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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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A nova concepção espacial no movimento moderno – Walter Gropius.

 

‘We live for the most part within enclosed spaces. These form the environment from which our culture grows. Our culture is in a sense a product of our architecture. If we wish to raise our culture to a higher level, we are forced for better or for worse to transform our architecture. And this will be possible only if we remove the enclosed quality from the spaces within which we live. This can be done only through the introduction of glass architecture that lets the sunlight and the light of the moon and stars into our rooms not merely through a few windows, but simultaneously through the greatest possible number of walls that are made entirely of glass.’, Paul Scheerbart, Glasarchitektur, 1914
 

Em ‘Arte Moderna’, Argan escreve que espaço para Walter Gropius (1883-1969) ‘é uma pura, inclassificável e ilimitada extensão’. Só começa a existir espaço, para Gropius, quando é considerado como dimensão virtual do agir ordenado, projectado, formativo de um grupo social – por grupo social entende-se não a sociedade em abstracto, mas sim um grupo de pessoas que compartilham uma experiência formativa. Segundo Argan, a obra urbanística e arquitectónica de Gropius não pode ser considerada como a pura e simples aplicação de uma fórmula racionalista. Não esqueçamos que o funcionalismo alemão nasceu a partir do expressionismo, nomeadamente a partir do Grupo de Novembro (1918). O expressionismo alemão concebeu uma nova dimensão à arte, a subjectiva. Acrescenta à realidade observada (no que diz respeito à proporção, perspectiva e cor) a emoção do sujeito. O expressionismo encontra o seu processo através de temáticas do seu tempo. E não se define pelo narrar fidedigno da própria realidade, mas por tentar ser uma síntese do mundo (ao trazer consigo uma moral, apesar de subjectiva e certos princípios sociais). A arquitetura expressionista tem de sobretudo ser expressão da vontade do tempo e do homem.

O início do percurso de Walter Gropius coincidiu com o período da Alemanha da Deutscher Werkbund (iniciado em 1907) e com a colaboração no atelier de Peter Behrens de 1907 a 1910, aquando do projecto da Fábrica de Turbinas da AEG. O edifício da Fagus, projectado em 1911, foi o primeiro grande projecto que Gropius recebeu logo após começar o seu próprio atelier. De acordo com Giedion em ‘Space, Time & Architecture’, o edifício da Fagus consegue aproximar, através da honestidade formal e material, pensamento e sentimento. As superfícies planas predominam nesta fábrica. As paredes de ferro e vidro intersectam-se de modo límpido sem necessitar recorrer ao uso de pilares. As paredes transparentes de Gropius mostram as novas potencialidades do ferro, do vidro e do betão e provam também que já não são as paredes exteriores que suportam o edifício, mas são simplesmente cortinas que protegem contra a chuva, o frio e o barulho. Para Giedion, as paredes de vidro da Fagus são um resultado directo da crescente preponderância dos vazios sobre os sólidos, e igualmente a concretização, numa expressão una, da desejada aproximação entre arquitetura e construção (tema aliás muito presente na arquitetura do final do séc. XIX). Por isso, neste projecto, o vidro assume uma enorme importância estrutural, e possibilita: a iluminação orgânica do interior; o tratamento límpido da parede, como se de um ecrã completamente plano se tratasse; a anulação da separação entre o espaço interno e externo; e uma nova relação não convencional entre carga e suporte. A luz entra sem impedimentos, os pilares assumem-se por trás da fachada e o edifício não é somente uma massa plástica mas sim uma construção geométrica de planos transparentes no espaço.

Já Argan, acredita que com a Fagus, Gropius modificou radicalmente a concepção da arquitetura industrial, resolvendo simultaneamente o problema da instrumentalidade do edifício e o problema das condições higiénicas e psicológicas do trabalho: ‘O trabalho deve acomodar-se em palácios que proporcionem ao operário, agora escravo da actividade industrial, não só luz, ar e higiene, mas também alguma indicação dessa grande ideia comum que move tudo.’, Gropius

Acerca da ‘Fabrik’ construída para a exposição da Deutscher Werkbund, em Colónia, que Gropius concebeu em 1914, Giedion escreve: ‘Here there were spiral staircases entirely encased in glass. They seem like a movement seized and immobilized in space.

O edifício da Bauhaus, em Dessau, que Gropius projectou em 1925 é a obra mais significativa do racionalismo alemão. Inscreve-se no tecido da vida urbana, através da organização unitária mas justaposta de diversos paralelepípedos e estabelece uma aproximação entre diversas realidades (interior e exterior; construção e concepção).

‘The architect’s chief aim was to produce a clear separation of each function, at the same time not isolating them but bringing them together into efficient interrelation.’, Sigfried Giedion, ‘Space, Time & Architecture’.

Giedion escreve que o edifício da Bauhaus é a mais bem conseguida materialização das ideias trazidas pela arte do seu tempo: existe uma variedade de pontos de referência e simultaneidade de espaço e tempo, de interior e exterior. A transparência de alguns dos planos permite a sobreposição e a coincidência de espaços e a desmaterialização das arestas dos volumes. Segundo Argan a razão prática para o máximo de ar e luz, nos laboratórios, por exemplo, apresenta um aspecto ideológico – numa comunidade democrática as casas são de vidro, porque nada escondem e tudo comunicam.

E por isso, como foi analisado no texto da semana passada, o espaço cubista torna assim viável e habitável a formação de um novo espaço no movimento moderno – porque traz para a arquitectura uma nova concepção onde interior e exterior se interpenetram incessantemente e porque, como se verifica na obra de Gropius, concretiza conceitos como simultaneidade, intersecção, transparência, continuidade, vazio e realidade – nomeadamente através do recurso a novos materiais e tecnologias como acontece na construção das cortinas de vidro (afirmando uma aproximação clara da arquitetura à indústria).

 

Ana Ruepp