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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Cinco factores associados à emergência do Movimento Moderno

 

O Movimento Moderno, em arquitectura, surge associado à ideia de vanguarda, como resposta formal social ao processo de industrialização e à crença no progresso que pode transformar a finalidade da arte. Emergiu, em certa medida, de acordo com a articulação dos seguintes factores:

1. Definição de um modo único, racional e lógico para responder aos desafios da vida moderna e agir à agressão do mundo industrial – que pôs fim à questão dos estilos oitocentistas. A procura do absoluto, proposto pelo movimento moderno, estabelece-se através de uma linguagem baseada no purismo (ao reabilitar o objecto trazendo-o à sua expressão mais simples), no rigor, no ‘lirismo do ângulo recto’, na presença constante dos grandes mestres, e na fidelidade aos lemas miesianos – ‘despojamento é riqueza’ e ‘menos é mais’. Adolf Loos opõe-se a uma atitude ornamental e recusando a originalidade inventiva propõe toda a ‘cubagem do edifício’ económica, racional (em tempo e em meios), pré-fabricada e padronizada.

2. Investigação formal ligada à técnica, referenciada à metáfora da máquina e a uma estética tendencialmente abstracta (em 1908, o historiador Wilhelm Worringer (1881-1965) introduz a ideia de que a arte abstracta não é de algum modo inferior em relação à arte realista/orgânica e que implica sim uma intensa actividade espiritual associada a uma forma mais primitiva de observar o mundo.). A técnica é baseada em novos materiais de construção. No início do séc. XX, são experimentados novos materiais com sucesso na produção industrial, massificada e estandardizada – as chapas de vidro são produzidas em maiores dimensões e o betão começa a ser um meio de construção eficaz e barato. Os arquitectos associam-se à produção industrial. A Bauhaus tem um papel determinante porque possibilita um desenho novo e acima de tudo um novo estatuto para o arquitecto.

3. Procura por uma arte colectiva: Através da representação formal de uma funcionalidade puramente social da arte, abandona-se uma expressão individual a favor de um sentimento universal belo - na procura por um dever moral (a arte acima das emoções), por uma ética, por um assumir a virtude da produção estandardizada. Manuel Tainha refere-se ao postulado da arquitectura moderna como sendo um assumir de uma posição que refaz a vida dos deserdados da terra, dos pobres, dos operários, dos que vivem nas cidades sem higiene, sem sol, sem espaços verdes – os temas são já os da vida quotidiana porque já não é o monumento que faz o arquitecto. ‘A arquitectura já não propõe a glorificação do poder do estado ou da igreja. Para a arquitectura moderna todas as pessoas são iguais.’ (Manuel Tainha, 2008). E a habitação colectiva é o meio programático de experimentação social ideal.

4. Revolução permanente associada ao desejo constante de mudança e transformação do mundo. A procura incessante pelo novo e pelo progresso é o motor da produção da arquitectura e da arte. O movimento moderno busca o seu fundamento não no passado (em contraposição ao séc. XIX que tinha a percepção do passado como fonte de formas disponíveis para serem utilizadas), mas baseia no espírito do tempo, o fundamento para a construção de formas que se prolonguem no futuro. Estas ideias de justeza e pureza originam a utilização de um vocabulário de natureza abstracta – Mondrian, por exemplo, apostava numa abstracção baseada no valor de medida, de rigorosa claridade, de ideal tranquilo e procurava nas leis secretas do universo a fundação da síntese das artes (Tostões, 2002). Tanto Giedion como Pevsner admitem a importância da revolução que ocorreu na pintura no início do séc. XX (sobretudo com o aparecimento do cubismo) para o desenvolvimento da arquitectura moderna. A abstracção sucede da ideia primeira de Cézanne ‘em tratar a natureza pelo cilindro, a esfera e o cone’ – ao associar a natureza à geometria criou-se um processo conceptualizante muito útil para o cubismo (Tostões, 2002). O cubismo ao dar matéria a uma composição marcada pela simultaneidade (espaço e tempo coincidem), planaridade, transparência e múltiplos pontos de vista introduz uma nova direcção, irreversível para a história da arte – que passa a descodificar o mundo segundo uma visão nova, onde tempo, espaço, saber e experiência coincidem num só plano. Mas também a aspiração da vanguarda ao dissolver a arte na vida faz da abstracção o meio de expressão mais adequado, na medida em que se declara também uma espécie de anonimato (do autor e do utilizador que se reduzem a um homem genérico). As formas geométricas são as mais adequadas (o puro paralelepípedo) e as cores primárias são as mais verdadeiras – na arquitectura de Rietveld o uso das cores primárias serve para definir o espaço. E o novo conceito de arquitectura da vanguarda é encarada como a arte do espaço.

5. O desejo de sinceridade e de verdade manifestam-se na ideia de funcionalismo, que produz formas que advêm meramente da utilidade e dos meios. Para Gropius construir significa organizar as formas segundo um espírito novo. A construção deriva da própria essência do edifício, isto é, da função que ele deve cumprir. Na época do funcionalismo, o pensamento utópico surge como reflexão e lamento à realidade e que não tem nenhuma consequência que contribua de facto para a mudança e para o progresso. O objectivo está em encontrar uma estrutura pragmática artística que consiga inserir-se numa justa dimensão social.

 

Ana Ruepp