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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de março de 2017.

 

«Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo» nasceu em 1941, por iniciativa de António Ferro, tendo publicado quatro séries até 1973, dentro da preocupação de promover, interna e externamente, Portugal como destino turístico.

 

 

UMA REVISTA NOVA
Quando hoje voltamos a folhear a revista «Panorama» fica-nos uma dupla sensação – a da grande qualidade gráfica e a da presença de um conjunto de artistas com reconhecimento geral, sobretudo quando nos reportamos à fase inicial, em que António Ferro tem uma significativa margem de manobra na capacidade de atrair os melhores artistas do momento. As ilustrações de Bernardo Marques, Emmérico Nunes, Ofélia Marques, Paulo Ferreira, Manuel Lapa, Eduardo Anahory ou Júlio Gil marcam a identidade da revista. Para Ferro, seria importante apostar na vertente das artes. E diz: «Enganam-se os homens de ação (…) que desprezam ou esquecem as belas-artes e a literatura, atribuindo-lhes uma função meramente decorativa (…). A política do Espírito (Paul Valéry acaba de fazer uma conferência com o mesmo título) não é apenas necessária, se bem que indispensável em tal aspeto, ao prestígio exterior da nação: é também necessária ao seu prestígio interior, à sua razão de existir». Não por acaso, o Secretário da Propaganda Nacional vai buscar um título muito prestigiado para a nova revista – nem mais nem menos do que o do órgão da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Úteis, que fora dirigida por Alexandre Herculano a partir de 1837, contando com a participação das principais figuras culturais portuguesas da época, como António Feliciano de Castilho, Oliveira Marreca, Camilo Castelo Branco... Lembremo-nos que a revista romântica apresentava um mote «positivo, otimista, apaziguador, apelando ao entendimento entre todos os liberais» - não tendo entrada os assuntos políticos… Agora os tempos eram outros e o conteúdo cultural e científico da velha revista não seria replicado no novo órgão de comunicação. No entanto, a qualidade gráfica tornar-se-ia a marca que compensaria um conteúdo essencialmente de divulgação, sobretudo centrado em iniciativas oficiais ou próximas, apesar de algumas colaborações serem assinadas por especialistas de prestígio, como Reynaldo dos Santos, João Couto, Diogo de Macedo ou Reis Santos. Contudo, António Ferro é, sem dúvida, quem marca a revista nas suas origens e na sua missão, nitidamente orientadas por objetivos de divulgação e propaganda, com um sentido de favorecimento económico – compreendendo a importância crescente do turismo no mundo – e de promoção do regime político. Os sucessores de Ferro seriam, aliás, essencialmente continuadores do projeto, sem carácter inovador. Referimo-nos a António Eça de Queiroz, José Manuel da Costa, Eduardo Brazão, César Moreira Baptista e Pedro Feytor Pinto.

 

UMA LÓGICA PREMONITÓRIA
Quando hoje regressamos à memória histórica da revista, temos de compreender a sua natureza e o facto de o seu fundador ter entendido a importância da ligação entre o turismo e a cultura. Essa compreensão conduz, naturalmente, a que seja a fase inicial a mais interessante da vida da revista, uma vez que estamos perante a sua natureza precursora e o ativismo do seu fundador. Como afirma Reis Torgal, A. Ferro é, sem sombra de dúvidas, um «intelectual do Estado Novo», como o foram D’Annunzio, Marinetti ou Gentile em Itália, supondo esse conceito «um certo nível de produção e intervenção cultural e uma problematização de conceitos, servidos por uma boa leitura, mais ou menos complexa ou simples, de obras e de autores, de estéticas, de sociedades, de políticas e de religiões». E é esse perfil que nos permite hoje debruçarmo-nos sobre a originalidade e a importância do seu papel, fora de juízos de valor ideológicos, que pecariam sempre por anacrónicos. E que visa o ativismo de António Ferro? Valorizar o que os portugueses tinham para dar. E o seu percurso pessoal e intelectual não permite fechar-se numa lógica provinciana. Dir-se-ia que há um culto paradoxal da lógica nacionalista – já que, defendendo-a, não esquece o cosmopolitismo que os modernistas representam. Essa coexistência de fatores diferentes nota-se na revista «Panorama», em que a estética moderna vive paredes meias com a tradição e a lógica conservadora. O folclore, a aldeia mais portuguesa de Portugal, a simbologia popular não deixam de ser cultivados com as audácias de quem não esquecia a participação na aventura de «Orpheu».

 

O JORNALISTA DE OUTRORA…
O jornalista de outrora não esquecia o que dissera um dia nas termas de Vidago, sobre quem jamais conseguiria divertir-se, levando consigo uma «apagada e vil tristeza» «em que a raça se afunda, que dá a Portugal uma atitude sonâmbula, mediúnica, que espectraliza os seres em árvores, que dá às árvores uma expressão humana». Do mesmo modo, não esquecia a «povoação abandonada, suja, uma terra maldita, uma terra de farrapos, de gatos lazarentos, de mendigos torpes, de crianças que são chagas», a propósito de Moledo do Minho… Como poderia haver turismo nessa vil tristeza, nesse abandono ou entre tais farrapos? Mas também lembrava o que dissera de José de Almada Negreiros quando o apresentou no dia em que leu em público a genial «Invenção do dia claro»: «Imaginário quer dizer, para mim, um profissional do Sonho, aquele que desenha imagens no papel, Ingres da Alma»… E não dissera de Mário de Sá-Carneiro: «quando aqueles que se esquecem dele estiverem todos esquecidos, Mário de Sá-Carneiro será lembrado»? Afinal, tal como os seus companheiros de «Orpheu» tinham desejado culturalmente, haveria que abrir portas ao Imaginário. Se virmos o pensamento de António Ferro sobre o turismo, há uma premonição sobre a importância futura dessa indústria – apesar da guerra mundial parecer contradizer essa tendência inexorável. O tempo longo veio a confirmar a intuição do intelectual, desmentindo, porém, a lógica autárcica… Só uma economia aberta e não protecionista poderia favorecer a livre circulação dos turistas… Havia uma inteligência fina que antecipava as grandes tendências, mas descria agora dos ideais republicanos que abraçara outrora – preferindo a mão dura de um Estado forte. Percebe-se, contudo, como a personalidade irrequieta do fundador da nova revista era complexa e contraditória. E essas características permitiram antecipar a tendência dos factos e antever o desenvolvimento da ligação indelével entre cultura e turismo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 6 a 12 de março de 2017.

 

Zvetan Todorov, num livro atualíssimo, intitulado «Mémoire du mal, Tentation du bien» (Laffont, 2000), cujo tema ganha nos dias de hoje uma importância crescente, diz-nos que “querer erradicar a injustiça da face da terra ou apenas as violações de direitos humanos e instaurar uma nova ordem mundial donde sejam banidas as guerras e as violências, é um projeto que converge com as utopias totalitárias na sua tentativa de tornar a humanidade melhor e de estabelecer o paraíso sobre a terra”.

 

 

RESISTIR AO MAL, NÃO SUCUMBIR AO BEM
Como nos alertou Thomas Morus na sua «Utopia», do que se trata nas sociedades humanas é de não renunciar à capacidade de nos aperfeiçoarmos, em lugar da tentação do império cego da virtude, contrário à liberdade igual e à igualdade livre. Todorov insiste: “É possível resistir ao mal sem sucumbir à tentação do bem”. Mas não se interprete apressadamente o aparente paradoxo. É de pessoas concretas que cuidamos, nos seus vários caminhos ao encontro de si e dos outros, e não de seres abstratos, formatáveis segundo um qualquer modelo de perfeição que não tem lugar no mundo concreto. Por isso, a Utopia é um horizonte, um desafio, e não um modelo ou uma exigência abstrata. Zvetan Todorov (1939-2017) morreu há poucas semanas em Paris e é uma das vozes mais lucidas na complexa reflexão sobre a liberdade e a democracia nos dias de hoje – quando um sério mal-estar atinge as sociedades contemporâneas, a ponto de presenciarmos a adoção de estranhas escolhas e de inesperadas decisões, que à partida julgaríamos fora de um horizonte previsível de racionalidade e de saudável partilha de responsabilidades. Nascido em Sofia na Bulgária, o então jovem estudante chegou à Universidade no ano do relatório Krutchev (1956), no qual se denunciavam os “desvios” estalinistas. Então escolheu enveredar pelos estudos sobre a literatura tradicional búlgara – o que talvez lhe permitiu começar a fugir à uniformização ideológica do materialismo dialético então em voga. Foi esta necessidade de fugir à ideologia oficial que o levou a esforçar-se por esclarecer o mistério da arte da escrita – através da leitura de Tolstoi, Dostoievski, Tchekov ou Maiakovski. E assim, em 1963, parte para França, onde viverá a cultivar a sua criação literária, tornando-se um dos pensadores europeus mais importantes e influentes do seu tempo – através da investigação sobre a complexa relação entre as diversas culturas do velho continente. No seu primeiro livro estudará os formalistas russos (como Chklovski, Tomachevski e Propp) – em Théorie da la Littérature Seuil, 1965). Na Sorbonne, encontra Gérard Genette e aproxima-se de Philippe Sollers e Marcellin Pleynet do grupo “Tel Quel” e cultiva a semiologia, com Roland Barthes, deixando-se influenciar pela busca do sentido escondido nos códigos, nos signos e nas estruturas da escrita… Dialoga intensamente com Barthes, Sollers e Derrida; estuda as Liaisons Dangereuses de Choderlos de Laclos; é diretor de investigação no CNRS e anima a revista “Poétique” com Genette. Contudo, talvez vacinado pela experiência búlgara, não se deixa influenciar pelo radicalismo de Maio de 1968. Não esquece o que designa como os trinta anos desastrosos do leste europeu (1945-1975) e não hesita em falar, contra-corrente, do Movimento parisiense de 1968 como de “arrière-garde”. E não o faz de ânimo-leve. Esse entendimento corresponde a uma exigente reflexão teórica, que assume em diálogo com a intelectualidade do seu tempo. Com Théorie du symbole (1977) afasta-se do estruturalismo, assumindo uma atitude humanista (Nous et les autres, Seuil, 1989) e afastando-se do relativismo de Lévi-Strauss.

 

O TEMA DIFÍCIL DA ALTERIDADE
O tema da alteridade passa a marcar a obra de Todorov, a partir dos anos oitenta, centrando-se o ensaísta na sua própria condição de imigrante ou “deslocado” e na importância das mestiçagens culturais. E aqui encontramos referência ao “universalismo da alteridade”, que Emmanuel Lévinas designava como “humanismo do outro homem”. Nesta ordem de ideias, o escritor combate não apenas o relativismo cultural, mas também o culturalismo nacionalista. Para o ensaísta a literatura não é um discurso, mas um pensamento que transmite valores. Nestes termos, o conflito entre o totalitarismo e a democracia é o acontecimento mais importante na história política do século XX – exigindo uma atenção redobrada relativamente às mais subtis formas que podem pôr em causa a liberdade e a responsabilidade pessoais. Daí que, para Todorov, a crítica da democracia não signifique renunciar a esse ideal. O que está em causa é a preservação do pluralismo, do primado da lei, das legitimidades do voto e do exercício, de modo que a mais ínfima das vozes possa ser ouvida. No seu último livro, acabado de sair por estes dias – Le Triomphe de l’Artiste (Flammarion, 2017) – diz-nos: “O mundo contemporâneo, não menos que as sociedades totalitárias, empurra-nos em todos os domínios, trabalho, justiça, saúde e educação, para o que Alain Supiot designa como ‘governo pelos números’, o que obrigaria a substituir a ‘administração das coisas pelo governo dos homens’”. Daí a necessidade de considerar as fraquezas inerentes ao género humano, sem renunciar ao aperfeiçoamento permanente da humanidade, no sentido de melhores sociedade e democracia. O ultraliberalismo aliou-se, no entanto, à lógica do totalitarismo. E o pensador considera este facto particularmente inquietante, influenciando muitos dos caminhos inesperados que agora têm o seu curso dos dois lados do Atlântico, com a subtil emergência dos inimigos da sociedade aberta. “A tirania dos indivíduos pode ter consequências tão graves como a tirania do Estado”. E, em lugar da racionalidade, o que vemos surgir são a “pós-verdade”, os egoísmos e as ilusões.

 

ENTENDER O SENTIDO DE SER PESSOA
Não basta estudar a diferença entre metáfora e metonímia, é preciso entender o sentido poético de ser pessoa. Mais do que a semiologia, importa ir ao encontro do “sentido moral da história”, compreender como Baudelaire nos legou Les Fleurs du Mal, para além do seu formalismo. Daí a necessidade de perceber a exemplaridade dos Insubmissos (R. Laffont, 2015) de Germaine Tillion e Etty Hillesum a Nelson Mandela ou mesmo a Edward Snowden. E assim se passa da estética à ética, do belo ao bem, na procura da força dos valores. Daí a importância do sentido crítico, que põe à nossa consideração. Conhecedor dos fenómenos totalitários do Estado, sabe que a realidade não se repete e, sem simplificações, fala das continuidades entre o totalitarismo e o neoliberalismo – segundo a uniformização do conformismo das sociedades ocidentais e a emergência de um novo e estranho intervencionismo, mascarado de liberdade, com desregulação, pensamento único e subalternização das pessoas. “Se desejamos defender o ser humano contra as forças sociais que o destroem, não basta imaginá-lo produzido por princípios abstratos, precisamos de aceitar vê-lo com os traços do seu destino”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de fevereiro a 5 de março de 2017.

 

«D. Afonso III, o Bolonhês, Um Grande Homem de Estado» de Diogo Freitas do Amaral (Bertrand, 2015) constitui uma obra importante de um dos nossos mais qualificados cultores do Direito Público, sobre as origens Estado português, numa fase essencial da construção da Nação. Mais do que história política, estamos perante um documento que nos permite compreender a génese e a evolução das instituições públicas. Daí a importância desta obra.

 

 

ANTES DO MAIS, EUROPEU
A biografia hoje referenciada salienta as excecionais qualidades políticas e militares do «Bolonhês», bom conhecedor da Europa e das melhores práticas governativas, quer em virtude da sua experiência em França, onde viveu durante 16 anos – sob a influência de sua tia D. Branca de Castela (1188-1252) e, mais tarde ao lado de seu primo, Luís IX (S. Luís), com quem ganhou fama de excelente homem de armas – quer ainda pelo facto de ter acompanhado sua irmã D. Leonor, precocemente falecida, como rainha da Dinamarca (1211-1231). Esse conhecimento e as qualidades desenvolvidas permitiram no seu reinado ter tomado medidas fundamentais para a afirmação de um reino moderno e precursor em muitos domínios – abrindo caminho ao reinado extraordinariamente fecundo de D. Dinis. Por exemplo, as Cortes de Leiria de 1254 são um momento fundamental, por serem as primeiras que contam com a participação, entre nós, dos representantes do terceiro estado – o Povo, fator premonitório na configuração da legitimidade do Estado no final da Idade Média. Com especial significado, em termos práticos, para a afirmação do reino de Portugal, merece especial referência a conquista do Algarve e o complexo processo que conduziu ao seu reconhecimento desse facto. Em 16 de fevereiro de 1267, há sete séculos e meio (como foi assinalado, em boa hora, pela Universidade do Algarve) foi firmada a Convenção de Badajoz entre o rei de Castela Afonso X, o Sábio (poeta maior do galaico-português), e o rei de Portugal, Afonso III. Este assumira a legitimidade real, após a guerra civil, que o opusera a seu irmão D. Sancho II, deixando o condado de Bolonha. O acordo firmado em Badajoz estabelecia que daí para o futuro o rei de Portugal renunciaria a qualquer direito sobre os territórios entre os rios Guadiana e Guadalquivir a favor do rei de Castela, seu sogro, desde que desposara D. Beatriz em 1253. Assim, foram cedidas as terras de Aroche e Aracena – estabelecendo-se que da confluência do rio Caia à foz do rio Guadiana, o limite da fronteira entre os domínios dos dois monarcas seria este curso de água. A norte de Elvas, as terras de Arronches e Alegrete ficariam pertencendo ao rei de Portugal e ao de Leão e Castela as de Marvão e Valença de Alcântara. Afonso X renunciava, deste modo, definitivamente ao reino do Algarve, ordenando que se fizesse a entrega imediata ao rei de Portugal dos castelos ainda à guarda dos seus lugares-tenentes. A partir da Convenção de Badajoz, para regularizar a fronteira a estabelecer com D. Dinis em Alcanizes (1297) só faltaria incorporar no reino de Portugal a comarca de Riba Coa.

 

A CONSOLIDAÇÃO DE PORTUGAL
Este acordo de Badajoz, assumirá especial importância, atribuindo a D. Afonso III o papel crucial de definidor do Reino de Portugal como origem da Nação – não apenas nos seus limites essenciais, mas na sua organização política, económica, cultural e administrativa, com novo centro de poder em Lisboa, em lugar de Coimbra. Para compreender o significado pleno deste papel, temos de recordar que o reino do Algarve (Al Gharb do Al-Andaluz, ocidente da Andaluzia) coincidia parcialmente, a oeste, com a antiga taifa ou reino de Niebla, que tinha permanecido depois da conquista de Sevilha por Castela nas mãos de Ibn Mahfut. Este, para salvaguardar a sua frágil autonomia, manifestamente precária, declarou-se vassalo do rei de Castela, Afonso X, desde 1253, tendo reconhecido em 1262 a definitiva perda da independência. No entanto, ainda antes de Afonso X ter sucedido a Fernando III, em 1252, já Afonso III tinha concretizado a conquista do Algarve, em 1249. Tal não tinha, porém, reconhecimento de Castela, em virtude de compromissos assumidos com o rei deposto Sancho II, o que motivou que Afonso X, uma vez aclamado, tenha tomado medidas concretas no sentido da afirmação da soberania sobre o Algarve – pedindo mesmo a restauração do bispado de Silves. O conflito entre os dois monarcas era manifesto – tendo apenas sido atenuado a partir do casamento de Afonso III com D. Beatriz, filha de Afonso X (1253). Recorde-se que o casamento com a condessa de Bolonha, D. Matilde, teve de ser anulado para permitir a solução política que consolidou os poderes do rei de Portugal. Apesar de tudo, ainda em 1254 Afonso III protesta com veemência contra os atos unilaterais de Afonso X em território algarvio, no tocante à posse de Lagos, Albufeira, Faro, Tavira e Silves. O Papa apela, entretanto, a um acordo efetivo e Afonso III parece aceitar uma solução jurídica transitória – Afonso X continuava a considerar-se Senhor feudal do Algarve, mas Afonso III reivindicava o domínio do território. Em 1261, nasceria o futuro rei D. Dinis, sendo em 1263 nomeada uma comissão entre os dois reinos para tratar da divergência de fronteiras. Em 1264, Afonso X cede, porém, às pretensões portuguesas e atribui os seus direitos a seu neto D. Dinis, por ser de seu sangue, estabelecendo uma contrapartida de cinquenta lanças. Essa solução seria, contudo, transitória até à celebração do Tratado de Badajoz. À definição da fronteira, associa-se a institucionalização política, jurídica e administrativa de Afonso III, reconhecido como rei de Portugal e do Algarve. É o tempo da nomeação de um Bispo pelo rei de Portugal, Frei Bartolomeu, bem como da centralização da coroa, da política anti-senhorial e da aliança do poder real com os Concelhos por contraponto aos poderes do Alto Clero e da Alta Nobreza – que Sancho II não tinha assegurado, enfraquecendo a independência do Reino. O antigo reino de Niebla ficará, assim, dividido pelo rio Guadiana, cabendo ao rei de Portugal o Algarve. Com a morte de Afonso X, sua filha D. Beatriz, como testamenteira, ainda foi designada para receber o reino de Niebla, num afloramento do conflito com Sancho IV. Mas este impõe-se como novo rei de Leão e Castela, com todos os inerentes direitos. E D. Dinis, sucedendo a seu pai (1279), garantirá plenamente a orientação do «Bolonhês», reforçando-a definitivamente – pela prevalência centralizadora e redução dos poderes senhoriais, pela fronteira e pela língua.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de fevereiro de 2017.

 

«O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz» é uma excelente edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros.

 

UM NOVO CONCEITO DE SABER
Fernando Gil tinha grande admiração pela filosofia e pela personalidade de Leibniz. E falava com entusiasmo desse autêntico inventor do conceito moderno de conhecimento e de enciclopédia. Do cálculo infinitesimal à monadologia, passando pela política, pela história e pelo direito, o pensador alemão, quase esquecido no momento da sua morte, pôde abrir pistas novas, que a ciência e o pensamento contemporâneos desenvolveram. Para Fernando Gil, o importante é considerar que se trata de um “filósofo de princípios”, sobretudo preocupado com o trabalho da fundamentação. E é essa perspetiva que permite garantir a perenidade da sua obra e dos desafios que nos lança. Lembrei-me desta genuína admiração ao ler O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz, uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros. Conhecedor da minha predileção pelo filósofo alemão, Adelino Cardoso teve a amabilidade de me enviar o precioso voluminho. Diversos ensaios constituem-no. O fiel ofertante fala-nos do autoquestionamento da modernidade. Marta Mendonça trata das edições da obra. François Duchesneau refere o cientista e o filósofo da ciência. Michel Serfati interroga-se sobre o genial matemático. Wenchao Li fala-nos do projeto de troca de conhecimentos entre a Ásia e a Europa, com especial referência à China. E aqui podemos compreender alguns dos pressupostos que levaram à querela sobre os ritos e à incompreensão relativamente à atitude dos jesuítas no relacionamento com o Império do Meio – e nesse ponto os portugueses são especialmente lembrados. António Braz Teixeira reporta-se, por fim, à recepção do pensamento português relativamente à obra de Leibniz. No conjunto dos temas, o filósofo aparece-nos na riqueza multifacetada da sua obra – sendo impressionante a pertinência e a atualidade deste que é um dos autores mais surpreendentes e ricos da história do pensamento. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), cujo centenário da morte ocorreu há pouco, é “um dos mais influentes instauradores da modernidade (para Adelino Cardoso) e aquele em que algumas linhas orientadoras da racionalidade moderna são submetidas a forte crítica, abrindo novas possibilidades na construção da modernidade”. Muitos dos seus contemporâneos não compreenderam, porém, a sua força inovadora – e daí que tenha prevalecido uma certa leitura caricatural, de que o paradigma é o Dr. Pangloss no Cândido de Voltaire. No entanto, a modernidade veio a demonstrar que a figura não se adequava ao suposto modelo. Mesmo em Portugal, Leibniz começou por ser visto com desconfiança e depois, progressivamente, tornou-se precursor de um pensamento crítico de crescente influência. Leia-se Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-1743), o primeiro autor a referir-se ao pensador alemão entre nós. A sua apreciação é animada pelo espírito do tempo, referindo depreciativamente à monadologia. Também Verney pôs reticências ao filósofo. E só o oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804) procedeu a uma análise detida e informada sobre a obra de Leibniz. Em Recreação Filosófica falou do princípio da razão suficiente e da teoria da harmonia pré-estabelecida – referindo-se, contudo, a esta última como “um sistema muito engenhoso, mas não verdadeiro”.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL
Importa ter presente que, ao longo da obra, fica nítido como a harmonia para Leibniz significa “a diversidade compensada pela identidade”. Não estamos diante de uma identidade homogénea, mas de uma realidade que se desdobra infinitamente. “Sob o fundo de uma harmonia invisível (dizem os coordenadores), o que se apresenta ao olhar de uma inteligência finita é um labirinto imenso com uma infinidade de entradas, quantas as formas diversas que compõem a tessitura do nosso mundo”. E assim a “razão suficiente” leva-nos ao limite da cadeia de razões, já que não se trata de encontrar a razão da harmonia, mas de chegar à complexidade das motivações e dos caminhos. Nesta compreensão, será Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) o primeiro português a tratar a obra de Leibniz de um modo aprofundado – falando de um sistema pluralista de substâncias. Assim, sustentava que para compreender como uma substância atua sobre outra bastaria saber quais as mudanças de cada uma e a respetiva prevalência. Também Amorim Viana (1822-1901), Cunha Seixas (1836-1895) e Antero de Quental (1842-1891) puseram Leibniz em lugar de relevância na sua reflexão. Amorim Viana partiu da harmonia pré-estabelecida, mas não contrapunha os conceitos de fé e razão, considerando a razão ao lado do sentimento moral e dos mistérios, entendidos estes como verdades que excedem a capacidade de entendimento, sem o contrariarem ou a ele se oporem. Cunha Seixas afirmava-se panteísta e concordava com Silvestre e Viana na consideração de que o bem seria a suprema realidade e o mal corresponderia a uma negação. Já Antero de Quental declarava a Jaime Batalha Reis ser a sua filosofia “uma fusão do hegelianismo com a monadologia de Leibniz” (1885), dizendo a Wilhelm Stork que “a monadologia de Leibniz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente à interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista”. E acrescentava: “o espírito é que é o tipo da realidade; a natureza não é mais do que uma longínqua imitação, um vago arremedo, um símbolo obscuro e imperfeito do espírito” (1887). Assim, a monadologia anteriana era de feição pluralista, distinguindo três regiões no mundo real – matéria, vida e espírito – ordenadas hierarquicamente, tendo cada uma por base a anterior.

 

LEIBNIZ E NÓS
E foi o “espírito” que ocupou essencialmente Antero, enquanto força consciente, energia simples, autónoma e espontânea – como modo de explicar “todo o sistema de forças em que consiste a natureza, bem como o sentido da evolução, como ascensão dos seres à liberdade, como criação de uma ordem racional, como desdobramento incessante energia moral, uma ação contínua da vontade impulsionada pelo ideal, a realização final do bem”. Pode dizer-se que Antero de Quental foi, entre nós, dos que melhor compreenderam as virtualidades do pensamento de Leibniz, aplicando-o numa perspetiva dinâmica à evolução das sociedades humanas. Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Basílio Teles sofreram também, mas diversamente, a influência leibniziana. Enquanto o poeta de Os Simples conciliava o criacionismo com a plenitude divina, o mesmo não se passava com os outros dois, para quem não era possível conciliar a ideia de Deus com a dramática realidade do mal. Leonardo Coimbra foi, porém, o nosso pensador que mais intensamente refletiu sobre a lição de Leibniz. O que caracterizava a monadologia era o acréscimo da vida moral e a tradução da liberdade em amor – ou seja, quando uma alma se excede, crescendo em liberdade, adquire maior capacidade de harmonia e beleza. Em suma, o “labirinto imenso” de Leibniz não nos pode ser indiferente.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de fevereiro de 2017.

 

Óscar Lopes (1917-2013) é na Literatura Portuguesa um marco fundamental, como estudioso e pedagogo. Não é possível compreender a «História da Literatura Portuguesa» sem recorrermos ao livro, com o mesmo título (1ª edição, 1955), que escreveu com António José Saraiva. Os seus discípulos, de todas as orientações no campo das ideias, atestam bem a importância cultural e cívica do magistério dessa obra e o lugar fundamental que ocupa para a compreensão da cultura portuguesa.

 


ESTUDIOSO INCANSÁVEL
Óscar Lopes foi um estudioso incansável nos domínios da Literatura e da linguística – e acreditava profundamente na capacidade da arte mudar socialmente o mundo. Era, assim, um leitor muito atento das obras contemporâneas que analisava, não se deixando influenciar por fatores subjetivos ou preconceitos. Foi assim dos primeiros a reconhecer a qualidade de escritores que foram recebidos com desconfiança nalguns meios por razões ideológicas. Com facilidade, intuiu desde o primeiro momento a qualidade e o espírito inovador, que viriam a consagrar esses escritores, como foi o caso de Agustina Bessa Luís. Sendo muito diferente de António José Saraiva formou, porém, com ele uma equipa de critério e qualidade que funcionava com equilíbrio e complementaridade, o que, aliás, permitiu que esse «tandem» pudesse subsistir apesar do afastamento ideológico entre os dois. Se António José Saraiva era mais intuitivo, capaz de abrir pistas fecundas, que a investigação mais aprofundada viria a confirmar, até pela grande diversidade de campos de interesse que cultivou, em especial na história da cultura, Óscar Lopes era um analista sereno e seguro, de uma racionalidade persistente. Contudo, a perenidade da obra comum advém da complementaridade dos dois autores e dos seus métodos. A título de exemplo, num ensaio célebre sobre Antero de Quental («Vida e Legado de uma Utopia», 1983) diz-nos: «Provavelmente, ainda hoje não estamos em condições de compreender a dinâmica mais íntima da tragédia global que Antero viveu. É impossível determinar em que medida a sua doença dependia de fatores orgânicos congénitos, e em que medida esses fatores se entrelaçam com um conflito psico-social de formações ideológicas implantado numa sensibilidade, ou generosidade, de extrema agudeza». O certo é que o temperamento místico pedia uma opção religiosa – daí a opção política e social. Como reconhece Óscar Lopes, a «religiosidade aparece como uma grande força hereditária (de uma hereditariedade predominantemente social, familiar, materna), mas uma grande força em grande medida racionalizada e voluntarizada, reendereçada e doutrinada tanto quanto possível, num grande esforço de conscientificação, de comunicação e responsabilidade social, de hombridade». Eduardo Lourenço, de algum modo, chega a uma idêntica conclusão, salientando, nesse carácter, a força intelectual e poética de um dos poetas mais fecundos da nossa cultura. «O que é facto é que Antero viveu sempre, desde que abandonou o catolicismo, um conflito insanável. De um lado está o rigoroso panlogismo de inspiração hegeliana, segundo o qual toda a história cósmica e humana se desenrolaria como desenvolvimento de um plano, a Ideia, operando através de sucessivos estádios sintéticos, superando sucessivos antagonismos de tese-antítese. Ideia em que (segundo uma fórmula de Vico-Michelet) o homem acabara por fazer-se a si próprio, movido por impulso inconsciente, até se tornar a corporização consciente da própria Ideia». No entanto, de outro lado, por oposição a este determinismo, Antero assume uma metafísica de raiz leibniziana (enriquecida pelos contributos de Kant, Maine de Biran ou Cousin), para a qual a subjetividade humana constituiria o paradigma a cuja luz se compreendem os seres reais - «o mundo espiritual e moral seria uma harmonia de mónadas em fases diversas de desenvolvimento espiritual e moral».

 

UMA TENSÃO EMANCIPADORA
Esta tensão revela-se na evolução intelectual de Antero, enquanto inspirador da geração que tanto influenciou e que passaria a história identificada com as Conferências Democráticas do Casino. Deste modo, a própria ideia de Revolução corresponderia à instauração histórica de uma Justiça imanente, que pressupunha o culminar de um processo objetivo, mas também voluntarista, e que culminaria num movimento mutualista-federativo, nitidamente influenciado por Proudhon. A dialética idealista de Antero pretende, no fundo, considerar e articular os dois polos em que a reflexão do poeta se processa. Assim, apenas compreendemos plenamente a viragem operada pela Geração de 1870, tão influente nas décadas seguintes, se entendermos a complementaridade entre a dialética hegeliana e a monadologia de Leibniz. Daí o facto de a tomada de consciência da importância da intervenção dos intelectuais, como aconteceu em França no caso Dreyfus, com tanta importância no século XX ideológico e político, ter tido expressão precursora em Portugal num movimento eminentemente cultural e literário mas politicamente relevante, que se prende indelevelmente ao grande tema que ocupará Julien Benda em «A Traição dos intelectuais».

 

UMA REFERÊNCIA
Antero, assume-se, nesta linha, claramente como alguém que não regateia esforços na sua responsabilidade de cidadão e de intelectual. Haveria que intervir no espaço público, para permitir a tomada de consciência das responsabilidades coletivas, no caso português, com vista a contribuir para a emancipação de um povo que não podia estar condenado ao fatalismo do atraso. A responsabilidade dos intelectuais teria a ver com as tarefas concretas ligadas à liberdade, à igualdade e à compreensão da evolução humana, animadas pela Ideia de justiça, mas também pela necessária mobilização de vontades para além do mero determinismo. Antero de Quental torna-se, deste modo, uma referência na análise de Óscar Lopes. A monadologia de Leibniz presta-se a uma interpretação do mundo ao mesmo tempo naturalista e espiritualista. E Antero considera-a, numa perspetiva de raiz kantiana, ligando uma lógica transcendental a uma ética de progresso social e histórico. Assim, o ingrediente hegeliano tem uma importância significativa. É um «espartilho de fino aço», sempre presente, que (na análise de Joaquim de Carvalho, corroborada por Óscar Lopes) «nunca lhe consentiria um divórcio adialético entre o ser (ou ser-se) e uma razão qualquer que ela seja, que, de algum modo, acabará sempre por dar conta desse mesmo ser (ou ser-se)». E esse seria um modo da arte contribuir para mudar o mundo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 De 6 a 12 de fevereiro de 2017.

 

«D. Carlos de Bragança, Naturalista e Oceanógrafo» de Mário Ruivo (Fundação da Casa de Bragança, 1958) é uma pequena obra preciosa, onde se encontram dois grandes oceanógrafos portugueses, o rei D, Carlos, e Mário Ruivo, que há pouco nos deixou – permitindo-nos compreender a importância para Portugal da Costa Marítima e do seu conhecimento.

 

UM ENCONTRO INESQUECÍVEL
Foi há cerca de trinta anos, num pequeno restaurante da Calçada do Combro, com Helena Vaz da Silva e António Alçada Baptista, que foi delineada com Mário Ruivo o que viria a ser uma nova Comissão Nacional da UNESCO. O António disse que o Mário seria indispensável – e, com o extraordinário conhecimento das pessoas que tinha, depressa percebemos que esse era o melhor dos conselhos. E nunca mais deixámos de colaborar nas mais diversas tarefas. Estar com o Mário era, ao mesmo tempo, ouvir as suas histórias de uma larguíssima experiência política e científica, mas também vê-lo de mangas arregaçadas (com o inevitável fato verde seco) a agir e a falar para meio mundo para a defesa da causa do que designávamos como o S da UNESCO, ou seja, a ciência. E quem diz a ciência, não pode esquecer o ambiente, os direitos humanos e a intervenção política. Desde o MUD Juvenil, o Mário Ruivo foi um militante aberto a todas as causas. Foi assim até nos deixar – sempre com o seu entusiasmo jovial. O biólogo nunca deixava de pensar, de propor, de agitar, de conspirar. Mas havia sempre um ponto em que não transigia – um enraizado patriotismo universalista. E essa qualidade vimo-la exercer ao lado Federico Mayor, o mais influente dos últimos diretores-gerais da UNESCO, sendo o Mário a verdadeira alma da Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI). E o seu amigo catalão foi sempre um aliado. Impressionante era a capacidade de articular peças diferentes e personagens aparentemente distantes e heterogéneas. Quando em 1998 foi definido o Ano Internacional dos Oceanos, celebrando cinco séculos da chegada de Vasco da Gama á Índia, foi ele que mexeu os cordelinhos desde o início – apesar de mil resistências e desconfianças. Foi o seu prestígio que funcionou, aliado a muitos outros contributos. E houve a Conferência Internacional de Oceanografia no CCB, a Expo-98 com o tema dos Oceanos e, depois, a Comissão Mundial Independente para os Oceanos, presidida por Mário Soares – e animada pelo incansável labor do oceanógrafo, de que resultou o relatório Oceano: Nosso Futuro. No entanto, sendo o Mário Ruivo um homem de equipas, fazia sempre questão de dar o seu a seu dono. Um êxito nunca é de uma pessoa só. A verdade é que ele era o elo de ligação, capaz de fazer desencadear os movimentos tectónicos, que amiúde referia, e que punham as forças em movimento. As suas metáforas de cientista e biólogo estavam sempre presentes.

 

CAIS, SAUDADE DE PEDRA
Quando nos fomos despedir dele na Gare Marítima de Alcântara, na partida para um grande viagem marítima, na presença dos painéis de Almada Negreiros, com a memória da Nau Catrineta e ouvindo o João de Ávila a dizer a «Ode Marítima», todos nos lembrámos do que estava a dizer-nos naquela circunstância: «Estou a flutuar»… A paixão do Mar era poderosa e inesquecível. “Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! / E quando o navio larga do cais / E se repara de repente que se abriu um espaço / Entre o cais e o navio, / Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente…”. Com que prazer viu chegado a bom porto o seu tão ansiado Do Mar Oceano ao Mar Português (edição CTT, 2015). Sob a sua criteriosa coordenação temos aí o mais completo repositório sobre os desafios do Mar, para um país médio, com responsabilidades de grande potência. E não poderemos deixar de ter presentes esses desafios, que Mário Ruivo profeticamente assumiu: “Portugal está confrontado com a expansão do território sob soberania nacional na plataforma continental para quase 4 milhões de quilómetros quadrados. O alargamento da plataforma continental é uma fonte de oportunidades para um desenvolvimento sustentável (económico, social, cultural e institucional) apoiado nos setores que utilizam os recursos do mar português, implicando ações concertadas face a um bem comum, que, pela sua natureza, cria ao Estado português uma responsabilidade acrescida no conhecimento e na gestão sustentável”.

Os valores e princípios que o animaram, ao longo da vida, foram sempre claros. A liberdade como fundamento da democracia. A solidariedade como sequência do cuidado pelos outros. O rigor como marca da sua paixão pela ciência. A curiosidade como aguilhão da capacidade criadora. O respeito como demonstração de tolerância. A generosidade como sinal de entrega. A amizade como apanágio da sua personalidade. A biografia fala por si. Quando esteve em Roma na FAO, foi um auxílio precioso nos contactos com as forças políticas que apoiavam a causa da democracia em Portugal. E falamos de todos os partidos, a começar na Democracia Cristã – a ponto de ter sido ele o elo que permitiu a António Alçada Baptista abrir as portas internacionais, depois de 1974, a Adelino Amaro da Costa. Também foi em sua casa que Mário Soares terminou o Portugal Amordaçado. Depois da Revolução, foi Secretário de Estado das Pescas e Ministro dos Negócios Estrangeiros nos governos provisórios, foi chefe da delegação portuguesa nas negociações para a Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar (a chamada Lei do Mar das Nações Unidas). Com José Mariano Gago, então presidente da JNICT, no final dos anos oitenta, foi um dos animadores das Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, onde as ciências do mar tiveram significativa relevância, estando Mário Ruivo ao lado de Luiz Saldanha. E quando José Mariano já estava no Governo não podemos esquecer o Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias do Mar. Mário Ruivo esteve sempre na linha da frente. Em 2000 foi fundador do EuroOcean, centro europeu da informação em ciências do mar. a que presidiu – além de ter sido um dos artífices da candidatura de Lisboa para sede da Agência Europeia para a Segurança Marítima, criada em 2002. Presidia ao Forum Permanente para os Assuntos do Mar e ao Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

 

UM NOVO UNIVERSALISMO
Perante tão impressionante percurso da nossa maior referência internacional nos assuntos do Mar, o grande desafio que se nos coloca é o de tornar vivo este desígnio. Como disse Mário Soares: “Precisamos de forjar uma relação, uma nova relação ético-política entre a humanidade e os oceanos, uma relação com uma base política e jurídica que crie uma atmosfera de partilha e solidariedade e que proporcione um novo universalismo centrado no conhecimento dos oceanos”. Como ensinou Mário Ruivo, não basta falar do mar ou fazer propostas bem-intencionadas. Há, sim, que mobilizar vontades internacionais – criar parecerias e formas eficazes de cooperação. Não esquecemos o que disse sobre as campanhas oceanográficas do rei D. Carlos, que “permitiram a um certo número de jovens biologistas portugueses contactar diretamente com a grande escola do mar e da vida a bordo. Vida que não se coaduna com egoísmos e vaidades; a vida que exige atitudes francas, forja a amizade, a camaradagem, o espírito de sacrifício, o entusiasmo, bases fundamentais de todo o trabalho em equipa”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2017.

 

A referência nas últimas semanas a diversos aspetos da história do Centro Nacional de Cultura, levou diversos associados e amigos a pedirem mais informações sobre o papel dos católicos na transição democrática. O texto que se segue vai nesse sentido – devendo recordar-se dois livros editados sob os auspícios do CNC, «A Aventura da Moraes» e «Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril». Quem não tenha estas obras, pode solicitá-las (www.info@cnc.pt).

 

CATÓLICOS E A DEMOCRACIA
Os prolegómenos do 25 de abril de 1974 para a Igreja Católica têm um ponto importante na nota da Conferência Episcopal de 17 de dezembro de 1971, ecoando a reunião do Sínodo dos Bispos, em Roma, sobre a justiça no mundo. Os bispos portugueses não se limitaram a dizer generalidades, foram às questões concretas: «o contacto mais vivo com a problemática da justiça no mundo, proporcionado pela consideração do segundo tema do Sínodo, foi ocasião de nova sensibilização dos Bispos da Metrópole às responsabilidades que, de forma diversa, lhes cabem e aos outros membros do Povo de Deus na construção dum mundo mais justo. Na sua reflexão mostraram-se especialmente sensíveis às situações de injustiça, subdesenvolvimento e violência que o Sínodo examinou em âmbito universal e que também atingem a terra em que vivemos». Nesse sentido, para assegurar uma ação orgânica e permanente, criaram a “Comissão Nacional Justiça e Paz”, destinada a estudar problemas da justiça, do desenvolvimento e da paz, e sensibilizar o povo de Deus, e em geral a sociedade portuguesa, às suas responsabilidades nestes domínios». Aludindo às situações de injustiça, subdesenvolvimento e violência, no âmbito mundial, os bispos portugueses acrescentavam que tais situações «também atingem a terra em que vivemos». Daí a ligação constante às indicações de Roma, quer do Concílio Vaticano II (1962-1965), quer do referido Sínodo dos Bispos (1971). O primeiro devia refletir-se numa Ação Católica mais política e até sindical; o segundo requeria atenção aos problemas da justiça e da paz. O Sínodo foi o motivo que originou a Carta Pastoral de 4 de maio de 1973, cerca de um ano antes de 25 de abril, redigida basicamente por D. António Ribeiro e subscrita pelo conjunto do Episcopado. Importava, porém, recordar que o Papa João XXIII publicara dez anos antes a encíclica «Pacem in Terris«, que teve tanta relevância para a temática da democracia e do incremento dos direitos humanos. O Episcopado aproveitou, assim, a oportunidade, apresentando o quadro geral do que era preciso melhorar ou corrigir entre nós, na vida concreta. «Ao olhar para o mundo contemporâneo (afirma do documento), no qual a Igreja se encontra e age, não pode ela permanecer indiferente perante múltiplas situações de injustiça que impedem o correto desenvolvimento dos homens, tais como: a condição infra-humana em que tantos vivem, diminuídos por graves carências alimentares, habitacionais, sanitárias, de emprego, educacionais e culturais; a existência de limitações, não raro injustificadas, ao pleno exercício dos direitos e garantias fundamentais das pessoas e dos grupos; o agravamento de numerosas formas de alienação, de medo e de mentira; a expansão de uma economia que não está ao serviço de todos e cujo móbil primário é o lucro; a difusão de motivações que induzem a satisfazer necessidades não verdadeiramente sentidas nem conducentes à genuína realização humana; a oferta e aceitação de condições de trabalho despersonalizantes, nas quais o homem é equiparado à máquina, com prejuízo da sua capacidade criadora; a implantação de estruturas urbanas em que faltam condições dignas de alojamento, de acesso aos locais de trabalho e aos equipamentos coletivos; o alastramento de formas de marginalidade, algumas criminosas e imorais; e a crescente insatisfação da juventude que não encontra padrões de vida ajustados às suas reais necessidades. […] Não tem a Igreja, enquanto comunidade religiosa e hierarquicamente organizada, competência para oferecer soluções concretas aos problemas que hoje se põem no domínio económico, social, cultural e político. Mas “os membros da Igreja, enquanto membros da sociedade civil, têm o direito e o dever de procurar o bem comum, com os demais cidadãos” (Sínodo, 1971)». Dir-se-ia que estamos perante um elenco exaustivo sobre o Estado social: necessidades básicas não satisfeitas, exigências na habitação, saúde, educação e cultura; limitações injustificadas ao exercício de direitos de pessoas e grupos, naturalmente políticos; economia meramente lucrativa, sem atender à realização das pessoas e às condições do trabalho; urbanização deficiente e desintegrada; insatisfação juvenil diante dum futuro comprometido…

 

A INFLUÊNCIA DE EMMANUEL MOUNIER
Importa, contudo, ir atrás e referir na sociedade civil o papel desempenhado por António Alçada Baptista, que lançou, em 1958, o projeto renovador da Moraes. Tratou-se de criar um movimento de opinião centrado em leigos católicos (com apoio de clérigos) capaz de seguir e concretizar o programa de Emmanuel Mounier de unir católicos e não católicos no combate contra a «desordem estabelecida», que o mesmo seria dizer, romper com a cumplicidade da Igreja Católica em relação ao regime de Salazar. Assim, ao contrário do que muitas vezes se pretende, a ideia fundamental de António Alçada Baptista não tem a ver com a criação de um Partido Democrata-Cristão. Para o desmentir, basta ler-se atentamente os textos publicados nas coleções «O Tempo e o Modo» e «Círculo do Humanismo Cristão». E percebe-se que está em causa algo de muito diferente. O que AAB desejava era encontrar uma convergência de movimentos e opiniões que permitisse uma transição pacífica de contornos abertos e cosmopolitas, segundo a lógica das democracias ocidentais. A ligação ao Congresso para a Liberdade da Cultura (e o forte papel desempenhado por Pierre Emmanuel) é um sinal dessa orientação. Trata-se de tornar ativo, em Portugal, um grupo de intelectuais sem vocação partidária. Do mesmo modo, a ideia, não concretizada de «O Pacto», influenciada pela comunidade de Mounier em Châtenay-Malabry, nada tem a ver com um movimento político. É certo que, aquando da fundação de «O Tempo e o Modo», Mário Soares, Salgado Zenha e Jorge Sampaio participam. E Mário Soares pretendia que AAB fosse a personalidade aglutinadora de uma corrente política democrata-cristã – no entanto esse entendimento deparava com a posição contrária do próprio António Alçada Baptista e da maioria dos seus companheiros (para quem não deveria haver uma política cristã, mas cristãos livres, sem movimentos confessionais, na política). Recorde-se o poema de Ruy Belo: «Nós os vencidos do catolicismo / que não sabemos já donde a luz mana / haurimos o perdido misticismo / nos acordes dos carmina burana // Nós que perdemos a luta da fé / não é que no mais fundo não creiamos / mas não lutamos já firmes e a pé / nem nada impomos do que duvidamos». Sentimos, com muita nitidez, um drama evidente, que tem a ver com a claustrofobia sentida numa sociedade que, sem pluralismo, tendia a separar as opções entre o nosso e o contra nós. Aliás, é a mistura entre o ambiente político dos dias finais da autocracia com a crise da Igreja pós-conciliar que torna especialmente dramática a situação portuguesa. Afinal, como afirma o Padre Manuel Antunes, não estamos perante uma questão puramente portuguesa, apesar de ganhar aqui (como em Espanha) contornos especiais em razão dos constrangimentos políticos existentes. Lembramo-nos da fotografia do Engº Francisco Lino Neto, com a cabeça ensanguentada, depois de ser atingido pela polícia de choque na manifestação de apoio ao General Delgado, mas também nos doloridos poemas de Ruy Belo da fase final. E o poeta dirá, profeticamente: «a história do catolicismo português atual, a fazer um dia, não pode deixar de ser uma história dolorosa». Aliás, a afirmação «não é que no mais fundo não creiamos» revela um carácter de escolha decisiva, que leva o poeta, bem como o Padre José Felicidade Alves, de modo diferente, a uma demarcação de posições. Nada poderia continuar na mesma. A conciliação confundia-se com traição, e isso era impensável. «Nesta vida é que nós acreditamos / e no homem que dizem que criaste / se temos o que temos o jogamos / “Meu deus meu deus porque me abandonaste?”». Sente-se a dúvida e a revolta… Como afirma Sérgio Campos Matos: «A modernidade passava também por uma espiritualidade renovada, liberta de dogmas e constrangimentos, aberta aos problemas humanos concretos, ao pulsar da vida, às culturas de protesto que a juventude dos anos 60 ia difundindo numa sociedade bloqueada. Compreende-se que, por essa época, a ‘crise da Igreja’ e até mesmo a ‘crise da civilização’ (P. Manuel Antunes) fizessem parte do léxico dos católicos que ousavam adotar um pensamento crítico». Se João Miguel de Almeida em “A Oposição Católica ao Estado Novo” nos faz uma descrição histórica passo a passo desse tempo, Jorge Revez, em «Os “Vencidos do Catolicismo” – Militâncias e Atitudes Críticas (1958-1974)», analisa o drama, centrado em dois caminhos individuais e na sua inserção na história portuguesa. Daí a interrogação sobre o «vencidismo», mesmo entendendo-se que não há uma geração com coerência intrínseca, nem um projeto marcado.

 

TEMPO DE «AGGIORNAMENTO»
É o tempo do «aggiornamento» e do Concílio Vaticano II, onde intervêm D. António Ferreira Gomes e D. Sebastião Soares de Resende. Em 1959, diversos católicos tinham participado na tentativa de golpe da Sé. E recordem-se, ainda, o documento de Francisco Lino Neto «Considerações dum Católico sobre o Período Eleitoral» (Junho de 1958), os abaixo-assinados de 1959 e o «manifesto dos 101» (de Outubro de 1965). Trata-se de textos sobre a necessidade da democratização, sobre a polícia política e sobre a autodeterminação dos povos de África. No último caso, Nuno Bragança empenhou-se pessoalmente em assegurar que o Cardeal Cerejeira recebesse no Vaticano, onde se encontrava, um pedido para não desautorizar os católicos signatários desse documento que punha o dedo na ferida dos temas do pluralismo e do futuro de África. De facto, o Prelado recebeu o empenho e não pôs em causa os católicos signatários, o que os deixou satisfeitos, indo António Alçada Baptista ao Aeroporto da Portela para receber o Cardeal em sinal de reconhecimento. A ida do Papa Paulo VI ao Congresso Eucarístico de Bombaim (1964) gerou forte polémica. Em 1965, o fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores levaria o Centro Nacional de Cultura, sob a presidência de Sophia de Mello Breyner, a acolher os autores espoliados da sua associação. Nascia ainda o «Direito à Informação» (com Maria Natália e Nuno Teotónio Pereira, António Jorge Martins e Frei Bento Domingues), e são os cristãos a colocar com maior ênfase a questão colonial e a autodeterminação… «Tenho uma dor chamada Portugal / país defunto talvez unto para nações vivas / Portugal meu país de desistentes / terra mordida por soares dos reis / por antero camilo ou trindade coelho / Suicidou-se nestes homens o país / um país de província Portugal…». Assim se exprime ainda Ruy Belo. É uma reflexão do português e do cristão. E António Alçada sublinha a contradição dramática: «Falou-se então na morte de Deus. Na verdade, era necessário que esse Deus morresse porque estava a tomar o lugar de um outro que se confundia com o mistério da nossa liberdade que é também a consciência de enfrentar um mistério que é a essência do novo Deus que se anunciava»… Jorge Revez diz: «o vencidismo desses católicos foi, provavelmente, o resultado ou a expressão de um processo de deslocação cuja movimentação principal seria a da secularização, em que, inconformados com a estrutura religiosa de que faziam parte e face às novas dimensões da experiência humana com as quais vinham contactando, optaram pela rutura». Quando Sophia de Mello Breyner Andresen disse na vigília da Paz de 1969 «vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar», é o alerta em nome da liberdade que se ouve. Estamos perante a recusa do fatalismo. O «rompimento é também, em última análise, uma busca de autenticidade na vivência de uma fé que muitas vezes não se esvaziou por completo, apesar do anterior denominador comum, a igreja, nos finais dos anos 60, ter perdido a sua capacidade mobilizadora e envolvente no quadro da experiência religiosa».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de janeiro de 2017.

 

A longa entrevista realizada por Maria João Avillez, intitulada «Soares» (1996-1997) e publicada em três volumes - «Ditadura e Revolução», «Democracia» e «O Presidente» - constitui um importante percurso, esclarecido a par e passo pelo seu protagonista. É uma obra fundamental, reveladora dos mais ínfimos pormenores de um percurso riquíssimo, sem o qual não é possível compreender Portugal hoje. A releitura dessa obra é assim obrigatória para quem queira conhecer e compreender o homem e a sua ação.


MEMÓRIA RICA E MULTIFACETADA
É difícil ser completo na invocação da memória de Mário Soares. Falta ainda muito para dizer relativamente a quem deu o melhor de si à causa da liberdade e da democracia. Como político de corpo inteiro foi ao longo da vida alguém que soube assumir a qualidade de cidadão ativo, sempre disponível para assumir o risco de dizer o que pensava, de modo a contribuir para o bem comum no pensamento e na ação. Sendo a democracia o modo de assumir construtivamente a imperfeição – com respeito dos direitos humanos, do pluralismo e da limitação mútua de poderes – Mário Soares impôs-se como o cidadão comum que sabia tirar lições dos erros que, como qualquer um, poderia cometer. Apresentava-se, pois, como cidadão disponível para partilhar as dificuldades e as dúvidas, sempre empenhado em pôr a responsabilidade em primeiro lugar e em correr riscos com coragem, para defender os valores democráticos em que acreditava. Foi, desse modo, no seu tempo, um dos grandes políticos europeus, com um papel fundamental na consolidação da democracia portuguesa e na afirmação do projeto europeu de paz e de desenvolvimento. Profundo conhecedor da história portuguesa, filho de uma personalidade marcante da I República e do mundo pedagógico, pôde, antes da Revolução democrática de 25 de abril de 1974, preparar o terreno para uma «República moderna» onde todos pudessem ter lugar, para além das oposições tradicionais. Quando, ao lado de Salgado Zenha, Jorge Sampaio, graças à iniciativa de António Alçada Baptista, participou na criação de «O Tempo e o Modo», estava em causa a prefiguração de um regime aberto, de liberdade e pluralismo – capaz de mobilizar todos. Foi nesse momento que esteve profundamente ligado ao Centro Nacional de Cultura. Prevenindo os erros da Primeira República, em especial no tocante às questões religiosa e social, preservando a matriz democrática, Mário Soares congregou os republicanos históricos, o Diretório democrato-social de António Sérgio, os jovens dos movimentos estudantis, os católicos inconformistas, os defensores do socialismo democrático e da social-democracia (na linha de Willy Brandt, Helmut Schmidt, Mendès-France e Olof Palme), os marxistas não-dogmáticos - compreendendo os movimentos de emancipação das jovens nações de língua portuguesa. Assim pôde lançar as bases de um compromisso heterogéneo e amplo, baseado no respeito mútuo e na consolidação de uma cidadania ativa e de uma democracia inclusiva. Maria de Jesus Barroso teve, aliás, um papel fundamental nesse caminho – como resistente serena, determinada e inteligente, capaz de ser um porto de abrigo e de suscitar caminhos novos. Simbolicamente a amizade do casal Soares com Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares foi um excelente exemplo desse espírito autenticamente democrático, de diferença e complementaridade.

 

DEFESA INTRANSIGENTE DA LIBERDADE
O meu querido e saudoso António Alçada Baptista tantas vezes me disse que era a defesa intransigente da liberdade que mais admirava em Mário Soares. E sabia que este tinha a coragem necessária para tirar todas as consequências desse combate fundamental. Posso dizer, por isso, com o conhecimento de causa, pelo longo período de convívio e de trabalho em comum que tivemos, que a liberdade e a cultura foram as duas marcas indeléveis da ação do antigo Presidente da República. Sophia de Mello Breyner na Assembleia Constituinte definiu lapidarmente essa marca inesquecível: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura” (2.9.1975). Entende-se, assim, que a autora de “Mar Novo” tivesse a maior confiança política e pessoal no seu amigo Mário Soares. Afinal, a democracia – e esse é o grande desafio do presente – precisa de estar apta a responder aos anseios dos cidadãos, como sistema sempre incompleto, mas suscetível de se aperfeiçoar permanentemente. Não há democracia sem partidos, não há liberdade sem o voto livre dos cidadãos, mas é preciso ir ao encontro da legitimidade do exercício, garantir o cumprimento das responsabilidades – ou seja, prestar contas dos compromissos assumidos, garantir uma permanente avaliação do serviço público e assegurar uma ligação efetiva entre o Estado e a sociedade, o Governo e os cidadãos. Se hoje há uma crise nas sociedades democráticas, que suscita a emergência dos populismos, tal deve-se ao défice de orientação política e à tentação de governar para contentar no imediato a sociedade, como se os cidadãos fossem clientes e a governação um mero fornecedor de benefícios de curto prazo. Na questão europeia ou na intransigência quanto à democracia pluralista (contra as tentações vanguardistas), prevaleceu a determinação política da participação de Portugal num espaço de desenvolvimento e de modernidade e da criação de defesas contra o autoritarismo.

   

EUROPA, DEMOCRACIA, LIBERDADE E CULTURA
Quando Mário Soares levantou a bandeira «Europa Connosco», entendeu que a democracia obrigaria a termos uma voz respeitada internacionalmente. José Medeiros Ferreira compreendeu-o muito bem. Só seríamos ouvidos no mundo, se tivéssemos lugar e relevância entre os países mais desenvolvidos. No entanto, o projeto europeu sofreu nos últimos anos um nítido enfraquecimento. Em lugar do cosmopolitismo e da abertura, temos fechamento e idolatria. Isso preocupava profundamente o antigo Presidente, que reclamava uma União mais política e a necessidade de mais justiça bem como de coesão social e económica. Ao invés da tendência que se vem impondo, torna-se necessário haver um maior orçamento europeu, capaz de aumentar o crescimento, o investimento reprodutivo e o emprego. Com desgosto, via, no entanto, prevalecerem os egoísmos nacionais e uma lógica do salve-se quem puder – em lugar da solidariedade. O ideal europeu de paz e desenvolvimento desvaneceu-se… Daí a concordância com os alertas de Bento XVI contra as economias de casino, e com a posição do Papa Francisco contra as desigualdades, as injustiças e o mercado que mata. Infelizmente, os últimos acontecimentos só agravaram as perspetivas futuras, confirmando os alertas oportunamente lançados. “Só é vencido quem desiste de lutar”. Em diversas circunstâncias na sua vida política Mário Soares demonstrou como o lema tem de ser compreendido e vivido. Na resistência democrática, na implantação da democracia, na luta contra todas as ameaças à liberdade, na afirmação da Economia Social, na crítica ao mercantilismo – houve altos e baixos, vitórias e derrotas, no entanto o legado fundamental é o do constitucionalismo da Res Publica, que tem de continuar a ser aprofundado. O primado da Liberdade e da Cultura significa, no fundo, que a cidadania se deve preservar através da autonomia, da responsabilidade, da inovação e da criatividade. Educação, Ciência e Cultura são cada vez mais cruciais. São essas as marcas verdadeiras do patriotismo prospetivo…  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS


   De 16 a 22 de janeiro de 2017

 

«Confiança e Medo na Cidade» de Zygmunt Bauman (Relógio d’Água, 2006) reúne um conjunto de conferências do sociólogo polaco recentemente falecido em Leeds (Inglaterra), onde se colocam os problemas mais prementes das sociedades contemporâneas, em especial no tocante à fragmentação social e à resistência às diferenças.

 

UM PENSADOR CRÍTICO
Nascido em Poznan em 1925 Bauman foi profundamente marcado pela história europeia do século XX. Quando a Polónia foi invadida pelas tropas nazis fugiu com a família, de origem judaica, para a União Soviética. Alistou-se na divisão polaca do Exército Vermelho, sendo condecorado em 1945. Depois da guerra regressou a Varsóvia, onde se casou com a futura escritora Janina Lewinson, sobrevivente do ghetto de Varsóvia, falecida em 2009. Militou no Partido Comunista e estudou profundamente a obra de Karl Marx, numa perspetiva aberta e crítica. A sua obra caracteriza-se, porém, pelo ecletismo e pela recusa de qualquer ortodoxia. O antissemitismo manifestado nas perseguições de 1968 por ocasião dos protestos de estudantes e intelectuais levaram-no a abandonar a Polónia, partindo para Telavive, onde viveu até 1972, momento em que partiu para Inglaterra, para exercer funções docentes na Universidade de Leeds. A guerra, as purgas e o exílio influenciaram a sua vida e o seu pensamento inconformista e heterodoxo. Foi o conceito de «modernidade líquida» que o celebrizou, do mesmo modo que em 1989 o seu «Modernity and Holocaust» teve uma grande divulgação. Aí considerou que o programa de extermínio levado a cabo pelo regime nazi foi um acontecimento ligado à modernidade, vista nas suas dimensões técnico-científica e político-ideológica. Para o sociólogo polaco, vivemos uma época que se caracteriza pela fluidez, pela precariedade, pela transitoriedade, pelo imediatismo e por aquilo que não se deixa apreender. A essa realidade chamou «sociedade líquida». Desde o domínio económico ao plano afetivo, vivemos essa tendência para a liquidez – de certo modo como Gianni Vattimo fala do “pensamento débil”. Como afirmou Fernando Vallespin há pouco: trata-se de uma «organização social em que nada permanece, em que tudo é fugaz, incompleto, indefinido, onde, com efeito, tudo o que é sólido se desvanece no ar» (El Pais, 10.1.2017). Daí uma séria preocupação com a perda da dimensão ética pública. Falta um sentido de missão coletiva, que esteve associado à modernidade. O poder deixou a esfera política e fugiu do controlo democrático. Os direitos económicos escaparam ao Estado Social. Os direitos políticos foram dominados pela teologia do mercado. Os direitos sociais foram enfraquecidos e reduzidos pelo individualismo fragmentário. Os cidadãos viram-se desprotegidos num mundo que não dá segurança, sofrendo a precariedade, que cria um novo proletariado, ainda que sem consciência de classe.

 

UM MUNDO INSEGURO
«O mal já não reside só nas guerras ou nas ideologias totalitárias (recorda ainda Vallespin), assenta também na indiferença ante o sofrimento dos demais, como na questão dos refugiados, ou nas “orgias verbais de ódio anónimo (…)” que encontramos na internet.» Bauman preocupou-se, por isso, com o consumismo, a imigração, a globalização e o fim das ideologias. É certo que na comunidade dos sociólogos muitos viram-no com desconfiança, no entanto compreendeu como poucos o que se estava a passar nas sociedades ocidentais, com os indignados em Espanha, o “Occupy Wall Street” em Nova Iorque e com os movimentos antiglobalização… Mas se se interessou pelas experiências, também criticou as suas debilidades e incongruências – dizendo que era mais fácil reunir um protesto do que construir propostas concretas. Contudo, se havia mal-estar importava dar-lhe resposta. O tempo confirmaria, aliás, essas preocupações – em especial perante o Brexit e a eleição de Donald Trump. Daí a crítica ao «ativismo de sofá», de quem julga possível mudar o mundo com um estalar de dedos ou das redes sociais, já que não se estabelece um verdadeiro diálogo entre pessoas e grupos de diferentes, limitando-se a funcionar em circuito fechado. Se alguns o consideraram pós-moderno, Bauman recusou o epíteto, porque falta perspetiva histórica para considerar terminada a modernidade. E apesar de analisar a pós-modernidade, dizia não se integrar nessa corrente, acrescentando, com o seu humor fino: afinal, um ornitólogo não precisa de ser um pássaro… Quanto muito vivemos uma versão privatizada da modernidade, «o fim da era do compromisso mútuo», segundo a lógica privada do interesse de cada um. Daí a crise da democracia, que deixou de pensar como se fazia na Ágora grega – onde se discutiam os interesses privados transformando-os em assuntos públicos, criando, a partir do interesse público, direitos e obrigações individuais. O símbolo da sociedade contemporânea deixou, assim, de ser o lar ou a casa (ethos e oikos) para se tornar o hotel, passageiro e incaracterístico. E a crise dos refugiados obriga, no fundo, à compreensão da ansiedade existente, contra a vergonha das valas e dos muros. Estava em causa a preocupação fundamental de Bauman – com a recusa do outro e com o medo relativamente ao diferente.

 

SOB O SIGNO DO MEDO
Em «Confiança e Medo na Cidade», Z. Bauman lembra que os medos modernos tiveram origem na redução do controlo do poder político sobre o poder económico, em especial com a desregulamentação dos mercados e a dissolução da solidariedade. Assim, a exclusão deixa de ser remediável, para aparecer como definitiva. E há uma polarização que leva os cidadãos da primeira fila a serem privilegiados e a reforçarem a sua importância e os que estão na outra ponta do espetro a perderem capacidade de agir e de satisfazerem as suas necessidades económicas. Os primeiros não estão ligados ao lugar onde moram, enquanto os segundos estão fora dos circuitos relevantes e condenados a permanecer no mesmo lugar. «Os poderes reais que criam as condições nas quais todos nós atuamos flutuam no espaço global, enquanto as instituições políticas permanecem de certo modo em terra, são locais». E as pessoas desarmadas perante a lógica global tendem a fechar-se sobre si mesmas – tornando-se as cidades espelho das contradições da globalização. Ghettos de ricos coexistem com ghettos de pobres, sem que haja fatores que os façam comunicar. Assim nasce o sentimento de medo do desconhecido ou do estrangeiro. A necessidade de segurança influencia a organização dos espaços e as construções – impondo uma lógica fundada na vigilância e na distância. O medo e a recusa do outro geram o medo de misturar-se (mixofobia) – mas há um desafio exigente para favorecer a mixofilia,. E Bauman é claro ao dizer-nos que «a fusão que uma compreensão recíproca exige só poderá resultar de uma experiência compartilhada e certamente não se pode pensar em compartilhar uma experiência sem partilhar um espaço». Eis por que razão o grande desafio das sociedades contemporâneas seja recuperar a dimensão comunitária do espaço público, como modo de aprender a arte de uma coexistência segura, pacífica e amigável.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de janeiro de 2017.

 

O filme «Silêncio» de Martin Scorcese é baseado no enredo concebido por Shusaku Endo (1923-1996) sobre a memória da presença portuguesa e cristã no Japão. O livro foi publicado entre nós pela D. Quixote, com tradução de José David Antunes, e a sua temática insere-se na nossa riquíssima relação com o país do Sol Nascente.

 

CONHECIMENTO MÚTUO
Diz-me a experiência que os nipónicos conhecem melhor Portugal do que nós a eles. Não falo só dos muitos vocábulos portugueses usados no quotidiano (butan, kappa, koppu, pan ou tempura) ou do célebre pão-de-ló (kasutera, palavra que vem das claras em castelo), mas sobretudo de uma empatia muito especial, devida ao facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais a chegarem a este distante arquipélago, habitado por guerreiros, mercadores e pescadores, abertos ao mundo. A arte Namban é um resultado deste encontro, provindo a designação do modo como os japoneses nos conheciam – Namban-jin significa bárbaros do sul… Por toda a parte no Japão, encontramos memórias do encontro com os portugueses – e Venceslau de Morais ou, nos nossos dias, José de Guimarães bem compreenderam esta riquíssima relação. De facto, há uma curiosa relação biunívoca entre os nossos povos. Shusaku Endo foi um grande admirador dos portugueses e amigo do Embaixador Martins Janeira. Nasceu em Tóquio, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência da mãe, com quem viveu, depois desta se separar do pai, em Kobe. Licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon. A sua obra é marcada pela pertença a uma religião minoritária e pela vivência de intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista. E Silêncio é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e o mais significativo, tendo sido distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). Não esqueço o encontro em Quioto com os Padres Adelino Ascenso e José Tolentino Mendonça, para falarmos de Silêncio. O tema crucial era o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, parecia dizer: “Podes pisar-me!”. Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. Para o Padre Ascenso, a distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. E António Alçada gostava de recordar a passagem da Peregrinação, em que Mestre Belchior e o rei do Bongo falavam da conversão deste último – em que ele dizia ser desnecessário qualquer gesto, já que Deus o sabia…

 

INTERPRETAÇÃO SOBRE A VIDA
O filme de Scorcese procura uma interpretação sobre a vida de um missionário no Japão no século XVII, em especial durante a dura perseguição, que durou quase um século. O caso que serve de base ao livro de Endo tem a ver com a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira em 1633 – caso inédito até então. Perante as perseguições, houve necessidade de resistir. Daí que os jesuítas tenham assumido a exigência de algum tipo de acomodação cultural, como no caso dos ritos. No livro, tudo começa por um dado dramático: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus, Cristóvão Ferreira, submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo tornou-se violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos adotados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas. Silêncio trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o que se tinha passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações, que nos levam aos estranhos acontecimentos que conduziram à apostasia do mais proeminente dos missionários no Japão…

 

UM DRAMA HUMANO E RELIGIOSO
Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? “Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes”. Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz”. Afinal: “Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”… O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso.O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz o romancista): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”.

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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