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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Jürgen Partenheimer e a realidade para além do visível.

 

'Images do not capture particular moments, nor do they comment on the absence of what is represented. Rather, they show the presence of what was felt, as a presence of the awareness that is concerned with the causes [aitía] and the principles [archai] as described by Aristotle in the first book of his Metaphysics. Images are projections of sensations. They image our conceptions and feelings, giving us an idea of the world we have seen and thought.', J. Partenheimer, 1991

 

A obra do artista alemão Jürgen Partenheimer (1947) está enraizada na abstração e implica uma interconetividade constante entre o desenho, a pintura, a escultura e a cerâmica.

 

Para Partenheimer a essência da criação consiste em fazer sem razão e em criar um discurso filosófico e poético que transite entre a realidade e a imaginação, entre o que é físico e a experiência espiritual.

 

As linhas desenhadas são frágeis, delicadas e descontínuas. As formas e as cores são suaves mas firmes e precisas.

 

'People go out to admire the summits of the mountains and the waters of the sea, the flow of rivers, the expanse of the ocean and the paths of the heavenly bodies, and while doing so they lose themselves.', Santo Agostinho

 

Para Partenheimer, a arte deve revelar o espírito humano e contribuir para dar sentido à unidade da criação e do cosmos e ajudar na descoberta da verdade (que implica a coexistência constante da dúvida e da esperança; da sensibilidade e da racionalidade; da estultícia e da sabedoria; da natureza e da ficção).

 

Lê-se no texto 'Wanderings - Real Experience and Artistic Form', de Uwe Wieczorek que o mundo das formas criadas por Partenheimer parece criado simultaneamente através da lente de um telescópio e de microscópio. Não há certeza acerca da escala das formas, das linhas, das manchas, das cores que flutuam nas suas pinturas. Todas emergem de uma visão que vem de dentro. Pode falar-se de paisagens macrocósmicas que são traduzidas pelo artista através de mapas. As construções pictóricas são ambíguas - combinam elementos figurativos e abstratos, proximidades imediatas e distâncias longínquas. Partenheimer revela que deseja mapear 'the realm of the universal song-lines and dream paths, but also the realm of the sky between the clouds, of day dreams and of the spiritual, as well as the space of time between breathing in and breathing out.' 

 

Partenheimer anseia tocar, através dos instrumentos da arte, em áreas da existência que são fluídas, transitórias, imateriais e intangíveis. Fenómenos variáveis e mutáveis são objeto da sua atenção. O artista cria formas através de imagens desfocadas, revelando incertezas. As suas pinturas são como que ritos de passagem entre o tocável e o intocável, são fronteiras, intervalos, pontos de conversão, mudanças de posição. 

 

O carácter automático, gestual e espontâneo de alguns dos seus trabalhos revelam uma aparente incompletude e correspondem ao conceito de forma aberta e espiritual que derruba a barreira entre o físico e o mental. Não são realidades que são reveladas, são fenómenos. Não transportam pensamentos racionais, são entendimento direto. Assim, Partenheimer consegue criar uma distância concreta em relação aos objetos que são materiais.

 

'At the top of the wave you put the telescope to your eye. The imagination is reflected a thousand times within the confines of the sea. Who, if not us, will sound out the spaces in between, will deregulate the senses? Science, dream and digestion.', J. Partenheimer 

 

Ana Ruepp