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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


Acerca da conceção formal dos objetos de uso.

 

'Objects of use are therefore mediations (media) between myself and other people , not just objects. They are not just objective but inter-subjective as well.', Vilém Flusser

 

Vilém Flusser (1920-1991) no texto 'Design: Obstacle for/to the Removal of Obstacles.', distingue dois tipos de objetos: os objetos em si e os objetos de uso.

 

Para o filósofo, um objeto em si é um obstáculo, é aquilo que cruza o caminho do homem, tornando-se num problema. Já o objeto de uso é concebido com o intuito de eliminar as obstruções criadas por todos os outros objetos. E porque vivemos num mundo objetivo, substancial e problemático, tudo aquilo que é feito com o objetivo de remover obstáculos (como os objetos de uso), constitui cultura. Porém os objetos de uso apesar de pretenderem eliminar obstruções também podem ser eles próprios obstáculos. 

 

'And I am in fact doubly obstructed: first, because I use them in order to continue, and second, because they get in my way. The more I continue, the more objective, substancial and problematic culture becomes.', V. Flusser

 

Os objetos de uso são assim projetados por um homem para abrir ou obstruir o caminho de outro homem. 

 

Que forma então estes objetos de uso poderão ter, de modo a evitar obstruções no caminho do Outro?

 

Esta deve ser, segundo Flusser, a pergunta central de qualquer conceção formal.

 

Sendo assim, um objeto de uso deve ser dialógico, eliminar problemas, atravessar fronteiras, estabelecer ligações (entre objectos e entre os homens). Acima de tudo deve garantir que é uma forma comunicativa, inter-subjetiva e em constante diálogo, evitando ser meramente objetiva, substancial e problemática.

 

Flusser afirma que dentro de uma liberdade responsável, o homem cria objetos de uso - responsabilidade essa que faz com que o homem crie porque deseja dar resposta às necessidades do Outro. É a abertura total ao Outro - e por isso naturalmente a inter-subjetividade deve sobrepôr-se à objetividade. Flusser diz ainda que quanto menos objetivos e problemáticos forem os objetos de uso mais se abre o acesso à cultura.

 

'The current situation of culture is as it is precisely because creating designs responsibly is thought to be backward-looking.', V. Flusser

 

Para Flusser, o mundo atual é dominado pela objetividade, é o mundo da idolatria. 

 

Mas sempre que no mundo, prevalecem objetos mediadores, inter-subjetivos e que promovem o diálogo, abre-se espaço ao profético. Os objetos de uso proféticos, podem ser também eles obstruções, mas contribuem sempre para o progresso do homem, para a sua importante relação interpessoal e para uma cultura com ainda mais liberdade. 

 

Ana Ruepp