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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Antoni Tàpies e a prática da arte. 

 

'A meditação profunda está subentendida em qualquer criador autêntico. Mas se não vier acompanhada de uma luta com a matéria, que lhe é peculiar, verificamos que o artista não deu sequer um passo em frente e que a sua obra foi apenas uma divagação estéril.', Antoni Tàpies

 

No livro 'A prática da arte', que reúne diversos textos de Antoni Tàpies, lê-se que a arte é uma fonte de conhecimento e só pode prosperar se se manipularem ideias que nunca foram concebidas. O artista deve fazer com que ele compreenda que o seu mundo era estreito e deve abrir-lhe novas perspetivas. 

 

Porém, o ato de criação é uma atitude pessoalíssima e muito circunstancial (geográfica e culturalmente). O artista trabalha e pensa por conta própria e deve, por isso, proteger e fomentar esta liberdade solitária. Só a experimentação diária e o facto de estar constantemente em estado de alerta farão com que por vezes no momento menos pensado, se produza o milagre de certos materiais, que sozinhos são inertes, e se comece a falar com uma força expressiva que dificilmente se pode comparar a seja o que for. Se isto acontecer o artista encontra a adequação entre o conteúdo e a forma. 

 

Tàpies acredita que o artista tem de inventar tudo. Mas o ato de criação não é de todo um facto gratuito: 'Defendo a nossa liberdade, mas defendo-a sabendo que somos livres face aos outros e que só se consegue valor numa obra se nela confluírem, por um lado, tudo o que represente uma conquista da realidade para a sociedade que a recebe e, por outro, que essa conquista esteja encarnada numa forma que reúna as condições necessárias para ser atuante no seio daquela sociedade.' 

 

Para Tàpies, a realidade nunca esteve na pintura, porque ela encontra-se unicamente na mente do espectador. A arte é um signo, um objeto, algo que sugere a realidade ao nosso espírito. O artista, sem necessidade de regras, projeta como que uma substância psíquica no material. Esta projeção é o essencial. O artista tem de respeitar os seus impulsos profundos e de confiar no seu instinto. Segundo Tàpies, a obra de arte tem uma individualidade própria, basta-se a si mesma e dá a compreender a estrutura de uma matéria particular. 

 

'É trabalhando que formulo o meu pensamento; e desta luta entre o que pretendo e a realidade a matéria, nasce um equilíbrio de tensões.', Tàpies

 

Ora, e pintar é uma forma de refletir sobre a vida, porque para Tàpies, a reflexão é mais ativa que a contemplação pura - é uma vontade de ver e aprofundar a realidade. E por isso, pintar cria uma realidade mais verdadeira, porque 'a obra completa, custe o que custar, deve abraçar também o aspeto mais profundo - e difícil - de proposta de um novo conhecimento positivo, de um conhecimento filosófico e ético intensos que tem um novo sentido a tudo.'
 

Ana Ruepp