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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Nouveau Réalisme: A poética do real

 

‘What do we propose instead? The passionate adventure of the real perceived in itself and not through the prism of conceptual or imaginative transcription.’, Pierre Restany em ‘The New Realists’, 1960

 

Ao concentrar-se no início da década de sessenta, é importante referir o Nouveau Réalisme pela sua influência que teve junto do grupo português KWY e sobretudo pela aproximação à vida quotidiana através da escolha e manipulação de objectos de uso comum. Desenvolveu-se em França, a partir de 1960, a par da Pop Art, e contou com a participação e envolvimento de figuras como Yves Klein, Arman, Pierre Restany, Daniel Spoerri, Jean Tinguely, César, Christo e Niki de Saint Phalle.

Pierre Restany, crítico de arte, deu o nome ao grupo evocando o realismo literário novecentista que declara uma realidade social urbana banal, quotidiana através de objectos manipulados pelo artista e não através de descrições aturadas (Nouveau Réalisme assim como Nouveau Roman ou Nouvelle Vague). O grupo desejava aproximar a arte e a vida e relacionar-se directamente com a realidade. Os novos realistas consideram o mundo como a obra de arte fundamental e cabe ao artista descodificar os seus elementos com mais valor, evidenciando uma consciência política, apreendendo a profundidade e a interpretação subtil dos conteúdos. (Argan: 1992)

 

‘Sociology comes to the assistance of consciouness and o f chance, whether this be at the level of choice or o f the tearing up o f posters, of the allure of an object, of the household rubbish or the scraps of the dining-room.’, Pierre Restany em ‘The New Realists’, 1960

 

Os artistas utilizam os objectos mais variados: cartazes publicitários, imagens cinematográficas, fotografias de revistas ilustradas, luzes de néon e plásticos de todo o tipo. O evento refere-se sempre a um contexto real e a partir daí o artista evidencia certos aspectos expressivos e determina uma ruptura na rotina do consumo. A nova vida moderna é representada por objectos do real concretos seleccionados, combinados e revestidos através de acções poéticas como divisão e acumulação (Arman), compressão ou expansão (César) e embalagem (Christo). O artista vive agora da colecção e da escolha. É atribuído um novo sentido às coisas coleccionadas não só porque são retiradas de contexto como também são manipuladas. O artista conserva em vez de consumir. Sendo assim, a vida moderna é um produto pronto a consumir. (Argan: 1992)

Sem a menor variação, os quadros monocromáticos de Yves Klein exercem influência sobre o fruidor para que possa viver segundo uma só cor – azul, cor-de-rosa, dourado. Klein, para tornar esta ideia mais evidente, recorre até a pincéis vivos, modelos nus molhados de tinta que estampam a sua marca na parede. (Argan: 1992)

Niki de Saint Phalle depois de inventar as shooting paintings (Tirs), onde ridiculariza o uso exaustivo dos gestos existencialistas que deram lugar à pintura informal, cria as primeiras Nana – mulheres feias, destorcidas, monstruosas que invertem o culto da beleza e da fertilidade da mulher. Com a criação de Crucifixion Niki antecipa Hon, a mulher-catedral exposta no Modena Museet de Estocolmo em 1966, onde se eleva a figura da mulher fértil à dimensão sagrada. (Groom: 2008)

Em Portugal, o ambiente Pop inclui a Nova Figuração, associada diversos artistas como pertencentes ao KWY, mas também António Palolo, Eduardo Batarda, o cartazismo de Nikias Skapinakis e a organização narrativa das memórias de Joaquim Rodrigo.

KWY, apesar de se ter formado no final dos anos cinquenta, teve repercussões assinaláveis durante toda a década seguinte. Entre Paris e Munique, Lourdes de Castro, René Bertholo, João Vieira, Costa Pinheiro, José Escada e Gonçalo Duarte criaram um grupo de intervenção – KWY, com as letras ausentes do alfabeto português (‘Ká Wamos Yndo’). O grupo associou-se também ao búlgaro Christo e ao alemão Jan Voss. A sua existência efectivar-se-ia pelas representações colectivas em exposições (Saarbrüken, 1960; Lisboa, 1960; Paris, 1961; Bolonha, 1962), pela acção editorial e pelas responsabilidades partilhadas na produção dos exemplares serigrafados dos doze números concretizados da revista.

KWY representa, assim, um projecto com total liberdade gráfica e editorial, definindo-se através da ausência de um programa ético-estético, pressupondo uma separação de finalidades ideológicas (Candeias, 1997). Deseja atingir a total liberdade na aplicação do material e do gesto, surgindo como um novo modelo de actuação artística mais eficaz, evitando que assumisse um sentido de tendência escolar ou estilística comum. A prática da serigrafia na revista tenta romper com valores canónicos do que se afirmava ser arte maior em proveito de uma visão que adere à cultura popular (Serra: 2006).

Em ‘Revista KWY: Da abstracção lírica à Nova Figuração’, de Ana Filipa Candeias, lê-se que em termos de composição gráfica, KWY, pode ser caracterizada principalmente pela sua factura artesanal e experimental, com uma excepção – KWY 6 – que marca uma tentativa de fazer transitar a revista de uma concepção manual e de circulação quase privada, para uma nova concepção de revista pública, mediática e mecanizada – sem aliás obter o sucesso esperado, conforme se poderá deduzir pelo retorno à concepção primeira, com KWY 7.

Lourdes Castro e René Bertholo (fundadores da revista) iniciam a década de 60, com trabalhos no campo da ‘Assemblage’ e de ‘Nova Figuração’ e, plasticamente, são os últimos números da revista que indicam essa transição para uma poética neo-figurativa. A revista tem um carácter cosmopolita e globalizador, incluindo artigos e trabalhos de grupos e artistas vanguardistas europeus como por exemplo Pierre Restany, os Nouveau Réalistes, António Saura, o Grupo 58, Ben Vautier e Robert Filliou. Pierre Restany, chegou mesmo a referir-se a KWY, numa antologia de textos (datados de 1978) com vista ao lançamento dos ‘Nouveaux Réalistes’, como sendo uma revista de vanguarda existente em Paris, nos anos de promoção daquele movimento.

 

Ana Ruepp