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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A força do ato criador

  

Joaquim Rodrigo, do eu cósmico à memória como matéria.

 

‘O desenho, resultado do acto de dizer a linha, será o gráfico do nosso estado de espírito, da nossa capacidade mental.’, Joaquim Rodrigo, 1982

 

Joaquim Rodrigo (1912-1997), engenheiro agrónomo por formação, começou a pintar nos anos cinquenta após um ciclo de viagens pela Europa e de frequentar aulas de pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes. No seu livro ‘O Complementarismo em Pintura. Contribuição para a ciência da arte.’ (1982) afirma que desenhar não depende de nenhum talento ou habilidade especial, desenhar bem significa uma exata identificação consigo próprio. Quanto maior for a identificação do eu, melhor o desenho se tornará e identificação será assim memória e pensamento. Por isso, o processo de desenhar é a gravação mais próxima do estado do pensamento. Arte existe primeiro num estado espírito-matéria (ato de criação) e só depois é transformada em matéria-espírito (ato de fruição). Arte pode ser feita por qualquer pessoa desde que revele a verdade da sua realidade mental.

Nos anos cinquenta, Rodrigo começou com 38 anos a produzir pinturas abstratas geométricas. Esta fase geométrica não resulta de uma depuração de um processo figurativo. É sim, para Rodrigo, uma rutura deliberada com processos e significados. Foi em 1952, que Joaquim Rodrigo iniciou uma investigação matemática no campo da arte abstrata, onde fazia uso de formas geométricas, linhas horizontais e verticais retas e cores contrastantes, vibrantes e planas. O uso da síntese e a redução das formas aos mais simples elementos gerou uma pintura organizada em séries ou ciclos que evocava o princípio da ‘unidade cósmica’ (cosmos em termos formais é o universo todo naturalmente organizado e harmónico. E pode ser simples ou complexa mas opõem-se à ideia de caos.). Nesta fase do trabalho de Joaquim Rodrigo, é necessário mencionar a figura de Mondrian e os escritos de Le Corbusier em relação à secção de ouro, numa tentativa de poder atingir a verdade mais pura e objetiva. Tal como Mondrian, Joaquim Rodrigo trabalhou com princípios físicos e espirituais – quando desenhada a linha reta vertical tem uma qualidade celestial e a linha horizontal tem uma aura térrea e ambas expressam uma conceção mística, um ideal e uma perfeição. Rodrigo baseava as suas investigações em leis físicas e no conhecimento cosmológico.

No início dos anos sessenta, Joaquim Rodrigo adicionou curvas e formas orgânicas à geometria rígida. Aos poucos símbolos e figuras elementares foram aparecendo (o carácter naïve e primitivo destes elementos faz lembrar Miró) – ‘o melhor desenho é o primeiro sinal ou risco que a criança faz para recordar a sua flor…’ (Rodrigo, 1982) 
E assim, no final dos anos sessenta, os seus temas aproximam-se de narrativas que vem da memória, de recordações e apresentam cada vez mais uma relação ambígua entre a abstração e a figuração. 
Lisboa-Vitória’ (1970) é uma pintura que revela uma informação quase cartográfica. Faz lembrar as pinturas rituais executadas pelos aborígenes australianos e que tem como intenção representar o passado, marcar/possuir o território ou registar a história (os aborígenes chamam as suas pinturas de dreamings) . Joaquim Rodrigo em ‘Lisboa-Vitória’ desenhou um mapa de lembranças onde objetos e acontecimentos vividos flutuam sobre uma cor única. ‘Lisboa-Vitória’ usa elementos básicos como a árvore, o corpo humano, um bocado da planta de uma cidade, um carro, uma estrada, um castelo, uma carta e uma casa. Estes símbolos, formas, palavras e bocados de informação aparecem organizados intuitivamente como se de uma gravação direta e de uma memória de algo vivido se tratasse e se quer possuir. Joaquim Rodrigo aplica em ‘Lisboa-Vitória’ a sua maneira correta de pintar – um conhecimento básico mais próximo da realidade vivida e que é usado antes de qualquer tipo de ato racional. Deliberadamente, a pintura é intuitiva de modo a captar o momento e a sua essência na totalidade. ‘Lisboa-Vitória’ é uma narrativa imediata e singular.

 

Ana Ruepp