobre os ditos pensadores.

 

Escutei, anui e disse-lhe

Não há que esquecer no que dizes, que as artes modernas, a que nos estamos a referir, têm tantas vezes abolido moralidades sem abolir a convenção. E refiro me mesmo a convenções inofensivas, tímidas que persistem com imensa autoridade. Nos romances modernos, existem vários géneros de mulheres, mas se a primeira coisa que se repara numa mulher descrita no romance for algo do seu aspeto físico, leva, normalmente a uma conclusão diferente do tipo de ser do qual se quer falar, esquecido o escritor do tal esquecimento esquecido, já que, se sempre assim referir uma personagem mulher, leva o leitor a demitir-se de outro caminho de entendimento, mesmo que esse não fosse o objetivo do escritor.

 

A questão fulcral é que um pormenor demasiado grande como o de andarmos esquecidos do nosso esquecimento acaba por proteger as vivas convenções que se mantêm fortes ainda que muitas vezes dissimuladas. E isto acontece na escrita moderna que se considera afastada das convenções, enquanto faz questão de que uma falta de pudor a não incomoda.

 

Uma escritora bem conceituada na nossa praça, um dia concordou que, seria mais fácil que as heroínas tivessem olhos azuis e não negros, pois esta era uma velha convenção que se sedimentou e incorporou o esquecimento de assim não poder ser.

 

Helena de Troia assoma às muralhas depois de se fazer um súbito e majestoso silêncio. Poderia ela usar um chapéu de palha e tentar gritar no meio dos estrondosos resmungos dos troianos?

 

No andar esquecidos do nosso esquecimento, mora um périplo por fazer. Quem perde o entendimento da vida, a ela não regressa mais, se não souber viajar para longe. Melhor dormir de janela aberta para que escutemos a ave-flauta. Partamos então que a saga passada não explica nunca o embarque.

 

Andamos esquecidos do nosso esquecimento também aqui neste tema de reflexão. Mas em tudo há que evitar que a navegação cesse; há que definir a estratégia de navegações futuras por onde a vida não perigue.

 

E continuámos a falar, sem nos resignarmos à renúncia

 

Teresa Bracinha Vieira