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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O Centro Georges Pompidou.

 

'Architecture must concern itself continually with the socially beneficial distortion of the environment.', Cedric Price 

 

Logo após os acontecimentos de maio de 1968, Georges Pompidou depressa percebeu a importância da cultura ao representar os valores mais elevados do estado. Foi em 1969, que Pompidou, num ato de alta dedicação cultural, decretou que, um novo tipo de centro cultural, deveria ser construído no centro de Paris. Um concurso público foi assim aberto, de maneira a criar um novo centro de vida urbana, em Beaubourg.  O concurso pretendia responder às seguintes exigências do programa: nova biblioteca, instalações para exposições temporárias, um novo museu nacional de arte moderna, um centro de design industrial, cinemas e espaços para performances e um espaço para o IRCAM (Institute for Research and Coordination in Acoustics and Music). 

 

Em 1971, o júri, constituído por Jean Prové, Philip Johnson e Oscar Niemeyer, atribuiu o primeiro prémio à radical proposta de Renzo Piano e Richard Rogers, por ter sido a única a dedicar metade da área de implantação a um espaço público. Piano e Rogers pretendiam eliminar noções de espaço e tempo, numa estrutura construída constantemente flexível. Uma estrutura neutra e fixa seria então criada, de modo a ser capaz de incluir as várias partes mutáveis do programa. Todos os espaços máquina ou servidores do edifício seriam colocados como elementos de cor nas fachadas. Piano e Rogers desejavam, por isso, levar ao extremo a ideia de Louis Kahn ao conceber a existência de espaços servidos e servidores. E ao monumentalizar-se a estrutura e os seus serviços fez com que o conteúdo interior, que ao ser flexível, deixasse de ter uma identidade permanente.

 

'A taste for the polemical prevailed, and form was used symbolically to destroy the typical image of a monument and replace it with that of a factory. The factory as a place for making and, therefore, also for making culture - that was the aim.', Renzo Piano

 

Ora, a proposta de Piano e Rogers consegue concretizar em simultâneo a animação tecnológica das colagens dos Archigram e a espontaneidade do Fun Palace de Cedric Price.

 

Sem dúvida, a chave da proposta para o Pompidou está para além da vida mutável do seu interior. A forte interação do edifício com o contexto urbano, possibilitada pela criação da nova praça, permite criar relações e ligações completamente novas e estimulantes, deixando de ser um mero objeto estéril no espaço. A proposta de Piano e Rogers consegue sobretudo sublinhar que a cultura é assim aberta, mediadora, capaz de promover o diálogo inter-subjetivo e transportar em permanência valores de liberdade. 

 

Ana Ruepp