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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

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IV - ESTRATÉGIAS E ORIENTAÇÕES LINGUÍSTICAS


1. As línguas de disseminação com incidência planetária, como a inglesa, a francesa, a espanhola e a portuguesa, ou regionalmente delimitadas em termos geográficos, como a árabe, a russa, a chinesa, a japonesa, a alemã e italiana, tendem a gerar, em maior ou menor grau, interesses convergentes que ultrapassam as fronteiras do idioma e potenciam blocos ou espaços de interesse geolinguístico e geopolítico. Se é consensual que a necessidade de substituir antigos laços coloniais fez surgir realidades pertencentes a uma comunidade linguística, como a anglofonia, a francofonia, a hispanofonia e a lusofonia, o fim da segunda guerra mundial foi, no essencial, em termos linguísticos, a vitória da língua inglesa e dos aliados anglófonos. O que foi reforçado, nos anos de pós-guerra, com a queda do muro de Berlim e do então bloco de países do leste.

Do poder da herança colonial inglesa emergiu, como seu descendente e sucessor, o poder económico, cultural e militar dos Estados Unidos da América, veiculando a língua inglesa, a língua dos vencedores, a língua do espaço comunicacional das empresas multinacionais, através da sua imposição como língua económica, política e cultural. A que acresce uma conjunção de fatores que potenciaram a sua ascensão e reconhecimento como língua global de comunicação internacional dominante, com a penetração e expansão do cinema, música e literaturas da cultura anglo-saxónica, aproveitamento e reconhecimento das novas tecnologias de matriz anglófona das décadas mais recentes, recurso crescente a publicações em inglês, quer a nível científico ou de investigação, nomeadamente por académicos, mais do que a traduções, dada a sua indisponibilidade em tempo útil para estudo e investigações. Uma língua é mais necessária quando nela se estabelece a comunicação internacional predominante no mundo dos negócios, da ciência, da tecnologia, da diplomacia, da difusão audiovisual e cultural de massas, o que traduz a capacidade de impor a sua vontade a países menos desenvolvidos, acabando por aumentar o número de falantes não nativos que a têm como uma língua útil. Daí não surpreender ser superior o número de falantes de inglês como idioma não materno que o dos seus falantes maternos.

Este facto consumado da posição dominante do inglês, também é tido como um poder proeminente e monolingue sobre a diversidade, como um retrocesso a um imperialismo linguístico, contrário à doutrina da UNESCO e aos Direitos Humanos Linguísticos e Culturais, no sentido de que todas as línguas, na sua essência, têm a mesma dignidade, merecimento e valor, sendo uma janela do pensamento humano aberta ao mundo e sobre um mundo muito especial, pelo que a extinção de uma delas, seja qual for, é uma perda irreparável. Uma língua aceite e consagrada como dominante pode ser vista como um perigo real que tende a menorizar e a excluir as línguas dominadas, deserdando e retirando identidade aos seus falantes, optando por ignorar a cultura e a língua dos outros. Servindo-se da sua hegemonia e poder, os falantes que têm o inglês como língua nativa estão em vantagem argumentativa, de compreensão e de agilidade mental em relação aos falantes de outras línguas que com eles falam e negoceiam, dado que estes fazem-no num idioma que não o seu, sem acesso linguístico às subtilezas e estratégias dissertativas, sem a astúcia e a eficiência mental de quem fala e pensa na sua própria língua e no quadro cultural em que nasceu e aprendeu. Segundo alguns, trata-se de arrogância, imperialismo e racismo linguístico. Mas temos de reconhecer que o desconhecimento de outras línguas, que não a sua, pelos falantes de inglês, limita o seu conhecimento de outras culturas e leva-os a assumir, mesmo que inconscientemente, uma pretensa superioridade cultural do inglês, promovendo uma fraca apetência para a aprendizagem de línguas estrangeiras. O que é corroborado quando a presença da língua inglesa é favorecida em países que têm uma fraca imagem de si próprios, associando uma carga negativa à sua própria língua, em que o que é “estrangeiro” é que é bom, a imitar, sinónimo de desenvolvimento e prestígio.

2. Se é certo que o passado colonial inglês foi decisivo na formação de um amplo e disperso espaço geolinguístico e geopolítico estratégico, essa constatação é comum a outros países que deram causa a uma dispersão geográfica e demográfica dos atuais quatro idiomas europeus e ocidentais mais faladas: o inglês, o espanhol (castelhano), o português e o francês. Se bem que o português, o castelhano e o francês beneficiassem da primeira fase da globalização iniciada pelos portugueses, duas dessas línguas viriam a manter maior influência mundial, primeiro o francês, como língua da diplomacia e das relações internacionais, ultrapassado e substituído pelo inglês em tempos mais recentes e na atualidade. Esta hegemonia linguística também teve como causa a preparação mais adequada e antecipada aos novos tempos, por ingleses e franceses, de elites e quadros coloniais que vieram a ser os interlocutores, em francês e inglês, para a independência das respetivas colónias e a sua exuberância quantitativa como novos países com projeção nos fora internacionais, criando nas suas populações a ideia de prestígio e de uma necessidade vital. O francês é a segunda língua oficial mais representativa a seguir ao inglês, apesar de menos falada que o português, desde logo por ter gerado quatro vezes mais países que Portugal, tendo o nosso império optado pela unidade dos seus territórios, respeitando tão só a sua descontinuidade geográfica. Também em Portugal, por exemplo, o processo foi mais tardio e com menos recursos, sendo o último dos colonizadores europeus a negociar a independência das suas colónias, com exceção do Brasil, onde deixou a sua língua, de modo seguro, à semelhança de Espanha com as independências do continente americano, apesar de ter perdido mais cedo a maioria do seu império colonial.

Todavia, a francofonia embora alerte para a necessidade duma união de esforços contra a ameaça que é o inglês, como língua glotofágica, olha de um modo ambicioso para os espaços de outras línguas românicas e latinas de expansão global, estando atenta aos défices da lusofonia intervindo, em termos estratégicos, em países menos desenvolvidos e que tem como um prolongamento da área de influência francófona, como Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau.

Como uma língua da globalização, cabe ao português ter presente que é a sexta língua mais falada mundialmente, a terceira mais falada do Ocidente, a terceira de origem europeia mais falada no mundo, a terceira de África e das Américas, uma língua da Ásia, a mais falada do Hemisfério Sul, internacional, intercontinental, interoceânica, a crescer demograficamente, na internet, uma língua de futuro, que se impõe por si mesma em termos demográficos e geopolíticos, que tem de ter como estratégia estar associada a uma língua de exportação, da ciência e da tecnologia, da cultura, da modernidade, do desenvolvimento e da prosperidade económica, firme e segura do seu valor e potencial geoestratégico, sem necessidade de adotar a agressividade e a intransigência em que apostam certos promotores do francês, o que não tem impedido o seu declínio. Mesmo sabendo-se que a língua portuguesa sofre de algum défice, tendo como referência a economia que é, por agora, o fator mais decisivo em termos de mais valia de uma língua no plano internacional.    

 

14 de Março de 2016
Joaquim Miguel De Morgado Patrício