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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

PaisagemFormaUrbana.jpg

 

Acerca de Paisagem e Forma Urbana.

 

“A paisagem só por si não é um mundo, mas a terra reclamada pelas pessoas para a agricultura e para a habitação.”
Adriaan Geuze, 2001

 

Arquitetura é uma transformação material. Esta transformação permite a constituição (dependendo da configuração que a matéria tomar ao ser transformada) de Espaço. A Natureza existe fornecendo Matéria ao Homem. A Matéria ao ser manipulada constitui Forma. Esta Forma é por sua vez ainda Matéria que pertence à Natureza. Este é o ciclo infinito da construção do Espaço. O Espaço só, então, existe e é visível se objetos materiais o delimitarem. O Espaço é interior ou exterior. O Espaço Exterior pode considerar-se Paisagem. Paisagem é o edificado numa cidade, são as explorações agrícolas, são os solos não agrícolas, são as florestas. Ora, a ideia real de Paisagem Natural ou Paisagem Artificial implica sempre a noção de humanização. Quase todo o território existente é controlado pelo Homem – assiste-se à existência de uma paisagem construída (conhecem-se as categorias que definem o território de hoje: categoria urbana, suburbana, infraestrutura, periferia e reservas naturais).

 

A Arquitetura insere-se na Paisagem, nasce dela (na matéria e na forma que justifica ou não a sua circunstância), vive dela (na inter-relação com o exterior) - no movimento moderno abriam-se grandes fenestrações para estabelecer ligação com o exterior e os edifícios definiam-se sobre pilotis para permitir constituir um terreno natural vasto, contínuo da urbe até à periferia, totalmente intocável.

 

“O quotidiano é o conjunto de condições que encontramos num lugar”
J. Sergison + S. Bates, 2001

 

A Arquitetura gera-se numa circunstância e torna-se condição e característica do lugar em que se insere. Que circunstância a gera? A circunstância que a gera pode relacionar-se com aspetos climáticos, geológicos, topográficos, hidrográficos, ou simplesmente atentar à realidade edificatória que a envolve. O território é, então, suporte físico da construção da paisagem, é um sistema natural que se define em movimento constante.

 

Falamos de arquitetura, falamos de transformação espacial – natural ou artificial. Uma das transformações espaciais mais vastas que o Homem conhece é a cidade. A cidade é um sistema, é uma rede complexa de interdependências. Estende-se e expande-se por um território muito lato - os limites e o termo de uma cidade são muito difíceis de definir, pois, o território rural e urbano está transformado e, consequentemente as suas características aproximam-se, tornam-se mais idênticas.

 

As cidades como sistemas estão em constante mudança e expansão. Porém a cidade não é a única entidade territorial que cresce com o tempo. Nos nossos dias assistimos a um crescimento simultâneo de realidade distintas na sua forma e definição, mas complementares: O Crescimento da cidade (centro) - do seu edificado, das suas vias, infraestruturas; o crescimento da periferia; o crescimento ou mutação do espaço rural. Estes crescimentos atuais apresentam-se dissociados e por isso geram descontinuidades, desequilíbrios, zonas residuais e espaços fragmentados. Sendo assim, não se torna possível estabelecer sistemas naturais e artificiais globais, pois há rutura entre relações Homem/Natureza.

 

A ideia de Paisagem é uma ideia não de construção parcial, mas antes uma construção concretizada por interdependências, uma construção global e coordenada. Mas na verdade, a atualidade considera a paisagem alargada da cidade, uma construção parcial associada, em certos momentos, a impurezas, à matéria inútil (Bart Lootsma, 2001).

 

A imagem da cidade, também, se determina pela mobilidade que apresenta – a sua extensão e desenho no território é reflexo do automóvel e das suas infraestruturas. A periferia que se encontra na transição com o espaço rural apresenta um edificado e formação mais dispersa (moradia) ainda muito dependente da mobilidade automóvel.

 

O planeamento das cidades, no presente, associa-se a uma determinação e concretização funcional de volumes fixos. Mas aquilo que permite o funcionamento dos sistemas, que constituem a cidade, estabelece-se em constante mutação: Como transmitir essa contínua transformação do território aos conteúdos do planeamento urbano?

 

Ana Ruepp