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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A Vanguarda e a Nova Vanguarda

 

O processo de negação do passado traz as formas novas, as formas do futuro e traz a vanguarda. A vanguarda cultiva o espírito novo, conquistando uma nova forma de linguagem acessível (por ser abstracta e racional), inteligível e passível de ser utilizada por todos, no presente e no futuro. Assiste-se à subalternização de qualquer influência das formas tradicionais.

O uso de um código fundamentado, não no passado, mas na mudança dinamiza o recurso a valores volumétricos, em permanente evolução. A investigação formal está associada, muitas vezes à metáfora da máquina, da velocidade e do movimento da urbe. Este novo código traz consigo novas técnicas e novos materiais.
O artista da vanguarda é um farol, traz sempre um ideal, a novidade e a verdade. O artista da vanguarda tem uma missão universal a cumprir e por isso tem necessariamente um estatuto elevado e visionário. É um símbolo heróico da eterna resistência a tudo o que é passado, tradicional, opressivo e corrompido na civilização burguesa, sendo mesmo considerado um salvador. Pretende construir o novo, a partir do espírito do tempo presente, para o futuro. Constrói a partir de uma forma elementar e racional que resulta da função, da técnica e da geometria e que não é usada como símbolo, mas antes como elemento facilmente reconhecível, à medida do Homem. A arte de vanguarda torna-se objecto privilegiado, moralmente inatacável e abstrai todos os sinónimos de beleza, erudição, técnica e virtuosismo.
O final dos anos sessenta aparece como um momento múltiplo e diverso. A procura pela liberdade é importante, mas o interesse pela ideia de progresso e do constantemente novo desvaneceu-se. Cada artista passa a seguir a sua orientação pessoal em que já não faz sentido nenhuma espécie de ortodoxia revolucionária. Esta é uma época que se abre não só no sentido do futuro (vanguarda) mas também no sentido do momento, do agora e do passado (nova vanguarda). A procura dadaísta em muito contribuiu para a construção desta nova expressão. E o progresso constrói-se deste modo com passos no presente, no passado e no futuro.
O artista da nova vanguarda denuncia as fragilidades do artista herói. O artista da neo-vanguarda consagra o banal. O sujeito criador agora não se descreve segundo dogmatismos ou certezas irrefutáveis mas sim perante um universo aberto de possibilidades que não implicam um estado ideal de criação. A ideia de desconstrução associada ao artista da nova vanguarda pode sugerir destruição, mas na verdade trata-se do oposto, procura-se antes encorajar a pluralidade de discursos - não existe uma única verdade ou interpretação.
Susan Sontag, em 1966 no ensaio ‘Against Interpretation’ fala da necessidade do novo artista conceber com verdade e transparência para diminuir a importância do conteúdo, para que o todo se torne a preocupação central (‘To avoid interpretation, art may become parody. Or it may become abstract. Or it may become (‘merely’) decorative. Or it may become non-art.’). A propósito da eliminação entre a diferença entre forma e conteúdo, Sontag escreve: ‘What is important now is to recover our senses. We must learn to see more, to hear more, to feel more.’ (Sontag: 2008). Para Sontag, as obras de arte devem ser reais para o intérprete – evocando analogias e experiências: ‘to show how it is what it is, even that it is what it is, rather than to show what it means.’(Sontag: 2008)
Fazer arte ou arquitectura implica antes um conhecimento facilmente entendível por todos e que qualquer um possa fazer. Por isso estabelece-se um tempo multidisciplinar – todos os assuntos interessam e podem cruzar-se, incluem-se todas as contradições e todas as vontades do mundo. A arte pode assim coincidir com a vida e acompanhar as suas rotinas, trazer memórias e cultivar interesses individuais. O ego difunde-se. O artista pode ser um coleccionador de memórias, um utilizador de ideias em segunda mão. Luta por uma arte anti-elitista, anti-autoritária. A arte torna-se participada, comum, opcional, gratuita, anárquica, irónica, absurda e paródica. Apesar do niilismo e da desvalorização da arte sentida no final de sessenta, desmascaram-se verdades, e questionam-se critérios absolutos e universais. Coloca-se o sujeito perante a sua liberdade e responsabilidade, agora não mais controlado, nem sufocado.

 

Ana Ruepp