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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Howard Hodgkin, o gesto demorado da memória mais íntima.

 

‘Life is not a problem to be solved, but a reality to be experienced.’, Soren Kierkegard

'You need things to look at, things to affect your feelings, and your intelligence and your heart.' Howard Hodgkin, 2001

Gestos espontâneos, repetidos, essenciais, prudentes, pacientes e contidos transportam para a tela intenções refletidas e memórias exatas. Um gesto de Howard Hodgkin (1932) pode demorar anos a tomar forma. A beleza aparentemente acidental das suas pinturas advém da demorada maturação de uma memória.

No início eram formas de contornos precisos e de cariz mais concerto. Hoje são pinturas objeto, compactas, densas, de texturas variadas, com uma paleta de cores vivas, luminosas e intensas.

Susan Sontag no texto ‘About Hodgkin’ (1995) escreve: ‘Each artist is responsible for creating his unique vision. A style is equivalent to a pictorial language of maximum distinctiveness: what declares itself as that artist’s language, and nobody else’s. To reuse again and again the same gestures and forms is not deemed a failure of imagination in a painter. Repetitiveness seems like intensity. Like purity. Like strength. And the extent to which everything by Hodgkin looks so unmistakeably by him.’

Advinham-se intensos contrastes entre a luz e a sombra, entre o íntimo e a grande escala, entre o delicado e o abrupto, entre o leve e o pesado.

'I hate painting most of the time it’s irrelevant. It doesn’t mean enough, ever, quite.', Hodgkin

A pintura de Hodgkin é a forma de expressão mais primária. É apoderação de espaços interiores íntimos, de naturezas mortas, de cenas ao ar livre, de retratos, de homenagens à história de arte. As pinceladas inacabadas e cruas sugerem narrativas – que se conseguem decifrar através dos títulos (In The black Kitchen, After Dinner, Discarded Clothes, Leaves, In Tangier, The Last Time I Saw Paris, Waterfall, Patrick Caulfield in Italy, After Degas, After Morandi…).

Cada bocado de cor pintada refere-se a um tempo particular, a um lugar específico, a uma determinada pessoa, a uma história submersa. São imagens que representam situações emocionais, que se relacionam com o eu criador e que tentam ser finitas, sólidas e objetivas, e que excluem o irrelevante e o confuso: ‘The idea is to put as much as possible, of color, of feeling, in each picture.’ (Sontag, 1995)

Enquanto pinta, Hodgkin ignora as diferenças entre o eu e o mundo, entre o escondido e o revelado, entre passado e presente, entre tela e moldura.

Sontag entende que Hodgkin não oferece um simples olhar sobre o mundo, não oferece somente uma impressão – isto porque uma situação emocional não é uma impressão. As pinturas de Hodgkin não se constituem por contornos distintivos e identificáveis. As formas (pintas, riscas, discos, arcos, faixas, setas, bandas, ondulações, pórticos) são alusivas mas intencionalmente representacionais. ‘Hodgkin aims to reinvent the sight of something after it has been seen, when it has acquired the heavy trappings of inner necessity.’, Susan Sontag.

'I’ve always thought that the first thing that painting should be is a thing – paintings should be like objects that exist firmly. Why is that so important – because everything else is so fleeting? Probably, yes. They have to be complete in themselves.’, Howard Hodgkin

Por vezes, as pinceladas transcendem os limites da madeira e transbordam para a moldura, outras vezes é a moldura que se duplica como que tentando conter o que não pode ser contido. São assim objetos autobiográficos delicados. São também evocações de sítios dos grandes mestres do passado: Índia, Itália, França, Marrocos, Egipto. A viagem é uma experiência ávida, intensificadora, incentivadora e assim necessária para Hodgkin – atua como filtro e distância ideal ao desejo de pintar. Há preferência pela contemplação das experiências mais íntimas mas que já acabaram – os quartos, os terraços, os jantares, os passeios noturnos, as visitas memoráveis.

‘The most common weather is rain; the season is invariably autumn; if a time of day is cited, it’s usually sunset. Art made out of a sense of regret… evoker of the sentiment of loss.’, Sontag

Hodgkin não desenha, não fotografa, confia antes plenamente no que a memória regista na sua profundidade emocional e pictórica. A matéria relevante para pintar é o que fica dentro e é transformada pela memória. As camadas e as pinceladas resultam de muitas decisões e são trabalhadas durante anos, de modo a encontrar a exata espessura da emoção transcendente. (Sontag, 1995)

'Art doesn't give me pleasure. Because I always think it should have been better. It shouldn't be as inadequate as it often seems to me to be. And yet, looking at the pictures behind you, I'm suddenly impressed.', Howard Hodgkin

 

Ana Ruepp