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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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Nuno Teotónio Pereira e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus

 

‘O que me motiva sempre mais é, de fora para dentro, o enquadramento socio-territorial e, no sentido inverso, a imaginada vivência dos utentes, bem como naturalmente, as soluções construtivas a ter em conta.’
Nuno Teotónio Pereira, 2004

 

‘Building traces back into that domain to which everything that is belongs. To build is in itself already to dwell.’
Martin Heidegger In ‘Building, Dwelling, Thinking’

 

A obra de Nuno Teotónio Pereira (1922-2016) apresenta a extraordinária capacidade de transformar sítios e objetos em espaços habitáveis – e segundo Heidegger habitar implica uma durável relação entre o céu, a terra, o divino e o mortal, em que se mantem sempre intacta a essência destes quatro elementos. Os espaços habitáveis criados por Nuno Teotónio Pereira concretizam constantemente conceitos de pertença, identidade, enraizamento local e comunidade. A sua obra eleva a qualidade de vida do homem e transforma a sociedade, através de valores como a autenticidade, a sinceridade e o rigor. É uma obra aberta, infinitamente interpretável, que dá extrema importância ao espaço interior e ao espaço público participado.

Nuno Teotónio Pereira elegeu a problemática social da habitação como temática mais importante (trabalhou de 1948 a 1972 na Federação de Caixas de Previdência), mas também se dedicou exaustivamente ao estudo da cidade e do território.

A luta por uma arquitetura religiosa contemporânea liberta de um vocabulário historicista, fez parte igualmente do seu percurso. A igreja das Águas que Nuno Teotónio Pereira concebe, em 1949, no concelho de Penamacor, constitui o paradigma da renovação da arquitetura religiosa em Portugal, baseado no espírito do evangelho de ‘Pureza, Verdade, Pobreza e Paz’. Com esta igreja, Nuno Teotónio Pereira, responde a uma situação real com o rigor e a seriedade dos princípios modernos, que são postos em prática, mas adaptados e recriados através de uma aturada reflexão acerca de uma contextualização física e cultural. (Tostões, 2004)

Já com o projeto da igreja das Águas, o Bloco das Águas Livres, as Torres dos Olivais e a Casa de Vila Viçosa, o atelier de Nuno Teotónio Pereira envolvia-se numa procura sobre a habitabilidade não-racionalista – tratava-se sim de pensar exaustivamente o espaço interno, motor do projeto, e de procurar uma integração total em contexto natural ou urbano.

‘Em 1957, a entrada do jovem e fogoso Nuno Portas marcou decisivamente novos rumos ao atelier, na continuação embora dos valores que vinham de trás.’
Nuno Teotónio Pereira, 2004

‘Se o que nos interessava eram os espaços ‘internos’ como expressão dos modos de vida e da poética do habitar, recebíamos com ansiedade o crescente interesse das ciências humanas por essas relações que Heidegger, Bachelard ou Levy-Strauss, depois Chombart de Lauvve, Lefebvre ou Barthes explorariam, mostrando-nos os limites do funcionalismo.’
Nuno Portas, 2004

Ao assumir a rutura, com os equipamentos religiosos projectados tanto ao gosto dos arquitectos do regime (S. João de Deus, S. João de Brito, Santo Condestável), a igreja do Sagrado Coração de Jesus (1961-70) inaugura a década de 60, anunciando novas questões e marcando definitivamente uma nova imagem aberta e participada do equipamento religioso em Portugal.

A igreja surge num pequeno lote da Rua Camilo Castelo Branco e completa o quarteirão a partir do retorno a elementos urbanos tradicionais. Uma praça e uma rua surgem associados ao programa do equipamento em continuidade e ligação com os espaços urbanos existentes.

A partir da década de 60 as obras assumem uma nova reflexão sobre a cidade, um reconciliar com a identidade do lugar e com a comunidade. Associa-se o urbano à arquitetura. E a igreja do Sagrado Coração de Jesus, inserida na malha da cidade, é o elemento de dinamização por excelência.

A equipa formada então por Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Vasco Lobo, Vítor Figueiredo e Pedro Vieira de Almeida, foi escolhida por entre os 14 trabalhos concorrentes e associa a um equipamento religioso conceitos de abertura, urbanidade, continuidade e integração. Nuno Portas afirma que era a ocasião para contestar uma certa linha de fazer igrejas, mantendo-as como objetos historicistas, isolados, rodeados de vazios que rompem com a continuidade do espaço urbano. E por isso pretende-se estabelecer um lugar ancorado e ancorante. Determina-se um novo conceito de intervenção urbana – o sentido colectivo do espaço urbano, fazendo-o penetrar na escala da arquitectura. Ao dar sentido ao espaço vazio público propõe-se um conjunto formal de relações capazes de criar uma realidade social. É associado ao vazio urbano um valor positivo e generativo. Assim o vazio urbano construído na envolvente da igreja do Sagrado Coração de Jesus é ambíguo, sendo possível receber diversas interpretações – o vazio como uma experiência sensível e essencial que possibilita a criação, a expressão e o ritual.

O projeto inclui não só os espaços de culto, mas também capelas mortuárias, o centro paroquial, a residência do pároco, auditórios, secretaria, cafetaria e ainda áreas para atividades socioculturais. O centro paroquial e a residência do pároco determinam o limite do lote, conformam a praça e definem uma nova rua que atravessa o quarteirão e transpõe cotas. Todos os edifícios do programa refazem aquele bocado de cidade, esbatendo a fronteira entre o público e o privado. A relação do corpo da igreja com os restantes corpos anexos, que fazem parte do complexo paroquial, é conseguida através de diversos níveis articuladas em socalco e por um espaço aberto central.

Ao dilatar a Rua Camilo Castelo Branco é possível ligá-la à rua de trás, de nível diferente através de um percurso urbano. O espaço público entra pelo lote e valoriza-se o urbano em detrimento do objecto arquitectónico autoral – a autoria colectiva reforça o interesse comunitário (e reforça o trabalho sempre de equipa do atelier de Nuno Teotónio Pereira). A rua que atravessa o conjunto permite desenhar espaços de passagem, de distribuição e de permanência. O percurso vai criando diversas plataformas que fazem a igreja participar do espaço urbano e assim abrir a arquitectura à sociedade.

A igreja desenha-se segundo um esquema basilical. Reúne santuário e baptistério e desenvolve-se em três plataformas – piso principal, cripta, galerias e balcões. O espaço interior é percorrível, total, fluído e unitário, pontuado por espaços de escala mais reduzida e mais intimistas. Diversas direcções apontam para o altar-mor de maneira a enfatizar a assembleia.

Para permitir maior fluidez e continuidade espacial, dentro da igreja, foram executados estudos para o movimento do clero, dos fiéis, da bênção do lume e da água, do cortejo da comunhão, funerais, baptizados e casamentos. Para a equipa de Nuno Teotónio Pereira, quanto maior a especificidade do programa mais particular e singular se poderia tornar o objecto construído, que não deve só obedecer a regras de racionalização e de sistemas de estandardização.

Especial atenção foi também dada ao modo como a luz entra, hierarquizando assim os diversos espaços da igreja. O espaço interno traz à memória Frank Lloyd Wright, pela densidade, pelo controlo da luz e pela pormenorização exaustiva. O tratamento material apresenta inspiração no brutalismo inglês e nas mais recentes propostas italianas – betão aparente, painéis e blocos pré-fabricados.

Com o projeto da igreja do Sagrado Coração de Jesus, o atelier de Nuno Teotónio Pereira, passa de uma escala dominada pela habitação e pela igreja em meio rural para uma proposta mais monumental à escala da cidade – e nesta linha de continuidade surgem os projetos para o Edifício de Comércio e Escritórios ‘Franjinhas’ (1965-69) e mais tarde o Plano de Urbanização do Restelo (1980-85).

Ana Ruepp