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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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R. M. Schindler e a construção do declive.
 

‘The space house as a space form becomes a part of the room formed by the lot, the surroundings, contours, and the firmament.’, R. M. Schindler
 

Entre 1920 e 1960, Los Angeles foi palco de experimentações construtivas excepcionais. O denominador comum foi o declive.

Frank Lloyd Wright (1867-1959), Rudolph Michael Schindler (1887-1953) e Richard Neutra (1892-1970) desenvolveram novas relações entre o objecto construido e o sítio declivoso e transportaram valores modernos, interrogando a sua relação com o terreno (as fundações, a implantação e o encaixe). O sítio não foi só entendido como um problema a resolver, foi material de teorizações e foi gerador morfológico e tipológico.

O encontro entre o sítio e o objecto é uma das preocupações mais importantes. É o arquitecto que decide se o declive é ou não tema de estudo e possibilita a coordenação entre o natural e o humano.

Los Angeles é composta por planícies e montanhas declivosas – a zona residencial, por excelência, situa-se sobre a cidade. A zona alta da cidade densificou-se a partir dos anos 50. A opção de construção nas zonas mais declivosas teve origem, nos anos 20, na classe intelectualizada e artística da sociedade – disposta a uma arquitectura de cariz modernista. Arquitectos como F.L. Wright ou outros vindos da Europa (como Schindler e Neutra) desenvolveram variações numa gramática ainda recente. Rudolph Schindler e Richard Neutra trabalharam com Wright. Wright colocou em relação directa o Homem e a natureza: a plástica das suas formas é desenvolvida pelos motivos e materiais do local. Ora, a premissa do espírito do lugar, desenvolvida por F. L. Wright – em que o projecto não nasce de uma teoria abstracta sobre o espaço, mas sim da realidade física e específica do local – inspirou R.M. Schindler. Com Schindler as construções em zonas declivosas perderam a estrutura, o betão e a ideologia social para dar lugar à dimensão atmosférica.

Em Los Angeles, os arquitectos e os seus clientes desenvolveram uma espécie de estética do terreno – a mais valia arquitectónica estabeleceu-se pela situação do edifício (vista e isolamento). Quanto mais hostil o terreno for (e as pendentes poderiam atingir os 40 graus), menos dispendioso o terreno e mais aptidão formal e técnica teria o arquitecto. A importante variável deste processo construtivo é a implantação no declive. Existem inúmeras possibilidades de implantação do edifício a diferentes alturas. Foi Wright que estabeleceu a diferença entre construir in e on the hill, com o projecto ‘hill house’ – o objecto arquitectónico situa-se no declive, participando da sua circunstância geológica e no seu movimento natural. O sítio não é um constrangimento à arquitectura. O projecto é assim, neste caso, um desenvolvimento geológico.

R.M. Schindler considerava o declive como um local privilegiado para a experimentação, acreditando que o edifício é um sólido em movimento num plano inclinado (o declive é assim considerado um movimento descendente em que a arquitectura pode parar, amplificar ou contrariar). O objecto construído não pode ser reduzido a um simples paralelepípedo – essa simplificação nega qualquer esforço em construir a configuração da inclinação. Schindler pensava no sítio em termos dos seus elementos atmosféricos (ar, luz e espaço) e das suas propriedades físicas.

Os projectos de Schindler conciliam dois sistemas: o sistema vertical, que estuda o espaço que existe entre o terreno e o objecto (neste sistema os objectos podem estar completamente colados ao chão, suspensos ou a pairar); e o sistema dos movimentos, que aborda os efeitos produzidos por um volume no declive – o objecto pode poisar simplesmente no terreno; pode acompanhar gradualmente o ângulo; ou pode apresentar um movimento contrário à inclinação. Por exemplo a Wolfe House (1928) concretiza o conceito de balacing, porque o seu volume decorre do contacto da luz e da suspensão das camadas. Em Walker House (1936) verifica-se o conceito de cascade e o seu volume varia entre  conceitos como imersão, desajustar, desdobrar, esticar e deslocar (lateral, frontal e convulsivamente). A Van Patten House (1936) actualiza o conceito de countermotion e demonstra que o volume ao contactar o terreno pode ser desacelerado, formar uma ligação ou ponte e pode ainda evitar precipitação e queda.

Em 1949, Schindler elaborou uma série de notas, para a Santa Barbara University Archives, onde estabeleceu uma tipologia para as diferentes formas de colocar o edifício no declive. Sistematizou assim o seu trabalho sucessivo (desenhou cerca de cem edifícios em Los Angeles) e formulou uma teoria para a sua prática. Construiu e justificou as formas dos seus projectos, possibilitando o seu uso sistemático, tipológico e standartizado. Elaborou a sua teoria formal e permitiu a industrialização de um processo complexo e importante para a afirmação do modernismo internacional – a construção em zonas declivosas.

 

Ana Ruepp