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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Einig Wesen, Ser um no plural.

A arquitetura de Peter Zumthor e a Capela do Irmão Klaus.


'O máximo de complexidade na mais perfeita unidade.', François Varillon.

Para Peter Zumthor (1943) arquitectura é algo de muito concreto e tangível - insere-se num lugar específico, tem uma materialidade própria, transporta memórias e deve ser memorável. Para Peter Zumthor a magia do verdadeiro e do real é o mais importante. A sua arquitetura é poderosa e diferenciada, evidencia a clareza e a rudeza das harmonias, mas acentuando sempre a simplicidade, a transparência e a solidez da construção. Zumthor deseja estabelecer uma comunicação direta entre os espaços criados e a perceção emocional ou instintiva do homem. Segundo Zumthor, essa compreensão imediata deve ser despoletada assim que o homem experiencia a arquitetura.

'E vem-me à cabeça esta famosa frase inglesa que remete a Platão: 'Beauty is in the eye of the beholder.' Isto é: tudo existe apenas dentro de mim.', Peter Zumthor em 'Atmosferas', 2006.

Zumthor interessa-se pelo lado artesanal da arquitetura, na medida em que têm de existir sempre procedimentos, interesses, instrumentos e ferramentas. A sua arquitetura tem um corpo, uma massa sob uma determinada luz - é um invólucro físico que rodeia e que toca o homem. 'Tenho que admitir que a luz do dia, a luz sobre as coisas às vezes toca-me de uma forma quase espiritual.' (Zumthor, 2006) E é da composição dos materiais que nasce a unicidade da obra: 'Os materiais são infinitos - imaginem uma pedra que podem serrar, limar, furar, cortar e polir, e ela será sempre diferente. E depois pensem nesta mesma pedra em quantidades muito pequenas ou em quantidades enormes, será outra vez diferente. E a seguir exponham-na à luz, e ela será mais uma vez diferente. E outra coisa. Existe uma proximidade critica entre os materiais que depende dos próprios materiais e do seu peso.'(Zumthor, 2006)

Entre a serenidade e a sedução Zumthor ordena a composição dos espaços dos seus objetos construídos - por exemplo as termas de Vals (1996) organizam-se através de um vaguear livre, onde nada prende e onde se pode simplesmente existir. Cada espaço, para Zumthor, deve ainda emanar um som próprio - 'acho muito bonito construir um edifício e pensá-lo a partir do silêncio.' Zumthor afirma assim que harmonia na arquitetura é conseguida no momento em que se descobre o que as coisas querem ser. E a forma da arquitetura deve claro surgir da sua utilização, mas sobretudo advir de um todo diverso mas unido.

'Os Filhos de Deus também experimentam a medonha solidão que é o vazio de Deus, que é o silêncio de Deus nas suas vidas.', Georges Bernanos

A capela do Irmão Klaus (2007, Mechernich, Alemanha) está no meio de um campo cultivado. O volume é rígido, estreito, alto e facetado. Um dos lados do volume tem um banco embutido. A madeira, de 112 troncos de árvore dispostos em forma de tenda, que serviu de cofragem para espaço interior, ardeu. Por isso, esse espaço resulta de um vazio escavado e orgânico, outrora ocupado pela cofragem e que não se adivinha do exterior - 'Há qualquer coisa de especial na arquitetura que me fascina e de que gosto muito - a tensão entre interior e exterior.’ (Zumthor, 2006) A porta triangular descreve a forma do corredor que nos leva à capela. A capela é a céu aberto. Assim que chove desenha-se uma poça de água no chão. As velas iluminam o espaço escuro e deixam adivinhar os resíduos de queimado nas paredes de betão. Pequenos orifícios cilíndricos, que contém pequenas bolas de vidro, deixam entrar e sair a luz. O espaço interior é cavernoso. O chão é de chumbo congelado solidificado. É um objeto construído a partir do silêncio da sela do irmão Klaus (São Nicolau de Flue (1417-1487) é o santo padroeiro da Suíça) e que evoca a visão que este eremita teve ainda dentro do útero materno. A capela de Zumthor, é assim a pura materialização da força do vazio, da importância do nada e dessa busca constante do homem pela luz. Sem qualquer tipo de canalização e eletricidade é um objeto que se define na sua forma mais essencial e primária - é a verdade construída mais profunda: 'a building that is being itself, being a building, not representing anything, just being.' (Zumthor, 2006) 

 

Ana Ruepp