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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


Umberto Eco

 

Forma e Interpretação

 

O conceito de arte como forma, oposto ao conceito de arte como visão foi afirmado por Umberto Eco no texto ‘A Estética da Formatividade e o Conceito da Interpretação’ (ver ‘A Definição da Arte’, Edições 70, Arte e Comunicação, Lisboa, 2008), através da estética de Luigi Pareyson.


Toda a vida humana é invenção, é produção de formas. Toda a atividade humana, tanto no campo moral como no pensamento origina formas, criações orgânicas e perfeitas, dotadas de autonomia própria. A arte faz parte da totalidade da pessoa. O Homem orienta a sua atividade formante numa direção especulativa, prática e artística. Uma atividade especulativa implica sempre um empenhamento ético, uma missão e um dever, onde intervém o sentimento e a inteligência.


Para Umberto Eco, o que distingue a arte das outras atividades da pessoa é o facto de esta ter uma intenção formativa. É uma atividade que autónoma, investe toda a vida espiritual e da qual faz depender todas as outras atividades: ‘Na arte, a pessoa forma simplesmente por formar e pensa e age para formar e poder formar.’ (Eco: 2008)


Forma é assim um organismo estruturado, dotado de vida e cheio de expressão. A obra como forma conta e expressa a personalidade do seu criador na sua própria existência e circunstância. Arte é uma relação direta do artista com a matéria – matéria que ao ser transformada, manipulada transporta o corpo e a alma do criador (a forma ao ser formada pela matéria permite estabelecer uma relação direta entre o interior do artista e o significado da obra). Baudelaire ao escrever ‘O Pintor da Vida Moderna’ diz ainda que a unidade e a beleza das coisas têm sempre uma composição dupla – o elemento eterno associado ao elemento circunstancial (tempo, local, moral, gosto e moda): ‘He simply wanted to line life with another, truer life, the life of the ‘soul’.’ (Lefebvre: 2008). Esta dualidade caracteriza-se sempre pela associação do espírito à matéria e do individual ao coletivo.

O artista vive então na obra: ‘ Da obra de arte transpiram completamente a personalidade e a espiritualidade originais do artista, que, antes de se manifestarem no assunto e no tema, se manifestaram no irrepetível e pessoalíssimo modo de formá-la.’ (Eco: 2008, p.16-17).


No termo de arte, que aqui é considerado, o sujeito coincide com o objeto artístico. O objeto está constrangido a interpretações diversas, por isso é relativo e não absoluto – interpretações que tendem a aproximar-se do fruidor. O sujeito transporta toda a sua vida para a obra para que não haja distância entre si e o objeto. Ao dar vida a uma forma o artista pretende torná-la acessível. Ao permitir uma interpretação mais aberta a obra conduz a uma maior identidade.


Umberto Eco no texto ‘A Estética da Formatividade e o Conceito da Interpretação’ concebe ainda que a forma é um ato de comunicação de pessoa para pessoa. Uma vez formada, a forma é realidade pessoal. A obra de arte está sempre em formação – pela possibilidade de ser interpretada. A obra define-se, toma nova forma sempre que se apresenta face a uma nova interpretação. O artista forma-se na obra, portanto compreender a obra é possuir a pessoa do criador feita objeto físico.


Como já foi dito, o artista forma na obra a sua experiência concreta, a sua vida interior, a sua irrepetível espiritualidade e a sua reação pessoal ao ambiente histórico que vive. Dá forma também aos seus pensamentos, costumes, sentimentos, ideias, crenças e aspirações.

O único conhecimento que o artista institui é o conhecimento da sua personalidade concreta, feita modo de formar. Os dados internos do artista transformam-se em aspetos internos da obra.


Sendo assim avança-se a hipótese de que: Arte = Forma = Vida do artista (Interior e Exterior) = Vida do Intérprete.


Segundo Eco, existem duas personalidades concretas, a do formador e a do intérprete. A obra vive nas interpretações que dela se fazem, infinitas não só pela característica de fecundidade própria da forma, mas porque perante ela se coloca uma infinidade de personalidades interpretantes, cada uma delas com o seu modo de ver, de pensar e de ser. Umberto Eco chega mesmo a afirmar que a obra é abertura à personalidade do artista – a abertura implica o exercício de interpretação de uma outra personalidade.


Na forma, todo o mundo pessoal organiza-se de um modo cuja característica é precisamente a possibilidade de se apresentar sempre completo sobre diversos pontos de vista – as situações pessoais dos intérpretes tornam-se ocasiões de acesso à obra. E cada abordagem é um modo de possuir a obra, de a ver inteira e sempre passível de ser percorrida por novos pontos de vista. A obra ao ser sensível a diversas preferências pode assim ser espelho do intérprete (ao falar de si mesmo, ao clarificá-lo). A interpretação é provisória e aproximativa. O intérprete torna-se órgão de acesso à obra e, revelando a obra na sua natureza, exprime-se ao mesmo tempo a si próprio. Torna-se conjuntamente a obra e o seu modo de ver a obra. Arte é um discurso infinitamente aberto onde duas verdades se erguem – a do sujeito artístico e a do sujeito fruidor.


O sujeito criador não se descreve segundo dogmatismos ou certezas irrefutáveis mas sim perante um universo aberto de possibilidades que não implicam um estado ideal de criação. A ideia de desconstrução associada ao artista da nova vanguarda pode sugerir destruição, mas na verdade trata-se do oposto, procura-se antes encorajar a pluralidade de discursos – porque não existe uma única verdade e uma única interpretação.

 

Ana Ruepp