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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A complexidade dos anos sessenta abre perspetivas de mudança.

 

A ironia de Alexandre O’Neill em ‘País Relativo’ na ‘Feira Cabisbaixa’ (1965) dá-nos a imagem fidedigna do que era Portugal, nos anos sessenta, num tempo de transições. Com a força do non-sense o poeta ilustra bem como tudo estava a mudar. O ‘país relativo’ de que falava O’Neill era o lugar de muitos paradoxos e contradições. O país estava a mudar lentamente, mas num movimento uniformemente acelerado. Depois da candidatura do General Delgado, da tentativa do golpe da Sé (1959), do caso do navio ‘Santa Maria’ e da operação dirigida por Henrique Galvão (um antigo fiel do regime, amigo de Delgado), do início da guerra colonial, da revolta dos estudantes de 1962, tudo se ia transformando.

 

A ‘Feira Cabisbaixa’ retrata o absurdo das situações, o choque entre o arcaísmo e a modernidade. ‘País purista a prosear bonito / A ver se faz tão chique e tão pudico, / Enquanto a língua portuguesa se vai rindo, / Galhofeira comigo’. O país relativo contrapõe-se ao país absoluto (‘purista a prosear bonito’). As perspetivas caladas, os cantos surdos, os sufocados sonhos, os orgulhosamente sós, a autosatisfação iam passando à história. A solidão e um certo convite à mediocridade alimentavam uma claustrofobia de que a cultura desejava libertar-se. A atitude oficial é de isolamento em relação às correntes internacionais, mas em contrapartida a abertura de fronteiras revelava a um tempo o absurdo da atitude e a sua insustentabilidade. Era a consideração de uma nova luta imaginária porque todos sabiam que a modernização exigia liberdade política e de criação. E as emigrações testemunhavam essa obrigação. A abertura e a sua necessidade torna-se mais forte do que todos os constrangimentos.

 

Desde os jovens estudantes aos milicianos na guerra de África, passando pelos emigrantes e por uma nova geração de escritores e artistas, um pouco por toda a parte havia novas questões. 

O velho país agrícola, com um quarto da população analfabeta, ia-se movendo. O afluxo das populações às cidades e ao litoral reforçava os dualismos e a desertificação dos campos e do interior.

 

‘Uma coisa que ajudou muito a década de setenta foi a grande emigração, sobretudo para França. O êxodo maciço que esvaziou aldeias inteiras e populações do interior. Sobretudo para a Europa, para as cidades, sobretudo Lisboa. Foi a década em que começaram a aparecer os bairros clandestinos que se começaram a construir à volta de Lisboa, principalmente. O primeiro foi a Brandoa. Foi uma novidade.‘ (Nuno Teotónio Pereira, 2008).

 

No início dos anos sessenta (Ver reportagem BARRETO, António e PONTES, Joana ‘Portugal, Um Retrato Social – Mudar de Vida. O fim da Sociedade Rural.’, Público – Comunicação Social S.A., volume 3, 2007), para fugir da pobreza (em grande parte do país não havia serviços de saúde, educação, correios e bancos; faltava água canalizada, eletricidade, telefones e esgotos), muitos portugueses abandonam o campo – uns partem para a emigração, os restantes ficam para trabalhar na indústria, na construção civil e nos serviços. Com o fim da sociedade rural e com a vinda para a cidade, os portugueses mudaram de vida. Com os novos empregos as pessoas podiam viver melhor. No final dos anos sessenta já havia mais dinheiro – as novas classes médias mudavam de casa, compravam carro e eletrodomésticos e começavam a fazer férias. Uma parte dos portugueses acedeu ao consumo de massas. Durante o período designado por Marcelismo, viveu-se nas cidades um clima de euforia. As cidades aumentaram rapidamente – Lisboa e Porto tiveram de acolher a população vinda do campo. Foi então que cresceram os subúrbios – Loures, Amadora, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Almada. A partir do início da década de setenta, o Estado e as autarquias fizeram um grande investimento nas infra-estruturas. Os serviços e as instituições também cresceram. E por todo o país surgiram escolas, bancos, correios e serviços públicos. As localidades ficaram mais perto umas das outras. A sociedade ficou ligada.

O mundo político ganha novos atores, os anos de 1961 a 1963 são especialmente movimentados. A tradicional hegemonia, desde 1945, do neo-realismo dá lugar a novas tendências, de que é exemplo a revista ‘O Tempo e o Modo’. Mas a pressão maior vem da economia, que regista um crescimento a ritmos muito elevados e inéditos, dando lugar a novas classes médias mais informadas e naturalmente desejosas de um país onde as liberdades públicas fossem reconhecidas como acontecia na Europa.

 

Ana Ruepp