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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LEBRE E O CROCODILO…

 

Minha Princesa de mim:

 

Há horas de partilha, alegre ou jocosa, e mesmo triste ou saudosa, como quando alguém põe sentimentos na rua, para arejar na companhia de outros. Mas outra coisa é o que só o silêncio nos descobre, como o poema que,  a sós lemos e relemos, recolhidos como quem reza. Não cansa porque nunca se repete, e quando se repete é já um poema novo, um passo adiante, na escuta de uma oração. Afinal, rezar  não é nenhum refrão pagão, é ouvir muito e dizer pouco. A contemplação, poética ou mística, não tem segundas intenções, é simplesmente a ascese de um olhar que se limpa frente ao mistério de tudo. Parece, todavia, que o coração humano, em sua mente, encerra, labirinticamente, propósitos inconfessáveis. Recordo que, no seu L´autre face de la lune - écrits sur le Japon, Claude Lévi-Strauss fala do mito antigo (vem narrado no Kojiki) da lebre de Inaba, não para o retomar como fábula parente de muitas outras contadas também no sudeste asiático, mas para o relacionar com mitos recolhidos no continente americano. Resumindo: em todos esses contos surge um animal, ou um herói, que, na incapacidade própria de atravessar um rio a nado, pede a um crocodilo que o transporte. Cito Lévi-Strauss: O sáurio consente, mas com segundas intenções. Exige que o seu passageiro o insulte (bom pretexto para o devorar); ou então, acusa-o de o ter insultado; ou, mais ainda, é efectivamente insultado pelo herói, logo que este, chegado a bom porto, pensa poder escapar-lhe. Estamos, neste ponto, muito próximos das duas versões japonesas conhecidas, em que a lebre, assim que põe o pé na margem, faz troça do crocodilo e lhe revela a sua própria matreirice. No fundo, a lição também não é diferente da de muitas outras fábulas que, aliás, em muitos casos, de fabuloso sobretudo têm não se ter aprendido a lição com elas... Na vida política ou académica, em negócios ou simples viagens de recreio, no trânsito rodoviário, como na busca de um lugar em parques de estacionamento ou de um assento no comboio, todos nós  -  alguns até, infelizmente, nas suas relações de família ou amizade  -  já experimentámos esse desgosto causado pelo gosto de alguém em enganar o outro, provocá-lo ou dele troçar... Até já pensei que a narrativa mítica do pecado original talvez seja, afinal, um semáforo de alerta: Cuidado, muito cuidado! Não te deixes enganar... E o profeta Jeremias dirá: Maldito o homem que confia no homem...  ...O coração é o que há de mais astucioso e incorrigível. Quem o pode entender? Mas retorquirá: Posso Eu, que sou o Senhor: penetro os corações, sondo os mais íntimos sentimentos, para retribuir a cada um segundo o seu caminho, conforme o fruto das suas obras... A tradição da Igreja, e a liturgia católica, aproximaram muitas vezes esta leitura de Jeremias à narrativa evangélica, por São Lucas, do pobre Lázaro  -  em sua vida ignorado por um ricaço anónimo  -  e que, depois de morto, foi pelos anjos colocado sob o manto de Abraão, enquanto o homem rico foi lançado à mansão dos mortos. Aí, o seu sofrimento impele-o a pedir a Abraão, pai dos povos, que deixe Lázaro vir molhar-lhe os lábios febris de tanta sede, ou ainda, pelo menos, a voltar à terra, para avisar os seus ricos parentes do risco que correm por ignorar os pobres. Tudo isso lhe é negado, pois quem, em seu tempo, não escutou Moisés nem os profetas, será incapaz de acreditar no que avisa um regressado da outra vida... Resumindo: todos podemos enganar-nos uns aos outros e a nós mesmos, mas a Deus ninguém engana. Ou, se quiseres, à consciência de si, que também será essa íntima fidelidade ao bem-querer e bem-fazer, na medida em nos revela enquanto seres necessariamente em relação. Creio que essa consciência individual, esse sentido único de responsabilidade do eu mesmo, livremente, para com os outros, será posterior à coesão necessária dos membros de um grupo humano primitivo. Os homens emigraram da natureza para o bando, e do bando para o próprio eu de cada um. Só a partir desse ponto surge, verdadeiramente, a consciência moral e o direito. A natureza não tem direito nem torto, tem sujeição ao instinto. O homem primitivo tem sujeição à sobrevivência do grupo. O homem moral não tem sujeição necessária, vive numa esfera de referências a que chamamos cultura... E poderá, dramaticamente, valorizar, de modos diferentes e em tempos vários, essas referências. Nesse sentido, a consciência moral comandará sempre o exercício da liberdade individual, determinando a formação de uma vontade. Ao decidirmos ou, simplesmente, consentirmos, tornamo-nos responsáveis, não só pelo acto em si, mas pelas suas consequências. E, porque somos sempre em relação, somos responsáveis, em consciência, perante Deus, mas também necessariamente para com aqueles que a nossa decisão, ou simples consentimento, afetou. Infelizmente, a cultura reinante valoriza e apregoa uma consciência individual que, todavia, ignora ou esquece o imperativo moral da relação aos outros. Ainda por cima, hipocritamente, referindo-os sempre como motivo, razão ou objectivo de prometidos actos benfazejos. Da publicidade comercial às campanhas eleitorais, enaltecem-se sonhos e fantasias, prometem-se futuríveis irrealizáveis. Chega-se à outra margem  -   à dos lucros ou do estabelecimento político  -  à custa do jacaré enganado. Entretanto, uma certa cobardia  -  a que por aí chamam prudência ou faro político  -  aconselhou a, hipocritamente, ir lisonjeando o sáurio, não vá ele sentir-se insultado e devorar o passageiro... Mas o apagamento da consciência moral  --  concomitante à generalização da irresponsabilidade  -  pode também, por outro lado, levar  indivíduos a provocar ou insultar  outros, ou, ainda, de modo mais intencional e calculista, a sabotar-lhes a confiança para causar rupturas. De tais exemplos está o mundo cheio, tal como de demonizações dos próximos a fim de condenar a estima que mereceriam. Como se, até na cultura católica  -  que é a da comunhão dos santos  -  tivesse prevalecido o célebre individualismo de Lutero que, no Teófanes Egido, escreveu: Que ninguém se abandone às obras de outrem e prescinda das obras divinas que lhe são próprias. Pelo contrário, deve atender primeiro a si mesmo e a Deus, tal como se ele e Deus fossem os únicos existentes no céu e na terra, e ninguém além de si mesmo fosse motivo de acção divina. E só depois se pode atender às obras dos demais. Sabes como sempre defendi que ninguém, nem sacra instituição alguma, tem o direito de se interpor entre a minha consciência e Deus. Mas, perante Deus, eu nunca estou sozinho, devo ser como o escriba a quem Jesus disse: Não estás longe do reino de Deus. Pois, apesar de escriba, ele aprendera o mandamento: Amar a Deus com todo o coração, toda a inteligência, todas as forças, e amar o próximo como si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios... Nos evangelhos, nunca se afirma o amor de Deus desligado do amor do próximo. Dou-te a mão, minha Princesa de mim, estendo-ta de bem longe, não te contagie este mal que me fecha em casa...

 

Camilo Maria

   

   
Camilo Martins de Oliveira