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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Colin Rowe: Inside Out, Outside In

 

‘Let’s evaporate the object, let’s interact with the people, the object should decompose itself, make some concessions to the circumstance. The object should be encouraged to become digested by a prevalent texture or matrix. Nor object, nor space are the only viable attitudes.’, Rowe, 1976

 

Colin Rowe (1920-1999) desejava encontrar um equilíbrio entre o ideal e o imperfeito. Por ideal entende-se a herança do objecto edificado perfeito do modernismo. A imperfeição associa-se à renovada atenção, dada a partir da cisão dos CIAM, à construção contínua de um contexto, onde se adapta o novo ao existente. Colin Rowe originalmente ansiava por um contextualismo que recebesse tanto a imagem da cidade tradicional – com os seus espaços abertos, esculpidos por entre a massa sólida construída – assim como a cidade de Le Corbusier – com os seus edifícios isolados num espaço aberto, livre, selvagem e natural. 

Tal como se lê no texto ‘Type and Context in urbanismo: Colin Rowe’s contextualism.’  de William Ellis, Rowe pretendia encontrar um discurso entre tipo e contexto, vivificada por uma ideia espacial contrária ao urbanismo de Le Corbusier, mas sem perdendo a grandeza das imagens da arquitetura moderna. Rowe propõe atingir este equilíbrio entre ideais e continuidade através de uma variedade de estratégias compositivas: uma completa resolução de partes, uma colagem de partes e uma colisão entre partes. A adopção de uma atitude de ‘composição urbana’ significa pensar as cidades de uma forma diferente da dos modernos. Por exemplo, muitos arquitectos modernos concluíram que a pintura tal como concepção do objecto arquitectónico estava sobretudo relacionados com problemas de composição – isto é, com relações entre objectos – enquanto que o urbanismo moderno estava somente relacionado com a natureza dos objectos elementares. Le Corbusier, por exemplo, concentrava somente o seu interesse nos objectos-tipo elementares urbanos, não dando tanta atenção à sua composição no grupo – e os seus aglomerados urbanos insistem somente em ser exercícios de mera lógica geométrica.

‘In this connection it can be suggested that most modernist paintings were contextual insofar as they subordinated the typal characteristics of individual elements to an overall composition. This can be seen to hold from Cubism and Futurism to Elementarism, Neo-Plasticism, Suprematism and Purism. Even a Malevitch painting, with each element intact, is composed.’, William Ellis

Rowe remete para a pintura modernista por considerá-la contextual. Rowe deseja por um processo urbano que mostre em simultâneo continuidade e mudança – reflexo dos dois lados paradoxais de qualquer processo histórico. Estes requisitos contraditórios levaram à apresentação de duas

componentes principais: o plano da figura-fundo e a noção de peça cenário ou edifício composto. O plano que se relaciona com a figura-fundo está ligado directamente à cidade tradicional, e representa uma dialética equilibrada entre sólidos (edifícios) e vazios (espaços abertos). Se o plano figura-fundo formar uma estrutura consistente, no processo determinado por Rowe, então a peça cenário ou o edifício composto vai actuar como o principal elemento dentro deste processo. O edifício composto é um elemento que actua como um ‘fragmento de utopia’ – e que representa o equilíbrio e o diálogo entre o perfeito e o imperfeito, que aceita deformações vindas do contexto, sustenta uma identidade tipológica com regularidade geométrica no seu cerne e promove particularidades locais na sua composição (normalmente através de limites irregulares).

A cidade tradicional é feita de espaços. A cidade moderna é, intencionalmente pensada para ser o novo habitat natural do homem, com espaços abertos ao sol, ao verde, à salubridade, à higiene. A cidade moderna fixa-se no objecto e pretende evaporar-se. Um objecto construído que é racional e não espiritual. Rowe sugere nivelar a necessidade da materialização racional do objecto e a necessidade imperiosa de desintegração, com a consciencialização de que o espaço é mais sublime que a matéria – só afirmação de matéria é muito agressivo para a cidade, mas a afirmação de um contínuo espacial pode promover exigências por liberdade, natureza e espírito. E diz ainda que se o espaço é sublime, então o espaço da cidade moderna natural ilimitado deve ser mais do que um espaço somente abstracto e estruturado.

Colin Rowe luta assim, pela necessária presença de ambiguidade urbana e afirma que edifícios e espaços devem existir em igualdade dentro de um debate sustentado, em que cada componente urbana surge invicta, numa dialética de espaços sólidos e de espaços vazios, numa coordenação estreita entre o que é planeado e o que é acidente, entre o público e o privado, entre a comunidade e o indivíduo. E por isso, determina, assim um número variado de estratégias possíveis que se materializam em: cruzamentos, assimilações, distorções, desafios, respostas, imposições e conciliações.

 

Ana Ruepp