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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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‘A origem da obra de arte’ de Martin Heidegger.

 

No texto da fase final de Martin Heidegger (1889-1976) ‘A origem da obra de arte’ (2004), abre-se um novo olhar sobre a obra de arte. Heidegger convida-nos a olhar para a obra de arte para além do que se vê, porque aí algo de invisível se guarda.

Uma coisa ao ser como é, chama-se essência. A origem é a proveniência da sua essência. A arte surge através da actividade do artista. Segundo Heidegger, o artista é o que é através da obra, pois é pela obra que se conhece o artista.

 

‘O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista.’, Martin Heidegger

 

A arte é assim a origem ao mesmo tempo do artista e da obra. A origem da obra de arte coincide com a essência da arte. A arte encontra-se na obra de arte. Mas tudo o que a arte seja, tem de apreender-se a partir da obra. O que a obra é, só se pode experienciar a partir da essência da arte.

E todas as obras têm este carácter de coisa (tangível, real e concreto). A experiência estética não pode contornar o carácter coisal da obra de arte. A obra dá publicamente a conhecer outra coisa. A obra é alegoria, a obra é símbolo. Porque a obra de arte é uma coisa à qual adere ainda algo de outro

 

A coisa e a obra: Heidegger afirma que o homem não é uma coisa. As coisas da natureza e do uso são aquilo a que habitualmente se chamam de coisas. Ora, a coisa é o que é perceptível nos sentidos da sensibilidade, através das sensações. É a unidade de uma multiplicidade do dado nos sentidos. As próprias coisas estão muito mais próximo do que todas as sensações. O que dá às coisas a sua consistência e a sua nuclearidade e que origina o colorido, o sonoro, a dureza, o maciço é a materialidade. E nesta determinação da coisa como matéria está implícita a forma. A firmeza e a consistência da coisa reside no facto de uma matéria se conjugar com uma forma. A coisa é uma matéria enformada. Com a síntese de matéria e forma, está finalmente encontrado o conceito de coisa. E o carácter coisal na obra é manifestamente a matéria de que consta. A matéria é o suporte e o campo para a enformação artística. A forma determina a ordenação da matéria nos lugares do espaço. E por isso, a distinção entre matéria e forma é o esquema conceptual por excelência para toda a estética e teoria da arte.

A distinção entre matéria e forma remonta a uma origem mais funda. A coisidade da obra não se centra somente na sua fabricação e utilidade. Porque na obra de arte, erige-se a verdade da coisa. A arte tem, assim, uma relação não só com o Belo mas também com a verdade.

 

A obra e a verdade: Heidegger esclarece que a obra de arte abre o ser. A arte é pôr em obra a verdade. O artista permanece algo de indiferente em relação à obra, quase como uma reacção para permitir o acesso ao surgimento da obra. A obra é um erigir que consagra e glorifica. A obra abre um mundo. Porém, o mundo não é a simples reunião das coisas existentes, é algo mais do que o palpável e apreensível e não é objecto.

‘Ao abrir-se um mundo, todas as coisas adquirem a sua demora e pressa, a sua distância e proximidade, a sua amplidão e estreiteza. No mundificar, é oferecida ou recusada a amplidão a partir da qual está congregada a benevolência dos deuses, que nos guarda.’ , Martin Heidegger

A instituição de um mundo e a produção da terra constituem dois traços essenciais no ser-obra da obra. O mundo é a abertura. A terra é a especifidade e a limitação.

Por verdade, entende-se a concordância do conhecimento com o seu objecto, a justeza da representação, uma desocultação. A terra só irrompe através do mundo, o mundo só se funda na terra, na medida em que a verdade acontece como o combate original entre clareira e ocultação. E ao instituir um mundo e ao produzir a terra, a obra é o travar desse combate no qual se disputa a desocultação do ente na sua totalidade, a verdade. A beleza é assim um modo como a verdade advém enquanto desocultação.

 

A verdade e a arte: O carácter de obra da obra consiste no seu ser criada pelo artista. Na obra está em obra o acontecer da verdade. E Heidegger caracteriza a criação como o deixar emergir, desocultar. A essência da desocultação do ente pertence ao próprio ser, que a partir da sua essência abre e clarifica. A verdade insere-se na obra. A verdade advém como o combate entre clareira e ocultação, entre o mundo e a terra. O combate é um risco necessário que desenha os traços fundamentais da emergência da clareira do ente. O combate fixado é forma (die Gestalt). O risco que se toma é o que faz aparecer a verdade. E a criação da obra jamais é somente uma actividade de manufactura, porque permanece sempre a vontade de utilizar a matéria e a produção em favor de um fixar a verdade na forma. E Heidegger diz ainda, que a realidade da obra não se esgota no ser-criado – a obra é feita de modo a alterar as nossas relações habituais com o mundo e com a terra.

A essência da arte é, então a obra. Mas a essência da obra é a instauração da verdade – criada com consistência, identidade e abertura. O projecto da verdade na obra nunca se realiza na direcção de algo de vazio e de indeterminado, porque tenta sempre trazer à luz. O princípio contém já, oculto, o fim – o abismo intraquilizante, o combate com o familiar. Sempre que a arte acontece produz-se um choque, um despertar. A arte na sua essência é uma origem.

 

Ana Ruepp