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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O planeamento urbano no final dos anos sessenta – Chelas, Restelo e Telheiras. 

 

Por estes anos, os temas de planeamento urbano e suburbano, os programas sociais de habitação, a terciarização das cidades, a expansão especulativa das periferias, os programas associados ao boom turístico e os parques industriais adquirem especial importância. 

De 1966 até início dos anos setenta, assistiu-se a anos de desenvolvimento económico muito acelerado. A crescente industrialização levou à explosão demográfica e à criação de grandes centros urbanos – Lisboa e Porto. 

Do ponto de vista territorial, o final dos anos sessenta e início de setenta denunciaram uma bicefalia das duas metrópoles e a litoralização dos grandes investimentos e dos processos de urbanização provocados pela promoção imobiliária e turística, como por exemplo sucedeu em Tróia e no Algarve. (Grande, 2002) 

Em Portugal, a introdução da cidade modernista revelou-se, no início dos anos cinquenta, de maneira progressiva. Porém, depressa a vontade dos revisionistas do Modernismo, como Keil do Amaral e Fernando Távora se espalha. Os programas municipais de maior impacto, durante o início e meados da década de sessenta – Olivais Sul e Chelas – transparecem esse Modernismo questionado, mas não totalmente esquecido. A Carta de Atenas, ainda, foi referência na atuação urbana em Olivais Norte. Em Olivais Sul revelaram-se mudanças conceptuais, na introdução de núcleos celulares como matriz da cidade, à maneira das New Town inglesas e dos bairros INA-CASA italianos.  
 

A crítica à Carta de Atenas que se seguiu, a partir de sessenta, traz por um lado o vínculo ao lugar geográfico, histórico e social, sobretudo, dando vida a inquéritos tipológicos e morfológicos acerca das cidades e a uma maior adesão à problemática social. Por outro lado, uma tradição empírica, tendencialmente anglo-saxónica, que prefere um estudo da adaptação antropológica ao contexto físico sobretudo no que diz respeito aos aspetos topográficos e climáticos.  
 

Contudo, o Plano de Urbanização de Chelas da coordenação, primeiro de José Rafael Botelho e depois (1960-1964) de Francisco da Silva Dias com João Reis Machado, Alfredo Silva Gomes, Luís Vassalo Rosa e Carlos Worm, pretendia combater ainda mais as fragilidades, ainda modernas, de Olivais Sul, criando unidades celulares em faixas de vida urbana intensa, com recuperação da rua pedonal como elemento gerador do desenho urbano. O plano procurava trazer de novo à reflexão as tradições urbanas sobre a rua, e sobre a hierarquização dos espaços públicos.
 

Algumas equipas, a quem foram entregues projetos de grandes conjuntos, reforçaram a tendência de continuidade e de linearidade, traduzindo-a na construção de extensos edifícios contendo eles próprios espaços urbanos, numa ideia de renovação da presença da arquitetura na paisagem citadina. É disto exemplo o projeto da Zona J de Tomás Taveira (1975-78). O conjunto de Taveira, que foi uma das maiores realizações efetuadas no âmbito do plano, apresenta-se híbrido – coexistem simultaneamente torres e bandas de habitações e ainda um pequeno centro cívico e comercial.
 

Recuperou-se assim a cidade linear em contraposição à cidade celular, experimentada por exemplo em Toulouse-Le-Mirail, numa tentativa de evitar a segregação do espaço funcional, dinamizaram-se todas as áreas da malha a partir do edifício e reabilitaram-se as ligações pedonais de modo contínuo. Retomou-se então a ideia de cidade como conjunto de espaços e formas com significado, entendidos a partir de uma tradição. A intervenção remete, por estes anos para que o novo não seja radicalmente diferente e desconexo, mas sim que se estabeleça na continuidade da cidade.  
 

Veja-se ainda o Plano do Alto do Restelo da autoria dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Gonçalo Ribeiro Telles, que já em 1972 abandonara completamente o tema do edifício isolado e virado ao sol através do uso do quarteirão semi-fechado e virado ao rio – Nuno Portas refere-se à possibilidade de eliminar a multiplicidade de linguagens que se verificara nos Olivais. É a oportunidade para fazer a ligação entre a arquitetura e a trama urbana. Propõe-se o reaparecimento da rua e do quarteirão, baseados na análise da ocupação em encosta da época pombalina, aparecendo como alternativa à solução das torres, então habitual solução nas urbanizações de iniciativa privada, que correspondiam às necessidades de habitação da classe média e que enchiam zonas como Benfica. 
 

E o sistema urbano Telheiras desenvolvido, entre 1973-74, por Pedro Vieira de Almeida e Augusto Pita ao concretizar as metodologias de Kevin Lynch (The Image of the City) e Christopher Alexander (A Pattern Language) considera a rua como sendo a estrutura principal do plano, como forma urbana não encerrada mas definida por pontos de interesse que garantem um percurso. O plano recuperou o uso do quarteirão de carácter semi-público, aberto e acessível aos automóveis e peões. Tentou de novo uma relação entre a forma e a dimensão do espaço urbano e sua vivência, com indicações precisas do tratamento de volumes. É nítida a vontade de criar ruas, quarteirões com interiores de vivência coletiva e até uma praça central (que nunca se construiu), num conjunto que englobaria a antiga povoação rural do mesmo nome.  

 

Ana Ruepp