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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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A nova concepção espacial no movimento moderno – Le Corbusier.

 

‘Os nossos olhos são feitos para ver as formas sob a luz. As formas primárias são as formas belas porque se lêem claramente.’, Le Corbusier, ‘Por uma arquitetura’ (2004)

 

Para Argan em ‘Arte Moderna’, Le Corbusier concebia ‘no dever de fornecer à sociedade uma condição natural e ao mesmo tempo racional de existência, mas sem deter o desenvolvimento tecnológico.

Segundo Alan Colquhoun em ‘Modern Architecture’ (2005), Le Corbusier (1887-1965), logo após a Grande Guerra (1914-18), invoca o espirito do classicismo e da geometria. A grande impressão causada pelo Pártenon (antes da Guerra, Le Corbusier viajou pelos Balcãs, Istambul, Atenas e Roma), combinada com os ensinamentos que adquiriu com Auguste Perret e Peter Berrhens, converteram Le Corbusier ao classicismo, e assim cedo renunciou à tradição do Jugendstil de inspiração medieval da sua educação.

Em 1917, Jeanneret instalou-se permanentemente em Paris, montou um atelier através do seu amigo, o engenheiro e empresário Max Dubois e também iniciou a pintura a óleo, incentivado por Amédée Ozenfant. A base do seu trabalho, tanto em arquitetura como em pintura, é a concepção espacial de interpenetração do espaço interior e exterior. Depois de Jeanneret e Ozenfant se autodenominarem puristas, fundaram juntamente com o poeta Paul Dermée a revista L’Esprit Nouveau, em 1920. O tema principal de L’Esprit Nouveau era a relação problemática entre a arte e sociedade industrial. Compartilhava com De Stijl a ideia de que o mundo industrial moderno trazia consigo a transformação do individualismo em colectivismo, e, também acreditava que a arte e a ciência não são opostos e que a sua união poderia sim gerar uma nova estética. Porém, L’Esprit Nouveau anuncia uma nova estética clássica em seu espírito – e esta ideia apresentava-se por uma constante justaposição de artigos acerca do velho e do novo. No ensaio ‘O purismo’, presente no número 4 de L’Esprit Nouveau, Jeanneret e Ozenfant introduzem a ideia de objet-type. Neste texto, os autores por um lado louvavam o cubismo pela abolição da narrativa, pela simplificação das formas, pela compressão da profundidade pictórica e pelo método de selecção de determinados objectos como símbolos da vida moderna; mas, por outro lado, condenavam o cubismo pela deformação e fragmentação superficiais do objecto e exigiam o restabelecimento desse mesmo objecto, através então da criação do objet-type. O pavilhão de L’Esprit Nouveau, construído para a Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris, em 1925, foi desenhado por Le Corbusier com o objectivo de se dirigir a um homem banal, que vivia numa economia de pós-guerra dominada pelo consumo massivo e a produção em série:

‘My intention was to illustrate how, by virtue of the selective principle (standardization applied to mass-production), industry creates pure forms; and to stress the intrinsic value of this pure form of art that is the result of it. Secondly to show the radical transformations and structural liberties reinforced concrete and steel allow us to envisage in urban housing - in other words that a dwelling tan be standardized to meet the needs of men whose lives are standardized. And thirdly to demonstrate that these comfortable and elegant units of habitation, these practical machines for living in, could be agglomerated in long, lofty blocks of villa-flats.’, Le Corbusier

Foi através de Auguste Perret (1874-1954) que Le Corbusier aprendeu a considerar o betão armado como o material estrutural moderno por excelência. E Corbusier entendia o betão como um meio para glorificar a industrialização do processo construtivo. A sua primeira encarnação desta ideia foi a estrutura Dom-ino (1914), desenhada com a ajuda de Max Dubois. Os pilares e as vigas constituíam-se num sistema pré-fabricado, independente das paredes exteriores e interiores, e sobretudo independente de qualquer organização espacial. Segundo Colquhoun, foi a partir da casa Citrohan (Weissenhof Siedlung, Estugarda,1920) que as obras de Le Corbusier se converteram em prismas abstractos. As paredes exteriores ao serem superfícies planas, uniformes e homogéneas, possibilitavam a desmaterialização da memória tectónica do objecto construído. Na casa Citrohan, o esqueleto estrutural torna-se oculto e invisível, as janelas abrem-se independentes da posição dos pilares que estão recuados em relação ao plano da fachada e, assim, um só volume cúbico e uma massa límpida se afirma – ao contrário, por exemplo do que acontece na obra de Mallet-Stevens ou Van Doesburg em que vários volumes cúbicos se sobrepõem e formam um objecto maciço. Ora, foi durante a concepção da casa Citrohan, que Corbusier publicou os ‘cinco pontos de uma arquitetura nova’: o uso de pilotis, a planta livre, a janela corrida, a fachada livre e a cobertura ajardinada. A propósito da Villa Stein e da materialização dos cinco pontos, Le Corbusier dizia que o exterior deveria afirmar uma vontade arquitectónica e embora o interior devesse satisfazer todas as necessidades funcionais, deveria sobretudo converter-se num campo de improvisação plástica desencadeada pelas condicionalidades da vida doméstica e dando assim origem à promenade architecturale – porque como se lê em ‘Por uma Arquitetura’, ‘A planta traz em si a essência da sensação.’.

A oposição/tensão então verificada entre o conceito de interior livre e o exterior límpido na obra de Le Corbusier, durante a década de 1920, alcançou o seu ponto culminante com o projecto da Villa Savoye em Poissy (1929-1931). Dentro de uma pureza geométrica branca e de um prisma que flutua sobre finos pilotis, o interior é livre e assimétrico e obedece a uma lógica dinâmica própria. Verifica-se assim o movimento das paredes da cobertura, o vazio do jardim suspenso interno, as obliquidades das rampas e a cavidade em sombra dos espaços vazios sobre o terreno. Segundo Argan, Le Corbusier pousou ‘a Villa Savoye na relva como um objecto, sem perturbar coisa alguma’. O espaço é contínuo – a natureza aberta que envolve o bloco hermético entra dentro da casa. E a sua concepção contínua de espaço, do volume erguido sobre pilotis, plástico, praticável, que absorve diversas direcções e dimensões, inseparável das coisas que o envolvem, deriva da sua pintura purista. E permite essa múltipla penetração da casa-objecto-espaço e a eterna comunicabilidade entre o interior e o exterior.

 

Ana Ruepp