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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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O Hotel Vitória de Cassiano Branco.

 

‘Cassiano traçou o Hotel Vitória, inaugurado em 1936, na Avenida da Liberdade, anunciado, com ele, uma malograda renovação de gosto arquitetónico. Podendo receber dois grandes corpos de bela harmonia de volumes correspondentes, definidos por superfícies planas e sacadas rotundas, mas ficando no projecto inicial, assimétrico voluntariamente, o edifício seria, para sempre, o mais original hotel de Lisboa.’, José-Augusto França em ‘História da Arte em Portugal – O Modernismo’, 2004

 

O Hotel Vitória (1934-36) ergue-se numa das artérias principais da cidade de Lisboa, a Avenida da Liberdade – lugar que nos anos 30 era por excelência moderno, de agitação e de urbanidade declarada.

O Éden e o Hotel Vitória seguem o mesmo alinhamento na cidade e afirmam Cassiano Branco (1897-1970) como um dos arquitetos mais influentes, criativos e urbanos do primeiro modernismo português.

Cassiano Branco renova todo um vocabulário figurativo de início do século, nomeadamente na construção de prédios de rendimento, introduzindo mesmo novos valores tipológicos. Aproxima-se das vanguardas europeias, trazendo um formulário inovador e inventivo.

Cassiano ainda não se associa à forte componente ideológica, apoiada na crença de que a arquitetura pode funcionar como condensador social. Pertence a uma geração que se aproxima do moderno pela via formal, técnica e material.

Cassiano em muito mudou a arquitetura corrente e convencional, criando um gosto e uma identidade própria através de elementos claramente identificáveis – elementos exemplares que imediatamente se espalharam pelas cidades, resistindo ao tempo.

O Hotel Vitória apresenta uma morfologia semelhante à dos prédios de rendimento e, na verdade foi inicialmente pensado para ser um edifício de habitação.

A organização interna dos espaços é ainda tradicional – não existe correspondência direta entre a forma assimétrica do exterior e a distribuição dos quartos.

No piso térreo determinam-se os espaços mais públicos. Organiza-se o hall de entrada, a portaria, as zonas de estar, o bar, o salão de refeições. Os pisos superiores são destinados à zona dos quartos, organizados em função das entradas de luz. No topo, um terraço acessível aos hóspedes abre-se sobre a avenida.

O Hotel Vitória determina elementos síntese definidores da ação de Cassiano – forma e expressão. É lugar moderno de turismo. Desde logo Cassiano assume, com o projecto do hotel, sensibilidade ao código modernista, à vanguarda, à obra de Robert Mallet-Stevens e ao código estilístico Art Déco.

Em primeiro lugar, o uso do código modernista, fundamentado não no passado mas na mudança, dinamiza o recurso a valores volumétricos, em permanente evolução. A investigação formal associada à metáfora da máquina, da velocidade e do movimento da urbe introduz no hotel uma expressividade tendencialmente abstrata. Este novo código traz consigo uma técnica baseada no uso de um novo material, cada vez mais útil na construção corrente – o betão armado. O betão permite ao hotel certas potencialidades plásticas – o balanço evidente das varandas, o jogo dos volumes simulando movimento, a expressão curva dos planos, as caixas emoldurando as janelas.

O projecto do Hotel Vitória oprime qualquer influência das formas tradicionais. O processo de negação do passado traz as formas novas, as formas do futuro e traz a vanguarda. A vanguarda cultiva assim o espírito novo de Cassiano, conquista uma nova forma de linguagem acessível, inteligível e passível de ser utilizada por todos, no tempo presente e no futuro. A sensação de velocidade futurista é determinada pela simultaneidade de formas (ora paralelepipédicas, ora cilíndricas), pela expressão das superfícies (ora planas, ora curvas) e pela interpenetração de planos (um plano vertical remata, intersecta e evidencia ainda mais o volume paralelepipédico). Assumem-se dois volumes autónomos e assimétricos. Um volume de tendência verticalizante, mais estreito e maciço e outro, mais baixo, mais dinâmico e leve, de marcadas linhas horizontais. O corpo vertical evidencia a entrada e os acessos verticais. O desenho exemplar das varandas, que não ocupando toda a extensão da fachada, evidencia uma aresta cilíndrica que se solta da cobertura, em pala. A fachada urbana está coordenada com a agitação dos espaços internos e Cassiano tira partido discursivo dos materiais que formalizam a vida cosmopolita. Associa elementos geométricos à plasticidade.

A influência da obra de Mallet-Stevens é entendida no Hotel nas acumulações de formas geométricas consistentes, nas grossas paredes onde se abrem pequenos vãos, através do movimento visível dos volumes exteriores, através da arquitetura puramente geométrica. As superfícies são uniformes, as arestas vivas, a matéria polida, os ângulos retos, existe clareza e ordem.

O código Art Déco esclarece ainda as linhas geométricas utilizadas no hotel para desenhar os vãos metálicos das janelas e os motivos abstratos e maciços que se sobrepõem ao embasamento. O uso do mármore polido (no embasamento) e o inox polido (em folha no embasamento e em tubo nos balcões) ampliam os brilhos da fachada.

Cassiano foi ainda chamado a executar um plano de ampliação, que nunca veio a ser construído, para fazer do Hotel Vitória um dos maiores hotéis da capital, com a dimensão necessária ao espirito da avenida. A ampliação estava prevista para norte e propunha a utilização do mesmo ideário formal.

Ana Ruepp