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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A cidade é processo de transformação contínuo

A FORÇA DO ATO CRIADOR
por Ana Ruepp

 

 

"A cidade é uma espécie de movimento perpétuo e de infinitas corporizações, impossíveis de determinar, e que é um tocar, um cruzar, um sobrepor, um deslocar, um recusar de uma espécie de exercício permanente desses olhares."
Pedro Cabrita Reis, 2001

 

A existência de um lugar não depende somente das suas condições reais, mas acima de tudo varia de acordo com a atribuição humana de significados e interpretações. O homem cria o lugar, ocupa-o. Esta criação não é linear no tempo, pode sobrepor-se, substituir-se conjugar, fragmentar – movimento perpétuo. Os objetos atuais do lugar, constituem-no, são a sua realidade. A pureza do lugar ocupado pelo passado é inatingível, mas reconhecível pela simbólica atribuída, pela ausência demarcada.

 

‘Esta cidade era tão famosa nos últimos tempos, que da sua fama se criou um provérbio: Qui no ha visto Lisbona no ha visto cosaboa.’

 

No tempo, a cidade é processo de transformação contínuo. Ilustração real deste aspeto é a existência de Lisboa, diversa dos nossos dias, anterior ao Terramoto de 1755.

 

Desde quinhentos, D. Manuel II marcou estrategicamente uma ação sobre a cidade, através da marcação territorial de centros estruturantes - praças além-mar. Esses centros constituem-se Rossios albergantes de equipamentos essenciais e importantes para a vivência de uma cidade. Do Rossio partiam eixos de intensa atividade comercial.

 

Em Lisboa, o período manuelino permitiu reestruturação urbana. A reestruturação constitui-se na divisão territorial entre alta e baixa urbana. A alta ligava-se ao poder militar ou eclesiástico. A baixa, por sua vez, estabelecia-se sob domínio do poder régio e municipal - esta parte do território em Lisboa assiste a transformações significativas. Essas transformações dizem respeito à implantação da plataforma do Terreiro do Paço Real, ao longo do Tejo e à introdução do Rossio, associado a equipamento central urbano (Hospital de Todos-os-Santos). Esta reestruturação da cidade de Lisboa contribuiu, em grande medida, para a consolidação do seu centro, como espaço modelador e controlador da atividade mais determinante - o comércio.

 

Em meados do séc. XVIII, antes de 1755 Lisboa afirmava-se nesta centralidade. A descrição de Lisboa setecentista, que se segue, elabora-se segundo vários autores germânicos:

 

  • Situação: a cidade surge, num sítio privilegiado, debruçada a montante do rio Tejo, erguida sobre sucessivas colinas. Cinco dessas colinas estão cercadas por uma muralha de 39 portas (Santo Antão, São Vicente, Santa Catarina, etc.). Dessas cinco colinas, uma contem o Castelo de São Jorge - lugar gerador da cidade. Nos vales situados entre as colinas localizam-se as principais artérias da cidade;

 

  • Arruamentos e Praças: Os arruamentos de Lisboa, de então, são bastantes estreitos, porém a localização do seu traçado permite vistas sobre o rio e o descampado da outra margem. As praças são de grande amplitude. Entre o Paço da Ribeira e a Alfândega situa-se a maior praça da cidade. Importante, como já foi referido, é, igualmente, o Rossio rodeado por colinas, local de realização de mercado. O Terreiro do Paço é 'a mais bela de todas as praças';

 

  • Edificado: considera-se Lisboa, uma cidade muito dilatada e populosa e as suas edificações são magnificentes e esplendorosas. Destacam-se o Paço Real, como sendo um edifício quadrado, de quatro pisos, quatro pavilhões, dois torreões, cobertura abobadada; a Capela Real, contígua a um dos lados do Palácio Real; o Palácio do Corpo Santo, com quatro alas distintas, ornadas de torres, com galeria para passeio; o Novo Teatro ou Casa da Ópera, de Guarini Guarino; o grande mercado; as casas da Alfândega as igrejas (Dominicanos, Santo António, congregação dos Frades Descalços, Jesuítas, Madredeus, Nossa Senhora de Gratia, etc.); os conventos (S. Bento); a Confraria da Misericórdia; o Hospital de Todos os Santos; a Sé, ao erguer-se na vertente de uma colina.

 

A cidade, desde então, coordena diferentes ocupações e organizações territoriais (espontâneas e planeadas - Bairro Alto). O cataclismo natural de 1755 trouxe uma oportunidade planeada, aglutinadora e globalizante para o território real. Com ele iniciou-se a cidade do traçado não só físico mas também social. Testemunha da Lisboa, do passado, são as simbologias atribuídas aos lugares - a toponímia que fica e aquela que permanece.

 

Ana Ruepp