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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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A geometria, a cor e o gesto destabilizador. (Parte 1)

 

'Nas 24h do dia só vivo e penso em pintura.', Joaquim Bravo

 

Joaquim Bravo (1935-1990) teve uma formação exclusivamente literária e completamente fora do caminho estabelecido. Nunca frequentou uma escola artística, emigrou, em 1964 para a Alemanha, sem nenhuma bolsa da Gulbenkian. 

A sua pintura, desenho e escultura apareceram, como escreve Helena de Freitas, simplesmente como um vício. 

 

'Sempre vivi angustiado nas escolas, que eram sítios de constrangimento.', Bravo 

 

Joaquim Bravo começou a pintar em 1962 e rapidamente, por influência de António Areal interessou-se pelo informalismo americano (Pollock e Morherwell) mas também pelo surrealismo e pelo Paul Klee.

Helena de Freitas, no livro 'Joaquim Bravo' (2006)escreve que é pelo desenho que o artista caminha com mais segurança numa vontade de constante questionamento - a construção e a desconstrução aparecem sempre em simultâneo. Para Bravo, importante é a permanente referência à vida.

 

'Eu sei que muitos ficam perdidos em relação às minhas obras. Eu assumi há muitos anos que a pintura é uma arte solitária, mas ao mesmo tempo querem que quando ela sai de casa, dance o vira com toda a gente. Agradar? É o que menos me interessa. Tudo o que faço é para que seja mais meu.', Bravo, 1989

 

Em meados dos anos 60, logo após experiências gestuais, Bravo realiza desenhos que sugerem uma escrita visual combinada com linhas e formas geométricas e que introduzem à composição o absurdo e a estranheza. Estas composições são as suas primeiras experiências que articulam expressões plásticas contraditórias - o gesto e a geometria.

 

A estadia na Alemanha foi um marco fundamental para a evolução do trabalho de Joaquim Bravo. O contacto com a vanguarda internacional através da visita à IV Documenta de Kassel, fez com que Bravo pudesse avaliar o seu trabalho. Ficou muito impressionado com os artistas da Nova Abstração e da Pop Arte - Ellsworth Kelly, Morris Louis, Rauschenberg e Jasper Johns. 

 

'Eu quero que a minha pintura seja uma síntese de determinadas características que se vão avolumando no desenhar. Como o desenhar é um processo muito atento surgem diversos elementos que são meditativos. Pode-se pensar que o fazer é fácil, mas espero que se pressinta que preexiste um percurso, do qual esse quadrado é uma simples extroversão. As palavras e as frases num poema são sintéticas, mas subentende-se a intensidade interior que o provocou.', Bravo, 1989

 

Porém, é precisamente o programa de pureza da pintura não pessoal, quieta e imóvel, da Nova Abstração, que entra em conflito com o desenvolvimento do trabalho de Bravo. Freitas diz: 'Joaquim Bravo é um impuro. Atuará sempre segundo uma lógica de desvio e transgressão face a qualquer escola ou dogma.'

Mesmo nos trabalhos mais simples e depurados, Bravo inclui sempre uma componente contaminadora, uma ironia subtil, uma carga de energia, irregularidades e assimetrias. 

 

Ana Ruepp