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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

  

O Centro das Artes Casa das Mudas de Paulo David.
 

No topo de uma encosta junto ao mar, situa-se o Centro das Artes Casa das Mudas (2001-2004), no concelho da Calheta, na zona oeste da Madeira, a vinte minutos de distância da cidade do Funchal.

A colocação de um programa tão importante – com espaço para exposições temporárias e permanentes, auditório, biblioteca, loja, cafetaria, restaurante e uma ampla zona de animação cultural para ateliers e oficinas artísticas – numa zona menos urbana e mais periférica da ilha vem dar ênfase à zona da Calheta, completando o centro cultural já existente. A ideia de atribuir a um programa excepcional um edifício de excepção que se destaca no contínuo da cidade é aqui contrariada através da realização de um projecto que está camuflado, escuro, quase inexistente, completamente fundido na rocha e na montanha.

Paulo David (1959) projecta a Casa das Mudas de modo a enfatizar a primordial experiência do lugar. A inserção na encosta faz esquecer que a arquitectura é artifício, sendo aqui antes afirmada como própria natureza. Utilizando a geografia como matéria de projecto, Paulo David determina o Centro das Artes como sendo um objecto construído que é em simultâneo ausência e presença. Ausência, porque a Casa das Mudas é rocha escavada, fim de cidade e começo de paisagem e que pertence unicamente àquele lugar. Presença, porque a Casa das Mudas geometriza, controla e recorta a natureza transformando-a numa experiência organizada e construída.

O projecto de Paulo David parece basear-se numa ordem natural e os materiais utilizados evidenciam uma fusão com o suporte rochoso. O Centro das Artes escava-se na encosta utilizando a mesma pedra vulcânica (o basalto) que caracteriza aquela região.

Como se de um pequeno núcleo urbano se tratasse, o programa está disperso por pequenos volumes que se organizam segundo diversos vazios que ora se abrem ora se fecham para o mar. A experiência do lugar, em puro, permitiu ao arquitecto produzir um objecto arquitectónico que se gera no contexto elementar da natureza. Uma vez construído, o objecto tem a capacidade de voltar a oferecer ao utilizador a experiência essencial e primária daquele lugar.

O projecto de Paulo David trás à memória as Termas de Vals, na Suiça, projectadas por Peter Zumthor. As termas, tal como a Casa das Mudas, apesar de se integrarem num conjunto construído existente (hotel), fundem-se formal e materialmente na pendente do lado poente do vale. A sua descoberta como elemento construído na paisagem é inesperada porque pela escala, pelo encaixe no terreno, pela pedra aplicada em todo o edifício, pelo carácter horizontal, pela geometria e pela ordenação do programa, o natural impõe-se ao artificial.

O conjunto da Calheta é unitário e compacto, porém revela uma variação e uma complexidade de espaços interiores. O desenho dos vazios exteriores, que se lêem por entre volumes construídos, baseia-se em alinhamentos que vêm do pequeno núcleo urbano contíguo. Esses vazios incluem escadas, pátios, corredores, túneis e rampas de acesso à cobertura que é percorrível, permitem a ligação das diversas funções e possibilitam ainda uma relação mais próxima e aberta ao mar. A luz natural entra nos volumes através de incisões verticais e horizontais. O exterior é preto e o interior branco. Os espaços expositivos, colocados contiguamente e desenhados de modo flexível, admitem o carácter mutável e imprevisível da produção de arte contemporânea – de tamanhos variados, estão dispostos de modo a permitir uma série de combinações para o seu uso. Todas as infra-estruturas técnicas estão camufladas. O espaço do auditório apresenta um desenho minucioso, de modo a construir ‘uma capela de acústica brilhante e reverberante’, revestido com painéis de mogno.

A geografia torna-se corpo na arquitectura de Paulo David. O arquitecto madeirense licenciou-se na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, em 1989. Colaborou com João Luís Carrilho da Graça, em 1989 e com Gonçalo Byrne, de 1988 a 1996. Em 1996, estabeleceu o seu próprio escritório no Funchal, sendo de 2000 a 2004 docente na Universidade de Arte e Design da Madeira. Em 2003, cria Paulo David Arquitectos.

A experiência de trabalhar dez anos com Gonçalo Byrne permitiu a Paulo David fundar uma prática disciplinar que dá grande importância ao contexto, considerando cada lugar de projecto único e irrepetível. De Gonçalo Byrne assimilou igualmente uma arquitectura que parte sempre de uma ideia fundadora e que é fruto da reacção

com o sítio, com o programa e com o tempo. Por isso os princípios da arquitectura de David são determinados a partir do contexto natural, através de um vocabulário formado pela geografia, pela geologia, pela topografia e pelo clima do lugar – tal como acontece no projecto das Piscinas do Atlântico e do Passeio Marítimo das Salinas, na Câmara dos Lobos (2002-2006). Os objectos construídos por Paulo David ao serem colocados na paisagem tornam-se fenómenos naturais que se reduzem ao elementar (escavam, protegem, são para ser percorridos e hierarquizam). E sendo assim, na Casa das Mudas a presença da rocha e a relação directa com o mar torna-se então física, geometrizada, torna-se arquitectura. Com a Casa das Mudas, Paulo David recebeu o prémio Mies Van der Rohe, em 2005.


Ana Ruepp