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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

Acerca de espaço urbano.

 

A manifestação mais visível, pelas suas dimensões, da descontinuidade e da desordem do espaço contemporâneo, é a cidade. A cidade contemporânea atinge assim uma forma dominadora, uma escala visual cujo domínio o homem não pode controlar, e domina e absorve no seu crescimento todo o espaço que a envolve.’
Fernando Távora, in ‘ Da Organização do Espaço’,1962

 

 

A cidade ideal é um módulo para o qual sempre é possível encontrar múltiplos ou submúltiplos que modifiquem a sua medida, mas não a sua substância.’
Giulio C. Argan, in ‘História da Arte como História da Cidade’, 1998

 

 

 

 

 

 

Espaço urbano: O que é?  
E
strutura formal flexível?

 

O espaço urbano é forma - ‘…apercebemo-nos de que não há uma forma, mas uma possibilidade de forma, que corresponde a uma possibilidade de vida dos seus ocupantes.’, Gonçalo Seiça Neves, In ‘A modernidade da Cidade Moderna’, Jornal de Arquitetos, n.º 207. Contrasta momentos materiais e não materiais. Os momentos materiais têm um carácter mais restrito, são o edificado. Os momentos não materiais evidenciam o edificado, permitindo a sua relação, ligação, perceção e encontro com o exterior.

O espaço urbano é determinado por uma estrutura dependente de usos e experiências – essa estrutura torna-se flexível, é susceptível de receber várias interpretações e pode ser influenciada, até mesmo transformada. A base estrutural do espaço soma situações diferentes, oferece continuamente novas oportunidades para novas utilizações. A flexibilidade é suficiente, para que no espaço urbano, se desempenhem funções diferentes sob circunstâncias variadas – concretiza-se, portanto, uma separação entre forma e função.


A forma do espaço urbano resulta de factores diversos, tais como: a vontade e criação humana; as demonstrações de poder; o acaso; as sujeições locais ao meio físico (ex. Relevo, clima, cursos de água); as preocupações sociais. A forma pode, então, estar entre um caráter espontâneo e um caráter controlado/planeado. O planeamento estabelece uma ordem urbanística que reflete uma ordem social, mas pretende, também, realizar um valor de qualidade que permanece com a mudança de quantidade.


O espaço urbano pode afirmar-se como um conjunto de diversas partes planimetricamente esquemáticas – reflexo de sucessivas adaptações ao meio físico e histórico. Não é a lógica da história, mas a desordem dos eventos que se reflete na realidade urbana. A proporção entre a qualidade e a quantidade determina a continuidade entre os núcleos históricos e os atuais. Os núcleos históricos manifestam-se em ciclos encerrados e os núcleos atuais em mutações contínuas. E, assim existe a cidade antiga e a cidade moderna que se distinguem e contrastam. Por um lado, a cidade antiga constrói-se pelo edificado – momento material. As ruas, as praças recortam-se no próprio edificado, Por outro lado, a cidade moderna tem como base o espaço livre – momento não material – e aí deposita os seus elementos essenciais – vias, blocos, espaços verdes.


É a existência de descontinuidades, rupturas, na cidade, que provoca a existência de áreas distintamente diferentes – núcleo antigo/periferia.


A degradação da paisagem de uma cidade não está nas descontinuidades que apresenta. A flexibilidade que a caracteriza fá-la frágil. A cidade está sujeita a excessivas individualizações na organização do seu espaço. Uma forma ao tornar-se espaço gera-se numa circunstância específica transformando-se de imediato, ela própria, numa condicionante, numa característica do local onde agora existe. Uma forma ao tronar-se espaço segue eventualmente as directrizes basilares da circunstância ou nega-as simplesmente.


A forma individualizada, particular que constitui o espaço urbano deve associar-se a um todo que a justifique, que a cumpra. O espaço urbano como forma deve aceitar e justificar as partes que o compõe. Assim, forma urbana é um processo de diversas dimensões e abrangências. O tempo e as suas sucessivas interpretações são factores de mutação da forma da cidade. Cabe à cidade resistir, absorver ou sucumbir a essas mutações constantes.


Haverá esquemas que garantam uma estrutura urbana que concilie diversidade com continuidade?

 

Ana Ruepp