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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Arte povera e a experiência primária do real.
 

‘The commonplace has entered the sphere of art. The insignificant has begun to exist. Physical presence and behaviour have become art. They eliminate from their inquiry all which may seem mimetic reflection and representation or linguistic custom in order to attain a new kind of art.’, Germano Celant In ‘Arte povera – Im spazio’, 1967
 

No final da década de 1960, assistiu-se à desmaterialização do objecto da arte, isto é, a arte não precisa mais ter uma forma física para ser arte. Palavras como conceito, sistema, abertura, estrutura, processo, situação, informação, público e sociedade tinham particular importância na produção da arte. O trabalho do artista deve então ser feito a partir da própria situação real – podendo o fruidor intervir nessa situação e até mesmo alterá-la. Não existe mais o culto do objecto isolado. Não existe mais uma cultura universal, aceita-se trabalhar com novas e diversas realidades.  

Ora, em resposta à Pop Art e ao minimalismo surge em Itália um grupo de artistas (como por exemplo Giuseppe Penone, Michelangelo Pistoletto, Mario Merz e Marisa Merz) que reclama por uma produção de objectos de arte capaz de contrariar a ideia de riqueza, de poder, trabalhando contra a ordem tecnológica do mundo, contra a produção industrial na arte. A Arte Povera é um fenómeno que surge associado à recusa do artista em ser artista. O artista não deve fazer uma obra de arte porque a obra de arte é um objecto e numa sociedade de consumo é mercadoria associada à riqueza e ao poder. O artista não é um produtor mas um indivíduo dedicado à projecção independente da actividade humana (Christov-Bakargiev: 1999). O artista agora interessa-se pelo presente e pelo homem real. (Argan: 1992)

Ao ser arte do presente tem de ser um acontecimento integrado numa realidade próxima e reconhecível, envolvendo directamente o público em situações enigmáticas e desconcertantes. O artista e o fruidor passam a ser em simultâneo espectador-actor.

Na expressão de Germano Celant o lugar-comum entra na esfera da arte, o insignificante começa a existir, a presença física e o comportamento tornam-se arte. (Christov-Bakargiev: 1999)

O grupo Arte Povera está sobretudo interessado em descobrir intersecções entre a arte, a vida, a natureza e a cultura. É um fenómeno que se manifesta ora conceptual, ora sensual, literal ou metafórico, poético. É um processo do presente, que aceita a contradição, a complexidade, a abertura, a fluidez e a subjectividade. Os artistas não rejeitam totalmente as técnicas tradicionais – até porque esta batalha já tinha sido programada por uma geração anterior com Yves Klein e Piero Manzoni.

A Arte Povera traz de volta à sociedade acontecimentos essenciais (como a vida e a morte). E é pobre no sentido em que reduz o objecto artístico ao elementar, através de gestos e proposições áridas – é por isso um fenómeno anti-intelectual, como se pretende-se atingir um estado poético a partir dos meios mais simples (Christov-Bakargiev: 1999, p.20). A experiência que cada pessoa tem do mundo torna-se essencial, implicando uma libertação gradual de preconceitos, regras e normas da linguagem da representação e da ficção que impedem uma ligação simples e significativa do eu com o mundo. A Arte Povera não dispõe de uma técnica própria e não procede a uma selecção de materiais artísticos mas utiliza tudo o que constitui matéria da realidade mundana manufacturada (néones, vidros, panos, tubos) ou matéria orgânica (vegetais, animais vivos, madeira, terra, fogo, água) ou ainda nem mesmo utiliza material algum, tomando como tal o ambiente, as condições do aqui e do agora ou até mesmo a pessoa física do artista. Não se pretende descobrir a relação entre o natural e o artificial, mas sim entre estruturas idênticas como natureza e cultura. A arte passa a ser autêntica e espontânea, passa a ser uma experiência real, vivida directamente, primária e não mediada através de uma representação (figurativa ou abstracta), ideologia ou de uma linguagem codificada. A energia da experiência primária pretende corresponder por um lado a forças físicas básicas da natureza (como a gravidade e a electricidade), por outro lado corresponder a elementos fundamentais da natureza humana (como vitalidade, memória e emoção).

A crítica como meio credível para descodificar e avaliar o fenómeno artístico é rejeitada e antes substituída por comentários ou entrevistas aos artistas. O que interessa na Arte Povera é maximizar a experiência universal e individual com o mínimo de linguagem. É portanto uma arte pública porque se alimenta da interacção directa e concreta do Homem com o seu contexto cultural e ambiental. (Christov-Bakargiev, 1999)

Ana Ruepp