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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

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A Casa de Chá de João Mendes Ribeiro.

 

Dentro da muralha do castelo de Montemor-o-Velho, no Paço das Infantas, João Mendes Ribeiro (1960) desenhou uma casa de chá transparente. A casa pretende-se leve e solta em relação às suas preexistências.

As paredes do castelo são expressivas em matéria e a criação do espaço abstrato da casa de chá, definido por dois planos horizontais unidos por uma caixa de madeira e uma superfície de vidro transparente, reforça essa expressão. É evidente a ambiguidade entre o interior e o exterior – as muralhas, que delimitam o Paço, criam já um espaço contido, íntimo e encerrado (embora exterior). Um equilíbrio estável estabelece-se entre a casa de chá e a muralha. As ruínas tornam-se de novo paredes que protegem a caixa de vidro que só tem teto e chão. São as ruínas que dão a terceira dimensão à casa de chá.

As muralhas do castelo atuam assim, como cenografia. Existe um profundo respeito pelo passado que permanece intocável e quase artificial. E essa ideia de artificialidade intangível é reforçada ainda pela introdução de uma escada metálica na muralha, de declive muito acentuado, para chegar a uma janela. A escada introduz a ideia da existência de um piso superior, possibilita a visualização superior da relação da casa de chá com a envolvente e sobretudo transforma o projeto num cenário que pode ser transformado a qualquer momento.

No interior, a caixa de madeira está simetricamente colocada junto à fachada tardoz, é encerrada e concentra as zonas de serviço: a cozinha e as instalações sanitárias. O volume do passa-pratos é saliente e permite a única abertura na caixa. Descentrada a caixa disponibiliza um espaço totalmente aberto para a zona de refeições que se prolonga para o exterior, como que flutuante originando a esplanada.

A efemeridade explorada em inúmeros projetos cenográficos de João Mendes Ribeiro, trás para a casa de chá a possibilidade do objeto desaparecer no meio da muralha, sem se tornar obsoleto ou envelhecido. A casa de chá é a negação do objeto novo em favor do objeto preexistente. O espaço definido na casa é principalmente uma realidade flexível e evolutiva que se define pela natureza e pela intensidade do seu uso – o movimento dos corpos no espaço e a disposição do mobiliário refletem a mutação do objeto construído. O espaço interior só é identificado quando existe mobiliário (mesas, cadeiras e carrinhos de chá). A maioria das fotografias publicadas não têm mobiliário o que torna o espaço ainda mais abstrato porque não há sinais identificadores de uso e de uma função – até mesmo o corpo de serviços está camuflado.

No âmbito deste projeto, é importante também mencionar a casa Farnsworth que Mies Van Der Rohe construiu entre 1945-51, em Plano, Illinois, pela transparência, pela abstração, pela tentativa de negação do objeto em relação à sua envolvente e pela afirmação da envolvente no interior do objeto. Igualmente dois planos distintos formam respetivamente a cobertura e o pavimento e comprimem um espaço aberto para viver. Mies aplicou igualmente o conceito de um espaço único, livre e flexível, encerrado por um vidro, concretizando a expressão de um volume imperturbável que flutua.

Na casa de chá, tal como na casa Farnsworth, todo o vocabulário tradicional que define um objeto arquitetónico – divisões, paredes, portas, janelas e mobiliário – é virtualmente eliminado numa visão puritana de simplificação, de existência transcendental e de enfatização contextual. A ideia é antes refinada e desenvolvida através de uma escolha aturada de cores, detalhes e materiais – no caso da casa de chá madeira, vidro, aço e cobre.

Sendo assim, é a relação Espaço – Corpo – Arquitetura que caracteriza o trabalho de João Mendes Ribeiro, sobretudo através da construção de cenários/objetos arquitetónicos dinâmicos e multifuncionais, com possibilidades de mutação de acordo com as ações dos intérpretes/utilizadores.

 

Ana Ruepp