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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Acerca do texto ‘Fernando Távora: 12 Anos de Actividade Profissional’ de Nuno Portas.

 

‘O que nos impressiona é o facto de nessa obra se ter encarado o problema da adequação das necessidades, ao meio, às possibilidades da mão-de-obra e da indústria, disponíveis, sem lhe ter sido necessário adoptar de antemão outro sistema formal feito.’, Nuno Portas, ‘Fernando Távora: 12 Anos de Actividade Profissional’, 1961

 

No texto ‘Fernando Távora: 12 Anos de Actividade Profissional’, publicado na revista Arquitectura (n.º 71, Jul. 1961), Nuno Portas pretende o entendimento de algumas das obras de Fernando Távora, descodificando evoluções, métodos, referências, suscitando reflexões que se constituem úteis para a cultura arquitectónica portuguesa.

A actividade de Fernando Távora, iniciada nos anos 50, é apresentada num tempo de procura, num tempo de renovação do vocabulário da modernidade (‘É mal inevitável de uma cultura fechada que as tentativas de renovação, ainda que tardias, se concretizem por forma radical, mesmo quando o seu autor as faz acompanhar de veementes protestos de equilíbrio ou ‘continuidade’.‘). Em Portugal, as dificuldades do pós-guerra trouxeram cedências, por parte das Câmaras e do Estado, no âmbito da arquitectura e do urbanismo. Estas cedências fizeram resultar propostas de cariz social e racionalizante, apresentando uma simplificação e um radicalismo provisórios. Na obra de Fernando Távora, distingue-se uma fase inicial de autenticidade funcional, depurada de formas, e uma fase posterior de ‘…superação da inevitável simplificação conceptual que este estádio comportava.’

‘O Problema da Casa Portuguesa’, escrito em 1947, por Távora é apresentado no texto de Portas como sendo um conjunto de razões, de um discurso arquitectónico, que pretende promover a conciliação do Movimento Moderno com as raízes do regionalismo, sobretudo como factor contrário ao nacionalismo fascizante. É questionado e contestado o nacionalismo, como travão à modernização. O escrito de Távora propõe uma investigação do meio português, sendo indispensável para a determinação de condições da Terra ou do Homem no seu presente e no seu desenvolvimento histórico. Estabelece-se como um modelo estabilizado que evita o erro e sustenta a prática profissional – é a tentativa de Távora ao constituir regras de linguagem próprias. As condições da circunstância portuguesa variam e é necessário enraizá-las, não pelo pitoresco, nem pela estilização mas pelo sentido de modernidade. Em 1955, deu-se início ao Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa por iniciativa do Sindicato Nacional dos Arquitectos. Esta data marcou o início de afirmação de uma geração também atenta às referências neo-realistas que proliferavam na Europa, a partir de Itália. O Inquérito representou uma inventariação séria do património e uma resposta à ideologia imposta pelo regime. Procuravam-se ultrapassar as modas formalistas do Estado Novo e constituir um método que equilibrasse o conhecimento da verdade portuguesa com a moderna arquitectura. Foi a geração mais nova e contestatária defensora desta nova perspectiva que, em 1956, tomou a revista Arquitectura, que se tornou um poderoso meio de divulgação das novas ideias. Além de Fernando Távora, Nuno Teotónio Pereira (Casa Metelo, 1958-59), Manuel Taínha (Pousada de Santa Bárbara, 1957-66, Casa do Freixial, 1958-60), Januário Godinho (Pousada de Salamonde, 1951; Pousada de Pizões, 1959) e João Andresen (Casa de Ruben A., 1950; Casa Lino Gaspar, 1953-55) foram também os mensageiros desta nova fase.

Nuno Portas dá a conhecer o método de trabalho de Fernando Távora através de exemplos construídos concretos:

  • Ramalde, 1952 – ensaio de um espaço, ainda à luz do espírito da Carta Atenas, constituindo-se como uma oportunidade funcionalista (‘…com a sua subordinação declarada à exposição das fachadas, de terreno livre, num zoning definido à letra (…) um gosto simplificador, na sua caixa cúbica, o geometrismo de implantação.’) de contraposição ao espírito de Alvalade, a uma vida de vizinhança e à tradição. Ramalde é uma resposta valorizada à proposta de Jacobetty Rosa – apostando numa melhoria das condições de vida, com melhor insolação e varandas de maior dimensão.
  • Bloco de Apartamentos na Foz, 1953 – inserção de edifício de habitação na avenida marginal, com inclusão da reflexão crítica sobre tradição, história e modernidade.
  • Mercado da Vila da Feira, 1953 – surge como uma ‘…especialização de espaço urbano…’, com escala fora do alcance da rotina do moderno e que ‘…não deixou de acentuar a extraordinária sensação de envolvência e totalidade de um espectáculo humano que o centro do pátio, figurativamente, sublinha.’
  • Casa de Férias de Ofir, 1956 – única imagem que ilustra o texto de Nuno Portas, é a expressão formal de um ‘…ruralismo de meios…’. Constitui um projecto-manifesto, contemporâneo da publicação do Inquérito – sintetiza a arquitectura moderna adaptada ao sítio, humanizada, onde cada corpo da habitação tem uma função estabelecida, confirmando-se a relação do interior da casa com o jardim exterior.
  • Pavilhão de Ténis do Parque da Quinta da Conceição, 1956-60 – obra que se realiza somente quando está em funcionamento: ‘…como pode viver uma obra, hoje, ‘por si’? Como pode bastar-se em espectáculo de equilíbrios, de proporção, de escala, de gosto?’ O pavilhão apresenta um domínio da escala, dos materiais, das técnicas tradicionais convertidas ao conceito de modernidade – os materiais são valorizados ao serem expostos. Távora não esconde os sistemas de construção utilizados, antes pretende afirmá-los, humanizando-os – betão armado à vista, planos soltos.
  • Bloco de Habitações da Rua Pereira Reis, 1958-60 – proposta exemplar pela sua integração numa rua-corredor, reagindo contra uma forma de integração mimética e uma decoração supérflua que pretende afirmar o objecto no conjunto das edificações preexistentes. A propósito ainda desta obra, Portas faz referência a dois edifícios de Alvar Aalto para justificar a estratégia de Távora ao optar por uma solução de fachada rígida com organização interior rica, apesar das ‘…limitações de programa e o condicionalismo cultural de um tipo de vida.’
  • Escola Primária do Cedro, 1957-61 – o crítico apresenta a solução ao não conseguiu contrariar certos ‘…tabus que pesam sobre os programas…’. As formas lêem-se cruas, a integração na mata é exuberante e a imposição de que o que o arquitecto cria é de responsabilidade cívica.

Nuno Portas reconhece o caminho excepcional de Távora, que privilegia a experiência, orientando-se na procura prática de um determinado método pedagógico. O método de Távora estabelece-se ao aceitar as condições do sítio, de quem habita e de quem constrói. Sendo assim, o condicionalismo de Távora, assumido com modernidade, é contra o exibicionismo, é modesto, ao aplicar materiais locais. Segundo Portas, integração realista e serviço passaram a ser duas necessidades modernas, substituindo ‘…um dogmatismo feito às vezes de abstracções ideológicas…’. É um método que ‘…pode acabar por não ser dominado na sua essência e implicações e tentar o arquitecto a satisfazer-se por respostas parciais, no plano de certas conquistas formais…’. Existe uma dificuldade real em enraizar a arquitectura como estrutura transformadora de aspectos da vida do Homem – a desordem e a descontinuidade das condições que as cidades contemporâneas oferecem não constitui referência, motivo, nem valor para o arquitecto. A arquitectura ao revestir a vida do Homem deve assumir a responsabilidade de organizar, de forma inteira, o espaço que a cerca. (Távora, 1999)

 

Ana Ruepp