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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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Emigrantes de Domingos Rebelo

VI - ASPETOS NEGATIVOS DO USO CONFIDENCIAL DA LÍNGUA   
    

1. Em desfavor do uso confidencial da língua são feitas usualmente duas observações: o sentimento de posse de um bem de que se julga ser o único possuidor; o ocultar dos ouvidos dos outros algo pelo qual não queremos ser identificados.   Na primeira situação, somos confrontados com o uso, gozo e fruição de um bem que temos como nosso e que não queremos dar a conhecer, existindo uma comunidade, um povo, uma sociedade, um país de falantes que se tem como dono de uma língua, que se transmite por herança biológica, de pais para filhos, como algo de que não abdicamos, numa atitude que pode ir da jactância, soberba ou superioridade linguística, à manutenção da nossa privacidade.
Na segunda situação, ao esconder e guardar a confidencialidade de uma língua dos outros, ao não querermos ser identificados usando-a publicamente, estamos em presença de uma língua que comporta como carga negativa uma baixa consideração social pelos seus próprios falantes, não a considerando em igualdade de estatuto com outras, na sua perspetiva mais negativa e penosa.
Estas duas faces, interligadas entre si, são incapazes de lutar pela defesa, promoção e difusão de uma língua de exportação e de comunicação internacional. Por exemplo, impossibilitam o cumprimento do artigo 9.º, alínea f), da Constituição da República Portuguesa ao prever, como tarefa fundamental do Estado:  “(…) defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa”. Traduz um imperativo categórico que tem como linha programática uma utilização da língua portuguesa como língua estrangeira, a exportar, a disseminar-se para além da sua base geolinguística, expandindo-se para lá das fronteiras das comunidades e países lusófonos. Preferencialmente, tendo presente o princípio da cooperação internacional, visando a proteção e valorização do património cultural e linguístico comum, partilhado pelos povos lusófonos que se exprimem no mesmo idioma, o que é destacado por várias normas constitucionais respeitantes aos países de língua portuguesa: artigos 7.º, n.º 4, 15.º, n.º 3 e 78.º, n.º 2, alínea d), 2.ª parte.   
2. Se à retórica da língua como signo de confidencialidade, identidade e posse, adicionarmos uma inferiorização do nosso próprio idioma, no sentido de que se interiorizarmos que falá-lo em público é, face ao outro, um estigma que nos discrimina e apouca, tendo-o em baixa consideração, por confronto com o dos outros, é dar um tiro no próprio pé ou poluir a própria água que bebemos. Consentir objetivamente na discriminação linguística, de forma expressa ou tácita, por ação ou omissão, por  obsessão, endeusamento exagerado ou possessivo, por indiferença, ausência de autoestima, no curto ou a longo prazo, é pactuar com a glossofobia ou logofobia que lhe está subjacente. Permitir, sem sentido, que a língua portuguesa seja preterida por outra ou por um clube ou núcleo restrito de línguas estrangeiras, em termos institucionais, de estatuto ou de praxe, é aceitar a glossofobia e a endo-glossofobia. Se ao aprender e ser reconhecido publicamente como falante de uma língua, acrescer uma imputação negativa, é um passo perigoso para acreditarmos que também não possa interessar a outros, para não crer que a nossa própria língua não seja útil para outros fins que não os de servir exclusivamente a nossa comunidade e a nós próprios podendo, em extremo, acreditar-se que não serve àquela nem a nós.
Estudos relacionados sobre o uso e transmissão do português pelos nossos emigrantes, em países como a França e o Canadá, nos anos de 1988 a 2005, incluindo os seus descendentes e as camadas mais jovens apontavam, no essencial, para uma rejeição da língua e cultura portuguesa preferindo, a esmagadora maioria, a língua e a cultura dominante, dado que o idioma dos ascendentes estava associado a um passado de pobreza, a que não se quer regressar, a uma memória de um país que forçou os progenitores a emigrar, tantas vezes clandestinamente, na maioria analfabetos e integrando recursos humanos não qualificados. Reconhecendo-se ainda que, ao desconhecimento dos franceses e canadianos sobre a nossa língua e cultura, se juntavam preconceitos estereotipados de emigrantes competentes, bons na construção civil e como empregadas domésticas, mas geralmente sem formação e instrução, sendo pouco apelativos para despertarem interesse, nos locais, pela sua língua e cultura. O baixo nível sociocultural dos nossos emigrantes ajudou a criar uma auto-representação negativa, o que se vem alterando, com emigrações recentes mais qualificadas.
Há que inverter esta perceção, contestando a subestima, a inação e a retórica da língua como mera marca de confidencialidade, de afetos e identidade, por uma língua que se aprende e fala por ser útil, com potencial comunicativo, defendendo que os recursos gastos para a sua difusão interna e externa são sempre necessários, enquadrados numa estratégia assente na aposta de que a língua é um assunto cultural, económico e estrategicamente relevante, um produto cultural e económico de exportação com implicações científicas, tecnológicas e de imagem externa do país.    

11 de abril de 2016 
Joaquim Miguel De Morgado Patrício