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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ACAUTELEM-SE OS ANÉIS DE SATURNO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXV) - 25 de agosto de 2017

 

A imprensa do século XIX era palco de severas, normalmente violentas, acusações pessoais, que andavam perto da difamação, quando não punham seriamente em causa a dignidade dos alvos do tiroteio político…O pior era ocupar a pasta da Fazenda. Quem fosse apanhado no lugar era certo e sabido que se tornava bombo de festa. O menos que os jornais da oposição diziam era que a vítima teria ido aos cofres do Estado...


Aconteceu que Mariano de Carvalho foi nomeado ministro da Fazenda. Emídio Navarro era um proeminente membro da oposição a esse governo e dirigia o jornal «Novidades», na altura particularmente verrinoso.


Mariano de Carvalho saiu de ministro da Fazenda e foi ocupar o lugar de Diretor do Observatório Astronómico. O Emídio Navarro deu assim a notícia no jornal: “O Senhor Mariano de Carvalho deixou a pasta das Fazenda e foi nomeado diretor do Observatório Astronómico. Lá vai ficar Saturno sem os anéis…”. 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

SHAKESPEARE CENSURADO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXIV) - 24 de agosto de 2017


Ainda há muito pouco, Luís Miguel Cintra recordou o momento em que Sophia de Mello Breyner disse ter terminado a tradução do «Hamlet» de Shakespeare. Foi um momento heroico. Trata-se de uma obra-prima da língua portuguesa. 

 

O mais curioso é que ocorreu em relação a esse texto de 1965 um episódio caricato que dá bem ideia do absurdo que é sempre qualquer ato de censura. 

 

António Alçada Baptista pretendeu publicar um excerto dessa magnífica tradução na revista «O Tempo e o Modo» - mas, como acontecia nesses casos, era necessário enviar as provas do texto à Comissão de Censura. Importa esclarecer que a revista foi das mais martirizadas pela censura, tendo sofrido a proibição de cerca de metade dos textos que, entre 1963 e 1969, foram a exame. 

 

Inesperadamente, o texto de Sophia veio totalmente cortado. António Alçada ficou estupefacto. Não esperava que tal acontecesse relativamente àquele texto clássico. Pegou no telefone e falou ao coronel dos serviços de censura. Eram coronéis reformados que normalmente estavam encarregados dessa tarefa… 

 

Do lado de lá da linha, o censor confirmou o corte total do texto. António, com uma paciência infinda, explicou quem era Shakespeare e que o texto era do século XVII. No entanto, inabalável, o coronel insistiu na decisão. Era assim, não havia volta a dar… Mas não dava razões…

 

Perante a insistência, lá veio a justificação. É que no «Hamlet» há uma personagem de nome Marcelo – e (ainda que Salazar estivesse de saúde) falava-se com insistência na hipótese de Marcelo Caetano poder suceder ao Presidente do Conselho – como aconteceria três anos depois… E o censor estava convencido que havia naquela publicação uma intenção politica qualquer… 

 

Não se conformava, porém, António Alçada – e, palavra puxa palavra, tudo acabou com um corte parcial, não se publicando a fala de Marcelo…

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

MANJARES DE DEUSES E LITERATOS…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXIII) - 23 de agosto de 2017

 

Ao falar-se, cada vez mais, de património cultural imaterial, temos de considerar a gastronomia e a culinária como matérias fundamentais.

E a verdade é que só podemos compreender as tradições e os costumes cuidando dos alimentos, sejam eles mais ricos ou mais pobres, consoante as circunstâncias, os territórios, as culturas e as economias locais.

Da sopa da pedra ao gaspacho encontramos tudo – desde a abundância à penúria, mas sempre a capacidade humana de superar as dificuldades e constrangimentos… E há a gastronomia popular e a culinária erudita… Há manjares de deuses e literatos.

Se lermos uma das obras-primas da cultura portuguesa gastronómica, percebemos isso mesmo. Falo-vos de «O Cozinheiro dos Cozinheiros», publicado por Paulo Plantier em 1870. Aí encontramos as mais extraordinárias receitas, as suas variantes e a sua história.

Hoje, a sua celebridade é maior no Brasil do que em Portugal, mas lá encontramos as nossas maiores glórias literárias e artísticas. E lá estão, por exemplo, as receitas de caça de Bulhão Pato, o grande memorialista, autor de «Paquita», braço direito de Herculano. E percebemos por que razão as «Ameijoas ditas à Bulhão Pato» não são uma receita do escritor.

De facto, foi João da Matta, o célebre cozinheiro do Hotel Central (o Hotel de «Os Maias») que, em homenagem a Bulhão Pato lhe dedicou o renomado manjar – que, aliás, o literato nunca cozinhou…

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A RAZÃO DE SER DE PORTUGAL…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXII) - 22 de agosto de 2017

 

Alexandre Herculano é símbolo do século liberal português. A sua vida foi exemplo de retidão.

 

Quando morreu o seu admirado rei D. Pedro V, na flor da idade, o jovem monarca que tudo prometia, Bulhão Pato disse-nos que o Mestre chorou lágrimas verdadeiras.

 

No seu exílio de Vale de Lobos, em Santarém, tornou-se agricultor modelar, a ponto de o seu azeite ser um dos mais premiados internacionalmente.

 

O azeite Herculano era um néctar de uma pureza fantástica, conseguido com muito trabalho, investigação e com o conhecimento do que melhor se fazia na Europa.

 

Foi fundador da moderna historiografia portuguesa, por fidelidade às fontes autênticas.

 

Um dia, perguntaram-lhe por que razão havia Portugal. O velho sábio respondeu pausadamente. Se fizermos uma lista de razões para existir e para não existir, talvez sejam mais os motivos teóricos para não existir do que para existir...

 

Mas nestes debates, a teoria é menos importante do que a experiência e do que a prática. – O facto é que existimos, há muitos séculos. Razão? – Somos porque queremos. Seremos enquanto quisermos!

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

O INJUSTIÇADO BOCAGE…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXI) - 21 de agosto de 2017

 

Se há poeta português que continua a ser desconhecido e injustiçado, apesar do seu talento, ele é Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805). É quem mais se aproxima de Camões na sua vida e como símbolo de português com a alma pelo mundo repartida.

 

Partiu para a Índia, ficou algum tempo no Rio de Janeiro, fez escala em Moçambique, cursou estudos regulares de oficial de Marinha em Nova Goa e foi colocado em Damão, donde desertou, indo até Macau. Fez, pois, a rota do Império e com justiça comparou-se ao lírico e épico de «Os Lusíadas»

 

     Camões, grande Camões, quão semelhante
     Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
     Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
     Arrostar co’o sacrílego gigante

 

     Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
     Da penúria cruel no horror me veja;
     Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
     Também carpindo estou, saudoso amante.

 

     Ludíbrio, como tu, da sorte dura
     Meu fim demando ao Céu, pela certeza
     De que só terei paz na sepultura.

 

     Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!...
     Se te imito nos transes da Ventura,
     Não te imito nos dons da Natureza

 

Só 40 anos de vida, um apurado sentido poético, uma sólida cultura clássica… Alexandre O’Neill homenageou-o. E hoje devemos lê-lo, em vez de seguir as historietas que por aí andam…

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 21 a 27 de agosto de 2017

 

"Diário de Viagens Fora da Minha Terra" de Eugénio Lisboa (Opera Omnia, 2017) completa os imperdíveis cinco volumes das Memórias do escritor e ensaísta - «Acta est Fabula».

 

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UM LEITOR INCANSÁVEL

Depois de termos seguido a par e passo nas Memórias as deambulações ao longo da vida do escritor, do engenheiro, do diplomata, do ensaísta, do estudioso e do crítico literário, temos direito a uma interessante sobremesa, na qual contamos com a verve e o estilo do leitor incansável, que nos acompanha em encontros e caminhadas por Montevideo, Los Angeles, Peru, Viena, Budapeste, Praga, São Tomé, Havana, Paris e Marrocos. E Antonieta está presente. É como se o escritor nos convidasse para irmos com ele ao encontro de referências culturais e literárias que nos enchem de prazer e curiosidade. As recordações de Eugénio Lisboa têm a extraordinária virtude de ser genuínas e de não embrulhar em papel de presente, com flamantes laços, o que pensa sobre o que vê, lê, conhece e encontra. Daí dizer-nos, a propósito de um obituário sobre Vergílio Ferreira, que a melhor atitude perante um autor que respeitamos é dizer o que se pensa – abrangendo os claros e os escuros, as penumbras e as luminosidades, e nesse sentido elogia a prática britânica, que se revela imbatível em rigor e respeito por quem se pretende recordar. Ao começar por Montevideo, no ano de 1996, tão próximo, parece que se retrata um momento distante, talvez do neolítico, quando, com uma dose especial de ironia, o autor nos fala de pessoas que usavam, por uma questão de estatuto, telemóveis falsos. E conta que nesse tempo em Madrid num lugar público houve um incêndio, vieram os bombeiros, o vestiário ficou intacto e, surpresa das surpresas, nos casacos deixados pelos utentes, metade dos telemóveis eram falsos. Hoje, parece anedota... E lembro o que Umberto Eco afirmou, nessa altura, sobre a utilidade dos telemóveis sobretudo, dizia ele, para intriguistas e doentes crónicos... Onde já vai tudo isso... Em duas décadas, o que avançou o mundo da tecnologia e da informação... Hoje, há mais telemóveis que habitantes nas sociedades de consumo e a dependência desses bicharocos tornou-se endémica. Mas o fait-divers serve para ilustrar um seminário académico, em que Cleonice Berardinelli pontua com charme e interligência. Eugénio gostou do Uruguai – “a gente é acolhedora e simpática e as ruas parecem, por enquanto, seguras. Mas vê-se que é um país recente, a que ainda falta um bom bocado de história. (...) Mas há um ar exterior de riqueza relativamente bem distribuída e parece que a maior fatia da população é constituída pela classe média”. Também gosto do país, que é uma espécie de domínio do “portunhol”, dadas as vicissitudes históricas. E, pensando na Colónia de Sacramento, ainda há muito para fazer para valorizar esse património que tem tudo a ver com a cultura da língua portuguesa.

 

JOSÉ RÉGIO VEM À LEMBRANÇA

Em Los Angeles, José Régio vem à lembrança. A encenação de Lisistrata de Aristófanes é motivo de regozijo. “Fiquei contente. E o Régio também ficaria, se fosse vivo”. Mas sobre os excessos da criatividade interpretativa, lembra-se Yehudi Menuhin no King’s College a dizer que cada intérprete dá sempre a sua interpretação de uma partitura, mas esta só admite uma certa margem de variação... O reparo visa em cheio certas liberdades teóricas que nada têm a ver com o sentido original, para além da margem do bom senso... Entre contratempos burocráticos e contactos inteligentes, na companhia do amigo Boris Katz, um médico cheio de solicitações, o escritor encontra a afirmação de Charles Townes, especialista em Eletrónica Quântica: “Se olharmos para aquilo de que a religião se ocupa, verificamos que ela visa compreender o propósito e o significado do universo. A ciência tenta compreender funções e estruturas. Se existe algum significado, a estrutura terá muito que ver com esse significado. A longo termo, chegarão a convergir”. Mas Eugénio Lisboa fica cético e fala de especulação e de wishful thinking... O mundo do conhecimento está naturalmente cheio de dúvidas e contradições... No Peru, “pobrete e nada alegrete”, vai ao encontro da filha Geninha e família, e depara com o “país vivendo de desassossego em desassossego, até que um dia salta uma erupção qualquer, que um ditador sem escrúpulos, como Fujimori, sufocará, legislando no sentido de dar às forças de repressão imunidades que são uma vergonha”. Sente-se uma situação de incerteza e instabilidade – e na passagem por Caracas (era 2005) ainda não se sentia todo o inferno em que a Venezuela se transformou. Já a peregrinação ao Império Austro-Húngaro – a Viena, Budapeste e Praga – é singular. Apesar das pequenas desilusões culinárias, é Graham Greene, do “Terceiro Homem”, a ser recordado, como símbolo da transição após o fim da catástrofe da Segunda Guerra, que prolongou por trinta anos o inesperado conflito iniciado em Agosto de 1914. Há um fundo musical mozartiano nesta invocação vienense. Os Habsburgos, o Palácio de Belvedere, o principe Eugénio,  e compreende-se que a ponte Francisco José tenha as luzes apagadas, por contraste com a iluminação da ponte Sissi – que é venerada, “farta das peneiras austríacas, veio viver para Budapeste e não quis mais nada com os seus compatriotas, que abominava...”. Depois vem Kafka: “Habita-me a presença de Kafka que, obviamente, não cabia aqui”... Eugénio parece-se fisicamente com Kafka, já o diziam Vergílio e Régio... A inesgotável matéria-prima kafkiana poderia não ter chegado até nós... E a imersão total parisiense lembra que “foi bom ter-te conhecido, em 1953, ter-te visitado, depois, uma dúzia e meia de vezes e ter estado contigo, agora, mais uma – que será, provavelmente, a última. Que milagre ter nascido e que milagre maior ter nascido entre aquele número muito reduzido de pessoas a quem foi dado conhecer cidades e tesouros, como tu, Paris...”. E se a capital francesa é uma referência civizacional, Cuba é o lugar mítico que recorda Fidel e Che a descerem da Sierra Maestra em 1959, para pôr fim à ditadura de Fulgêncio Batista. Depois o regime começou a endurecer, a eternizar-se no poder  e a perseguir e prender os dissidentes. E com que emoção, na viagem a S. Tomé, Eugénio Lisboa fala de Isaura Carvalho, que com João Carlos Silva era a alma da deslumbrante roça de S. João dos Angolares. Deixou-nos há pouco – com uma voz lindíssima e um português que era um modelo de perfeição... As memórias tornam a vida presente...  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS…

O CASO DAS TULIPAS ASTRONÓMICAS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XX) - 20 de agosto de 2017

 

Como foi a primeira grande crise financeira dos tempos modernos?

Oiçamos a história e pasme-se como a humanidade tem memória curta…

 

Em 1593, Carolus Clusius trouxe uns bolbos de túlipa de Constantinopla para Amesterdão, para os aplicar em fins medicinais. Perante a plantação que o botânico fez, os vizinhos, apercebendo-se da raridade e beleza da planta, roubaram diversos bolbos para com eles fazerem negócio… E assim nasceu uma autêntica corrida às túlipas – que, no início do século XVII, se tornaram sinal de estatuto social. Os preços dos bolbos de túlipa subiram e os especuladores perceberam que podiam lucrar com essa moda.

 

Os preços chegaram a valores astronómicos. Num só mês um bolbo passou a valer vinte vezes mais. A certa altura, a venda de um bolbo podia assegurar o sustento da tripulação de um navio durante mais de um mês.

 

Acontece que os bolbos só florescem 7 a 12 meses depois de plantados – e quando a floração acontece dura apenas uma semana na Primavera, aparecendo os bolbos no verão, de junho a setembro. Para obviar a esta dificuldade, os especuladores passaram a vender contratos sobre túlipas. Ao assinar o contrato o comprador assumia a obrigação de comprar uma túlipa no final da temporada – como hoje acontece nos contratos de futuros.

 

Em 1636 as bolsas holandesas negociavam bolbos e tulipas e os lucros eram fabulosos. Com os preços muito inflacionados estava-se perante uma bolha mercantil. Como normalmente acontece nestes casos, há um momento em que se descobre que os valores são absurdos e irreais.

 

No inverno de 1636-37, em Harlém, quando um negociante não honrou o seu contrato gerou-se o pânico e depressa os preços passaram para… um centésimo do que estava a ser praticado. A bolha tinha estourado… A crise das tulipas deu origem a uma depressão económica sem precedente e para evitar a miséria o governo foi obrigado a cobrir pelo menos dez por cento do valor dos contratos…

 

Convém, assim, não esquecer as lições da história. Sem criação de riqueza não pode haver prosperidade - e a ilusão gera a miséria.

 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS…

O CASO DA NÃO CRIAÇÃO DE PORCOS

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XIX) - 19 de agosto de 2017

 

Esta também foi contada, cheia de pormenores, pelo António Alçada, como ilustração do analfabetismo da tecnocracia.

 

Millor Fernandes dizia que «a economia compreende toda a atividade do mundo. Mas nenhuma atividade do mundo compreende a economia». A este propósito recorda-se o célebre caso da não criação de porcos.

 

Abreviando razões, trata-se de um subsídio por cabeça para a não criação de porcos - e do requerimento para o efeito feito ao Ministro. Basta ler a parte final para entender tudo.

 

«Excelência. Estes porcos que não criaremos teriam comido 10 mil sacas de trigo. Ora, assegurando-nos que o governo indemnizará igualmente os agricultores que não cultivem o trigo. Nesta ordem de ideias, poderemos esperar que nos deem qualquer coisa pelas sacas de trigo que não serão cultivadas para os porcos que não criaremos. Ficar-vos-emos extraordinariamente reconhecidos se nos responder o mais rapidamente possível, porquanto julgamos que esta época do ano será a melhor para a não criação de porcos e, por isso, gostaríamos de começar quanto antes. Queira Vossa Excelência, Senhor Ministro, receber os protestos da maior consideração. P.S. – Excelência. Não obstante o exposto poderemos engordar 10 ou 12 porcos para nós, sem que isso venha a perturbar a nossa não-criação de porcos? Queremos assegurar que esses animais não entrarão no mercado e não significam mais do que a maneira de termos um pouco de toucinho e presunto para o inverno».

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MÁ CONSCIÊNCIA...

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Esta também se passou com o António Alçada Baptista. O problema da má consciência é que funciona muitas vezes como motivo de cegueira e de falta de um mínimo de racionalidade.

 

Uma vez na UNESCO, onde António Alçada estava a convite do saudoso Eduardo Portella, que nos deixou há pouco, um suíço, num discurso inflamado, condenou severamente os espanhóis por terem descoberto a América.

 

Felizmente, estava presente um egípcio que pôs os pontos nos ii: «Quando se fala da história dos nossos povos, parece que depois da chegada dos europeus é que tudo ficou muito mal. Ora, não é possível esquecer que, antes da chegada dos europeus, os nossos povos tinham expressões de escravatura e de exploração, tanto mais graves do que aquelas que os europeus trouxeram. Mas há uma coisa que se esquece (referiu o egípcio, com particular ênfase): é que, se os nossos povos viveram um dia a liberdade, isso é devido aos valores da democracia e dos direitos humanos, que foram trabalhados e divulgados pela Europa, que ela levou para lá e constituem hoje a nossa única esperança…».

 

 

 

  

 

     DIÁRIO DE AGOSTO

     por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PESSOAS DE BEM…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XVII) - 17 de agosto de 2017

 

Henrique de Paiva Couceiro (1861-1944) foi um resistente monárquico persistente e por isso respeitado pelos seus adversários. Em outubro de 1910 foi dos únicos que se bateu em defesa de D. Manuel II, ainda que sem sucesso. Muitas vezes foi preso, sofreu o exílio, foi julgado, condenado, mas manteve sempre a mesma coerência. 


Numa das vezes em que foi detido e estava numa das esquadras de Lisboa, Afonso Lopes Vieira, o grande poeta de S. Pedro de Moel, soube do sucedido e decidiu exprimir a sua solidariedade para com o amigo. 


Fez uma pequena mala, onde colocou um pijama, uma muda de roupa, os utensílios fundamentais de higiene e partiu para a esquadra, suponho que da Praça da Alegria. Chegado, dirigiu-se ao piquete: - Venho para ser preso! O guarda não queria acreditar no que ouvia… E perguntou: - Que deseja o senhor! O poeta respondeu: – Quero exatamente o que já ouviu – ser preso! – Mas cometeu algum crime? – Claro que não… Mas não é aqui que está Paiva Couceiro? Pois bem, aqui prendem pessoas de bem, e por isso aqui estou. O guarda ficou sem resposta e Lopes Vieira sentou-se na sala de espera com a maleta a seus pés…

 

 

 

  

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins