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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Philip Guston e o regresso à realidade tangível.

 

'O sentido de que o trabalho dos anos 50 e início dos 60 foi forçado a parecer abstrato constituiu a parte maior do absurdo/cómico da questão. Na altura eu sabia disso mas não podia dizê-lo a ninguém.', Philip Guston, 1979

 

O livro de Manuel Botelho, 'Guston em contexto. Até ao regresso da figura.' (2007) revela o momento em que Philip Guston (1913-1980)  abandona a arte puramente subjetiva e existencialista, que desenvolveu desde o final dos anos quarenta.

 

Os anos sessenta são, para este pintor, anos de confrontação, de renovação e de abertura à vida. As suas pinturas profundamente inseridas no contexto existencialista do expressionismo abstrato (onde se afirmava acima de tudo a subjetividade da criação artística e um entrosamento entre as ações de pensar e fazer), iriam sofrer por estes anos uma grande transformação. 'Guston estava a aproximar-se de uma das fases mais despojadas e radicais da sua pintura.' (Botelho, 2007)

 

Botelho declara que desde sempre, as pinturas de Guston demonstraram ser uma constante luta de um homem consigo próprio. Até ao fim da década de sessenta, a inconstância foi dominante - o mundo da arte mudava de rumo e a vida de Guston ameaçava resvalar para um abismo. Para Guston, parecia-lhe impossível abandonar a abstração. Mas, no início de sessenta já se adivinhavam algumas formas destacadas do fundo das suas pinturas. Já havia indícios de uma aproximação a uma quase figuração.

 

Por essa altura, Andy Warhol e Sol LeWitt faziam já a apologia a uma arte impessoal, mecânica e despojada de interferências subjetivas - começava a generalizar-se a ideia de que a existência de um conceito, no sistema criativo, deveria ser banido para todo o sempre, e que arte deveria poder ser realizada por qualquer pessoa.

 

Na verdade, nestes anos de mudança, Guston gostaria de poder pintar sem nada abdicar, de encontrar uma forma de expressão livre e de evocar o mundo de modo a conseguir aliar pensar e sentir: 'Há tantas coisas no mundo, nas cidades, tanta coisa para ver. Pode a arte ser livre? As dificuldades começam quando compreendemos tudo aquilo que a alma impede a nossa mão de realizar.' (Guston, 1965)

 

E as possibilidades passam, então, a ser infinitas. No início de 60, as cores começaram a desaparecer. Em 1966, Guston expôs no Jewish Museum um conjunto de obras 'intensas e completamente despojadas' resultado de um trabalho com os meios mais simples - porém as referências à impossibilidade da pintura, ao carácter existencial, evasivo e indeterminado da forma ainda estavam bem presentes. Apesar do desfasamento em relação ao mundo exterior, Guston acreditava serem eles a verdadeira fundação do seu processo criativo. (Botelho, 2007)

 

'Na minha forma de trabalhar, pretendo eliminar a distância ou espaço de tempo entre pensar e fazer.' (Guston, 1966)

 

Ao contrário das atitudes que criam a distância entre o eu e a obra, e que cada vez ganhava mais seguidores, Guston acreditava nessa forte significação pessoal como o elemento vital que permite a evolução e fornece novos pontos de partida.

 

Mas havia também uma profunda necessidade de mudança. E foi aliado a uma América dividida, à guerra do Vietname, aos movimentos sociais, às confrontações, ao choque de opiniões, a uma instabilidade emocional e após um período de tempo sem pintar surgiram os primeiros desenhos despojados que mais tarde denominaria de 'pure drawings'.

 

E a pouco e pouco, a figuração do mundo regressou. O vocabulário era muito reduzido e essencial - num primeiro momento desenhava apenas uma ou duas linhas na folha branca, e seguia ainda a sequência das suas últimas pinturas apresentadas no Jewish Museum; mas depois, assumia finalmente o regresso à figuração, através da representação de objetos simples mas reais. Aos desenhos puros, associa cada vez mais o desenho de objetos - livros, sapatos, edifícios, mãos - e sentia um enorme alívio em lidar com coisas tangíveis. 

 

Em 1969, a abstração tinha sido finalmente abandonada e Guston tinha encontrado um novo tipo de pintura. Uma pintura encaixada no mundo real e com preocupações sociais: 'A guerra, aquilo que acontecia na América, a brutalidade do mundo. Que espécie de homem era eu, sentado em casa, a ler revistas, furioso e frustrado com tudo, para logo regressar ao meu estúdio e ajustar um vermelho com um azul? Achei que devia haver algum modo de resolver esse assunto. Sabia que tinha pela frente um caminho. Um caminho tosco e incipiente. Queria ser de novo completo, como quando era criança... Queria encontrar a unidade entre o que pensava e sentia.' (Guston, 1977)

 

Estes desenhos de objetos abriram a Guston a possibilidade a uma pintura de direta alusão à dimensão política e social, ao esbatimento das fronteiras entre o erudito e o comum, e fugir ao simples formalismo e à obsessiva necessidade modernista da constante afirmação do novo.

 

Ana Ruepp