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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 De 6 a 12 de fevereiro de 2017.

 

«D. Carlos de Bragança, Naturalista e Oceanógrafo» de Mário Ruivo (Fundação da Casa de Bragança, 1958) é uma pequena obra preciosa, onde se encontram dois grandes oceanógrafos portugueses, o rei D, Carlos, e Mário Ruivo, que há pouco nos deixou – permitindo-nos compreender a importância para Portugal da Costa Marítima e do seu conhecimento.

 

UM ENCONTRO INESQUECÍVEL
Foi há cerca de trinta anos, num pequeno restaurante da Calçada do Combro, com Helena Vaz da Silva e António Alçada Baptista, que foi delineada com Mário Ruivo o que viria a ser uma nova Comissão Nacional da UNESCO. O António disse que o Mário seria indispensável – e, com o extraordinário conhecimento das pessoas que tinha, depressa percebemos que esse era o melhor dos conselhos. E nunca mais deixámos de colaborar nas mais diversas tarefas. Estar com o Mário era, ao mesmo tempo, ouvir as suas histórias de uma larguíssima experiência política e científica, mas também vê-lo de mangas arregaçadas (com o inevitável fato verde seco) a agir e a falar para meio mundo para a defesa da causa do que designávamos como o S da UNESCO, ou seja, a ciência. E quem diz a ciência, não pode esquecer o ambiente, os direitos humanos e a intervenção política. Desde o MUD Juvenil, o Mário Ruivo foi um militante aberto a todas as causas. Foi assim até nos deixar – sempre com o seu entusiasmo jovial. O biólogo nunca deixava de pensar, de propor, de agitar, de conspirar. Mas havia sempre um ponto em que não transigia – um enraizado patriotismo universalista. E essa qualidade vimo-la exercer ao lado Federico Mayor, o mais influente dos últimos diretores-gerais da UNESCO, sendo o Mário a verdadeira alma da Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI). E o seu amigo catalão foi sempre um aliado. Impressionante era a capacidade de articular peças diferentes e personagens aparentemente distantes e heterogéneas. Quando em 1998 foi definido o Ano Internacional dos Oceanos, celebrando cinco séculos da chegada de Vasco da Gama á Índia, foi ele que mexeu os cordelinhos desde o início – apesar de mil resistências e desconfianças. Foi o seu prestígio que funcionou, aliado a muitos outros contributos. E houve a Conferência Internacional de Oceanografia no CCB, a Expo-98 com o tema dos Oceanos e, depois, a Comissão Mundial Independente para os Oceanos, presidida por Mário Soares – e animada pelo incansável labor do oceanógrafo, de que resultou o relatório Oceano: Nosso Futuro. No entanto, sendo o Mário Ruivo um homem de equipas, fazia sempre questão de dar o seu a seu dono. Um êxito nunca é de uma pessoa só. A verdade é que ele era o elo de ligação, capaz de fazer desencadear os movimentos tectónicos, que amiúde referia, e que punham as forças em movimento. As suas metáforas de cientista e biólogo estavam sempre presentes.

 

CAIS, SAUDADE DE PEDRA
Quando nos fomos despedir dele na Gare Marítima de Alcântara, na partida para um grande viagem marítima, na presença dos painéis de Almada Negreiros, com a memória da Nau Catrineta e ouvindo o João de Ávila a dizer a «Ode Marítima», todos nos lembrámos do que estava a dizer-nos naquela circunstância: «Estou a flutuar»… A paixão do Mar era poderosa e inesquecível. “Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! / E quando o navio larga do cais / E se repara de repente que se abriu um espaço / Entre o cais e o navio, / Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente…”. Com que prazer viu chegado a bom porto o seu tão ansiado Do Mar Oceano ao Mar Português (edição CTT, 2015). Sob a sua criteriosa coordenação temos aí o mais completo repositório sobre os desafios do Mar, para um país médio, com responsabilidades de grande potência. E não poderemos deixar de ter presentes esses desafios, que Mário Ruivo profeticamente assumiu: “Portugal está confrontado com a expansão do território sob soberania nacional na plataforma continental para quase 4 milhões de quilómetros quadrados. O alargamento da plataforma continental é uma fonte de oportunidades para um desenvolvimento sustentável (económico, social, cultural e institucional) apoiado nos setores que utilizam os recursos do mar português, implicando ações concertadas face a um bem comum, que, pela sua natureza, cria ao Estado português uma responsabilidade acrescida no conhecimento e na gestão sustentável”.

Os valores e princípios que o animaram, ao longo da vida, foram sempre claros. A liberdade como fundamento da democracia. A solidariedade como sequência do cuidado pelos outros. O rigor como marca da sua paixão pela ciência. A curiosidade como aguilhão da capacidade criadora. O respeito como demonstração de tolerância. A generosidade como sinal de entrega. A amizade como apanágio da sua personalidade. A biografia fala por si. Quando esteve em Roma na FAO, foi um auxílio precioso nos contactos com as forças políticas que apoiavam a causa da democracia em Portugal. E falamos de todos os partidos, a começar na Democracia Cristã – a ponto de ter sido ele o elo que permitiu a António Alçada Baptista abrir as portas internacionais, depois de 1974, a Adelino Amaro da Costa. Também foi em sua casa que Mário Soares terminou o Portugal Amordaçado. Depois da Revolução, foi Secretário de Estado das Pescas e Ministro dos Negócios Estrangeiros nos governos provisórios, foi chefe da delegação portuguesa nas negociações para a Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar (a chamada Lei do Mar das Nações Unidas). Com José Mariano Gago, então presidente da JNICT, no final dos anos oitenta, foi um dos animadores das Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, onde as ciências do mar tiveram significativa relevância, estando Mário Ruivo ao lado de Luiz Saldanha. E quando José Mariano já estava no Governo não podemos esquecer o Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias do Mar. Mário Ruivo esteve sempre na linha da frente. Em 2000 foi fundador do EuroOcean, centro europeu da informação em ciências do mar. a que presidiu – além de ter sido um dos artífices da candidatura de Lisboa para sede da Agência Europeia para a Segurança Marítima, criada em 2002. Presidia ao Forum Permanente para os Assuntos do Mar e ao Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

 

UM NOVO UNIVERSALISMO
Perante tão impressionante percurso da nossa maior referência internacional nos assuntos do Mar, o grande desafio que se nos coloca é o de tornar vivo este desígnio. Como disse Mário Soares: “Precisamos de forjar uma relação, uma nova relação ético-política entre a humanidade e os oceanos, uma relação com uma base política e jurídica que crie uma atmosfera de partilha e solidariedade e que proporcione um novo universalismo centrado no conhecimento dos oceanos”. Como ensinou Mário Ruivo, não basta falar do mar ou fazer propostas bem-intencionadas. Há, sim, que mobilizar vontades internacionais – criar parecerias e formas eficazes de cooperação. Não esquecemos o que disse sobre as campanhas oceanográficas do rei D. Carlos, que “permitiram a um certo número de jovens biologistas portugueses contactar diretamente com a grande escola do mar e da vida a bordo. Vida que não se coaduna com egoísmos e vaidades; a vida que exige atitudes francas, forja a amizade, a camaradagem, o espírito de sacrifício, o entusiasmo, bases fundamentais de todo o trabalho em equipa”.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2017.

 

A referência nas últimas semanas a diversos aspetos da história do Centro Nacional de Cultura, levou diversos associados e amigos a pedirem mais informações sobre o papel dos católicos na transição democrática. O texto que se segue vai nesse sentido – devendo recordar-se dois livros editados sob os auspícios do CNC, «A Aventura da Moraes» e «Liberdade da Cultura – Preparar o 25 de Abril». Quem não tenha estas obras, pode solicitá-las (www.info@cnc.pt).

 

CATÓLICOS E A DEMOCRACIA
Os prolegómenos do 25 de abril de 1974 para a Igreja Católica têm um ponto importante na nota da Conferência Episcopal de 17 de dezembro de 1971, ecoando a reunião do Sínodo dos Bispos, em Roma, sobre a justiça no mundo. Os bispos portugueses não se limitaram a dizer generalidades, foram às questões concretas: «o contacto mais vivo com a problemática da justiça no mundo, proporcionado pela consideração do segundo tema do Sínodo, foi ocasião de nova sensibilização dos Bispos da Metrópole às responsabilidades que, de forma diversa, lhes cabem e aos outros membros do Povo de Deus na construção dum mundo mais justo. Na sua reflexão mostraram-se especialmente sensíveis às situações de injustiça, subdesenvolvimento e violência que o Sínodo examinou em âmbito universal e que também atingem a terra em que vivemos». Nesse sentido, para assegurar uma ação orgânica e permanente, criaram a “Comissão Nacional Justiça e Paz”, destinada a estudar problemas da justiça, do desenvolvimento e da paz, e sensibilizar o povo de Deus, e em geral a sociedade portuguesa, às suas responsabilidades nestes domínios». Aludindo às situações de injustiça, subdesenvolvimento e violência, no âmbito mundial, os bispos portugueses acrescentavam que tais situações «também atingem a terra em que vivemos». Daí a ligação constante às indicações de Roma, quer do Concílio Vaticano II (1962-1965), quer do referido Sínodo dos Bispos (1971). O primeiro devia refletir-se numa Ação Católica mais política e até sindical; o segundo requeria atenção aos problemas da justiça e da paz. O Sínodo foi o motivo que originou a Carta Pastoral de 4 de maio de 1973, cerca de um ano antes de 25 de abril, redigida basicamente por D. António Ribeiro e subscrita pelo conjunto do Episcopado. Importava, porém, recordar que o Papa João XXIII publicara dez anos antes a encíclica «Pacem in Terris«, que teve tanta relevância para a temática da democracia e do incremento dos direitos humanos. O Episcopado aproveitou, assim, a oportunidade, apresentando o quadro geral do que era preciso melhorar ou corrigir entre nós, na vida concreta. «Ao olhar para o mundo contemporâneo (afirma do documento), no qual a Igreja se encontra e age, não pode ela permanecer indiferente perante múltiplas situações de injustiça que impedem o correto desenvolvimento dos homens, tais como: a condição infra-humana em que tantos vivem, diminuídos por graves carências alimentares, habitacionais, sanitárias, de emprego, educacionais e culturais; a existência de limitações, não raro injustificadas, ao pleno exercício dos direitos e garantias fundamentais das pessoas e dos grupos; o agravamento de numerosas formas de alienação, de medo e de mentira; a expansão de uma economia que não está ao serviço de todos e cujo móbil primário é o lucro; a difusão de motivações que induzem a satisfazer necessidades não verdadeiramente sentidas nem conducentes à genuína realização humana; a oferta e aceitação de condições de trabalho despersonalizantes, nas quais o homem é equiparado à máquina, com prejuízo da sua capacidade criadora; a implantação de estruturas urbanas em que faltam condições dignas de alojamento, de acesso aos locais de trabalho e aos equipamentos coletivos; o alastramento de formas de marginalidade, algumas criminosas e imorais; e a crescente insatisfação da juventude que não encontra padrões de vida ajustados às suas reais necessidades. […] Não tem a Igreja, enquanto comunidade religiosa e hierarquicamente organizada, competência para oferecer soluções concretas aos problemas que hoje se põem no domínio económico, social, cultural e político. Mas “os membros da Igreja, enquanto membros da sociedade civil, têm o direito e o dever de procurar o bem comum, com os demais cidadãos” (Sínodo, 1971)». Dir-se-ia que estamos perante um elenco exaustivo sobre o Estado social: necessidades básicas não satisfeitas, exigências na habitação, saúde, educação e cultura; limitações injustificadas ao exercício de direitos de pessoas e grupos, naturalmente políticos; economia meramente lucrativa, sem atender à realização das pessoas e às condições do trabalho; urbanização deficiente e desintegrada; insatisfação juvenil diante dum futuro comprometido…

 

A INFLUÊNCIA DE EMMANUEL MOUNIER
Importa, contudo, ir atrás e referir na sociedade civil o papel desempenhado por António Alçada Baptista, que lançou, em 1958, o projeto renovador da Moraes. Tratou-se de criar um movimento de opinião centrado em leigos católicos (com apoio de clérigos) capaz de seguir e concretizar o programa de Emmanuel Mounier de unir católicos e não católicos no combate contra a «desordem estabelecida», que o mesmo seria dizer, romper com a cumplicidade da Igreja Católica em relação ao regime de Salazar. Assim, ao contrário do que muitas vezes se pretende, a ideia fundamental de António Alçada Baptista não tem a ver com a criação de um Partido Democrata-Cristão. Para o desmentir, basta ler-se atentamente os textos publicados nas coleções «O Tempo e o Modo» e «Círculo do Humanismo Cristão». E percebe-se que está em causa algo de muito diferente. O que AAB desejava era encontrar uma convergência de movimentos e opiniões que permitisse uma transição pacífica de contornos abertos e cosmopolitas, segundo a lógica das democracias ocidentais. A ligação ao Congresso para a Liberdade da Cultura (e o forte papel desempenhado por Pierre Emmanuel) é um sinal dessa orientação. Trata-se de tornar ativo, em Portugal, um grupo de intelectuais sem vocação partidária. Do mesmo modo, a ideia, não concretizada de «O Pacto», influenciada pela comunidade de Mounier em Châtenay-Malabry, nada tem a ver com um movimento político. É certo que, aquando da fundação de «O Tempo e o Modo», Mário Soares, Salgado Zenha e Jorge Sampaio participam. E Mário Soares pretendia que AAB fosse a personalidade aglutinadora de uma corrente política democrata-cristã – no entanto esse entendimento deparava com a posição contrária do próprio António Alçada Baptista e da maioria dos seus companheiros (para quem não deveria haver uma política cristã, mas cristãos livres, sem movimentos confessionais, na política). Recorde-se o poema de Ruy Belo: «Nós os vencidos do catolicismo / que não sabemos já donde a luz mana / haurimos o perdido misticismo / nos acordes dos carmina burana // Nós que perdemos a luta da fé / não é que no mais fundo não creiamos / mas não lutamos já firmes e a pé / nem nada impomos do que duvidamos». Sentimos, com muita nitidez, um drama evidente, que tem a ver com a claustrofobia sentida numa sociedade que, sem pluralismo, tendia a separar as opções entre o nosso e o contra nós. Aliás, é a mistura entre o ambiente político dos dias finais da autocracia com a crise da Igreja pós-conciliar que torna especialmente dramática a situação portuguesa. Afinal, como afirma o Padre Manuel Antunes, não estamos perante uma questão puramente portuguesa, apesar de ganhar aqui (como em Espanha) contornos especiais em razão dos constrangimentos políticos existentes. Lembramo-nos da fotografia do Engº Francisco Lino Neto, com a cabeça ensanguentada, depois de ser atingido pela polícia de choque na manifestação de apoio ao General Delgado, mas também nos doloridos poemas de Ruy Belo da fase final. E o poeta dirá, profeticamente: «a história do catolicismo português atual, a fazer um dia, não pode deixar de ser uma história dolorosa». Aliás, a afirmação «não é que no mais fundo não creiamos» revela um carácter de escolha decisiva, que leva o poeta, bem como o Padre José Felicidade Alves, de modo diferente, a uma demarcação de posições. Nada poderia continuar na mesma. A conciliação confundia-se com traição, e isso era impensável. «Nesta vida é que nós acreditamos / e no homem que dizem que criaste / se temos o que temos o jogamos / “Meu deus meu deus porque me abandonaste?”». Sente-se a dúvida e a revolta… Como afirma Sérgio Campos Matos: «A modernidade passava também por uma espiritualidade renovada, liberta de dogmas e constrangimentos, aberta aos problemas humanos concretos, ao pulsar da vida, às culturas de protesto que a juventude dos anos 60 ia difundindo numa sociedade bloqueada. Compreende-se que, por essa época, a ‘crise da Igreja’ e até mesmo a ‘crise da civilização’ (P. Manuel Antunes) fizessem parte do léxico dos católicos que ousavam adotar um pensamento crítico». Se João Miguel de Almeida em “A Oposição Católica ao Estado Novo” nos faz uma descrição histórica passo a passo desse tempo, Jorge Revez, em «Os “Vencidos do Catolicismo” – Militâncias e Atitudes Críticas (1958-1974)», analisa o drama, centrado em dois caminhos individuais e na sua inserção na história portuguesa. Daí a interrogação sobre o «vencidismo», mesmo entendendo-se que não há uma geração com coerência intrínseca, nem um projeto marcado.

 

TEMPO DE «AGGIORNAMENTO»
É o tempo do «aggiornamento» e do Concílio Vaticano II, onde intervêm D. António Ferreira Gomes e D. Sebastião Soares de Resende. Em 1959, diversos católicos tinham participado na tentativa de golpe da Sé. E recordem-se, ainda, o documento de Francisco Lino Neto «Considerações dum Católico sobre o Período Eleitoral» (Junho de 1958), os abaixo-assinados de 1959 e o «manifesto dos 101» (de Outubro de 1965). Trata-se de textos sobre a necessidade da democratização, sobre a polícia política e sobre a autodeterminação dos povos de África. No último caso, Nuno Bragança empenhou-se pessoalmente em assegurar que o Cardeal Cerejeira recebesse no Vaticano, onde se encontrava, um pedido para não desautorizar os católicos signatários desse documento que punha o dedo na ferida dos temas do pluralismo e do futuro de África. De facto, o Prelado recebeu o empenho e não pôs em causa os católicos signatários, o que os deixou satisfeitos, indo António Alçada Baptista ao Aeroporto da Portela para receber o Cardeal em sinal de reconhecimento. A ida do Papa Paulo VI ao Congresso Eucarístico de Bombaim (1964) gerou forte polémica. Em 1965, o fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores levaria o Centro Nacional de Cultura, sob a presidência de Sophia de Mello Breyner, a acolher os autores espoliados da sua associação. Nascia ainda o «Direito à Informação» (com Maria Natália e Nuno Teotónio Pereira, António Jorge Martins e Frei Bento Domingues), e são os cristãos a colocar com maior ênfase a questão colonial e a autodeterminação… «Tenho uma dor chamada Portugal / país defunto talvez unto para nações vivas / Portugal meu país de desistentes / terra mordida por soares dos reis / por antero camilo ou trindade coelho / Suicidou-se nestes homens o país / um país de província Portugal…». Assim se exprime ainda Ruy Belo. É uma reflexão do português e do cristão. E António Alçada sublinha a contradição dramática: «Falou-se então na morte de Deus. Na verdade, era necessário que esse Deus morresse porque estava a tomar o lugar de um outro que se confundia com o mistério da nossa liberdade que é também a consciência de enfrentar um mistério que é a essência do novo Deus que se anunciava»… Jorge Revez diz: «o vencidismo desses católicos foi, provavelmente, o resultado ou a expressão de um processo de deslocação cuja movimentação principal seria a da secularização, em que, inconformados com a estrutura religiosa de que faziam parte e face às novas dimensões da experiência humana com as quais vinham contactando, optaram pela rutura». Quando Sophia de Mello Breyner Andresen disse na vigília da Paz de 1969 «vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar», é o alerta em nome da liberdade que se ouve. Estamos perante a recusa do fatalismo. O «rompimento é também, em última análise, uma busca de autenticidade na vivência de uma fé que muitas vezes não se esvaziou por completo, apesar do anterior denominador comum, a igreja, nos finais dos anos 60, ter perdido a sua capacidade mobilizadora e envolvente no quadro da experiência religiosa».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de janeiro de 2017.

 

A longa entrevista realizada por Maria João Avillez, intitulada «Soares» (1996-1997) e publicada em três volumes - «Ditadura e Revolução», «Democracia» e «O Presidente» - constitui um importante percurso, esclarecido a par e passo pelo seu protagonista. É uma obra fundamental, reveladora dos mais ínfimos pormenores de um percurso riquíssimo, sem o qual não é possível compreender Portugal hoje. A releitura dessa obra é assim obrigatória para quem queira conhecer e compreender o homem e a sua ação.


MEMÓRIA RICA E MULTIFACETADA
É difícil ser completo na invocação da memória de Mário Soares. Falta ainda muito para dizer relativamente a quem deu o melhor de si à causa da liberdade e da democracia. Como político de corpo inteiro foi ao longo da vida alguém que soube assumir a qualidade de cidadão ativo, sempre disponível para assumir o risco de dizer o que pensava, de modo a contribuir para o bem comum no pensamento e na ação. Sendo a democracia o modo de assumir construtivamente a imperfeição – com respeito dos direitos humanos, do pluralismo e da limitação mútua de poderes – Mário Soares impôs-se como o cidadão comum que sabia tirar lições dos erros que, como qualquer um, poderia cometer. Apresentava-se, pois, como cidadão disponível para partilhar as dificuldades e as dúvidas, sempre empenhado em pôr a responsabilidade em primeiro lugar e em correr riscos com coragem, para defender os valores democráticos em que acreditava. Foi, desse modo, no seu tempo, um dos grandes políticos europeus, com um papel fundamental na consolidação da democracia portuguesa e na afirmação do projeto europeu de paz e de desenvolvimento. Profundo conhecedor da história portuguesa, filho de uma personalidade marcante da I República e do mundo pedagógico, pôde, antes da Revolução democrática de 25 de abril de 1974, preparar o terreno para uma «República moderna» onde todos pudessem ter lugar, para além das oposições tradicionais. Quando, ao lado de Salgado Zenha, Jorge Sampaio, graças à iniciativa de António Alçada Baptista, participou na criação de «O Tempo e o Modo», estava em causa a prefiguração de um regime aberto, de liberdade e pluralismo – capaz de mobilizar todos. Foi nesse momento que esteve profundamente ligado ao Centro Nacional de Cultura. Prevenindo os erros da Primeira República, em especial no tocante às questões religiosa e social, preservando a matriz democrática, Mário Soares congregou os republicanos históricos, o Diretório democrato-social de António Sérgio, os jovens dos movimentos estudantis, os católicos inconformistas, os defensores do socialismo democrático e da social-democracia (na linha de Willy Brandt, Helmut Schmidt, Mendès-France e Olof Palme), os marxistas não-dogmáticos - compreendendo os movimentos de emancipação das jovens nações de língua portuguesa. Assim pôde lançar as bases de um compromisso heterogéneo e amplo, baseado no respeito mútuo e na consolidação de uma cidadania ativa e de uma democracia inclusiva. Maria de Jesus Barroso teve, aliás, um papel fundamental nesse caminho – como resistente serena, determinada e inteligente, capaz de ser um porto de abrigo e de suscitar caminhos novos. Simbolicamente a amizade do casal Soares com Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares foi um excelente exemplo desse espírito autenticamente democrático, de diferença e complementaridade.

 

DEFESA INTRANSIGENTE DA LIBERDADE
O meu querido e saudoso António Alçada Baptista tantas vezes me disse que era a defesa intransigente da liberdade que mais admirava em Mário Soares. E sabia que este tinha a coragem necessária para tirar todas as consequências desse combate fundamental. Posso dizer, por isso, com o conhecimento de causa, pelo longo período de convívio e de trabalho em comum que tivemos, que a liberdade e a cultura foram as duas marcas indeléveis da ação do antigo Presidente da República. Sophia de Mello Breyner na Assembleia Constituinte definiu lapidarmente essa marca inesquecível: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura” (2.9.1975). Entende-se, assim, que a autora de “Mar Novo” tivesse a maior confiança política e pessoal no seu amigo Mário Soares. Afinal, a democracia – e esse é o grande desafio do presente – precisa de estar apta a responder aos anseios dos cidadãos, como sistema sempre incompleto, mas suscetível de se aperfeiçoar permanentemente. Não há democracia sem partidos, não há liberdade sem o voto livre dos cidadãos, mas é preciso ir ao encontro da legitimidade do exercício, garantir o cumprimento das responsabilidades – ou seja, prestar contas dos compromissos assumidos, garantir uma permanente avaliação do serviço público e assegurar uma ligação efetiva entre o Estado e a sociedade, o Governo e os cidadãos. Se hoje há uma crise nas sociedades democráticas, que suscita a emergência dos populismos, tal deve-se ao défice de orientação política e à tentação de governar para contentar no imediato a sociedade, como se os cidadãos fossem clientes e a governação um mero fornecedor de benefícios de curto prazo. Na questão europeia ou na intransigência quanto à democracia pluralista (contra as tentações vanguardistas), prevaleceu a determinação política da participação de Portugal num espaço de desenvolvimento e de modernidade e da criação de defesas contra o autoritarismo.

   

EUROPA, DEMOCRACIA, LIBERDADE E CULTURA
Quando Mário Soares levantou a bandeira «Europa Connosco», entendeu que a democracia obrigaria a termos uma voz respeitada internacionalmente. José Medeiros Ferreira compreendeu-o muito bem. Só seríamos ouvidos no mundo, se tivéssemos lugar e relevância entre os países mais desenvolvidos. No entanto, o projeto europeu sofreu nos últimos anos um nítido enfraquecimento. Em lugar do cosmopolitismo e da abertura, temos fechamento e idolatria. Isso preocupava profundamente o antigo Presidente, que reclamava uma União mais política e a necessidade de mais justiça bem como de coesão social e económica. Ao invés da tendência que se vem impondo, torna-se necessário haver um maior orçamento europeu, capaz de aumentar o crescimento, o investimento reprodutivo e o emprego. Com desgosto, via, no entanto, prevalecerem os egoísmos nacionais e uma lógica do salve-se quem puder – em lugar da solidariedade. O ideal europeu de paz e desenvolvimento desvaneceu-se… Daí a concordância com os alertas de Bento XVI contra as economias de casino, e com a posição do Papa Francisco contra as desigualdades, as injustiças e o mercado que mata. Infelizmente, os últimos acontecimentos só agravaram as perspetivas futuras, confirmando os alertas oportunamente lançados. “Só é vencido quem desiste de lutar”. Em diversas circunstâncias na sua vida política Mário Soares demonstrou como o lema tem de ser compreendido e vivido. Na resistência democrática, na implantação da democracia, na luta contra todas as ameaças à liberdade, na afirmação da Economia Social, na crítica ao mercantilismo – houve altos e baixos, vitórias e derrotas, no entanto o legado fundamental é o do constitucionalismo da Res Publica, que tem de continuar a ser aprofundado. O primado da Liberdade e da Cultura significa, no fundo, que a cidadania se deve preservar através da autonomia, da responsabilidade, da inovação e da criatividade. Educação, Ciência e Cultura são cada vez mais cruciais. São essas as marcas verdadeiras do patriotismo prospetivo…  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS


   De 16 a 22 de janeiro de 2017

 

«Confiança e Medo na Cidade» de Zygmunt Bauman (Relógio d’Água, 2006) reúne um conjunto de conferências do sociólogo polaco recentemente falecido em Leeds (Inglaterra), onde se colocam os problemas mais prementes das sociedades contemporâneas, em especial no tocante à fragmentação social e à resistência às diferenças.

 

UM PENSADOR CRÍTICO
Nascido em Poznan em 1925 Bauman foi profundamente marcado pela história europeia do século XX. Quando a Polónia foi invadida pelas tropas nazis fugiu com a família, de origem judaica, para a União Soviética. Alistou-se na divisão polaca do Exército Vermelho, sendo condecorado em 1945. Depois da guerra regressou a Varsóvia, onde se casou com a futura escritora Janina Lewinson, sobrevivente do ghetto de Varsóvia, falecida em 2009. Militou no Partido Comunista e estudou profundamente a obra de Karl Marx, numa perspetiva aberta e crítica. A sua obra caracteriza-se, porém, pelo ecletismo e pela recusa de qualquer ortodoxia. O antissemitismo manifestado nas perseguições de 1968 por ocasião dos protestos de estudantes e intelectuais levaram-no a abandonar a Polónia, partindo para Telavive, onde viveu até 1972, momento em que partiu para Inglaterra, para exercer funções docentes na Universidade de Leeds. A guerra, as purgas e o exílio influenciaram a sua vida e o seu pensamento inconformista e heterodoxo. Foi o conceito de «modernidade líquida» que o celebrizou, do mesmo modo que em 1989 o seu «Modernity and Holocaust» teve uma grande divulgação. Aí considerou que o programa de extermínio levado a cabo pelo regime nazi foi um acontecimento ligado à modernidade, vista nas suas dimensões técnico-científica e político-ideológica. Para o sociólogo polaco, vivemos uma época que se caracteriza pela fluidez, pela precariedade, pela transitoriedade, pelo imediatismo e por aquilo que não se deixa apreender. A essa realidade chamou «sociedade líquida». Desde o domínio económico ao plano afetivo, vivemos essa tendência para a liquidez – de certo modo como Gianni Vattimo fala do “pensamento débil”. Como afirmou Fernando Vallespin há pouco: trata-se de uma «organização social em que nada permanece, em que tudo é fugaz, incompleto, indefinido, onde, com efeito, tudo o que é sólido se desvanece no ar» (El Pais, 10.1.2017). Daí uma séria preocupação com a perda da dimensão ética pública. Falta um sentido de missão coletiva, que esteve associado à modernidade. O poder deixou a esfera política e fugiu do controlo democrático. Os direitos económicos escaparam ao Estado Social. Os direitos políticos foram dominados pela teologia do mercado. Os direitos sociais foram enfraquecidos e reduzidos pelo individualismo fragmentário. Os cidadãos viram-se desprotegidos num mundo que não dá segurança, sofrendo a precariedade, que cria um novo proletariado, ainda que sem consciência de classe.

 

UM MUNDO INSEGURO
«O mal já não reside só nas guerras ou nas ideologias totalitárias (recorda ainda Vallespin), assenta também na indiferença ante o sofrimento dos demais, como na questão dos refugiados, ou nas “orgias verbais de ódio anónimo (…)” que encontramos na internet.» Bauman preocupou-se, por isso, com o consumismo, a imigração, a globalização e o fim das ideologias. É certo que na comunidade dos sociólogos muitos viram-no com desconfiança, no entanto compreendeu como poucos o que se estava a passar nas sociedades ocidentais, com os indignados em Espanha, o “Occupy Wall Street” em Nova Iorque e com os movimentos antiglobalização… Mas se se interessou pelas experiências, também criticou as suas debilidades e incongruências – dizendo que era mais fácil reunir um protesto do que construir propostas concretas. Contudo, se havia mal-estar importava dar-lhe resposta. O tempo confirmaria, aliás, essas preocupações – em especial perante o Brexit e a eleição de Donald Trump. Daí a crítica ao «ativismo de sofá», de quem julga possível mudar o mundo com um estalar de dedos ou das redes sociais, já que não se estabelece um verdadeiro diálogo entre pessoas e grupos de diferentes, limitando-se a funcionar em circuito fechado. Se alguns o consideraram pós-moderno, Bauman recusou o epíteto, porque falta perspetiva histórica para considerar terminada a modernidade. E apesar de analisar a pós-modernidade, dizia não se integrar nessa corrente, acrescentando, com o seu humor fino: afinal, um ornitólogo não precisa de ser um pássaro… Quanto muito vivemos uma versão privatizada da modernidade, «o fim da era do compromisso mútuo», segundo a lógica privada do interesse de cada um. Daí a crise da democracia, que deixou de pensar como se fazia na Ágora grega – onde se discutiam os interesses privados transformando-os em assuntos públicos, criando, a partir do interesse público, direitos e obrigações individuais. O símbolo da sociedade contemporânea deixou, assim, de ser o lar ou a casa (ethos e oikos) para se tornar o hotel, passageiro e incaracterístico. E a crise dos refugiados obriga, no fundo, à compreensão da ansiedade existente, contra a vergonha das valas e dos muros. Estava em causa a preocupação fundamental de Bauman – com a recusa do outro e com o medo relativamente ao diferente.

 

SOB O SIGNO DO MEDO
Em «Confiança e Medo na Cidade», Z. Bauman lembra que os medos modernos tiveram origem na redução do controlo do poder político sobre o poder económico, em especial com a desregulamentação dos mercados e a dissolução da solidariedade. Assim, a exclusão deixa de ser remediável, para aparecer como definitiva. E há uma polarização que leva os cidadãos da primeira fila a serem privilegiados e a reforçarem a sua importância e os que estão na outra ponta do espetro a perderem capacidade de agir e de satisfazerem as suas necessidades económicas. Os primeiros não estão ligados ao lugar onde moram, enquanto os segundos estão fora dos circuitos relevantes e condenados a permanecer no mesmo lugar. «Os poderes reais que criam as condições nas quais todos nós atuamos flutuam no espaço global, enquanto as instituições políticas permanecem de certo modo em terra, são locais». E as pessoas desarmadas perante a lógica global tendem a fechar-se sobre si mesmas – tornando-se as cidades espelho das contradições da globalização. Ghettos de ricos coexistem com ghettos de pobres, sem que haja fatores que os façam comunicar. Assim nasce o sentimento de medo do desconhecido ou do estrangeiro. A necessidade de segurança influencia a organização dos espaços e as construções – impondo uma lógica fundada na vigilância e na distância. O medo e a recusa do outro geram o medo de misturar-se (mixofobia) – mas há um desafio exigente para favorecer a mixofilia,. E Bauman é claro ao dizer-nos que «a fusão que uma compreensão recíproca exige só poderá resultar de uma experiência compartilhada e certamente não se pode pensar em compartilhar uma experiência sem partilhar um espaço». Eis por que razão o grande desafio das sociedades contemporâneas seja recuperar a dimensão comunitária do espaço público, como modo de aprender a arte de uma coexistência segura, pacífica e amigável.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de janeiro de 2017.

 

O filme «Silêncio» de Martin Scorcese é baseado no enredo concebido por Shusaku Endo (1923-1996) sobre a memória da presença portuguesa e cristã no Japão. O livro foi publicado entre nós pela D. Quixote, com tradução de José David Antunes, e a sua temática insere-se na nossa riquíssima relação com o país do Sol Nascente.

 

CONHECIMENTO MÚTUO
Diz-me a experiência que os nipónicos conhecem melhor Portugal do que nós a eles. Não falo só dos muitos vocábulos portugueses usados no quotidiano (butan, kappa, koppu, pan ou tempura) ou do célebre pão-de-ló (kasutera, palavra que vem das claras em castelo), mas sobretudo de uma empatia muito especial, devida ao facto de os portugueses terem sido os primeiros ocidentais a chegarem a este distante arquipélago, habitado por guerreiros, mercadores e pescadores, abertos ao mundo. A arte Namban é um resultado deste encontro, provindo a designação do modo como os japoneses nos conheciam – Namban-jin significa bárbaros do sul… Por toda a parte no Japão, encontramos memórias do encontro com os portugueses – e Venceslau de Morais ou, nos nossos dias, José de Guimarães bem compreenderam esta riquíssima relação. De facto, há uma curiosa relação biunívoca entre os nossos povos. Shusaku Endo foi um grande admirador dos portugueses e amigo do Embaixador Martins Janeira. Nasceu em Tóquio, viveu a infância na Manchúria, tendo-se tornado católico aos doze anos, por influência da mãe, com quem viveu, depois desta se separar do pai, em Kobe. Licenciou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Keio, tendo estudado na Europa, em Lyon. A sua obra é marcada pela pertença a uma religião minoritária e pela vivência de intensos e dramáticos dilemas morais e religiosos. Endo é muitas vezes comparado a Graham Greene, que tinha uma grande admiração pela obra do romancista. E Silêncio é considerado o seu livro de maior originalidade e intensidade e o mais significativo, tendo sido distinguido com o prestigioso Prémio Tanizaki (1966). Não esqueço o encontro em Quioto com os Padres Adelino Ascenso e José Tolentino Mendonça, para falarmos de Silêncio. O tema crucial era o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, parecia dizer: “Podes pisar-me!”. Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. Para o Padre Ascenso, a distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. E António Alçada gostava de recordar a passagem da Peregrinação, em que Mestre Belchior e o rei do Bongo falavam da conversão deste último – em que ele dizia ser desnecessário qualquer gesto, já que Deus o sabia…

 

INTERPRETAÇÃO SOBRE A VIDA
O filme de Scorcese procura uma interpretação sobre a vida de um missionário no Japão no século XVII, em especial durante a dura perseguição, que durou quase um século. O caso que serve de base ao livro de Endo tem a ver com a apostasia do Padre Cristóvão Ferreira em 1633 – caso inédito até então. Perante as perseguições, houve necessidade de resistir. Daí que os jesuítas tenham assumido a exigência de algum tipo de acomodação cultural, como no caso dos ritos. No livro, tudo começa por um dado dramático: “A notícia chegou à Igreja de Roma. Enviado ao Japão pela Companhia de Jesus, Cristóvão Ferreira, submetido à tortura da fossa em Nagasáqui, apostatara. Missionário experiente, credor da maior estima, Ferreira já vivia no Japão há trinta e três anos. Ocupava o cargo de superior provincial e era tido como um exemplo inspirador tanto de clérigos como de leigos”… As cartas que, entretanto, mandara da região de Kamigata, onde se encontrava, revelavam uma grande determinação e coragem por parte do padre jesuíta. Essas missivas não faziam suspeitar ou prever qualquer negação. É verdade que a partir de 1587, sob a orientação do regente Hideyoshi, a perseguição ao Cristianismo tornou-se violenta e persistente, no entanto pouco se sabia sobre os procedimentos adotados para extirpar a influência cristã e ninguém estava em condições de prever o sentido e alcance das medidas. Silêncio trata das informações obtidas pelos Padres Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe sobre o que se tinha passado com o Padre Ferreira. O romance é constituído por cartas de Sebastião Rodrigues e por outras informações, que nos levam aos estranhos acontecimentos que conduziram à apostasia do mais proeminente dos missionários no Japão…

 

UM DRAMA HUMANO E RELIGIOSO
Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? “Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes”. Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. “Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado”. E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: “Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz”. Afinal: “Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou”… O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso.O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz o romancista): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses”.

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  De 2 a 8 de janeiro de 2017

 

A publicação de «Obra Poética – Volume I» de Ruy Cinatti (Assírio e Alvim, 2016) editada por Luís Manuel Gaspar, com Joana Matos Frias e Peter Stilwell, constitui oportunidade para reencontrarmos a escrita de um dos autores portugueses mais interessantes do século XX, pela diversidade das suas experiências com expressão literária e por uma inesperada riqueza espiritual. E não podemos esquecer a ligação muito próxima do poeta ao Centro Nacional de Cultura e aos seus fundadores, desde muito cedo.

 

 

 

«A POESIA É SÓ UMA!»

Os «Cadernos de Poesia» iniciados no ano em que a revista «Presença» deixou de se publicar (1940) foram marcados por alguns dos nomes que mais se destacaram no panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século XX – como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. Sob o lema «A Poesia é só uma», os poetas dos «Cadernos» foram, na expressão de Fernando J.B. Martinho, dos que em Portugal no século XX mais de aproximaram de «uma ideia de poesia pura, pela qualidade objetual, de “ícone verbal”, que sempre, dentro da melhor tradição simbolista, atribuíram ao poema». E nessa perspetiva não deixaram de associar o trabalho estético e a dimensão ética – numa defesa persistente da liberdade. Junto destes poetas, encontramos Ruy Cinatti (1915-1986), que integrou a direção dos «Cadernos» nas suas três séries (com José Blanc de Portugal e Tomás Kim, todos recordados pelo CNC a seu tempo no CCB). Cinatti foi, ainda segundo F. Martinho, «poeta “nómada” como a si próprio se viu, numa errância que privilegiou os espaços de aventura ultramarina portuguesa, com destaque para Timor de que o seu nome é indissociável, quer na lírica celebratória quer na que é, depois da ocupação indonésia, ensombrada pela pungência da tragédia». Ora é a poesia deste místico que agora é de novo reunida, num esforço notável e meritório, permitindo aos seus leitores uma visão de conjunto de uma obra rica e multifacetada, na qual se sente, a cada passo, a projeção da cultura da língua portuguesa no mundo. E essa projeção surge num rico diálogo com outras visões e tradições – naquilo que podemos designar como uma interpenetração entre o gosto da aventura e a tentativa persistente de compreensão dos outros. Trata-se de um altruísmo poético, que talvez nos faça compreender o porquê de os portugueses estarem em toda a parte no mundo, sabendo responder diversamente aos múltiplos desafios. Jorge de Sena falará do «intervalo em que te aceitas outro / precisamente quando mais te julgam tu»… Pode dizer-se, pois, que não se trata apenas de adaptação, mas de encontro e de síntese. «Houve mares onde todos se encontraram, / Houve praias e ilhas de naufrágio, / Houve e haverá secretas margens / Onde a carne esfacelada implora e vive / Pedaços de mim próprio, irmanados / A algas e corais do fim do mundo». Assim, a hospitalidade funciona em dois sentidos – como capacidade de acolher e de ser acolhido, de receber e de estar disponível para dar alguma coisa da nossa diferença. É, no fundo, a disposição sentimental que importa entender, assim como a ternura, a invocação do amor, humano e divino. E, sendo a vida «toda mistério», é a procura permanente, a constante insatisfação e a insaciável busca de novos horizontes que se impõem. Em «Nós não Somos deste Mundo» (1941), em «Anoitecendo a Vida Recomeça (1942) ou em «O Livro do Nómada Meu Amigo» (1958) sentimos um «existencialismo metafísico», referido por Pedro Mexia, que nos leva a um encontro permanente entre «eu» e o «mundo», trilhando caminhos incertos, nos quais se cruzam o lamento e a ironia, o afeto e a compreensão das coisas, desde a natureza até ao quotidiano próximo.

 

UM POETA DA SIMPLICIDADE

«Dele esperávamos que nos revelasse mais do que a verdade intelectual, a verdade espiritual e o verdadeiro caminho da vida. Era o nosso guru» - disse Sophia de Mello Breyner a Peter Stilwell quando este escreveu a sua fundamental tese sobre Cinatti. Francisco Sousa Tavares confirma esta ideia, dizendo: «Ninguém poderá jamais imaginar alguém como Cinatti, a sua generosidade, a sua alegria, o seu entusiamo pela música, pela poesia e pelos outros»… E isto mesmo se nota na sua obra poética, sobretudo na fase de maturidade. E este primeiro volume traz-nos momentos muito ricos de talento e de criatividade. A poesia e a vida misturavam-se, naturalmente. E se a vivência poética obrigava ao domínio da palavra e à interrogação do mistério, a verdade é que em Cinatti encontramos a vivência de um ideal que procura constituir-se em sementeira de ideias e de valores. A iniciativa da revista «Aventura», visando abrir horizontes novos, insere-se nessa intenção… E, não por acaso, Ruben A. inspirar-se-á no nosso poeta (como exemplo sonhador) para criar a personagem do Cavaleiro de «A Torre da Barbela» - porque «sem liberdade a poesia não vale a pena, e o resto também não». E, deste modo, percebemos que «Para se ser poeta é preciso ser-se simples / Como eram simples os elementos naturais / Antes de Deus fazer misturas»… Cinatti vive poeticamente Portugal pelo mundo repartido – não como um projeto uniforme ou dominador, mas como uma encruzilhada de diversas influências e encontros. E não esconde, a um tempo e paradoxalmente, desânimo e admiração – elogia Baltazar Lopes e Amílcar Cabral, recorda tradições antigas, paisagens, experiências, um pouco por toda a parte, mas repugna-lhe a indiferença e a tentação simplificadora. Em «O Tédio Recompensado» (1968) ou em «O Borda-d’Alma» (1970) ironiza com a «paz dos podres», fala de «ultras» e «sinistros», não compreende uma sociedade acomodada e incapaz de audácias… E no encerrar de uma relação amorável connosco próprios diz-nos: «Eis que retorno à terra de ninguém, / à minha triste pátria angustiada, / para com ela celebrar alguém / num novo ano pleno de jornada / e cantarei a chuva anunciada / e o fogo fruste e o que lembrado / alumiar ensimesmadas faces / e outras de tenra profecia. / O mito grava, a palavra ofende. / A noite desce, a manhã ascende»…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS


   De 26 de dezembro de 2016 a 1 de janeiro de 2017

 

A leitura da Correspondência de Almeida Garrett para Rodrigo da Fonseca Magalhães (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016), permite compreendermos um pouco melhor o complexo mas apaixonante período da implantação e consolidação do liberalismo em Portugal.

 

 

UM APAIXONANTE PERÍODO
Encontramos o cidadão comprometido que foi Garrett em diálogo direto com o político mais influente na estabilização das instituições constitucionais – das guerras civis à Regeneração, momento em que foi possível pousar as armas e chegar a um acordo político de alternância no poder. A edição desta correspondência é de Sérgio Nazar David, que trata com esmero o manancial de contributos relevantes não só sobre as personalidades dos dois protagonistas, mas também sobre o período em que intervêm. Como sabemos, a edição crítica na INCM das obras de Almeida Garrett é coordenada por Ofélia Paiva Monteiro, cuja ação merece especial destaque, uma vez que tem permitido um melhor conhecimento da obra do grande autor do período romântico. Relativamente a Rodrigo da Fonseca (1787-1858), que a posteridade conheceria como «raposa», pela inteligência política e capacidade de superar as situações mais difíceis, não podemos esquecer a excelente biografia da autoria de Maria de Fátima Bonifácio, indispensável para percebermos o papel fundamental que desempenhou na história do seu tempo («Um Homem Singular», Dom Quixote, 2013).

 

 

GARRETT CIDADÃO E POLÍTICO

Almeida Garrett é uma referência da cultura portuguesa que supera em muito qualquer classificação de escola ou de grupo. Por isso, foi respeitado e referenciado por todos quantos, sob as mais diversas influências, até à modernidade, cuidaram de quem marcou indelevelmente o amadurecimento das nossas língua e cultura. «Não sou clássico nem romântico, de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma); e por isso me deixo ir por onde me levam as minhas ideias, boas ou más, e nem procuro converter as dos outros, nem inverter as minhas nas deles: isso é para literatos ou outra polpa, amigos de disputas e questões que eu aborreço». Estas são as suas palavras, significativas, em 1825 no prefácio à primeira edição de «Camões» demonstram sobretudo a independência de espírito e a especial atenção de Garrett relativamente às mudanças fundamentais do seu tempo. E o diálogo com Rodrigo da Fonseca, ora publicado, é revelador de como, apesar das incompreensões, o poeta, romancista e dramaturgo pôde contribuir pela dimensão cultural e artística para afirmação de uma sociedade aberta e liberal. O corpus documental que constitui a presente publicação é constituído por 97 cartas, 72 do espólio de Rodrigo, 18 do Ministério do Reino (Torre do Tombo) e 7 do espólio de Garrett (5 da Biblioteca Geral e 2 da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra). O importante é dizer que se trata de 93 cartas inéditas. O percurso que poderemos seguir nesta correspondência revela-nos plenamente o cidadão, o político e o servidor público. Nota-se a situação que rodeou ida para Bruxelas como Encarregado de Negócios, por «sórdidas conveniências políticas», e as condições do regresso depois de dois anos de penúria. De novo na pátria, é eleito deputado em 1837 e defende na Câmara dos Deputados a liberdade religiosa - «não creio que possa haver liberdade civil para o povo que perder a liberdade religiosa». É uma preocupação que assiste ao liberal autêntico e que aflora nas «Viagens na Minha Terra». A moderação é a marca da sua intervenção política, afirmando-se entre os setembristas moderados, como dirá no célebre discurso do Porto Pireu, exemplo da oratória parlamentar, em resposta a José Estêvão: «É verdade: todas essas galés de injúrias navegadas de toda a parte do mundo, vieram descarregar-se a um imaginário porto Pireu, onde, sonhando os agradáveis sonhos da loucura ambiciosa e da cobiça frenética, nos supuseram, a estes poucos homens do centro, que, por poucos, por moderados, por guardadores de todas as formas, deviam ter merecido mais alguma daquela civilidade e consideração com que a todos acatam, renunciando tantas vezes a despicar-se das ofensivas, até a defrontar-se dos agravos, com que a todo o instante são provocados» (8.2.1840).

 

 

A CAUSA DO CONSERVATÓRIO

O homem de cultura, encontramo-lo a pugnar pelo Conservatório Real de Lisboa. A determinação de Garrett é clara, em nome do ensino das Artes (Declamação, Música, Dança e Mímica). A figura tutelar de Gil Vicente é chamada em nome da «ideia de civilização». O presidente da instituição é D. Fernando II, em nome das conjugação dos princípios democrático e monárquico, tão cara ao dramaturgo – que se empenha a fundo nos mais ínfimos pormenores, para que o Conservatório tenha as condições para ser marcante. E nesse combate conta com o apoio de Passos Manuel, sopro da liberdade e da democracia, e com Rodrigo, o homem capaz de compreender o Portugal mais a fundo… Mas é Costa Cabral e o cabralismo que se irão impor a partir de 1842. E Garrett passa para a oposição – uma vez que que o executivo «absolutamente declarou por seus atos, que queria governar no interesse exclusivo de um partido». E dirá a seu amigo Silva Abreu: «desagrada-me o estado das cousas e a tendência dos homens. Sou pasteleiro pelo coração e pela cabeça: sentimento e reflexão me fazem desejar e crer que não seja nacional nem fixo todo o governo exclusivo e intolerante. (…) Portugal não é dos setembristas nem dos cartistas, é dos portugueses». Afinal, vê no novo poder cabralista pretextos para «vingançazinhas mesquinhas de bairro e bairristas». Pela demarcação política, foi demitido pelo Decreto de 16 de julho de 1841, assinado por Joaquim António de Aguiar, da Inspeção-Geral dos Teatros, de Vice-Presidente do Conservatório e de Cronista-Mor do Reino… Daí o clima de desalento que sentimos nas «Viagens», onde se descreve a ida ao encontro de Passos Manuel em Santarém. Em 1846, no final da guerra da Maria da Fonte, ainda julga poder participar numa solução moderada, que, no entanto, será destruída na «emboscada» de outubro, na qual a rainha D. Maria II ainda vai dar a mão a Costa Cabral. Nesse ínterim, Garrett e Rodrigo ainda tentam mobilizar Passos para uma solução – mas não têm sucesso. A guerra civil regressa, impiedosa e inexorável – na Patuleia. A propósito do Grémio Literário, o escritor chega a confessar-se a Rodrigo mais político que literato. Contudo, nas «Viagens», os barões são duramente julgados, na pessoa de Carlos. O certo é que o genial escritor ainda regressará à ribalta política na Regeneração, na pasta dos Negócios Estrangeiros. Mas a política tem sempre as suas vicissitudes e a amizade entre Garrett e Rodrigo terminaria toldada num episódio triste de intrigas e calúnias, em 1852, em que o poeta se sentiu injustiçado. É certo que Rodrigo compareceria ao funeral de Garrett, em 54, mas o mal-estar deixou marcas fundas… De qualquer modo, desta relação tão rica fica este diálogo do maior interesse. 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 19 a 25 de dezembro de 2016.

 

Em leituras natalícias, escolhemos três livros - «Joga-se aqui o essencial – Um olhar sobre o que somos» da autoria de D. Manuel Clemente (Assírio e Alvim); «Tudo o que Existe Louvará» de Adélia Prado (Assírio e Alvim) e «Deus, Religiões e (In)Felicidade» de Anselmo Borges (Gradiva). São três obras recentes, a merecerem uma especial atenção pela sua grande qualidade.
 

 

UM LIVRO DO PATRIARCA DE LISBOA
«Joga-se aqui o essencial – Um olhar sobre o que somos» da autoria de D. Manuel Clemente, com posfácio de António Araújo (Assírio e Alvim) é uma excelente leitura para este Natal. São textos que dizem respeito ao período de exercício do autor enquanto Patriarca de Lisboa, de 2013 até ao presente. São homílias, mensagens pastorais e intervenções em colóquios académicos e civis, além de conferências várias. É um manancial da maior importância. Estamos, no fundo, perante uma celebração viva da comemoração dos três séculos da Bula de Clemente XI, de 7 de novembro de 1716, que concedeu ao Arcebispo de Lisboa o título de Patriarca. Os temas estão apresentados por ordem alfabética, de forma pedagógica, como D. Manuel bem aprecia e sabe, e constituem uma espécie de dicionário sobre o pensamento do autor. Leia-se, por exemplo, a propósito do Amor o seguinte: «Misericórdia é a palavra nossa que traduz todos os vocábulos com que a Bíblia nos comunica os sentimentos de Deus para com o povo eleito. Amor profundamente sentido e por isso mesmo “entranhado”; compaixão indefectível, mesmo que não correspondida; atenção prioritária aos mais pobres e humildes. Assim mesmo se traduz a misericórdia divina: um coração voltado para quem mais precisa; como todos afinal precisamos, “mendigos do amor”». Afinal, o coração compassivo, representado pela misericórdia, nas suas diferentes manifestações, pressupõe a atenção e o cuidado, que nos aproxima de quem espera por nós. E é esse o desafio ético perante o qual nos encontramos. Percebe-se como aqui se joga o essencial. Do Amor a Zigmunt Bauman, passando pelo Bem Comum Universal, pela Crise, pelo Desenvolvimento, pela Espiritualidade, por José da Cruz Policarpo, pela liberdade Religiosa, pelo Papa Francisco, por Santo António, por Sophia de Mello Breyner, pelo 25 de Abril ou por Xenofobia – todos esses pontos são referências que nos tornam mais atentos e despertos relativamente aos problemas com que se defrontam os cristãos. Em cada um dos diversos temas, do que se trata é de compreender como devemos exercer a liberdade e a responsabilidade, como devemos assumir a dignidade humana, como somos chamados a responder – sobre quem é o nosso irmão; quem é o nosso próximo. É o olhar sobre o que somos. E em mais um Natal temos de saber ouvir quem mais de nós precisa. E deste modo dar é mais exaltante do que receber, percebendo-se sempre que o amor cristão, agapé, obriga a uma troca, generosa e genuína… Como diz S. Francisco de Assis: «Oh Mestre, fazei com que eu procure mais consolar/ Que ser consolado/ Compreender, que ser compreendido/ Amar, que ser amado/ Pois é dando que se recebe/ É perdoando, que se é perdoado/ E é morrendo que se vive para a vida eterna». «O Verbo fez-Se carne e habitou em nós». Como lembra ainda D. Manuel Clemente, «podemos traduzir Verbo, a palavra latina que traduz a palavra grega “logos”, com os teólogos e, antes dos teólogos, ainda, com os filósofos, quer como «razão», quer como “palavra”» - Deus comunica-Se, Deus que nós nunca vimos… Eis como os poetas dizem mais claramente do que os próprios teólogos… Neste Natal compreendamos a Misericórdia e a Encarnação do Verbo – representadas no Presépio, desde a simplicidade dos pastores à homenagem dos sábios, a começar na paradoxal pobreza da manjedoura e de um curral para acolher um Deus Menino…

 

A POESIA SURPREENDENTE DE ADÉLIA PRADO
Ainda na boa maré dos livros, refiro uma obra talvez inesperada, mas extremamente bela, um livro de poemas – de Adélia Prado «Tudo o que existe louvará» (Assírio e Alvim). Como disse Pedro Mexia, «os seus textos, que evocam com frequência um meio provinciano e pobre, têm (…) algumas afinidades com o Sul profundo da ficção de Flannery O’Connor, mas enquanto a americana era violenta e sofrida, a brasileira é vitalista e sensual. Poeta de Deus e do corpo, Adélia é também poeta do corpo divinizado e do Deus encarnado». Podemos compreender isso mesmo, lendo o poema «Antes do Nome», onde sentimos a importância da palavra, em ligação estreita com o Verbo «encarnado». «Não me importa a palavra, esta corriqueira. / Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,/ os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", / o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível/ muleta que me apoia./ Quem entender a linguagem entende Deus/ cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. / A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,/ foi inventada para ser calada. / Em momentos de graça, infrequentíssimos,/ se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. / Puro susto e terror».

 

UMA LONGA EXPERIÊNCIA VITAL
«Deus, Religiões e In(Felicidade)» da autoria do Padre Anselmo Borges e prefácio de Andrés Torres Queiruga é uma reunião de oportuníssimos textos que estão divididos em três partes: O Enigma: A Morte de Deus; O Diálogo Inter-Religioso e O que traz a felicidade? Como diz o prefaciador: «realmente impressiona a longa experiência vital que está por detrás e no fundo destes textos. Experiência que inclui não só uma rica trajetória na organização de fóruns internacionais sobre o diálogo entre a fé, a ciência e a cultura, mas também amplos estudos e visitas pelo mundo universitário da Europa, e não em último lugar um intenso e vocacionado labor docente». O título remete-nos para uma atitude aberta e compreensiva sobre o fenómeno religioso e a complexidade do sagrado. E o certo é que podemos compreender que «Deus não criou por causa dele mesmo e dos seus interesses, da maior honra e glória, mas apenas por causa das criaturas, homens e mulheres, que quer ver plernamente realizados e felizes para sempre. Assim a última palavra sobre a História, e a História lê-se do fim para o princípio, não é a morte, mas a Vida, a Vida eterna, na bem-aventurança de ver Deus. Deus não é um Deus de mortos, mas de vivos». E aqui está a chave da ambivalência da Felicidade. A vida é paradoxal, é contraditória, porque a liberdade e a responsabilidade não são de sentido único. É o mistério do tempo que está bem presente. «Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de se ser e do ser». Os gregos referiam para o tempo dois símbolos contraditórios: Chrónos e Kairós – respetivamente, o tempo quantitativo e linear, sobre o qual a humanidade não pode intervir e o tempo qualitativo, enquanto crise e oportunidade, sendo as pessoas chamadas a intervir decisivamente. O tempo cronológico e devorador e o tempo kairológico é criador. A leitura é inesgotável e apaixonante!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

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De 12 a 18 de dezembro de 2016.

«Cervantes e Portugal – Curiosidade Literária» de Carlos Barroso (Lisboa, 1872) é um breve opúsculo de autor desconhecido que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal e do qual podemos partir para encontrar uma faceta portuguesa do autor de «Dom Quixote de la Mancha».


CERVANTES EM PORTUGAL
Miguel de Cervantes Saavedra tem a ver com Portugal muito mais do que à primeira vista possa parecer. E poderemos dizer que é, com o nosso Fernão Mendes Pinto, o criador do romance moderno, em que a vida se torna presente na narrativa, para além da edificação ou de uma perspetiva distanciada da singularidade. E assim o picaresco surge como uma arma crítica, nem sempre foi entendida, como aconteceu com o nosso autor da «Peregrinação», que passou por mentiroso, apenas porque se multiplicou nas diversas personagens da sua obra. Também Cervantes usou a ironia para fazer a crítica severa de quantos se deixaram prender pelo passado, em vez de assumir o novo tempo. Como disse Emilio Castelar: «os livros de cavalaria são o protesto contra o feudalismo e Cervantes a grande estátua que coroa o Renascimento». Esta é a epígrafe que inicia pequeno opúsculo de 1872, «Cervantes e Portugal – Curiosidade Literária» por Carlos Barroso, que nos apresenta as curiosas ligações do autor de «Quixote» à nossa cultura. São elementos conhecidos, mas tantas vezes pouco lembrados, que importa revisitar. Antes do mais, Cervantes lembra-nos a batalha de Lepanto (1571), em que foi seriamente ferido. Esse acontecimento histórico, em que a armada comandada por João de Áustria, com participação portuguesa, venceu os turcos, marcou (menos do que se esperaria, por razões diplomáticas) a história europeia – tendo até animado o nosso D. Sebastião a partir para Alcácer-Quibir, com os trágicos resultados conhecidos. Em 1581, com a questão dinástica portuguesa solucionada, encontramos Miguel de Cervantes em Lisboa com Filipe I, esperando favores deste, mas profundamente enamorado. No entanto, a filha natural Isabel Saavedra, da relação com Ana Villafranca, nascerá em Espanha só em 1584, já não sendo desse tempo. Foram os amores no período português que o inspiraram na novela pastoril «Galatea» (1585), onde o autor aparece disfarçado de pegureiro Lauso, suspirando pela formosa pastora Silena. E dirá: «Para festas Milão, para amores a Lusitânia». Em «Galatea» o pai da heroína das margens do aurífero Tejo, tenta prendê-la a um «pastor lusitano das ribeiras do deleitoso Lima». Cervantes teria ainda acompanhado o marquês de Santa Cruz na tomada dos Açores (1582-1583), que invoquei aqui há meses, a propósito de uma inesquecível visita ao palácio madrileno do meu amigo Álvaro de Santa Cruz…

 

DESCOBERTA DA VEIA CRIADORA
Em Lisboa, Cervantes descobre a sua veia criadora, designadamente no teatro, e a verdade é que o ambiente português entusiasma-o. Leia-se com atenção o romance do Cavaleiro da Triste Figura. Aí está o elogio do Tejo português, a beijar as praias da cidade de Lisboa de areias douradas. No célebre capítulo 6º, onde se trata de exorcizar a imaginação doentia dos romances de cavalaria na biblioteca do engenhoso fidalgo, além da salvação de «Amadis de Gaula», o primeiro publicado na Península, que tanto tem a ver com Portugal (pois a versão de Montalvo, que é a referida por Cervantes, teria sido antecedida pela versão portuguesa de Vasco de Lobeira, cavaleiro de Aljubarrota, ou de João de Lobeira), temos a referência ao «Palmeirim de Inglaterra», atribuído a um discreto rei de Portugal, e «Os Sete Livros de Diana» de Jorge de Montemor. E sobre Dulcineia fala-se de famílias célebres de Portugal como os Alencastros, Pallas e Menezes… O pastor Lope Ruiz, que é invocado por Sancho na fuga de seu amo de Torrealva, detém-se nas margens do Guadiana antes de passar seu rebanho para Portugal. Rio que entra «pomposo e grande» em Portugal. Entretanto, na profunda e tenebrosa cova de Montesinos promete o «Caballero de los leones» à sua fantástica amante, «andar por causa dela as sete partidas do mundo com mais pontualidade que o infante D. Pedro de Portugal». Já ao cónego de Toledo, o Cavaleiro da Triste Figura lembra o célebre Juan de Merlo, valente lusitano que foi à Borgonha, enchendo-se de honra e fama nos combates em que se envolveu. E uma das éclogas que foram representadas pelas pastoras, em cujas redes se embaraçou o pensativo Quixote a sonhar com Dulcineia, era nem mais nem menos do que da autoria de Camões. Nas «Novelas Exemplares» encontramos diversas referências – aos navios portugueses vindos das Índias Orientais em «Espanhola inglesa», a um português que pintava as barbas em «O licenciado Vidriera», em «A força do sangue» alguém procura dissimular-se falando meio português meio castelhano, em «Colóquio de los perros», «Berganza vitupera os que falando mal o latim introduzem sua ruim linguagem (…) como os portugueses fazem com os pretos da Guiné», no «Casamento enganoso» refere-se uma vestimenta feminina mais larga do que «sobrepeliz de um canónico português»…

 

EM LISBOA, VINDOS DA ORIENTAL ÍNDIA
Em «Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda», onde se relata a longa viagem de dois príncipes nórdicos que se fazem passar por irmãos (1517), Cervantes relata o desembarque dos viajantes na praia de Belém e enche Lisboa de encómios: «aqui o amor e a honestidade se dão as mãos»; «todos os seus moradores são agradáveis, são corteses, são liberais e são enamorados, porque são discretos: a cidade é a maior da Europa e a de maiores tratos; nela se descarregam as riquezas do Oriente e a partir dela se repartem pelo universo»; «a formosura das mulheres admira e enamora, a bizarria dos homens pasma, e como dizem: esta é a terra que dá ao céu santo e copiosíssimo tributo»… E em «Viagem do Parnaso» chegam poetas a Lisboa da oriental Índia… Dir-se-ia que Unamuno vê plenamente confirmado na obra de Cervantes que a cultura portuguesa é uma aliança entre o lirismo e a história trágico-marítima… Em Quixote o autor de «Sentimento Trágico da Vida» vê um fundo ibérico, apesar das diferenças. Garrett põe Quixote no âmago do conflito das «Viagens». Afinal, há dois Quixotes – um que continua a viver na sua loucura e outro que baixou aos infernos e entrou neles, de partida para o paraíso, de lança em riste a libertar os condenados todos, gritando «viva a esperança». Unamuno acrescenta: «E Deus riu-se paternalmente dele e esse riso divino encheu de felicidade eterna a alma»… Quixote como elo ibérico vem à lembrança, quando o mestre de Salamanca recorda o comentário de Guerra Junqueiro sobre o Cristo sofrido na arte espanhola e a Divindade descida ao convívio dos povos nas coloridas romarias portuguesas… E Antero de Quental leva-nos à lembrança de que a vida é uma tragédia para os que sentem e uma comédia para os que pensam – sendo mais digno o destino terrível mas nobre dos sentimentais do que o fim miserável e cómico dos racionais… O vitalismo de Ortega vai até à consciência quixotesca. Alonso Quijano no leito de morte revela essa dualidade, desde o interior, consciente da loucura e do sonho, até à sementeira emancipadora (essencial para Unamuno ou para Maria Zambrano) que «pousará no deserto e dará origem a um cedro gigantesco que com as suas cem mil léguas cantará hossanas ao Senhor da vida e da morte»…

 

Guilherme d’Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 5 a 11 de dezembro de 2016.

 

«União Europeia – Reforma ou Declínio» com Coordenação e Introdução de Eduardo Paz Ferreira (Vega, 2016) reúne um conjunto de reflexões de grande atualidade sobre o presente e o futuro do projeto europeu e sobre a própria democracia no velho continente e no mundo.

 

 

QUE FUTURO?
Ninguém sabe qual o desfecho dos atuais acontecimentos no futuro da União Europeia, mas importa não cometer o erro crasso da indiferença ou da ilusão. Quando os britânicos fizerem, com o rigor a que nos habituaram, o cálculo dos custos e benefícios sobre o Brexit, a decisão que tomaram de abrir a Caixa de Pandora, só então poderemos vislumbrar o que irá passar-se. Até lá é prematuro tirar conclusões e não haverá adivinhos para revelarem o que lhes dizem as bolas de cristal. Uma coisa é certa – com ou sem Reino Unido, a União Europeia está muito frágil e sem soluções. A saída britânica desequilibra a frente atlântica e pode enfraquecer a componente ibérica. No entanto, será um erro muito grave continuar a discutir-se quem dos elos mais fracos vai ser apontado como mal-comportado da classe, quando o que está realmente em causa é melhorar a prestação de toda a turma que está longe de corresponder ao que dela se exige! Ouve-se no discurso político comum, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais se projetam nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá o ramerrame da economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, no «Quantitative Easing», continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.

 

O CUSTO DA NÃO-EUROPA
Percebe-se que o custo de não ter Europa ou de ter menos Europa é insustentável. Mas não se pense que falamos de um Superestado, uma superestrutura ou de uma burocracia desumanizada, falamos, sim, de uma coordenação fundamental, que seja capaz de ligar moeda, crédito, concorrência, competitividade, coesão, convergência e desenvolvimento. Tudo isto obriga a uma partilha de encargos e responsabilidades. Não se trata de harmonizar ou homogeneizar sociedades e pessoas, mas de favorecer a criatividade das diferenças. Precisamos de transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em inovação. Não se deve esquecer o que um dia disse o grande cientista Ilya Prigogine da Europa: temos de compreender que a nossa melhor riqueza é o conhecimento e a capacidade inventiva e criadora. Se repararmos bem, a maior influência de grupos populistas deve-se não ao fenómeno europeu, mas à necessidade de criar uma explicação exterior, mesmo que ilusória, para justificar a incapacidade das instituições nacionais a fim de assegurarem a integração social e a estabilidade. Sabemos que não teríamos a paz e a prosperidade de que beneficiamos se não houvesse instituições europeias. A democracia supranacional europeia tem de ser um ponto de encontro de todos – e tem de envolver a participação efetiva dos cidadãos. Esse é um ponto crítico. Não podemos continuar a pensar numa União Europeia sem uma legitimação clara de Estados e cidadãos. O tema dos refugiados obriga a soluções justas e duradouras. O crescimento e o desenvolvimento humano têm de ser objetivos comuns. O potencial económico e a capacidade para fazer frente a choques assimétricos tem de corresponder à ideia de convergência económica e social. A mobilidade dos estudantes e a prioridade da educação e da formação, da ciência e da cultura são fundamentais. Dir-se-ia que estamos apenas a reviver problemas passados e conhecidos. Todavia, hoje a sua persistência e a emergência dos egoísmos nacionais poderá ter efeitos mais dramáticos que nunca. Se o desespero destruir a frágil democracia europeia não haverá uma segunda oportunidade para salvaguardar a paz e a dignidade… A frente atlântica europeia não pode ser enfraquecida. Se Londres tem tido um papel crucial no mercado financeiro europeu e numa política europeia de segurança comum, a verdade é que tal apenas pode ser preservado se prevalecer um reformismo interno solidário, em lugar de se optar por atirar ao chão o tabuleiro de xadrez. Setenta anos de paz na Europa só foram possíveis mercê da prevalência da coesão sobre a fragmentação, e da razão sobre o medo. A estagnação económica europeia e o fechamento alemão fomentaram a fragmentação. O surgimento de tensões ditadas pela crise dos refugiados e pela difusão de um medo persistente do desemprego favoreceu as forças nacionalistas e incentivou o populismo – pano de fundo que abriu uma lógica antieuropeia e fragmentária. Nestes termos, a crise do Euro não tem a ver com a falta de credibilidade da moeda europeia, mas com a ausência de perspetivas imediatas de crescimento económico na Europa, por ausência de uma política ativa de investimento. Trata-se de uma moeda forte, que limita o espaço de manobra das economias com maior grau de dependência externa.

 

TIRAR LIÇÕES PARA O FUTURO
Eduardo Lourenço tem repetido, com a lucidez que lhe conhecemos, que «a Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa (nós, portugueses) temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. O perigo da não-Europa espreita como o risco da não-democracia. A crise europeia deve-se à ausência de um ideal mobilizador e à falta e de uma coordenação política capaz de romper com a estagnação e de assegurar uma convergência social que permita aos cidadãos europeus sentirem-se não só participantes mas também incluídos, num desenvolvimento humano justo, baseado na qualidade de vida e no bem-estar – mas essencialmente no respeito da dignidade humana. E quem acredita na importância do projeto europeu, menos como utopia, e mais como um meio de garantir a paz e a cooperação, tem de fazer do compromisso político, cívico, social, cultural e económico, algo de concreto, com resultados.

 


Guilherme d’Oliveira Martins

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