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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de janeiro de 2017.

 

O filme «Silêncio» de Martin Scorcese é baseado no enredo concebido por Shusaku Endo (1923-1996) sobre a memória da presença portuguesa e cristã no Japão. O livro foi publicado entre nós pela D. Quixote, com tradução de José David Antunes, e a sua temática insere-se na nossa riquíssima relação com o país do Sol Nascente.

 

CONHECIMENTO MÚTUO
Diz-me a experiência que os nipónicos conhecem melhor Portugal do que nós a eles. Não falo só dos muitos vocábulos portugueses usados no quotidiano (butan, kappa, koppu, pan ou tempura) ou do célebre pão-de-ló (kasutera, palavra que vem das claras em castelo), mas sobretudo de uma empatia muito especial, devida ao facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais a chegarem a este distante arquipélago, habitado por guerreiros, mercadores e pescadores, abertos ao mundo. A arte Namban é um resultado deste encontro, provindo a designação do modo como os japoneses nos conheciam – Namban-jin significa bárbaros do sul… Por toda a parte no Japão, encontramos memórias do encontro com os portugueses – e Venceslau de Morais ou, nos nossos dias, José de Guimarães bem compreenderam esta riquíssima relação. De facto, há uma curiosa relação biunívoca entre os nossos povos. Shusaku Endo foi um grande admirador dos portugueses e amigo do Embaixador Martins Janeira. Nasceu em Tóquio, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência da mãe, com quem viveu, depois desta se separar do pai, em Kobe. Licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon. A sua obra é marcada pela pertença a uma religião minoritária e pela vivência de intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista. E Silêncio é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e o mais significativo, tendo sido distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). Não esqueço o encontro em Quioto com os Padres Adelino Ascenso e José Tolentino Mendonça, para falarmos de Silêncio. O tema crucial era o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, parecia dizer: “Podes pisar-me!”. Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. Para o Padre Ascenso, a distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. E António Alçada gostava de recordar a passagem da Peregrinação, em que Mestre Belchior e o rei do Bongo falavam da conversão deste último – em que ele dizia ser desnecessário qualquer gesto, já que Deus o sabia…

 

INTERPRETAÇÃO SOBRE A VIDA
O filme de Scorcese procura uma interpretação sobre a vida de um missionário no Japão no século XVII, em especial durante a dura perseguição, que durou quase um século. O caso que serve de base ao livro de Endo tem a ver com a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira em 1633 – caso inédito até então. Perante as perseguições, houve necessidade de resistir. Daí que os jesuítas tenham assumido a exigência de algum tipo de acomodação cultural, como no caso dos ritos. No livro, tudo começa por um dado dramático: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus, Cristóvão Ferreira, submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo tornou-se violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos adotados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas. Silêncio trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o que se tinha passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações, que nos levam aos estranhos acontecimentos que conduziram à apostasia do mais proeminente dos missionários no Japão…

 

UM DRAMA HUMANO E RELIGIOSO
Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? “Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes”. Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz”. Afinal: “Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”… O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso.O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz o romancista): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”.

 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  De 2 a 8 de janeiro de 2017

 

A publicação de «Obra Poética – Volume I» de Ruy Cinatti (Assírio e Alvim, 2016) editada por Luís Manuel Gaspar, com Joana Matos Frias e Peter Stilwell, constitui oportunidade para reencontrarmos a escrita de um dos autores portugueses mais interessantes do século XX, pela diversidade das suas experiências com expressão literária e por uma inesperada riqueza espiritual. E não podemos esquecer a ligação muito próxima do poeta ao Centro Nacional de Cultura e aos seus fundadores, desde muito cedo.

 

 

 

«A POESIA É SÓ UMA!»

Os «Cadernos de Poesia» iniciados no ano em que a revista «Presença» deixou de se publicar (1940) foram marcados por alguns dos nomes que mais se destacaram no panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século XX – como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. Sob o lema «A Poesia é só uma», os poetas dos «Cadernos» foram, na expressão de Fernando J.B. Martinho, dos que em Portugal no século XX mais de aproximaram de «uma ideia de poesia pura, pela qualidade objetual, de “ícone verbal”, que sempre, dentro da melhor tradição simbolista, atribuíram ao poema». E nessa perspetiva não deixaram de associar o trabalho estético e a dimensão ética – numa defesa persistente da liberdade. Junto destes poetas, encontramos Ruy Cinatti (1915-1986), que integrou a direção dos «Cadernos» nas suas três séries (com José Blanc de Portugal e Tomás Kim, todos recordados pelo CNC a seu tempo no CCB). Cinatti foi, ainda segundo F. Martinho, «poeta “nómada” como a si próprio se viu, numa errância que privilegiou os espaços de aventura ultramarina portuguesa, com destaque para Timor de que o seu nome é indissociável, quer na lírica celebratória quer na que é, depois da ocupação indonésia, ensombrada pela pungência da tragédia». Ora é a poesia deste místico que agora é de novo reunida, num esforço notável e meritório, permitindo aos seus leitores uma visão de conjunto de uma obra rica e multifacetada, na qual se sente, a cada passo, a projeção da cultura da língua portuguesa no mundo. E essa projeção surge num rico diálogo com outras visões e tradições – naquilo que podemos designar como uma interpenetração entre o gosto da aventura e a tentativa persistente de compreensão dos outros. Trata-se de um altruísmo poético, que talvez nos faça compreender o porquê de os portugueses estarem em toda a parte no mundo, sabendo responder diversamente aos múltiplos desafios. Jorge de Sena falará do «intervalo em que te aceitas outro / precisamente quando mais te julgam tu»… Pode dizer-se, pois, que não se trata apenas de adaptação, mas de encontro e de síntese. «Houve mares onde todos se encontraram, / Houve praias e ilhas de naufrágio, / Houve e haverá secretas margens / Onde a carne esfacelada implora e vive / Pedaços de mim próprio, irmanados / A algas e corais do fim do mundo». Assim, a hospitalidade funciona em dois sentidos – como capacidade de acolher e de ser acolhido, de receber e de estar disponível para dar alguma coisa da nossa diferença. É, no fundo, a disposição sentimental que importa entender, assim como a ternura, a invocação do amor, humano e divino. E, sendo a vida «toda mistério», é a procura permanente, a constante insatisfação e a insaciável busca de novos horizontes que se impõem. Em «Nós não Somos deste Mundo» (1941), em «Anoitecendo a Vida Recomeça (1942) ou em «O Livro do Nómada Meu Amigo» (1958) sentimos um «existencialismo metafísico», referido por Pedro Mexia, que nos leva a um encontro permanente entre «eu» e o «mundo», trilhando caminhos incertos, nos quais se cruzam o lamento e a ironia, o afeto e a compreensão das coisas, desde a natureza até ao quotidiano próximo.

 

UM POETA DA SIMPLICIDADE

«Dele esperávamos que nos revelasse mais do que a verdade intelectual, a verdade espiritual e o verdadeiro caminho da vida. Era o nosso guru» - disse Sophia de Mello Breyner a Peter Stilwell quando este escreveu a sua fundamental tese sobre Cinatti. Francisco Sousa Tavares confirma esta ideia, dizendo: «Ninguém poderá jamais imaginar alguém como Cinatti, a sua generosidade, a sua alegria, o seu entusiamo pela música, pela poesia e pelos outros»… E isto mesmo se nota na sua obra poética, sobretudo na fase de maturidade. E este primeiro volume traz-nos momentos muito ricos de talento e de criatividade. A poesia e a vida misturavam-se, naturalmente. E se a vivência poética obrigava ao domínio da palavra e à interrogação do mistério, a verdade é que em Cinatti encontramos a vivência de um ideal que procura constituir-se em sementeira de ideias e de valores. A iniciativa da revista «Aventura», visando abrir horizontes novos, insere-se nessa intenção… E, não por acaso, Ruben A. inspirar-se-á no nosso poeta (como exemplo sonhador) para criar a personagem do Cavaleiro de «A Torre da Barbela» - porque «sem liberdade a poesia não vale a pena, e o resto também não». E, deste modo, percebemos que «Para se ser poeta é preciso ser-se simples / Como eram simples os elementos naturais / Antes de Deus fazer misturas»… Cinatti vive poeticamente Portugal pelo mundo repartido – não como um projeto uniforme ou dominador, mas como uma encruzilhada de diversas influências e encontros. E não esconde, a um tempo e paradoxalmente, desânimo e admiração – elogia Baltazar Lopes e Amílcar Cabral, recorda tradições antigas, paisagens, experiências, um pouco por toda a parte, mas repugna-lhe a indiferença e a tentação simplificadora. Em «O Tédio Recompensado» (1968) ou em «O Borda-d’Alma» (1970) ironiza com a «paz dos podres», fala de «ultras» e «sinistros», não compreende uma sociedade acomodada e incapaz de audácias… E no encerrar de uma relação amorável connosco próprios diz-nos: «Eis que retorno à terra de ninguém, / à minha triste pátria angustiada, / para com ela celebrar alguém / num novo ano pleno de jornada / e cantarei a chuva anunciada / e o fogo fruste e o que lembrado / alumiar ensimesmadas faces / e outras de tenra profecia. / O mito grava, a palavra ofende. / A noite desce, a manhã ascende»…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS


   De 26 de dezembro de 2016 a 1 de janeiro de 2017

 

A leitura da Correspondência de Almeida Garrett para Rodrigo da Fonseca Magalhães (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016), permite compreendermos um pouco melhor o complexo mas apaixonante período da implantação e consolidação do liberalismo em Portugal.

 

 

UM APAIXONANTE PERÍODO
Encontramos o cidadão comprometido que foi Garrett em diálogo direto com o político mais influente na estabilização das instituições constitucionais – das guerras civis à Regeneração, momento em que foi possível pousar as armas e chegar a um acordo político de alternância no poder. A edição desta correspondência é de Sérgio Nazar David, que trata com esmero o manancial de contributos relevantes não só sobre as personalidades dos dois protagonistas, mas também sobre o período em que intervêm. Como sabemos, a edição crítica na INCM das obras de Almeida Garrett é coordenada por Ofélia Paiva Monteiro, cuja ação merece especial destaque, uma vez que tem permitido um melhor conhecimento da obra do grande autor do período romântico. Relativamente a Rodrigo da Fonseca (1787-1858), que a posteridade conheceria como «raposa», pela inteligência política e capacidade de superar as situações mais difíceis, não podemos esquecer a excelente biografia da autoria de Maria de Fátima Bonifácio, indispensável para percebermos o papel fundamental que desempenhou na história do seu tempo («Um Homem Singular», Dom Quixote, 2013).

 

 

GARRETT CIDADÃO E POLÍTICO

Almeida Garrett é uma referência da cultura portuguesa que supera em muito qualquer classificação de escola ou de grupo. Por isso, foi respeitado e referenciado por todos quantos, sob as mais diversas influências, até à modernidade, cuidaram de quem marcou indelevelmente o amadurecimento das nossas língua e cultura. «Não sou clássico nem romântico, de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam as minhas ideias, boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos ou outra polpa, amigos de disputas e questões que eu aborreço». Estas são as suas palavras, significativas, em 1825 no prefácio à primeira edição de «Camões» demonstram sobretudo a independência de espírito e a especial atenção de Garrett relativamente às mudanças fundamentais do seu tempo. E o diálogo com Rodrigo da Fonseca, ora publicado, é revelador de como, apesar das incompreensões, o poeta, romancista e dramaturgo pôde contribuir pela dimensão cultural e artística para afirmação de uma sociedade aberta e liberal. O corpus documental que constitui a presente publicação é constituído por 97 cartas, 72 do espólio de Rodrigo, 18 do Ministério do Reino (Torre do Tombo) e 7 do espólio de Garrett (5 da Biblioteca Geral e 2 da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra). O importante é dizer que se trata de 93 cartas inéditas. O percurso que poderemos seguir nesta correspondência revela-nos plenamente o cidadão, o político e o servidor público. Nota-se a situação que rodeou ida para Bruxelas como Encarregado de Negócios, por «sórdidas conveniências políticas», e as condições do regresso depois de dois anos de penúria. De novo na pátria, é eleito deputado em 1837 e defende na Câmara dos Deputados a liberdade religiosa - «não creio que possa haver liberdade civil para o povo que perder a liberdade religiosa». É uma preocupação que assiste ao liberal autêntico e que aflora nas «Viagens na Minha Terra». A moderação é a marca da sua intervenção política, afirmando-se entre os setembristas moderados, como dirá no célebre discurso do Porto Pireu, exemplo da oratória parlamentar, em resposta a José Estêvão: «É verdade: todas essas galés de injúrias navegadas de toda a parte do mundo, vieram descarregar-se a um imaginário porto Pireu, onde, sonhando os agradáveis sonhos da loucura ambiciosa e da cobiça frenética, nos supuseram, a estes poucos homens do centro, que, por poucos, por moderados, por guardadores de todas as formas, deviam ter merecido mais alguma daquela civilidade e consideração com que a todos acatam, renunciando tantas vezes a despicar-se das ofensivas, até a defrontar-se dos agravos, com que a todo o instante são provocados» (8.2.1840).

 

 

A CAUSA DO CONSERVATÓRIO

O homem de cultura, encontramo-lo a pugnar pelo Conservatório Real de Lisboa. A determinação de Garrett é clara, em nome do ensino das Artes (Declamação, Música, Dança e Mímica). A figura tutelar de Gil Vicente é chamada em nome da «ideia de civilização». O presidente da instituição é D. Fernando II, em nome das conjugação dos princípios democrático e monárquico, tão cara ao dramaturgo – que se empenha a fundo nos mais ínfimos pormenores, para que o Conservatório tenha as condições para ser marcante. E nesse combate conta com o apoio de Passos Manuel, sopro da liberdade e da democracia, e com Rodrigo, o homem capaz de compreender o Portugal mais a fundo… Mas é Costa Cabral e o cabralismo que se irão impor a partir de 1842. E Garrett passa para a oposição – uma vez que que o executivo «absolutamente declarou por seus atos, que queria governar no interesse exclusivo de um partido». E dirá a seu amigo Silva Abreu: «desagrada-me o estado das cousas e a tendência dos homens. Sou pasteleiro pelo coração e pela cabeça: sentimento e reflexão me fazem desejar e crer que não seja nacional nem fixo todo o governo exclusivo e intolerante. (…) Portugal não é dos setembristas nem dos cartistas, é dos portugueses». Afinal, vê no novo poder cabralista pretextos para «vingançazinhas mesquinhas de bairro e bairristas». Pela demarcação política, foi demitido pelo Decreto de 16 de julho de 1841, assinado por Joaquim António de Aguiar, da Inspeção-Geral dos Teatros, de Vice-Presidente do Conservatório e de Cronista-Mor do Reino… Daí o clima de desalento que sentimos nas «Viagens», onde se descreve a ida ao encontro de Passos Manuel em Santarém. Em 1846, no final da guerra da Maria da Fonte, ainda julga poder participar numa solução moderada, que, no entanto, será destruída na «emboscada» de outubro, na qual a rainha D. Maria II ainda vai dar a mão a Costa Cabral. Nesse ínterim, Garrett e Rodrigo ainda tentam mobilizar Passos para uma solução – mas não têm sucesso. A guerra civil regressa, impiedosa e inexorável – na Patuleia. A propósito do Grémio Literário, o escritor chega a confessar-se a Rodrigo mais político que literato. Contudo, nas «Viagens», os barões são duramente julgados, na pessoa de Carlos. O certo é que o genial escritor ainda regressará à ribalta política na Regeneração, na pasta dos Negócios Estrangeiros. Mas a política tem sempre as suas vicissitudes e a amizade entre Garrett e Rodrigo terminaria toldada num episódio triste de intrigas e calúnias, em 1852, em que o poeta se sentiu injustiçado. É certo que Rodrigo compareceria ao funeral de Garrett, em 54, mas o mal-estar deixou marcas fundas… De qualquer modo, desta relação tão rica fica este diálogo do maior interesse. 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 19 a 25 de dezembro de 2016.

 

Em leituras natalícias, escolhemos três livros - «Joga-se aqui o essencial – Um olhar sobre o que somos» da autoria de D. Manuel Clemente (Assírio e Alvim); «Tudo o que Existe Louvará» de Adélia Prado (Assírio e Alvim) e «Deus, Religiões e (In)Felicidade» de Anselmo Borges (Gradiva). São três obras recentes, a merecerem uma especial atenção pela sua grande qualidade.
 

 

UM LIVRO DO PATRIARCA DE LISBOA
«Joga-se aqui o essencial – Um olhar sobre o que somos» da autoria de D. Manuel Clemente, com posfácio de António Araújo (Assírio e Alvim) é uma excelente leitura para este Natal. São textos que dizem respeito ao período de exercício do autor enquanto Patriarca de Lisboa, de 2013 até ao presente. São homílias, mensagens pastorais e intervenções em colóquios académicos e civis, além de conferências várias. É um manancial da maior importância. Estamos, no fundo, perante uma celebração viva da comemoração dos três séculos da Bula de Clemente XI, de 7 de novembro de 1716, que concedeu ao Arcebispo de Lisboa o título de Patriarca. Os temas estão apresentados por ordem alfabética, de forma pedagógica, como D. Manuel bem aprecia e sabe, e constituem uma espécie de dicionário sobre o pensamento do autor. Leia-se, por exemplo, a propósito do Amor o seguinte: «Misericórdia é a palavra nossa que traduz todos os vocábulos com que a Bíblia nos comunica os sentimentos de Deus para com o povo eleito. Amor profundamente sentido e por isso mesmo “entranhado”; compaixão indefectível, mesmo que não correspondida; atenção prioritária aos mais pobres e humildes. Assim mesmo se traduz a misericórdia divina: um coração voltado para quem mais precisa; como todos afinal precisamos, “mendigos do amor”». Afinal, o coração compassivo, representado pela misericórdia, nas suas diferentes manifestações, pressupõe a atenção e o cuidado, que nos aproxima de quem espera por nós. E é esse o desafio ético perante o qual nos encontramos. Percebe-se como aqui se joga o essencial. Do Amor a Zigmunt Bauman, passando pelo Bem Comum Universal, pela Crise, pelo Desenvolvimento, pela Espiritualidade, por José da Cruz Policarpo, pela liberdade Religiosa, pelo Papa Francisco, por Santo António, por Sophia de Mello Breyner, pelo 25 de Abril ou por Xenofobia – todos esses pontos são referências que nos tornam mais atentos e despertos relativamente aos problemas com que se defrontam os cristãos. Em cada um dos diversos temas, do que se trata é de compreender como devemos exercer a liberdade e a responsabilidade, como devemos assumir a dignidade humana, como somos chamados a responder – sobre quem é o nosso irmão; quem é o nosso próximo. É o olhar sobre o que somos. E em mais um Natal temos de saber ouvir quem mais de nós precisa. E deste modo dar é mais exaltante do que receber, percebendo-se sempre que o amor cristão, agapé, obriga a uma troca, generosa e genuína… Como diz S. Francisco de Assis: «Oh Mestre, fazei com que eu procure mais consolar/ Que ser consolado/ Compreender, que ser compreendido/ Amar, que ser amado/ Pois é dando que se recebe/ É perdoando, que se é perdoado/ E é morrendo que se vive para a vida eterna». «O Verbo fez-Se carne e habitou em nós». Como lembra ainda D. Manuel Clemente, «podemos traduzir Verbo, a palavra latina que traduz a palavra grega “logos”, com os teólogos e, antes dos teólogos, ainda, com os filósofos, quer como «razão», quer como “palavra”» - Deus comunica-Se, Deus que nós nunca vimos… Eis como os poetas dizem mais claramente do que os próprios teólogos… Neste Natal compreendamos a Misericórdia e a Encarnação do Verbo – representadas no Presépio, desde a simplicidade dos pastores à homenagem dos sábios, a começar na paradoxal pobreza da manjedoura e de um curral para acolher um Deus Menino…

 

A POESIA SURPREENDENTE DE ADÉLIA PRADO
Ainda na boa maré dos livros, refiro uma obra talvez inesperada, mas extremamente bela, um livro de poemas – de Adélia Prado «Tudo o que existe louvará» (Assírio e Alvim). Como disse Pedro Mexia, «os seus textos, que evocam com frequência um meio provinciano e pobre, têm (…) algumas afinidades com o Sul profundo da ficção de Flannery O’Connor, mas enquanto a americana era violenta e sofrida, a brasileira é vitalista e sensual. Poeta de Deus e do corpo, Adélia é também poeta do corpo divinizado e do Deus encarnado». Podemos compreender isso mesmo, lendo o poema «Antes do Nome», onde sentimos a importância da palavra, em ligação estreita com o Verbo «encarnado». «Não me importa a palavra, esta corriqueira. / Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,/ os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", / o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível/ muleta que me apoia./ Quem entender a linguagem entende Deus/ cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. / A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,/ foi inventada para ser calada. / Em momentos de graça, infrequentíssimos,/ se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. / Puro susto e terror».

 

UMA LONGA EXPERIÊNCIA VITAL
«Deus, Religiões e In(Felicidade)» da autoria do Padre Anselmo Borges e prefácio de Andrés Torres Queiruga é uma reunião de oportuníssimos textos que estão divididos em três partes: O Enigma: A Morte de Deus; O Diálogo Inter-Religioso e O que traz a felicidade? Como diz o prefaciador: «realmente impressiona a longa experiência vital que está por detrás e no fundo destes textos. Experiência que inclui não só uma rica trajetória na organização de fóruns internacionais sobre o diálogo entre a fé, a ciência e a cultura, mas também amplos estudos e visitas pelo mundo universitário da Europa, e não em último lugar um intenso e vocacionado labor docente». O título remete-nos para uma atitude aberta e compreensiva sobre o fenómeno religioso e a complexidade do sagrado. E o certo é que podemos compreender que «Deus não criou por causa dele mesmo e dos seus interesses, da maior honra e glória, mas apenas por causa das criaturas, homens e mulheres, que quer ver plernamente realizados e felizes para sempre. Assim a última palavra sobre a História, e a História lê-se do fim para o princípio, não é a morte, mas a Vida, a Vida eterna, na bem-aventurança de ver Deus. Deus não é um Deus de mortos, mas de vivos». E aqui está a chave da ambivalência da Felicidade. A vida é paradoxal, é contraditória, porque a liberdade e a responsabilidade não são de sentido único. É o mistério do tempo que está bem presente. «Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de se ser e do ser». Os gregos referiam para o tempo dois símbolos contraditórios: Chrónos e Kairós – respetivamente, o tempo quantitativo e linear, sobre o qual a humanidade não pode intervir e o tempo qualitativo, enquanto crise e oportunidade, sendo as pessoas chamadas a intervir decisivamente. O tempo cronológico e devorador e o tempo kairológico é criador. A leitura é inesgotável e apaixonante!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

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De 12 a 18 de dezembro de 2016.

«Cervantes e Portugal – Curiosidade Literária» de Carlos Barroso (Lisboa, 1872) é um breve opúsculo de autor desconhecido que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal e do qual podemos partir para encontrar uma faceta portuguesa do autor de «Dom Quixote de la Mancha».


CERVANTES EM PORTUGAL
Miguel de Cervantes Saavedra tem a ver com Portugal muito mais do que à primeira vista possa parecer. E poderemos dizer que é, com o nosso Fernão Mendes Pinto, o criador do romance moderno, em que a vida se torna presente na narrativa, para além da edificação ou de uma perspetiva distanciada da singularidade. E assim o picaresco surge como uma arma crítica, nem sempre foi entendida, como aconteceu com o nosso autor da «Peregrinação», que passou por mentiroso, apenas porque se multiplicou nas diversas personagens da sua obra. Também Cervantes usou a ironia para fazer a crítica severa de quantos se deixaram prender pelo passado, em vez de assumir o novo tempo. Como disse Emilio Castelar: «os livros de cavalaria são o protesto contra o feudalismo e Cervantes a grande estátua que coroa o Renascimento». Esta é a epígrafe que inicia pequeno opúsculo de 1872, «Cervantes e Portugal – Curiosidade Literária» por Carlos Barroso, que nos apresenta as curiosas ligações do autor de «Quixote» à nossa cultura. São elementos conhecidos, mas tantas vezes pouco lembrados, que importa revisitar. Antes do mais, Cervantes lembra-nos a batalha de Lepanto (1571), em que foi seriamente ferido. Esse acontecimento histórico, em que a armada comandada por João de Áustria, com participação portuguesa, venceu os turcos, marcou (menos do que se esperaria, por razões diplomáticas) a história europeia – tendo até animado o nosso D. Sebastião a partir para Alcácer-Quibir, com os trágicos resultados conhecidos. Em 1581, com a questão dinástica portuguesa solucionada, encontramos Miguel de Cervantes em Lisboa com Filipe I, esperando favores deste, mas profundamente enamorado. No entanto, a filha natural Isabel Saavedra, da relação com Ana Villafranca, nascerá em Espanha só em 1584, já não sendo desse tempo. Foram os amores no período português que o inspiraram na novela pastoril «Galatea» (1585), onde o autor aparece disfarçado de pegureiro Lauso, suspirando pela formosa pastora Silena. E dirá: «Para festas Milão, para amores a Lusitânia». Em «Galatea» o pai da heroína das margens do aurífero Tejo, tenta prendê-la a um «pastor lusitano das ribeiras do deleitoso Lima». Cervantes teria ainda acompanhado o marquês de Santa Cruz na tomada dos Açores (1582-1583), que invoquei aqui há meses, a propósito de uma inesquecível visita ao palácio madrileno do meu amigo Álvaro de Santa Cruz…

 

DESCOBERTA DA VEIA CRIADORA
Em Lisboa, Cervantes descobre a sua veia criadora, designadamente no teatro, e a verdade é que o ambiente português entusiasma-o. Leia-se com atenção o romance do Cavaleiro da Triste Figura. Aí está o elogio do Tejo português, a beijar as praias da cidade de Lisboa de areias douradas. No célebre capítulo 6º, onde se trata de exorcizar a imaginação doentia dos romances de cavalaria na biblioteca do engenhoso fidalgo, além da salvação de «Amadis de Gaula», o primeiro publicado na Península, que tanto tem a ver com Portugal (pois a versão de Montalvo, que é a referida por Cervantes, teria sido antecedida pela versão portuguesa de Vasco de Lobeira, cavaleiro de Aljubarrota, ou de João de Lobeira), temos a referência ao «Palmeirim de Inglaterra», atribuído a um discreto rei de Portugal, e «Os Sete Livros de Diana» de Jorge de Montemor. E sobre Dulcineia fala-se de famílias célebres de Portugal como os Alencastros, Pallas e Menezes… O pastor Lope Ruiz, que é invocado por Sancho na fuga de seu amo de Torrealva, detém-se nas margens do Guadiana antes de passar seu rebanho para Portugal. Rio que entra «pomposo e grande» em Portugal. Entretanto, na profunda e tenebrosa cova de Montesinos promete o «Caballero de los leones» à sua fantástica amante, «andar por causa dela as sete partidas do mundo com mais pontualidade que o infante D. Pedro de Portugal». Já ao cónego de Toledo, o Cavaleiro da Triste Figura lembra o célebre Juan de Merlo, valente lusitano que foi à Borgonha, enchendo-se de honra e fama nos combates em que se envolveu. E uma das éclogas que foram representadas pelas pastoras, em cujas redes se embaraçou o pensativo Quixote a sonhar com Dulcineia, era nem mais nem menos do que da autoria de Camões. Nas «Novelas Exemplares» encontramos diversas referências – aos navios portugueses vindos das Índias Orientais em «Espanhola inglesa», a um português que pintava as barbas em «O licenciado Vidriera», em «A força do sangue» alguém procura dissimular-se falando meio português meio castelhano, em «Colóquio de los perros», «Berganza vitupera os que falando mal o latim introduzem sua ruim linguagem (…) como os portugueses fazem com os pretos da Guiné», no «Casamento enganoso» refere-se uma vestimenta feminina mais larga do que «sobrepeliz de um canónico português»…

 

EM LISBOA, VINDOS DA ORIENTAL ÍNDIA
Em «Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda», onde se relata a longa viagem de dois príncipes nórdicos que se fazem passar por irmãos (1517), Cervantes relata o desembarque dos viajantes na praia de Belém e enche Lisboa de encómios: «aqui o amor e a honestidade se dão as mãos»; «todos os seus moradores são agradáveis, são corteses, são liberais e são enamorados, porque são discretos: a cidade é a maior da Europa e a de maiores tratos; nela se descarregam as riquezas do Oriente e a partir dela se repartem pelo universo»; «a formosura das mulheres admira e enamora, a bizarria dos homens pasma, e como dizem: esta é a terra que dá ao céu santo e copiosíssimo tributo»… E em «Viagem do Parnaso» chegam poetas a Lisboa da oriental Índia… Dir-se-ia que Unamuno vê plenamente confirmado na obra de Cervantes que a cultura portuguesa é uma aliança entre o lirismo e a história trágico-marítima… Em Quixote o autor de «Sentimento Trágico da Vida» vê um fundo ibérico, apesar das diferenças. Garrett põe Quixote no âmago do conflito das «Viagens». Afinal, há dois Quixotes – um que continua a viver na sua loucura e outro que baixou aos infernos e entrou neles, de partida para o paraíso, de lança em riste a libertar os condenados todos, gritando «viva a esperança». Unamuno acrescenta: «E Deus riu-se paternalmente dele e esse riso divino encheu de felicidade eterna a alma»… Quixote como elo ibérico vem à lembrança, quando o mestre de Salamanca recorda o comentário de Guerra Junqueiro sobre o Cristo sofrido na arte espanhola e a Divindade descida ao convívio dos povos nas coloridas romarias portuguesas… E Antero de Quental leva-nos à lembrança de que a vida é uma tragédia para os que sentem e uma comédia para os que pensam – sendo mais digno o destino terrível mas nobre dos sentimentais do que o fim miserável e cómico dos racionais… O vitalismo de Ortega vai até à consciência quixotesca. Alonso Quijano no leito de morte revela essa dualidade, desde o interior, consciente da loucura e do sonho, até à sementeira emancipadora (essencial para Unamuno ou para Maria Zambrano) que «pousará no deserto e dará origem a um cedro gigantesco que com as suas cem mil léguas cantará hossanas ao Senhor da vida e da morte»…

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de dezembro de 2016.

 

«União Europeia – Reforma ou Declínio» com Coordenação e Introdução de Eduardo Paz Ferreira (Vega, 2016) reúne um conjunto de reflexões de grande atualidade sobre o presente e o futuro do projeto europeu e sobre a própria democracia no velho continente e no mundo.

 

 

QUE FUTURO?
Ninguém sabe qual o desfecho dos atuais acontecimentos no futuro da União Europeia, mas importa não cometer o erro crasso da indiferença ou da ilusão. Quando os britânicos fizerem, com o rigor a que nos habituaram, o cálculo dos custos e benefícios sobre o Brexit, a decisão que tomaram de abrir a Caixa de Pandora, só então poderemos vislumbrar o que irá passar-se. Até lá é prematuro tirar conclusões e não haverá adivinhos para revelarem o que lhes dizem as bolas de cristal. Uma coisa é certa – com ou sem Reino Unido, a União Europeia está muito frágil e sem soluções. A saída britânica desequilibra a frente atlântica e pode enfraquecer a componente ibérica. No entanto, será um erro muito grave continuar a discutir-se quem dos elos mais fracos vai ser apontado como mal-comportado da classe, quando o que está realmente em causa é melhorar a prestação de toda a turma que está longe de corresponder ao que dela se exige! Ouve-se no discurso político comum, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais se projetam nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá o ramerrame da economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, no «Quantitative Easing», continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.

 

O CUSTO DA NÃO-EUROPA
Percebe-se que o custo de não ter Europa ou de ter menos Europa é insustentável. Mas não se pense que falamos de um Superestado, uma superestrutura ou de uma burocracia desumanizada, falamos, sim, de uma coordenação fundamental, que seja capaz de ligar moeda, crédito, concorrência, competitividade, coesão, convergência e desenvolvimento. Tudo isto obriga a uma partilha de encargos e responsabilidades. Não se trata de harmonizar ou homogeneizar sociedades e pessoas, mas de favorecer a criatividade das diferenças. Precisamos de transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em inovação. Não se deve esquecer o que um dia disse o grande cientista Ilya Prigogine da Europa: temos de compreender que a nossa melhor riqueza é o conhecimento e a capacidade inventiva e criadora. Se repararmos bem, a maior influência de grupos populistas deve-se não ao fenómeno europeu, mas à necessidade de criar uma explicação exterior, mesmo que ilusória, para justificar a incapacidade das instituições nacionais a fim de assegurarem a integração social e a estabilidade. Sabemos que não teríamos a paz e a prosperidade de que beneficiamos se não houvesse instituições europeias. A democracia supranacional europeia tem de ser um ponto de encontro de todos – e tem de envolver a participação efetiva dos cidadãos. Esse é um ponto crítico. Não podemos continuar a pensar numa União Europeia sem uma legitimação clara de Estados e cidadãos. O tema dos refugiados obriga a soluções justas e duradouras. O crescimento e o desenvolvimento humano têm de ser objetivos comuns. O potencial económico e a capacidade para fazer frente a choques assimétricos tem de corresponder à ideia de convergência económica e social. A mobilidade dos estudantes e a prioridade da educação e da formação, da ciência e da cultura são fundamentais. Dir-se-ia que estamos apenas a reviver problemas passados e conhecidos. Todavia, hoje a sua persistência e a emergência dos egoísmos nacionais poderá ter efeitos mais dramáticos que nunca. Se o desespero destruir a frágil democracia europeia não haverá uma segunda oportunidade para salvaguardar a paz e a dignidade… A frente atlântica europeia não pode ser enfraquecida. Se Londres tem tido um papel crucial no mercado financeiro europeu e numa política europeia de segurança comum, a verdade é que tal apenas pode ser preservado se prevalecer um reformismo interno solidário, em lugar de se optar por atirar ao chão o tabuleiro de xadrez. Setenta anos de paz na Europa só foram possíveis mercê da prevalência da coesão sobre a fragmentação, e da razão sobre o medo. A estagnação económica europeia e o fechamento alemão fomentaram a fragmentação. O surgimento de tensões ditadas pela crise dos refugiados e pela difusão de um medo persistente do desemprego favoreceu as forças nacionalistas e incentivou o populismo – pano de fundo que abriu uma lógica antieuropeia e fragmentária. Nestes termos, a crise do Euro não tem a ver com a falta de credibilidade da moeda europeia, mas com a ausência de perspetivas imediatas de crescimento económico na Europa, por ausência de uma política ativa de investimento. Trata-se de uma moeda forte, que limita o espaço de manobra das economias com maior grau de dependência externa.

 

TIRAR LIÇÕES PARA O FUTURO
Eduardo Lourenço tem repetido, com a lucidez que lhe conhecemos, que «a Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa (nós, portugueses) temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. O perigo da não-Europa espreita como o risco da não-democracia. A crise europeia deve-se à ausência de um ideal mobilizador e à falta e de uma coordenação política capaz de romper com a estagnação e de assegurar uma convergência social que permita aos cidadãos europeus sentirem-se não só participantes mas também incluídos, num desenvolvimento humano justo, baseado na qualidade de vida e no bem-estar – mas essencialmente no respeito da dignidade humana. E quem acredita na importância do projeto europeu, menos como utopia, e mais como um meio de garantir a paz e a cooperação, tem de fazer do compromisso político, cívico, social, cultural e económico, algo de concreto, com resultados.

 


Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 28 de novembro a 4 de dezembro de 2016.

 

«Um Olhar sobre a Pobreza – Vulnerabilidade e exclusão social no Portugal Contemporâneo» (Gradiva, 2008), coordenado por Alfredo Bruto da Costa constitua uma obra fundamental para a compreensão da Pobreza como fenómeno político e social a exigir atenções especiais.

 

POBREZA, FENÓMENO COMPLEXO
Tantas vezes Alfredo Bruto da Costa telefonava ou pedia um encontro para debater uma dúvida, uma iniciativa ou uma ideia. Era extraordinária a sua atenção aos acontecimentos e à necessidade de os refletir serena e profundamente. Relativamente a um dos últimos livros de Amartya Sen («The Idea of Justice», 2009) anotou criteriosamente as suas dúvidas e sentiu-se algo desiludido, uma vez que esperava pistas mais inovadoras, para além do muito que o pensador já tinha dado, e que ele tanto admirava. Como este exemplo poderia dar muitos mais. E falámos longamente da experiência emancipadora de seu pai em Goa no grupo de Margão… Foram muitas horas de gostosa conversa e muitas ideias e iniciativas, algumas das quais ficaram por realizar – apenas adiadas. O que o preocupava era passar das ideias para os atos. Ele era a demonstração de que Emmanuel Mounier tinha razão quando dizia que «o acontecimento é o nosso mestre interior». Se no campo das ideias era extremamente estimulante, o certo é que esteve sempre preocupado com o modo de influenciar a realidade. Daí que muitas das suas preocupações nesses fantásticos diálogos, sempre como se todo o tempo estivesse ao nosso dispor, tivessem a ver com o difícil passo no sentido de melhorar a vida das pessoas concretas, de carne e osso, ignoradas e esquecidas. O seu combate foi sempre contra a indiferença, compreendendo que era mais fácil passar ao largo dos problemas, como se eles não nos dissessem respeito, em vez de os encarar frontalmente. As parábolas do bom samaritano e dos talentos estavam sempre presentes no seu pensamento. Conheci-o melhor na fugaz experiência governativa de Maria de Lourdes Pintasilgo, e depois não deixámos de estar em contacto regular. Não esqueço o seu contributo nos Estados Gerais lançados por António Guterres e saliento a consciência aguda que tinha dos problemas da educação e da formação, em ligação estreita com a criação de condições de justiça para todos – o rendimento mínimo garantido e a educação pré-escolar foram temas em que se empenhou e que refletiu intensamente. E quer no Conselho Económico e Social quer na Comissão de Justiça e Paz fui testemunha de uma ação determinada e muito inteligente no sentido de construir na opinião pública um ambiente de conhecimento e disponibilidade para os difíceis problemas da pobreza. Beneficiei também muito da sua ajuda no tocante ao tema da prevenção da corrupção – que se encontra paredes meias com a justiça social, já que esse flagelo, além de corroer os fundamentos da sociedade, retira meios indispensáveis para a justiça distributiva, para o emprego, para a correção das desigualdades e para o combate à exclusão.

 

DISTINGUIR DA EXCLUSÃO SOCIAL
Sei que a melhor homenagem que lhe posso fazer nesta crónica é relembrar o seu pensamento. Não me perdoaria se não o fizesse. Tantas vezes o ouvi repetir que é preciso clarificar ideias e não confundi-las para que os problemas possam ser solucionados devidamente. O fenómeno da pobreza deve distinguir-se da privação e da exclusão social. Não podemos misturar tudo, uma vez que fazendo-o afastamo-nos do cerne das ações necessárias. Bruto da Costa sempre nos disse, assim, que a pobreza é um grave problema político, a que importa dar atenção. A pobreza é uma situação de privação por falta de recursos, enquanto a privação em geral corresponde a não ter as necessidades básicas garantidas, por falta de recursos ou outra razão – desde a dependência de um vício ou de uma doença até à falta de capacidade para administrar os seus bens. Para cada um dos casos as soluções são muito diferentes. Na pobreza é preciso ajudar as pessoas a ter os meios necessários, na privação é indispensável apoiá-las a fim de que a gestão dos recursos seja melhor assegurada. A pobreza apenas se resolve com autonomia. A cana de pesca é importante, mas pode valer pouco, se não prepararmos as pessoas, de não as formarmos, se não as acompanharmos. A pobreza é uma das formas de exclusão social, mas não a única, há outras – como o isolamento dos idosos, que podem ter recursos materiais e a discriminação social de imigrantes ou deficientes etc..

 

POBREZA E DESEMPREGO
Também o desemprego é um fenómeno diferente do da pobreza, sem dúvida muito grave, mas diverso. Cerca de 40% dos membros das famílias pobres têm emprego e outros 30% recebem pensões de reforma. Ora, quando temos 40% de pobres ativos verifica-se que o problema não é apenas de distribuição, mas de repartição primária de rendimentos. A pobreza é um flagelo que exige políticas económicas – que corrijam as desigualdades. Muitas vezes pergunta-se se devemos ter primeiro crescimento económico para distribuir depois ou se das várias maneiras de crescer e criar riqueza devemos escolher a que assegura à partida uma melhor distribuição. Para Alfredo Bruto da Costa, tem-se demonstrado que a primeira hipótese não acontece – há décadas que se espera pelo dia e a hora em que já crescemos o suficiente para distribuir. Como diz a Constituição Pastoral «Gaudium et Spes» do Concílio Vaticano II: «Para satisfazer as exigências da justiça e da equidade devem fazer-se grandes esforços para que, dentro do respeito dos direitos da pessoa e da índole própria de cada povo, desapareçam, o mais depressa possível, as enormes desigualdades económicas unidas à discriminação individual e social, que ainda hoje existem e frequentemente se agravam» (nº 66). Importa, no fundo, jogar em vários tabuleiros: pôr a tónica no desenvolvimento humano, o que exige agir sobre as instituições, apostar na inovação, apoiar o capital social e humano, cuidar do emprego justo, criar riqueza sustentável e favorecer à partida a melhor distribuição possível. Michael Walzer fala, por isso, na ideia de justiça complexa. Os governos têm responsabilidades especiais, mas importa compreender que há resistências na economia e da sociedade que têm de ser superadas. Não basta, assim, a vontade ou a boa intenção que levam a uma lógica meramente assistencialista. A maior parte das medidas adotadas visa atacar a privação, o que já é bom, porque é um problema urgente, mas é insuficiente. Impõe-se que as políticas de desenvolvimento, de que falam o Padre Lebret e a encíclica «Populorum Progressio», se traduzam não apenas em medidas visando reduzir a privação – o que é positivo – mas em compreender que é a pobreza, ela mesma, com as suas especificidades que tem de ser combatida. O mal não está no que se faz, mas no que fica por fazer… E a grande lição, que continua na ordem do dia, é a de que o planeamento estratégico deve ligar criação de riqueza e de valor, sustentabilidade, disciplina, combate ao desperdício, defesa do meio ambiente e da qualidade de vida, distribuição, repartição e justiça. É o que fica por fazer que nos deve preocupar. Essa a herança e o testemunho de Alfredo Bruto da Costa que não poderemos esquecer!

 


Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 21 a 27 de novembro de 2016.

Acaba de ser publicado o «Novo Atlas da Língua Portuguesa» de Luís Antero Reto, Fernando Luís Machado e José Paulo Esperança (ISCTE-IUL – Instituto Camões, 2016) – onde se procede a um levantamento circunstanciado de elementos sobre a presença da língua portuguesa no mundo.

 

A INFLUÊNCIA DA LÍNGUA
A língua portuguesa é a terceira língua europeia mais falada no mundo, o idioma mais usado no hemisfério sul, uma das cinco línguas que já tem e terá maior utilização mundial no próximo século, com especial destaque para a internet e redes sociais, havendo provavelmente neste momento 200 mil estudantes que aprendem o português como língua estrangeira em sete dezenas de países… Mas todos estes elementos obrigam a que haja um especial cuidado na partilha de responsabilidades relativamente a uma realidade cultural complexa, com expressão em todos continentes e com uma diversidade notável. Como salienta o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva: além do mais, «o português é uma das línguas mais dinâmicas do mundo. Quer isto dizer que é das que proporcionalmente mais verá crescer o número dos seus falantes e mais verá alterar-se a sua geografia. Os dados mais relevantes, a este propósito, são os seguintes. Por um lado, estima-se que dos atuais 261 milhões de falantes, o português passe a contar com perto de 390 milhões, em meados do século, e uns 487 milhões no seu fim, Por cada falante atual, haverá, portanto, nessa altura 1,9. Além disso, se hoje a larguíssima maioria dos falantes da nossa língua reside no Brasil (são mesmo quatro quintos), prevê-se que no fim do século XXI, o número dos que a usarão em África será superior ao da América Latina, mudando assim qualitativamente a geografia e, em consequência, a variedade maioritária do português»… E assim a chamada «lusofonia» evoluirá num sentido da maior diversidade e de um nítido policentrismo. Estamos perante uma partilha e um condomínio da língua portuguesa – no que inequivocamente é uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas. E as projeções realizadas apenas confirmam esta tendência. Se falamos desta expansão nos países onde a língua é oficial, não podemos esquecer os inúmeros países onde se desenvolve a diáspora portuguesa – para além da crescente importância das iniciativas económicas nos espaços onde se fala português, para além da importância cultural dos nossos escritores, artistas, músicos e criadores. No Japão, na Malásia ou na Indonésia, com a declaração do Fado como património universal pela UNESCO, houve um crescimento significativo do número dos estudantes de português moderno, muitos dos quais descendiam de falantes da língua franca do século XVI, o «papiar cristão». Como ainda refere o Ministro dos Negócios Estrangeiros, não falamos de uma realidade uniforme, propriedade de quem quer que seja. «Ela não é a “língua dos portugueses”, mesmo que sob a forma travestida de uma noção de lusofonia a que sub-repticiamente se atribuísse tal conteúdo normativo: ou a língua que, por já “ter sido” dos portugueses, seria responsabilidade primária deles acarinhar».

 

REALIDADE POLICENTRICA
Estamos perante uma realidade plurifacetada, policêntrica e pluricontinental. E é fácil de perceber que a evolução geográfica, as alterações no mundo global e as novas tecnologias de informação e comunicação irão favorecer uma língua plural e rica, não padronizada, definindo uma identidade de muitas diferenças e complementaridades. Como já hoje acontece nos meios mais lúcidos e cultos a diversidade e o intercâmbio só favorecem o enriquecimento mútuo. Lembremo-nos de que nas últimas décadas o falar do Portugal europeu já sofreu uma nítida influência dos retornados de África, dos emigrantes regressados à pátria, dos imigrantes brasileiros, cabo-verdianos e de outras origens no mundo onde se fala a língua portuguesa. E nesse ponto, estamos perante um sério desafio que corresponde à necessidade de ensinar a língua portuguesa como hoje se fala e se escreve, para que não sejam cometidos erros graves de sintaxe e para que o enriquecimento vocabular seja enriquecido, além de que se deverá avançar de modo partilhado, em especial com o Brasil, na elaboração de vocabulários científicos e técnicos, que favoreçam o rigor e a clareza na comunicação. O fazermo-nos entender com clareza e correção não é tarefa de gramáticos, mas de cidadãos empenhados em fazer-se entender sem equívocos ou ambiguidades. Não basta, pois, dizer que a língua portuguesa é uma das mais faladas, em todos os continentes e com inequívoco potencial económico. Há muitas resistências, dificuldades, complexos, inércias. Por isso, importa desenvolver ações de promoção coordenada e articulada da língua portuguesa. E nesse particular, falamos do apoio à formação de professores de português; da existência de uma rede transnacional de ensino do português como língua de herança na diáspora; da integração do português como língua estrangeira; no desenvolvimento de uma rede de cátedras, leitorados ou centros de língua e cultura; da oferta de cursos de português para ir ao encontro das necessidades das relações internacionais e do comércio; da promoção do português como língua internacional nas principais organizações mundiais; do desenvolvimento da cooperação entre países de língua portuguesa; da internacionalização da língua e da cultura, designadamente nas instituições de ensino superior, científicas e académicas; bem como da estruturação da ação cultural externa, com a presença dos nossos artistas e criadores, das indústrias criativas. Tudo isto deve culminar num reforço da cooperação entre instituições oficiais e da sociedade civil nos diferentes Estados que usem a língua portuguesa, de modo que a língua viva, se torne presente e atuante – como fator de desenvolvimento e de paz. Os dez capítulos de Atlas tratam da História e do Futuro da língua; da sua demografia e geografia; no ensino do português no mundo; da posição geoestratégica e da expressão económica dos países de língua portuguesa; do português como língua de negócios; da língua e da mobilidade; do património comum – desde a unidade à diversidade; da cultura, artes e ciência; das personalidades dos países de língua portuguesa e da língua portuguesa na Net. Há assim grande cópia de informação que deve ser lida com um grande rigor, já que estamos perante um pano de fundo, que não pode nem deve ser lido numa perspetiva paternalista ou triunfalista. Somos um país médio como responsabilidades exigentes ditadas pela história e pela projeção mundial da nossa língua e das nossas culturas, daí que necessitemos de uma estratégia inteligente capaz de mobilizar o máximo de esforços que for possível, favorecendo as complementaridades. Com compreensão do mundo, trata-se de fazer com que o bem comum seja um fator ativo de desenvolvimento humano.     

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

 De 14 a 20 de novembro de 2016.

 

«Ouvir com Outros Olhos» de João Lobo Antunes (Gradiva, 2015) contem um conjunto significativo de ensaios de um dos mais estimulantes escritores contemporâneos. Com «Um Modo de Ser», e outras obras onde a experiência do médico e cientista se associa à do humanista, estamos perante uma leitura indispensável, que nos abre novos horizontes de pensamento e de vida.

 

  

UM INTELECTUAL COMPLETO
João Lobo Antunes era um intelectual completo. Como cientista e médico teve o reconhecimento, enquanto verdadeiro mestre que foi. Como cidadão empenhou-se nas causas nobres da construção de uma sociedade melhor, capaz de compreender os limites e a imperfeição. Como ensaísta e homem de cultura deixa-nos uma obra única, centrada na procura serena, complexa e multifacetada da dignidade humana. Numa palavra, faz-nos muita falta. Deixa um lugar praticamente impossível de substituir. O humanista pôs em diálogo efetivo a cultura e a ciência, salientando que a criatividade e a inovação correspondem a processos paralelos e semelhantes no intelectual, no filósofo, no artista e no cientista. «Ouvir com Outros Olhos» é uma reunião inesquecível de reflexões de uma extraordinária qualidade ética e cultural. Não esqueço o encontro com Fernando Gil, a ilustrar essa proximidade. E não compreenderemos as virtualidades da investigação científica nos dias de hoje se não a ligarmos à criatividade humana. Num tempo de crises e incertezas, não é demais salientar a importância crucial do ato inovador, que exige um diálogo efetivo entre cultura e ciência. Pode dizer-se que ao lermos a obra fecunda do ensaísta, descobrimos o homem na sua integridade – o que permite compreendemos melhor o fenómeno extraordinário da criação. As mãos do cirurgião e as do escritor procuram, afinal e sempre, o milagre do ser. E podemos aplicar-lhe, o que o próprio disse de um seu próximo, por laços familiares e por convergência de afinidades científicas – Pedro Almeida Lima: «viveu uma vida cheia, com um estilo que muitos invejaram e que se não aprende e só grotescamente se imita, cumprindo a obrigação moral que a sua inteligência lhe criara, mas também deleitando-se fidalgamente, com aquilo que fazia». E, nessa recordação, acrescentava não haver porventura maior bem-aventurança - invocando, com legítimo orgulho, o facto de o mestre lhe ter declarado um dia, quando ele fez uma intervenção cirúrgica no caso de uma doença do ramo que bem conhecia, que isso lhe dava certa satisfação por ser prova cabal «de que (o João) tinha algo do seu sangue»… Pode dizer-se que há um elo de exemplo e de vocação que liga as duas personalidades, prolongado pela especial vocação pedagógica do mais jovem. Fazer escola é, no fundo, compreender que nada de verdadeiramente relevante pode escapar à necessidade de comunicar às novas gerações a atitude, os conhecimentos e a capacidade de compreender. Invocando a memória inesquecível de João Pedro Miller Guerra, João Lobo Antunes lembrou a vocação essencial da Universidade, não limitada a proporcionar uma cultura especializada, mas capaz de ter um sentido de estimular a inquietação do aperfeiçoamento espiritual. Daí a importância da Ética, como abertura de horizontes à inteligência, à sensibilidade e à formação do caráter. Por isso, afirmou: «Não há dúvida de que não é possível praticar um ensino esclarecido, eficaz, aprazível, se as relações entre professores e alunos não forem inspiradas pela confiança e respeito mútuos, não assentarem em bases de honestidade e franqueza». E, no entanto, nem sempre isso acontece, por antagonismos, desconfianças, animosidades, egoísmos e ambições desmedidas… A cada passo encontramos essas resistências, daí que o exemplo e a experiência sejam as melhores matérias-primas no que à Ética diz respeito. É neste sentido que falo de um intelectual completo – uma vez que nele encontramos, naturalmente, uma encruzilhada de preocupações – do rigor científico, da exigência técnica, do humanismo, dos valores vividos e enraizados, da sensibilidade das humanidades, como letras e artes e, sobretudo, como atenção a tudo o que é humano.

 

O FASCÍNIO DO PENSAMENTO
Percebe-se o fascínio que nele exerceram grandes mestres, como Juvenal Esteves ou Artur Torres Pereira… E ainda sobre Miller Guerra, disse-nos: «Tive o privilégio de beber da sua extraordinária cultura e de o ouvir dissertar sobre os diálogos de Platão, os sonetos de Antero, os romances de Proust e Dostoiewski ou os escritos de Teilhard de Chardin, preferência esta própria do católico, então progressista, que não enjeitava ser». Mas o fascínio transmitiu-se à capacidade extraordinária que tinha de partilhar a qualidade de grande leitor dos melhores romancistas norte-americanos – para além do sólido conhecimento dos clássicos – e de fazer disso alimento do convívio e dos melhores banquetes intelectuais. Fui testemunha direta dessa qualidade, num júri literário, no qual beneficiámos só fugazmente da sua participação, pelas razões que o vitimariam. Sentimos o seu método, a sua exigência, a sua sensibilidade e o conhecimento de causa. Participou de corpo inteiro nos nossos trabalhos, não enjeitando esforços – e pondo sobre a mesa toda a experiência de criterioso leitor. Mas também beneficiei do seu avisado conselho na Fundação Calouste Gulbenkian, semanas atrás, sempre segundo uma razão temperada pelo espírito e pela medida. É memorável o ensaio que escreveu sobre a «Morte de Ivan Iliitch» de Tolstoi – no qual se nos revela de pleno o homem das várias culturas – literária, científica, artística… E a novela do genial autor russo surge-nos decifrada de um modo amplo, em que os sentimentos humanos aparecem descritos nas situações limite… E compreendemos que «no fundo, quanto a sentimentos, alma e coração misturam-se, e Aristóteles tinha razão ao pensar que era no coração que o espírito tinha assento» - do mesmo modo que a coragem é outro atributo da alma… Faz pleno sentido a citação emblemática de Richard Feynman, no que podemos considerar uma chave para a compreensão do ato de ser e de conhecer: «todas as ciências, e não apenas as ciências, mas todo género de trabalho intelectual, são um exercício para ligar entre si diferentes hierarquias, para ligar a beleza à história, para ligar a história à psicologia humana, a psicologia humana ao trabalho do cérebro, o cérebro ao impulso nervoso, o impulso nervoso à química, e assim por diante, para baixo e para cima, em ambas as direções». Ainda sobre o exemplo sublime de Rita Levi-Montalcini, prémio Nobel da Medicina e da Fisiologia de 1986, lembra-nos a ilustração fecunda da ideia de Valéry, segundo a qual o que conduz à descoberta científica «é pelo menos tão fascinante como a própria descoberta». Daí que a autobiografia da célebre investigadora tivesse como título «Elogio da Imperfeição». E aí encontramos uma história apaixonante de simplicidade, de entrega, de entusiasmo e de desencanto, de afetos, mas também de resistência à violência e ao ódio – de quem viveu a perseguição e o ostracismo. A vida e a obra de João Lobo Antunes representam um modo especial de ser, que nos remete para os grandes mestres das humanidades – como Montaigne. Quando lemos «Um Modo de Ser» (Gradiva, 1996) percebemos bem o sentido atual da afirmação do autor dos «Ensaios»: «Je suis moi-même la matière de mon livre…». Mas um eu atento à complexidade da vida que nos cerca…

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 7 a 13 de novembro de 2016.

Miguel Veiga em «Os Poemas da Minha Vida» (Público, 2004) lembra Wislawa Szimborska: «na língua da poesia, em que cada palavra é cuidadosamente pesada, nunca nada é vulgar nem normal (…) E sobretudo nem uma qualquer existência neste mundo».

 

UMA PERSONALIDADE ESPECIAL
«Menino e moço cedo me levaram os meus pais a ler poesia» - assim começa a apresentação de «Os Poemas da Minha Vida» de Miguel Veiga. Falo de uma personalidade especial. É um paradigma do que há de melhor no Porto – a cidade livre, que acolheu D. Pedro de braços abertos, como sua casa constitucional. Um dia o Miguel disse: «não passo de um buscador do mundo. O segredo da busca é que não se encontra. Nunca se encontra. Acho-me um obstinado errante». Assim, foi sempre fascinante encontra-lo, contar com a sua palavra, com a sua inteligência. Acontece isso comigo há mais de quarenta anos. O seu infinito foi sempre a curiosidade das coisas. Vi-o sempre desperto para compreender o lado misterioso das coisas, mas com uma clareza de espírito digna do nosso Sá de Miranda – de «antes quebrar que torcer». Para ele, política sem ética é uma vergonha. E tem razão. Por isso, pensou sempre por si e agiu segundo a sua consciência. Foi sempre incómodo, Sendo a política a mais nobre das atividades cívicas, tem de ser exercida com independência. E Miguel Veiga sempre me ensinou que temos de estar permanentemente em condições de dizer não., com todas as consequências – sem dependências ou receios. A ética da responsabilidade é a natural contrapartida da ética da convicção. E, sendo um homem de valores, liga o bem, o belo, o bom, o justo e o verdadeiro. O culto da estética é a consequência de uma ética enraizada na vida. Tem a ver com as pessoas de carne e osso, como dizia Unamuno. Daí a compreensão do pluralismo e das diferenças – na linha de Popper e de Isaiah Berlin. Filho de mãe francesa e de pai beirão soube sempre ligar o requinte e a subtileza da cultura parisiense ás antigas raízes do Portugal inconformista e cioso das suas liberdades, que Garrett e Herculano defenderam de armas na mão e também pela escrita e pelo estudo. Em casa de Miguel Veiga, na sua infância, dir-se-ia que coexistiam Descartes e o lirismo lusitano. «Busque Amor novas artes, novo engenho, / Para matar-me, e novas esquivanças; / Que não pode tirar-me as esperanças, / Que mal me tirará o que não tenho…». Quantas vezes ouvimos o Vasco Graça Moura a repetir a supremacia de Camões… E não podemos esquecer como Miguel não esquecia o seu tio Pedro, homem do Movimento de Renovação Democrática (com Domingos Monteiro, Delfim Santos ou Eduardo Salgueiro…) e dos combates pelas liberdades públicas – cujos traços de personalidade tantas vezes se encontram em Miguel.

 

MARCAS DE UMA PERSONALIDADE
Liberdade e independência eram as marcas da sua personalidade e da sua ação. Com Francisco Sá Carneiro e Artur Santos Silva participou ativamente na fundação em maio de 1974 do PPD. Então o conheci e iniciámos uma relação muito boa, até aos dias de hoje – em que as afinidades eletivas da cultura portuguesa e de um necessário cosmopolitismo têm sido constantes. As idas ao Porto (cidade de algumas das minhas raízes, que representei com muita honra no Parlamento durante década e meia) eram sempre motivo de uma imersão total no fervilhar das ideias. E, como disse já, Vasco Graça Moura fez parte desde muito cedo desse Porto de encontro, acolhedor e hospitaleiro. No Campo Alegre estavam bem presentes Sophia e seu primo Ruben A., mas havia ainda o magistério intelectual do Bispo do Porto D. António. Na Foz, os passeios a usufruir do sol e do mar eram inesquecíveis. «As gaivotas. Vão e vêm. Entram / pela pupila. / Devagar, também os barcos entram. / Por fim o mar. / Não tardará a fadiga da alma. / De tanto olhar, tanto / olhar» - com disse Eugénio de Andrade. Foi assim pela vida fora, designadamente com um amigo comum, o Mário Melo Rocha, muito jovem, de quem tenho muitas saudades… Não esqueço uma memorável noite com Gonzalo Torrente Ballester. Foi um banquete de puro espírito, no sentido do humor e do prazer de encontrar um grande escritor e uma personalidade fascinante, que nos lembrou a génese de «Filomeno, a mi pesar», com todas as suas peripécia galaico-portuguesas, e com quem rimos com gosto sobre a «Crónica del rey pasmado»… As amizades constroem-se pela riqueza das experiências, não pela superficialidade dos chistes.

 

DIÁLOGO SEMPRE ENRIQUECEDOR
Miguel Veiga é uma referência, cujo diálogo é sempre enriquecedor. Já tive oportunidade de recordar como foram importantes o Francisco Sá Carneiro, o Artur Santos Silva, o António Leite de Castro – e ainda o grupo de Coimbra, o António Barbosa de Melo, o Mota Pinto, o Figueiredo Dias, o Costa Andrade. Ao lermos a declaração de voto sobre a Constituição da autoria de Barbosa de Melo compreendemos como o compromisso de 1976 pôde tornar-se duradouro e enriquecer-se em 82, em 89 etc. Assim se pensava o futuro como uma sementeira de ideias. Sinto haver nesta tradição de liberdade, personificada por Miguel Veiga, algo da causa de D. Pedro de autonomia e solidariedade. E o Miguel gosta de falar de «decência» - como seriedade, trabalho competente, higiene de espírito, hombridade… Tem razão. Eu sei que hoje se acha pessimista, mas não esqueço que para os mais novos (como eu era em 74), o Miguel Veiga apontava-nos o caminho da cidadania ativa e empenhada. Ele é do Camus e do Raymond Aron – e continua a ser. Ele é da «Heterodoxia» do Eduardo Lourenço. Miguel Veiga é um exemplo de independência, de liberdade, de horizontes claros e abertos…

 

UMA NOTA FINAL SOBRE O PORTO
Nos últimos anos, a minha relação com o Porto foi marcada pelo encontro com Paulo Cunha e Silva. Antes de o conhecer pessoalmente li os seus textos e amigos comuns fizeram-me chegar as melhores referências. Sendo mais novo que eu dez anos, era alguém que marcou desde muito cedo os campos em que agiu. Era mais um exemplo de um médico que se sentia bem no mundo das artes e da cultura. Quando o encontrei pessoalmente, tudo o que me tinham dito dele foi amplamente excedido. Era um homem culto, atento, disponível, inteligente, multifacetado, desperto para o que de mais importante ia acontecendo e ciente do que uma cidade europeia como o Porto precisaria. Nas primeiras conversas que tivemos revelou-se uma personalidade com sentido prático, sem tempo a perder em aspetos laterais ou em superficialidades. Tinha ideias claras, sabia que o importante era poder obter consequências positivas na valorização da cidade do Porto. Deixou-nos, porém, inesperadamente. Poucos dias antes teve a amabilidade de ir a uma iniciativa em que eu participava. Foi sempre de uma grande generosidade na partilha de ideias e de projetos. O Porto deve-lhe muito. Ainda agora, quando Paulo Cunha e Silva já não está entre nós, o seu impulso e o seu exemplo continuam a fazer-se sentir. A melhor homenagem que pode fazer-se a um homem de ação é reconhecer-se que o seu trabalho e a sua orientação continuam a influenciar o campo de ação!

 


Guilherme d’Oliveira Martins

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