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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXX - OBSERVAÇÕES E CRÍTICAS AO PESSIMISMO DE FISHER

 

1. Quanto à hipótese de desaparecimento do português, avançada por Steven Fischer, vale o que vale, como tantas outras, registando a História muitas previsões. Por exemplo, há cem anos o francês era a língua diplomática por excelência, com a correspondente projeção internacional, o que hoje não sucede, com a consagração do inglês como língua diplomática universal e global.

Em face do processo de globalização, assiste-se simultaneamente ao crescimento de expressões regionais e nacionalismos, incluindo o fomento de vários idiomas, apoiados na internet, que curiosamente muitos defendem ser o maior veículo de homogeneização cultural.  

 

2. Tendo o Brasil 40% da população latino-americana, sendo um país continental onde cabem vários dos países latino-americanos que o rodeiam, uma potência emergente, o maior poder económico latino-americano, exportando mais mercadorias culturais do que aquelas que importa, vivendo rodeado há centenas de anos de países falantes de espanhol, não faz sentido dizer que o português aí desaparecerá no futuro, sendo substituído por outro idioma, o portunhol. Se assim fosse, e as coisas fossem tão  simplistas, também o português já poderia há muito ter desaparecido de Portugal e ter sido substituído pelo espanhol, se nos lembrarmos que há centenas de anos a Espanha é o único país com quem partilhamos fronteira terrestre, de maior dimensão e mais populoso. E que entre 1580 e 1640 o nosso idioma correu o risco de se tornar uma língua ibérica menor, subjugado pelo castelhano para fins oficiais e diplomáticos, sendo hoje dos mais globais e falados mundialmente.
Também não vemos fundamento para que exista uma tendência de separação mais acentuada entre o português do Brasil e o de Portugal, e que o caso do inglês dos Estados Unidos e Reino Unido seja diferente, porque o inglês britânico e norte-americano se estão aproximando pelos programas de televisão, filmes e músicas que a América exporta aos milhares; dado que igualmente em Portugal a influência cultural e audiovisual do Brasil é cada vez maior, nomeadamente através da música, telenovelas,  outros filmes, séries televisivas e da cada vez mais numerosa colónia de emigrantes brasileiros, em que a língua é sempre fator determinante. A que acresce, com tendência crescente, a legendagem em português do Brasil, entre nós, de eventos culturais no cinema, ópera, concertos. Sem esquecer a tradução, para o nosso idioma, via Brasil, de todo o tipo de obras e literatura.
Convém referir que Steven Fischer fala do Brasil como uma espécie de monopólio da língua portuguesa, falando ao de leve de Portugal e ignorando os países africanos lusófonos omitindo, quanto a estes, as suas grandes potencialidades, demográficas e outras, em especial de Moçambique e Angola, designadamente desta, além dos milhões de lusófilos disseminados pelo mundo, razão pela qual o futuro do português não está apenas dependente da América Latina, apesar de agora aí ter o seu centro.
Tudo a demonstrar que muitos fatores terão de ser ponderados e outros surgirão nos próximos trezentos anos, pelo que a previsão do fim do português no Brasil tem tanto valor como o do fim de qualquer outro dos idiomas mais falados no mundo. 

 

3. Quanto a previsões, há que ter presente que nos EU a comunidade latina é muito representativa, nomeadamente a hispânica, pressionando para que o espanhol seja considerado o segundo idioma oficial, pelo que, mesmo aí, outros idiomas podem ultrapassar o inglês, como o espanholês, à semelhança do que Fischer diz do portunhol em relação ao Brasil.   
Que assim pode ser, refira-se a opinião do linguista inglês Nicholas Ostler, autor de “Empires of the Word” (Impérios da Palavra), segundo a qual a língua inglesa não está segura, pelo menos a longo prazo, considerando que de futuro outras línguas irão apanhar e ultrapassar o inglês, uma vez que a população que o tem como língua materna não cresce ao mesmo ritmo da de outras, como o espanhol, o árabe e o português.    Prevê, ainda, que o que deu prestígio à língua inglesa nos séculos XIX e XX, caso da ciência, entretenimento, tecnologia e grandes empresas, não vai durar para sempre, o que é agravado pelo avanço das tecnologias, prevendo-se o aparecimento dentro de uma ou duas gerações de aparelhos de interpretação e tradução automática.
Com os avanços tecnológicos é possível que no século XXI surjam máquinas de tradução e interpretação automática, tornando desnecessário, em termos de comunicação, o conhecimento mútuo de uma língua franca, estando as Nações Unidas a desenvolver o projeto “Universal Networking Language” (UNL), uma linguagem universal de tradução automática para uso na internet e em computadores, usando cada pessoa o seu idioma, o que não é tido em atenção por Fischer. 

 

28.11.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício