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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LARÁPIO APAVORADO

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XI) - 11 de agosto de 2017

 

Sophia de Mello Breyner foi exemplo de coragem, de talento e de determinação. A sua fragilidade aparente contrastava com um carácter surpreendentemente destemido. Conta-se que, ainda jovem, e numa zona pouco iluminada, foi assaltada, ou melhor, foi vítima de uma tentativa de assalto.
Convém explicar que, pela vida fora, Sophia revelou uma aversão completa, que tantas vezes se manifestava com pavor, a fantasmas e a elevadores. Na dúvida, preferia sempre as escadas e em casas desconhecidas certificava-se sempre se não estavam assombradas.
Um dia na PIDE descompôs um agente que pretendia levá-la de elevador para um andar superior do terrível antro...
Mas voltemos ao episódio da tentativa do assalto... Sempre aparentemente distraída, ia no seu passo apressado, quando o meliante lhe estendeu a mão à mala. Sophia não largou a carteira e deu um enorme grito, lancinante, que deixou o ladrão petrificado e Sophia acrescentou, alto e bom som: - Ah! Julgava que era um fantasma! Afinal, é apenas um ladrão!... E o larápio fugiu a sete pés apavorado...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AS CORES DA NOSSA BANDEIRA...

 

DIÁRIO DE AGOSTO (X) - 10 de agosto de 2017

 

Os nossos leitores, sempre atentos, perguntam sobre a razão de ser das cores da bandeira nacional. Foi uma comissão constituída por Columbano Bordalo Pinheiro, João Chagas, Abel Botelho, Ladislau Parreira e Afonso Palla que propôs a bandeira que temos.
O verde e o vermelho (a esperança e o sangue dos heróis) foram as cores adotadas pelo Partido Republicano Português e desde pelo menos a revolução do Porto de 31 de janeiro de 1891 simbolizaram a sua causa. O decreto de 19 de junho de 1911 adotou a bandeira nacional, instituindo como feriado nacional 1 de dezembro, dia da bandeira.
O retângulo bipartido  verticalmente em duas cores fundamentais vermelho e verde estivera na Rotunda e na Praça do Município a 5 de outubro de 1910 – ainda que o vermelho estivesse junto da tralha. Guerra Junqueiro defendeu que a bandeira fosse azul e branca, na tradição liberal do constitucionalismo de D. Pedro IV – mas o seu ponto de vista não foi adotado.
No centro da bandeira encontra-se a esfera armilar de D. Manuel I, os castelos de D. Afonso III e ao centro as cinco quinas de D. Afonso Henriques, a invocar a Batalha de Ourique, representando de modo inequívoco a tradição histórica de Portugal.
O verde adotado, na linha da dinastia de Aviz e dos símbolos de D. Manuel, foi o esmeralda e não o verde escuro proposto por Columbano e aprovado pela comissão... No entanto, as tintureiras da Cordoaria Nacional não encontraram o verde escuro e ficou o esmeralda. Columbano comentou: - Não ficou como eu desejava, tenho pena...  

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A PALAVRA PORTUGAL!

 

DIÁRIO DE AGOSTO (IX) - 9 de agosto de 2017

 

Perguntam-me sobre a etimologia Portugal. Donde vem essa palavra mágica? Foi da cidade da foz do rio Douro que houve nome Portugal. Portus vem do latim e corresponde a uma entrada de mar – a raiz tem a ver com o elemento per, que em sânscito significa abertura, e que encontramos em oportunidade, isto é, na decisão do capitão do navio para entrar num porto...
Portucale ou Portugale (o c e o g em latim confundem-se) é o aglomerado da embocadura do rio Douro – e dur em sânscito significa um espelho de água. E que é Gale? A referência ao povo estabelecido naquela região. É um povo celta que vem do Oriente e se estabeleceu no noroestre da Península na Galiza.
Estamos a falar dos galos, galécios ou galegos – que se integram numa genealogia bem influente em todo o continente europeu.
E é assim que encontramos em toda a Europa primos nossos que se identificam pelo elemento gal: Gálatas, povos da Galácia, na parte central da Capadócia, que S. Paulo bem conheceu e fundaram o bairro de Istambul Galatasaray; Cracóvia fica na Galícia; Astérix é gaulês e está entre os avós dos franceses (nos ancêtres les gaulois), os galos são, aliás, o símbolo desse povo (que batizou o simpático animal com o onomatopaico coq – cocoricoo); no sul da Grande Bretanha fixaram-se os Galeses e aí se fala gaélico; e por fim chegamos  aos trovadores do galaico-português... Eis uma identidade bem europeia com raízes na Índia...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESPAMPANANTE…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (VIII) - 8 de agosto de 2017

 

Um pinga-amor muito conhecido na noite lisboeta mudava amiúde de namoradas, que ia ostentando com garbo no Chiado lisboeta para espanto de muitos. Acontece que nem sempre a cultura e a erudição acompanhavam a espetacularidade das senhoras…
Um dia, descendo a rua da Misericórdia, o sujeito, que conhecia meio mundo e que gozava de simpatia mesmo daqueles que lhe davam o desconto pelo excesso da sua instabilidade afetiva, coincidente com a sua inclinação para a multiplicação de belas companhias, encontrou um velho conhecido… E demorou-se algum tempo na conversa, para desespero da jovem companhia, que se aguentava mal nuns sapatos espampanantes de saltos altíssimos.
Terminado o colóquio, despediram-se os dois amigos e ela perguntou: - Quem era? – Era o Marquês de Pombal!... Incrédula e julgando tratar-se de brincadeira, respondeu: - Também se não queres dizer, não digas…

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS CANDEEIROS…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (VII) - 7 de agosto de 2017

 

Esta também é do António Alçada, mas associa outro amigo do coração – o José Guilherme Merquior, grande ensaísta e diplomata brasileiro. 

Pouco depois do 25 de Abril, o José Guilherme passou por Lisboa e fez uma conferência no Centro Nacional de Cultura sobre a crise da cultura contemporânea. Ele era uma personalidade fascinante que amava verdadeiramente a liberdade. Ainda havia naquele tempo um fervor revolucionário…
A conferência, como se esperava, foi um sucesso e revelou a extraordinária lucidez do seu autor. Um perguntador profissional invocou a ladainha habitual do materialismo dialético. E o José Guilherme foi claro, como era seu apanágio, na resposta:
- «O mais que eu posso conceder é que o materialismo dialético, como método de interpretação, pode ocasionalmente servir-nos de alguma utilidade, mas como filosofia, acho que funciona como os candeeiros para os bêbedos: mais para se agarrar do que para iluminar»…  

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

TROCA-TINTAS…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (VI) - 6 de agosto de 2017

 

A porta da «Havaneza» no Chiado era local certo para reunir os janotas e os más-linguas. Era lá que se juntavam os galãs para ver sair as meninas da missa dos Mártires e apreciar as beldades que desciam a calçada para tomar chá na Bénard, verdadeira passagem de modelos. Na Havaneza vendiam-se os melhores puros de Lisboa e os mais afamados tabacos portugueses e estrangeiros. 

Sabemos que Cesário Verde era uma fraca figura, tímido, macilento, sempre entretido com os seus botões. Um dia, como de costume, descia a rua Larga de Santa Catarina, o nosso Chiado, vindo do Bairro Alto, onde deixara um poema no «Diário de Notícias», a caminho da loja de ferragens do pai na rua dos Fanqueiros.
Um dos habitués da porta da tabacaria que, por qualquer razão, implicava com Cesário, vendo-o, não se conteve e comentou alto e bom som: - Olha o Cesário Azul… O poeta parou, fitou o engraçado e apenas disse: - Com que então troca-tintas…

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRODUTIVIDADE…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (V) - 5 de agosto de 2017

 

O António Alçada Baptista era um incansável contador de histórias. Podiámos estar com ele horas a fio, serões seguidos, mas sempre havia motivo para bom convívio. A ele voltaremos mais vezes… Esta é dele.
Um amigo, diplomata brasileiro, foi colocado na Embaixada do Brasil na Holanda. Chegou à noite e, logo na manhã seguinte, telefonou para a Embaixada para combinar com o Embaixador a sua apresentação. Atendeu o porteiro, um português emigrado, que assegurava a guarda daquela casa. O diplomata perguntou: - O Senhor Embaixador está? – O Senhor Embaixador não está.
E como ele sabia como se compunha o quadro da Embaixada, foi perguntando, um por um, pelos seus titulares. Não estava nenhum. Admirado, perguntou: - Então, de manhã não trabalham? Resposta do porteiro zeloso: - Não. De manhã não vêm. À tarde é que não trabalham!...

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRATOS DE POLÉ

 

DIÁRIO DE AGOSTO (IV) - 4 de agosto de 2017

 

Tratos de polé são, na expressão popular, maus tratos, tormentos. A polé era um instrumento de tortura usado pela Inquisição, que consistia em um «moitão seguro no teto, onde era suspensa a vítima, com pesos nos pés», por cordas, rolando numa roldana, deixando-a cair o carrasco em brusco arranco sem tocar no chão. 

Mas não é desse triste e macabro instrumento que vos falamos hoje, mas dos tratos de polé que sofre a nossa querida língua pátria todos os dias – não só pelo vulgo, mas também nas rádios e televisões, por pessoas que teriam a obrigação de não dar pontapés na gramática. E o certo é que respeitar a língua é respeitarmo-nos como identidade, como património vivo e como cultura.
Exemplos? O verbo haver está muitas vezes a ser conjugado no plural e não pode ser. Diz-se sempre: Haverá ou há muitas coisas! E não os disparates que aí se ouvem. Já agora, haver escreve-se eternamente com agá - h! O verbo intervir anda confundido com não sei o quê. Diz-se intervim, interveio, interviemos! O plural de acordo não é acórdos – como o de molho (de carne) é molhos e não mólhos, que são de palha e próprios dos asnos. O plural de há de é hão de… Cuidado com as gafes do Gastão, que nem os macaquinhos sábios compreendem… Et cetera, et cetera…
Numa palavra, queridos leitores, cuidado com a língua!

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

COMENDADOR PINTO…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (III) - 3 de agosto de 2017

 

Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) foi no seu tempo e na história da pintura portuguesa uma referência de primeira grandeza. Por isso, era muito procurado para que fizesse os retratos das mais diversas personalidades. E chegaram até nós obras-primas ligadas aos maiores vultos da cultura e da vida nacional.
Enquanto seu irmão Rafael imortalizou no «Album das Glórias» os nossos maiores, Columbano fez retratos naturalistas que ombreiam com os de maior qualidade na pintura europeia.
Naturalmente que tinha critério e muito selecionava os seus eleitos. Se nos lembrarmos da Galeria de Presidentes da República, fácil é de verificar que são de Columbano os retratos mais intensamente marcantes.
Conta-se que havia o pedido especialmente insistente de um tal comendador Pinto, novo-rico endinheirado, brasileiro de torna-viagem, ostentando muitos ouros e sinais exteriores de opulência…
E o certo é que o tal senhor não desistiu de conseguir a resposta positiva do pintor. Um dia o comendador veio a Lisboa e dirigiu-se sem anúncio prévio ao ateliê de Columbano, a S. Francisco, no Chiado.
O artista quando soube da presença do estranho ficou incomodado com a impertinência, mas acedeu a recebê-lo, dizendo ter muito pouco tempo. Entrou o Comendador e Columbano recebeu-o de bata e com os pincéis na mão… Pinto começou a falar da grande admiração e do interesse em ser pintado pelo grande mestre. Mas este atalhou a conversa e perguntou: - Como disse Vossa Excelência que se chamava? – Pinto, comendador Pinto – redarguiu o interlocutor. – Ah! Pinto? … Não pinto!... E o assunto ficou por ali.

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DIÁLOGO NA "BRASILEIRA"…

 

DIÁRIO DE AGOSTO (II) - 2 de agosto de 2017

 

O Chiado está cheio de histórias. José-Augusto França diz que a capital de Portugal é Lisboa e a capital de Lisboa é o Chiado, e tem razão!

Hoje recordamos um episódio invocado por Luís de Oliveira Guimarães… «Uma tarde Gualdino Gomes (1857-1948) entrou na Brasileira e pediu ao criado – o venerável João – chá e bolos. João não tardou com o lanche. – Os bolos estão frescos? – quis saber Gualdino. – Se são frescos! Vieram agora mesmo da pastelaria… Gualdino, encaixando o monóculo: - Isso não prova nada. Também eu vim agora mesmo de casa – e já tenho 78 anos…».
Gualdino era um conhecido jornalista, crítico de teatro, a quem Fialho de Almeida, de «Os Gatos», acusava de não ter obra…
O certo, porém, é que foi durante muitos anos testemunha da boémia e da atividade teatral lisboeta e sobretudo elo entre a gloriosa geração de 1870 e os começos do século XX… Gostava de dizer: «Sou um leitor, não sou um escritor». Fizera a banca de jornalista no «Repórter» ao lado de Oliveira Martins, D. João da Câmara e Teixeira-Gomes…
Sobre «A Brasileira», dizia Raul Brandão: «A um canto, de gabinardo e barba branca, Gualdino prepara a última piada»… Lisboa de outro tempo…

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins